O MEDO QUE A ELITE TEM DO POVO É MOSTRADO AQUI

A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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domingo, 11 de abril de 2010

Vamos falar de futebol... O maior perna de pau do mundo


O maior perna de pau do mundo


Por Urariano MotaRecife (PE) - O jogador de futebol Mauro Shampoo, no documentário que leva o seu nome, desperta risos em muitos momentos. Jogador do Íbis Sport Club, dono do título de "pior time do mundo", Mauro Shampoo se revela no filme um atleta digno do clube. A certa altura, ele conta que em toda vida profissional, de feroz e perigoso atacante, marcou somente um gol. Ponto.


Depois do filme, essa fala me despertou alguns pensamentos. Qual seria mesmo o pior jogador de futebol do mundo? Se o melhor foi Pelé, quem poderia ser o pior? Então me ocorreu estabelecer alguns critérios.


No primeiro, os jogadores titulares e reservas dos piores times do mundo, por mais desgraçados que fossem, não teriam direito ao honroso pódio. A razão é que tais agraciados, ainda que muito ruins, são profissionais - bem ou mal vivem de futebol, e se recebem pagamento por seus talentos, algum valor de excelência têm. Entre os piores, eles não seriam os primeiros.


No segundo critério, deveria excluir desse especial ranking os jogadores de times amadores, de subúrbio, de cidades longínquas, de povoados. A razão aqui, mais uma vez, não é arbitrária. Tais jogadores, por suas habilidades, foram e são os melhores para a seleção local. Quero dizer, esses homens algum valor devem ter, porque recebem uma escolha da sua comunidade. Os times amadores, é histórico, aqui e ali fornecem estrelas para os times profissionais, até mesmo para os times de primeira divisão.


No terceiro critério, e o leitor já percebe o quanto o poço é fundo, deveria deixar fora os jogadores que se escalam para o futebol de fim de semana, os que se escolhem para jogar por lazer e diversão. Os jogadores de pelada. Esses também se excluem do ranking. Conforme já vi em Memória de futebol, mesmo entre esses jogadores há uma elite, um critério, como dizê-lo?, há uma hierarquia. Para eles, ali jogam apenas os melhores jogadores que podem existir em um raio de 1 metro de distância. Dos piores não são os mais piores, digamos.


Chega-se então aos que sobram, aos que não conseguem ter vez nas seleções dos piores times profissionais, amadores ou das peladas de fim de semana. Mas por favor acompanhem. Poderíamos, mesmo aqui, cometer alguma injustiça. Não falo em defesa dos pernas-de-pau. O problema é que entre esses jogadores excluídos há muitos injustiçados. Existem aqueles que passam por maus momentos em suas carreiras. Se os melhores têm bolhas nos pés, unha encravada, obesidade e problemas no amor com modelos, por que os piores seriam excluídos dessa felicidade? Os piores também podem atravessar uma má fase, como se diz das estrelas. Maradona, Zidane, Pelé, Ronaldo, todos sofrem. Então, por justiça, os Joões e Josés têm esse direito.


Por outro lado, os jogadores rejeitados nas peladas de fim de semana, todos, jogam por prazer, por hobby, como diziam os esnobes em 1970. Esses jogadores não se empenham, não põem a alma nos pés, não dão o sangue. Daí que, com o espírito em baixa importância, em "baixa-estima", como dizem, joguem tão mal. Diríamos, até, pior que os outros.


Então chegamos aos piores de fato. Chegamos aos que jogam com alma, que não pensam em outra coisa, só em bola, gol e futebol, todo o tempo. Chegamos aos que, apesar de todas essas condições subjetivas, produzem e jogam objetivamente mal o objeto da paixão. Mal e de mau a pior. Chegamos aos que são péssimos por natureza, por força e característica da natureza. Aos que jogam mal com toda naturalidade, e nem parecem.


E nem parecem jogar, de tão naturais. Eles formam uma segunda natureza artística. Pois não dizem que a melhor arte oculta a sua arte? Pois então: eles, os absolutos, perdem gols imperdíveis, não sabem cabecear, chutar, defender, pular, em resumo, são total avessos e estranhos ao objeto bola. Se chutassem pedras, cubos ou poliedros excêntricos, seriam melhores jogadores. E no entanto, bravo, cometem prodígios absurdos com a esfera. Se com eles o futebol não triunfa, com muita propriedade triunfa uma força maior, uma irreprimível inabilidade.


Então chego ao pódio. Eu conheci uns dois indivíduos assim. Se Mauro Shampoo dizia que em toda a vida profissional somente marcou um gol, eu devo dizer que esses dois raros jamais fizeram um só, em todas suas vidas, ainda que se matassem para o gozo de enfiar a bola naquele espaço tão largo. De um deles, de quem sou por desgraça íntimo, devo dizer que chegou a cometer um, contra. Mas não existe bom sem defeito.


Urariano Mota é jornalista e escritor. Autor do livro "Soledad no Recife", recriação dos últimos dias de Soledad Barret, mulher do Cabo Anselmo, executada pela equipe de Fleury com o auxílio de Anselmo. Urariano é pernambucano, nascido em Água Fria e residente em Recife. É colunista do site "Direto da redação" e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

A igreja ainda tem futuro?

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A igreja ainda tem futuro?


Por Rui MartinsBerna (Suiça) - Quando tomei o trem para me encontrar com o teólogo Hans Kung (em alemão com trema no u), na cidade de Tubingen, via Zurique e Horb, tinha digerido um volumoso livro com mais de 700 páginas. Em alguns dias, minhas anotações e orelhas lhe deram uma feição de livro batido e envelhecido.


O título – Memórias, uma Verdade Contestada, uma foto de Hans Kung, ele sim um intelectual idoso de 82 anos, mas lúcido, vivo e de hábitos bem suíços, nascido que foi em Lucerna. Mal cheguei em sua casa, que é também sede do seu Instituto de ética planetária, já nos sentamos para a entrevista que gravei no meu digital mini-disk profissional, para evitar qualquer dúvida depois da publicação.


A quase íntegra ocupa uma página no Expresso, deste sábado, jornalão semanário de Lisboa. O título – O grande problema é o celibato dos padres, com um sobretítulo – teólogo reformador diz que é urgente agir. Kung queria que falássemos só do conteúdo do livro, respondi que para isso não precisaria ter viajado mais de quatro horas. Aceitou, me deu um máximo de 45 minutos, que acabaram sendo mais de uma hora e disparei – a Igreja ainda tem um futuro ?


Hans Kung é um teólogo contestador que se poderia também dizer provocador. Não foi proibido de falar, como aconteceu com o nosso Leonardo Boff, mas há vinte anos, a Cúria romana lhe tirou o direito de ensinar a teologia católica na Universidade de Tubingen. Naquela época não se falava em pedofilia, mas num dogma duro de se engolir, mesmo para um teólogo católico apostólico romano – o da infalibilidade papal. Kung escreveu um livro contestando, lembrando que, no primeiro milenário cristão, isso não existia, mas que o absolutismo da Igreja veio bem depois.


Ao lhe aplicar a punição, a Igreja pensava ter aplicado uma pena inquisitorial capaz de silenciar o irreverente e reduzi-lo a um padre anônimo. Nada disso aconteceu. Kung recebeu o apoio dos estudantes, do governo alemão revoltado com a intromissão do Vaticano numa de suas universidades e até de teólogos protestantes, não só alemães mas de todo mundo. Deixou de ensinar teologia, mas a universidade criou a cadeira de ecumenismo e, enquanto o novo professor de teologia católica ficava com a classe às moscas, as aulas de Kung eram disputadas, ainda mais por já não terem um cunho confessional.


Durante a entrevista, Kung lembrou-se dos brasileiros que encontrou durante o Segundo Concílio do Vaticano, convocado pelo Papa João XXIII, para uma grande reforma na Igreja; Paulo Evaristo Arns, Aloísio Lorscheider, Helder Câmara e Sérgio Mendes Arceu.


Em pouco tempo, logo depois da morte de João XXIII e a eleição de Paulo VI, a Cúria Romana reassumiu o controle da situação e todas as reformas foram esquecidas, cometendo-se ainda outros absurdos como a encíclica contra os anticoncepcionais, justamente quando as mulheres descobriam a pílula. A chegada do polonês João Paulo II foi ainda mais contundente, acentuando o reacionarismo, fundamentalismo e o mediavelismo de uma Igreja, hoje rejeitada pelo jovens e cedendo rapidamente terreno aos evangélicos na América Latina.


O livro de Hans Kung conta com pormenores a época em que Joseph Ratzinger, convidado por Kung, veio também lecionar em Tubingen. Ambos despontavam como jovens teólogos da Igreja, porém, pouco a pouco foram se distanciando ideologicamente a ponto de estarem, hoje em posições opostas.


O Papa Bento XVI nada tem a ver com o jovem Ratzinger que também participou com Kung dos encontro do Vaticano II. A Igreja Católica de hoje vive num impasse e para sobreviver precisa rever alguns de seus dogmas e posições, como o celibato clerical, o absolutismo Papal e sua pretensa infalibilidade, o dogma da assunção de Maria, a questão dos anticoncepcionais, sua posição diante do ecumenismo e o próprio papel da mulher dentro da Igreja.


Kung argumentou num artigo no jornal Le Monde que o celibato clerical criou problemas no clero católico e é uma das principais causas da pedofilia dentro da Igreja e das instituições dirigidas pela Igreja. Enfim, a Igreja – segundo ele – tem ainda seu futuro mas os bispos e os fiéis precisam agir, durante este Papado, ou na eleição do próximo Papa, a fim de se retornar aos princípios do Vaticano II.


Resumindo, a hora é grave para a Igreja, que insiste em não querer ver o mundo no qual vivem seus fiéis. Muitos bispos não estão dispostos a continuar aceitando os escândalos, mesmo se o Vaticano substituiu todos os cardeais e bispos reformadores por reacionários não só no Brasil mas em todo mundo.


Rui Martins é jornalista. Foi correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. É autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. É colunista do site "Direto da Redação" e vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, e com o blog "Quem tem medo do Lula?"

Filmes - "Capitalismo: Uma história de amor"


A vitória do bom senso


Michael Moore mostra a realidade das pessoas comuns que foram expulsas de suas casas como bandidos e passaram a sentir na pele a crueldade do sistema capitalista também nos EUA.


Michael Moore é um sujeito admirável. Não tem medo de colocar a cara para bater e de denunciar as mazelas que assolam seu país, virando alvo do ódio de fundamentalistas da extrema direita estadunidense e de seus capachos mundo afora.


Seu novo documentário, “Capitalismo: Uma História de Amor”, é uma porrada em quem ainda defende esse sistema econômico injusto e desumano que tem levado a humanidade cada vez mais perto do abismo. Sempre de maneira bem humorada, Moore mostra como o capitalismo criou uma bolha de ilusão nos Estados Unidos a partir do fim da II Guerra Mundial, gerando uma classe média próspera e feliz sobre os escombros de outras grandes potências como Japão, Alemanha e Inglaterra cujo parque industrial encontrava-se totalmente destruído. E foi exatamente esse modelo de “capitalismo dos sonhos” que os EUA exportaram durante décadas para o resto do mundo como se fosse o ideal de sociedade passível de ser atingida por todos.


Mas o que o bom senso já dizia ser mentira, a história confirmou. A nova crise do sistema, iniciada pelo estouro da bolha imobiliária nos EUA que gerou a quebra de vários bancos e financiadoras, jogou a classe média daquele país numa situação de penúria, digna dos chamados países do “terceiro mundo”. Famílias inteiras, convencidas por peças de marketing mentirosas a investir suas casas no cassino da bolsa de valores, perderam tudo e viram suas vidas serem destruídas em questão de dias.


Michael Moore mostra no filme um pouco da realidade dessas pessoas comuns, que foram expulsas de suas casas como bandidos e passaram a sentir na pele a crueldade do sistema capitalista, enquanto os bancos e empresas que quebraram receberam ajudas bilionárias do governo, as quais foram usadas na maioria dos casos para pagar polpudos bônus a seus executivos.


Enfim, tudo aquilo que os que lutam contra esse sistema brutal vem denunciando há tempos, agora exposto da maneira didática e corrosiva de Michal Moore. É o tipo de filme que todo mundo deve assistir, inclusive aqueles que precisam rever seus conceitos com urgência.


Cotação: * * * *


André Lux que, em seu blog "Tudo em cima",  se autodenomina como o "famigerado crítico-spam", é jornalista, presta assessoria na área de Comunicação Social e colabora com o blog "Quem tem medo do Lula?".

Um namoro etnodigital



Um namoro etnodigital


Deitado na rede de fibra de tucum, cada um dos dois se embalava, sozinho, nas noites quentes de Rondônia. Já sonhavam um com outro? Quem sabe? O certo é que nunca tinham se visto. Estavam separados por rios e florestas, numa distância de 350 km. Ele morava em Cacoal, ela em Alta Floresta do Oeste. Até que recentemente, com o apoio da filha, ela o adicionou como amigo no Orkut e eles, então, se conheceram virtualmente. Foi aí que deitaram e rolaram, dessa vez juntos, no fundo de outra rede: a net.


Durante um ano, trocaram mensagens que atravessaram o ciberespaço, permitindo que afinassem o violino. “No começo era só amizade, depois ele quis mais”- ela contou ao jornalista Marcos Lock. Segredos e confidências eram cochichados pelas pontas dos dedos. O relacionamento evoluiu para conversas frequentes através do MSN Messenger. Os papos foram revelando afinidades e construindo cumplicidades. Pa-papinho vai, pa-papinho vem, quando caíram em si, já estavam namorando. Por enquanto, virtualmente.


Aí deu vontade de um contato pessoal face to face. Marcaram um encontro. Em abril do ano passado, Tori, que é índia Tupari, saiu de sua aldeia, na Terra Indígena Rio Branco, e foi visitar em Cacoal o índio Gasodá, que pertence ao povo Paiter Suruí. Não deu outra. Os dois se casaram no início do ano, num evento que foi registrado pela Folha de Rondônia: “Namoro pela web leva casal indígena rondoniense ao altar” (25/03/2010).


A Maloca Digital


O namoro e casamento de Gasodá e Tori é apenas uma das tantas consequências da crescente atuação dos índios no ciberespaço, que marca a apropriação por eles das tecnologias digitais. Nos últimos anos, os índios criaram sites, blogs, portais, comunidades virtuais, facebooks, fotologs, onde trocam experiências e informações e publicam textos, fotos, desenhos, notícias, músicas, vídeos.


No Brasil, índios de diferentes línguas e etnias foram estimulados a usar a internet por organizações governamentais e não governamentais. Embora a situação ainda seja bastante precária, inúmeras das 2.698 escolas indígenas existentes nas aldeias, frequentadas por mais de duzentos mil alunos, foram dotadas de computadores. Ali onde isso não foi possível, os computadores dos postos de saúde da FUNASA foram disponibilizados dentro dos ‘Pontos de Cultura’ no Programa GESAC – Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão.


Essa situação permitiu que logo surgissem, em 2001, os primeiros sites indígenas, segundo Eliete Pereira, do Centro de Pesquisa Atopos, da ECA/USP, que andou mapeando a presença indígena na net, ainda bastante irregular. Ela encontrou três tipos de sites: os sites de organizações indígenas, os sites de etnias e os sites pessoais.


Os primeiros são mantidos na rede por organizações com abrangência local, regional ou nacional e estão associados à luta por direitos pela terra, pela educação bilíngue, pela saúde, constituindo-se em ferramentas de reivindicação política. É o caso, por exemplo, do portal da COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, ou o da FOIRN – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.


Já os sites de etnias são criados para dar maior visibilidade étnica frente à sociedade nacional e internacional e para mostrar a arte de cada grupo, a produção do artesanato, os padrões gráficos, as narrativas, a língua. É o caso dos Baniwa, do Rio Negro (AM), ou dos Ashaninka, do Acre e de tantos outros, que participaram, em 2005, do I Seminário Rede Povos da Floresta, realizado no Rio de Janeiro, para discutir o acesso deles à tecnologia da informação e a conexão à internet.


O terceiro tipo são os sites pessoais e individuais, que utilizam a internet de forma inovadora, como o do escritor Daniel Munduruku, que apresenta os seus livros e dialoga com leitores, ou o da escritora Eliane Potiguara. Os índios que participam dos cursos de formação de professores indígenas ou de cursos universitários aprendem a lidar com o computador, trocam informações via e-mails, orkut, msn, skype. Eles estão agora lutando para demarcar um novo tipo de território no ciberespaço.


O Ciber Território

Nesses territórios, os usuários indígenas da internet divulgam noticias sobre seus problemas, articulam redes de apoio e acabam sendo mediadores de conflitos indígenas junto aos canais e veículos tradicionais de informação e às próprias instituições governamentais. Essa nova prática tem permitido alguns grupos a fiscalizar com maior empenho a gestão pública dos recursos destinados às populações indígenas e a denunciar as violações aos direitos constitucionais dos índios.


Foi no ciber território que Gasodá e Tori se conheceram. Eles vivenciaram experiências diferentes com a internet. Para Gasodá, que tem mais de 650 amigos no Orkut, a rede ajuda a fazer amizades e a “quebrar o gelo” entre pessoas desconhecidas: “Eu conheço muita gente através da internet, porque conversamos sobre assuntos indígenas pelo MSN. E quando a gente se encontra pela primeira vez, parece que já se conhece há muito tempo e aí é só chegar e cumprimentar: ah, você é que é o fulano, dá um abraço. É como se fosse uma amizade antiga”.


Já Tori vive numa aldeia onde os jovens e adultos “não conhecem muito a internet”, mas quando se fala em computadores, eles ficam muito animados, têm vontade de saber mais. “Quando vão à cidade, eles vão e ficam olhando, não chegam a tocar, eles têm receio de tocar e quebrar”.


Yakuy Tupinambá, integrante do Projeto Índios Online, diz que a internet está promovendo a abertura de horizontes, o que contraria o pensamento daqueles interessados em manter os índios amordaçados. “A internet trouxe-nos novos significados, sem que isso implique no abandono das nossas tradições. Conectar-se ao mundo através da internet é ter direito a ter um rosto, e fazer ouvir nossa voz, abrindo uma janela para o mundo” – completa Yakuy.


Os índios confirmaram essa posição em junho de 2005, durante a Conferência Regional da America Latina e Caribe sobre Sociedade da Informação. Nesse evento, eles aprovaram a Declaração Indígena do Rio de Janeiro, onde afirmam que estão preparados para o inevitável encontro entre os conhecimentos tradicionais e a modernidade, “caminho a ser percorrido para nossa sobrevivência física e cultural, que nos assegura direitos de acesso aos novos conhecimentos e à informação”.


A Caixa da língua


A presença indígena na internet contribuiu para o surgimento de algumas questões relacionadas ao uso da língua e à afirmação da identidade. Se Gasodá, por exemplo, enviasse suas mensagens em língua Paiter Surui, um idioma da família linguística Mondé, provavelmente não haveria namoro e casamento, porque a língua de Tori – o Tupari - pertence à outra família linguística e eles não se entenderiam.


Por isso, quando índios de línguas diferentes se comunicam, usam o português, aliás, uma deliciosa variedade do português escrito, que pode ser apreciada, por exemplo, na comunidade colaborativa de aprendizagem Arco Digital, onde mais de 100 índios de diferentes etnias interagem, com programação diária de vários chats temáticos. Eles brincam com a língua, sem medo de errar e sem censura, detonando regras normativas de ortografia, de pontuação e de sintaxe, como estão fazendo na internet os jovens nativos de qualquer língua.


Essa é uma das características da comunicação mediada pelo computador, que deu origem a uma língua denominada de netspeak pelo linguista irlandês David Crystal. Ele observa que os e-mails, por exemplo, têm sido chamados de ‘fala escrita’, de ‘cruzamento entre conversa e carta’ porque misturam a escrita com a fala. “No geral, o netspeak é mais compreendido como uma linguagem escrita que foi empurrada em direção à fala do que uma linguagem falada que foi escrita”.


Talvez por isso, os índios, que pertencem a sociedades ágrafas, com forte tradição oral, se sintam atraídos por esse novo campo do discurso, no qual se desenvolvem com muita agilidade, porque nele reencontram a aldeia cibernética, marcada por traços da oralidade e pela comunicação através de imagens.


Essa aldeia cria também um novo espaço social para o uso das línguas indígenas. No curso que ministro para professores guarani no Paraná, eles aproveitam as horas vagas para ocupar o laboratório de informática, e lá se comunicam por e-mail com outros índios da mesma etnia em língua guarani. Os guarani do Rio de Janeiro, por isso, denominaram o computador de ayvu ryru, que significa, ‘caixa de guardar a língua’.


Aqueles que aceitam as contínuas mudanças na sua própria cultura, mas acham que as culturas indígenas devem permanecer congeladas para serem “autênticas”, acreditam ingenuamente que o uso da internet pelos índios compromete a identidade étnica.


Os índios, no entanto, aprenderam a conviver com esse processo contínuo de tensão entre o tradicional e o novo. Eles estão permanentemente recriando a tradição, introduzindo novos sentidos e novos símbolos. E é claro, não deixam de ser índios, ou então os brasileiros, que usam a internet, ferramenta que não é tecnologia nacional, deixariam também de ser brasileiros.


P.S.1 – Quem quiser saber mais sobre o tema, vale a pena ler Eliete da Silva Pereira: “Nos meandros da presença étnica indígena na rede indígena” In: DI FELICE, M. (org) Do público para as redes – a comunicação digital e a novas formas de participação social. São Caetano do Sul: Editora Difusão, 2008, pp. 287-333.


P.S. 2 - Agradeço a interlocução com a mestranda Renata Daflon, do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO, que desenvolve pesquisa sobre “Memória Criativa na Blogsfera: contribuições para pensar o ‘patrimônio em rede’”, orientada pela doutora Vera Dodebei.


José Ribamar Bessa Freire é antropólogo, natural de Manaus e assina no "Diário do Amazonas" coluna semanal tida como uma das mais lidas da região norte. Reside no Rio de Janeiro há mais de 20 anos e é professor da UERJ, onde coordena o programa "Pró-Índio".  Mantém o blog "Taqui pra ti" e é colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Argentina: Sombras sobre o Caso Silvia Suppo


Argentina: Sombras sobre o Caso Silvia Suppo


Acima, algumas das 12 fotos da passeata de repúdio ao assassinato de Silvia Suppo na cidade de Rafaela (Santa Fe, Argentina), no dia 2 de abril, que foram publicadas neste site.


Por Carlos LungarzoQuando, no dia 29 de março, a testemunha Silvia Suppo foi assassinada em sua loja de Rafaela (Argentina), as organizações locais de DH reagiram com calma: ficaram em estado de alerta e exigiram justiça, mas não se deixaram dominar pelo pânico. Pairava a forte crença de que o crime tinha sido executado pelo terrorismo de estado.  As ONGs mantiveram uma abertura para outras hipóteses, como latrocínio, apesar de saber que essas alternativas eram quase impossíveis. Esta atitude contrasta com a “entusiasta” reação da polícia. Logo de conhecer o crime, os policiais declararam que aquilo era um assalto e, em pouco mais de um dia, tinham o caso “resolvido”. Já o MP, a magistratura e os políticos se mantiveram mais discretos, porém apoiando a tese do crime comum.


A equipe para América do Sul de Anistia Internacional está no local realizando discretas investigações, mas suas conjeturas e resultados são, por enquanto, confidenciais. Este texto contém apenas informações de domínio público e opiniões minhas.



Contexto: O Papel da Mídia


Quero tecer alguns comentários sobre a mídia argentina, para entender o clima de informações confusas sobre o caso. Os que se assustam da Revista Veja ou da Folha de S. Paulo ainda não viram nada.


Os jornais mais antigos e tradicionais da Argentina pertencem a famílias aristocráticas que os fundaram no século 19 para defender seus interesses e ideologia. O mais típico, La Prensa, apesar de sua raiz oligárquica bem definida, em alguns momentos da história tem mantido certo principismo na defesa da liberdade de imprensa. Sendo Argentina um dos países onde o poder da Igreja é mais hegemônico, os jornais laicos, mesmo de direita, devem confrontar-se com a censura e com pressões constantes.


O outro jornal clássico da oligarquia, La Nação, e os diários mais modernos surgidos do  capitalismo do século 20, se adaptam ao poder clerical-militar com total subserviência. A exceção é Página/12, de esquerda moderada, que começou a publicar-se em 1987 estimulado pelo “surto” de democracia. Os outros veículos se limitam a reproduzir boletins da polícia, e parecem não ter tomado conhecimento de algo chamado “o direito ao contraditório”.


A cultura jornalística argentina se caracteriza desde suas origens pelo estilo panfletário e derrogatório, que nos veículos de pior qualidade (quase todos os do interior) se manifesta em sarcasmos, ironias e xingamentos contra as opiniões opostas, alternadas com mensagens de ódio e ameaças. Isto também é aplicável às grandes emissoras de rádio e às redes de TV. É importante ter em conta que a mídia argentina é bastante singular na América do Sul e talvez na totalidade do continente: mantém uma estreita dependência com grupos militares, policiais e clericais que em alguns casos fazem parte de seus diretórios. Isto ajuda a explicar seu rígido alinhamento com o genocídio dos anos 70/80, que foi muito além de uma cumplicidade oportunista, como no Brasil.


Por tanto, além de Página/12, as fontes confiáveis são as dos órgãos de ONGs de DH e de alguns grupos de esquerda.



A Evolução dos Fatos


Desde a morte de Silvia, os fatos evoluíram em alta velocidade. A vítima também promovia a investigação pela desaparição do namorado de sua juventude, Reinaldo, que fora seqüestrado em 1977, um pouco antes de ela fosse presa e torturada. Vários dos indiciados por todos estes crimes moram na mesma cidade.


Os Fatos do Dia 30


A principal advogada das vítimas declarou no começo do dia 30 que era inaceitável a hipótese de assalto. Lembrou que o fato aconteceu poucos dias depois do dia 24 de março, aniversário do golpe dos criminosos militares. Nos últimos anos, quando a investigação dos crimes dos militares foi reaberta, os membros do terrorismo de estado “cantam parabéns” com ataques e sabotagens, porém não tão cruentos. Além disso, Silvia Suppo tinha recebido infinidade de ameaças, e era provocada de maneira contínua por pessoas à paisana que passavam perto de sua loja. Tudo isto foi informado às autoridades pelas ONGs de DH, que pediram proteção e cuidados especiais, sem resultado nenhum.


Ainda no dia 30, o diretor do Programa de Proteção a Testemunhas do MJ manifestou que Silvia não tinha aceitado entrar nesse sistema. De fato, a proteção do programa é mais perigosa que a falta dele, pois os agentes do mesmo são os próprios policiais.


Comparando com outros países, deve ter-se em conta que existe na Argentina uma continuidade muito estreita entre as atuais gerações policiais/militares e àquelas que atuaram no genocídio dos anos 70/80. Por um lado, depois do fim do terrorismo do estado, estes grupos se voltaram a atividades como chantagem e intimidação e se misturaram ao tráfico de armas e drogas que foi muito próspero durante o governo neofascista de Carlos Menem.


Por outro lado, as corporações mantiveram um rigoroso culto à sua tradição genocida. Ao orgulho de suas atrocidades (algo que na história argentina começa com os massacres dos caudilhos numa época tão remota como 1829), adiciona-se o ressentimento por ser questionados e julgados. Como se tudo isto fosse pouco, a polícia, que sempre foi integrada por lumpen sádicos e corruptos, atingiu seu ponto de maior brutalidade massiva com as faxinas sociais (tanto em favelas como nas ruas) estimuladas desde o governo de Menem.


No final do dia 30, a polícia, confirmando suas profecias, teria detido a dois jovens acusados dos crimes, num bairro marginal da capital da província. Esta informação, porém, se contradiz com outra que diz que o arresto foi realizado na parte da tarde do dia 31.


As informações não coincidem nem mesmo na idade dos detidos. Enquanto alguns dizem que tinham 19 e 22 anos, outros dizem que tinham 18 e 19. Veja mais detalhes aqui.


Os Fatos do Dia 31


Uma das versões policiais diz que os dois rapazes eram primos, mas a menção a este fato não foi repetida depois. Mais consistente é a afirmação de que o mais jovem era conhecido na cidade e, apesar de morar fora dela, trabalhava como lavador de carros perto da loja de Silvia Suppo.


Durante o dia 31, a polícia também afirmou que o mais jovem tinha numerosos antecedentes por roubo, e que na casa onde morava havia alguns dos objetos roubados na loja. Informação mais detalhada cobrindo todos os aspectos do crime, bem como opiniões de diversas pessoas pode encontrar-se aqui.


A Passeata de 2 de Abril


Página/12 foi também o único que deu espaço amplo à notícia da passeata do dia 2 de abril, quando familiares e amigos de Silvia e ONGs de DH manifestaram sua indignação pelo crime, e rejeitaram a comédia montada pela polícia e a magistratura. O jornal calcula mais de 1200 pessoas, que percorreram 800 metros sob a chuva.


Foram lidas adesões de grupos políticos e sindicais, mas sua presença física foi escassa. Além disso, as autoridades do governo se omitiram explicitamente, deixando circular um boato sobre o caráter “politizado” da manifestação. Embora Rafaela seja uma cidade fortemente conservadora, dominada por ruralistas trogloditas, o assassinato de uma testemunha contra a ditadura deveria ter promovido a assistência de pessoas de todos os locais próximos do país. A cidade está a uns 600 Km de Buenos Aires. Mais detalhes aqui.


As Confissões do 3 de Abril


Segundo o juiz, os jovens suspeitos confessaram fluidamente seus alegados crimes e forneceram todos os detalhes. Armados com facas teriam exigido a entrega do dinheiro da caixa, mas a lojista teria resistido, o que seria a causa do crime. Entretanto, em outro parágrafo do depoimento, atribui-se a execução ao temor de serem identificados. Também, negaram que a morte de Silvia tivesse sido encomendada. Este esclarecimento “espontâneo” foi útil demais para a polícia.


O mais esquisito é a ênfase das autoridades no caráter marginal e sofrido daqueles meninos, filhos de pais alcoólicos. Uma versão policial ressalta um fato inusitado: o mais novo seria tão miserável que não sabia nem mesmo o dia de seu aniversário.


Esta observação compassiva sobre a desgraça social dos alegados executores parece contraditória com a tradição de crueldade e sadismo da polícia argentina, que ao longo de décadas destacou-se sempre como especialmente feroz com as pessoas menos protegidas. (Ex presos políticos têm relatado que, nas prisões, o maior sadismo era exercido contra velhos, doentes, mulheres e crianças.)


Como expressão retórica, o juiz e o promotor se referiram várias vezes a que era necessário “continuar investigando”, porque eles não queriam que ninguém ficasse com dúvidas. Esta ênfase de policiais e magistrados em tirar as dúvidas da família parece uma advertência para que seja aceita a hipótese de latrocínio e acabem as críticas.



A Situação Atual


Os familiares se manifestavam dispostos a exigir uma pesquisa profunda sobre a possibilidade de motivação política, mas até o dia 7 não tiveram nenhum acesso às autoridades nem à leitura do processo. Todas as informações foram recebidas através da mídia. Os filhos da vítima, Marina e Andrés, foram aceitos finalmente como parte querelante no caso, mas não se apresentaram a declarar na oitiva marcada. Em seguida, as fábricas de lixo informativo começaram a ironizar sobre o fato de que a família de Silvia não tinha argumentos para aduzir crime contra a humanidade, e deveria aceitar a hipótese do assalto.



Detalhes Suspeitos


Atualmente, parece a polícia chegou a uma versão única para vender a todos, mas no começo circularam dados incompatíveis. Relataram que a vítima tinha recebido 3 facadas. Depois se falou de 12, de 9, e de um número indefinido entre 7 e 9. No dia do crime, disse-se que várias pessoas tinham visto que um homem entrou na loja e fechou a porta, mas, quando a polícia lançou a novidade dos dois assaltantes, esse suspeito solitário foi esquecido.


Os filhos de Silvia, Marina e Andrés, desmentiram várias afirmações da polícia. Eles dizem que é totalmente falsa e tendenciosa a versão de que o suspeito mais novo, o lavador de carros, lavasse com freqüência o carro da vítima. Negaram que a vítima, que foi conduzida em agonia até um hospital e morreu logo depois, tivesse dito algo como “foi um roubo”. Também negaram que ela pudesse ter-se defendido.


O jornal eletrônico italiano Prensamare.com.ar critica veementemente a perícia policial no lugar dos fatos. Os agentes não adotaram precauções mínimas conhecidas nos lugares mais atrasados do planeta, como obstruir o entorno de local do crime. Fontes complementares (como Página/12) reproduzem a declaração dos familiares, segundo a qual, numerosos vizinhos e curiosos entraram na loja, e tocaram e pisaram em toda a área durante um tempo prolongado, sem que a polícia fizesse esforços para afastá-los.


Logo após chegada dos policiais, com um raciocínio muito rápido, qualificaram o fato como roubo seguido de morte, e até deduziram que os culpados eram dois. Ninguém viu quando a polícia percebeu a falta de dinheiro nem algumas bijuterias.  O jornal faz notar que a loja de Silvia vendia objetos populares baratos, que ninguém pensaria em roubar.


Mais esquisito ainda foi que nem a polícia, nem o MP nem a magistratura procuraram à família da vítima, que era muito conhecida na pequena cidade. A justiça recém abriu um processo depois que os parentes de Silvia comparecem espontaneamente ao fórum, mas, até o dia 07, os filhos não tinham sido recebidos pelo juiz nem tinham visto o processo.


Alguns meios afirmam que na rica cidade, com baixo índice de desemprego, não havia um assalto desde 1999. Mas, o Pensamare vai além: desde a fundação da cidade de 1881, não se registra nenhum roubo seguido de morte com requintes de crueldade. Ou seja: o único crime cruel em 129 anos, cuja vítima era odiada pelo terrorismo policial, se produziu 5 dias depois de completar-se mais um aniversário do golpe militar.


O jornal também coloca em dúvida o comportamento da justiça e do governo provincial (estadual). A matéria afirma que a melhor hipótese é de que a polícia teria marcado uma área livre de repressão para criminosos de baixo cacife, com a obrigação de executar alguns crimes que a própria polícia encomendava. Essa é uma prática antiga na Argentina, especialmente nas províncias mais ricas, onde a brutalidade policial escancarada se torna mais difícil em épocas de democracia. A totalidade da matéria pode ser lida aqui.


O jornal Página/12 menciona outros aspectos suspeitos:


1.       A família rejeitou a afirmação policial do roubo de 10 mil pesos (5 mil reais). Faturar essa soma numa manhã seria impossível para este tipo de negócio.


2.       Os filhos se queixaram da lentidão do juiz para instalar o processo e sua demora para chegar ao lugar dos fatos, tendo em conta a importância do crime.


3.       Um dos acusados relatou que Silvia foi esfaqueada junto ao balcão e depois deslocada para um lugar da loja onde não pudesse ser vista de fora. A perícia, porém, nega a existência de sangue nesse trajeto, e de rastos de desordem.


4.       Depois, os acusados deram uma nova versão. O ataque teria sido executado em duas etapas: facadas “preparatórias” e, depois, facadas terminais no pescoço.


5.       Os acusados disseram que a vítima foi morta porque resistiu. A polícia repetiu isso em vários boletins, mas a autópsia não encontrou feridas defensivas.


6.       Alguns policiais disseram que o celular da vítima foi encontrado na casa dos acusados, mas outros policiais revelaram tê-lo encontrado na casa de um parente, sem o chip. Os agentes se irritaram quando os filhos não souberam reconhecer esse telefone.


7.       A polícia declarou o roubo de jóias, mas só puderam mostrar bijuterias baratas, que no teriam comprado no mercado de produtos roubados. Ora, a vítima (que também morava na loja) tinha objetos pessoais de valor que não foram tocados. Aliás, não houve interesse em dinheiro que Silvia guardava para uma próxima viagem à França.


8.       As fontes policiais disseram que o alvo do assalto foi escolhido ao esmo. É um fato bem conhecido que ladrões jovens sem experiência preferem furtar em lojas de eletrônicos ou telefones, cujos produtos têm comprador imediato no circuito de objetos roubados.


9.                Poucas horas após o crime, falava-se de um detido e dois foragidos. Mas, a polícia também falava de dois culpados. É totalmente evidente que o relatório policial, confirmado pela justiça, foi forjado e, num primeiro momento, ainda não havia harmonização entre as diversas mentiras. Veja mais informação aqui.


Finalmente, uma observação pessoal: é curioso que os garotos não tenham sido torturados, pois ninguém passa por uma delegacia argentina sem receber alguma dose de tortura, mesmo que esteja decidido a confessar. Foi dito que declaram com grande entusiasmo, caprichando nos detalhes com espontaneidade e eficiência.



Crime Imperfeito


Seria natural perguntar-se por que a polícia montou uma farsa tão frágil, cheia de detalhes inconsistentes. Não será que a maioria vai considerar inacreditável? O desleixo na montagem deste circo possui uma explicação na psicologia dos terroristas de estado da Argentina, e em sua longa história de crimes e aberrações.


A polícia não se importa se as pessoas acreditam ou não em suas “descobertas”.


Embora seja um assunto difícil de explicar (e não desejo fazê-lo aqui), boa parte da opinião pública argentina é nostálgica da ditadura e inimiga dos DH. Isso, por sua vez, explica a extrema coragem e eficiência dos militantes de DH, algo que fascina os estrangeiros. É frequente encontrar visitantes que comparam os grupos de DH do Brasil, com o extremo dinamismo de grupos equivalentes na Argentina. Mas isso decorre também da necessidade de sobrevier da enorme perseguição da direita civil, militar e judicial, o que acontece no Brasil com uma intensidade infinitamente menor.


Aqui, os crimes políticos personalizados (como o de Chico Mendes e Dorothy Stang) acabam sendo descobertos e, embora fiquem muitas vezes impunes (como Carajás e Carandiru), os detalhes se tornam públicos. Na Argentina, queimas de arquivo e vinganças percorrem o tecido social no meio a um silêncio cúmplice. Dos milhares de genocidas dos anos 70, apenas algumas dúzias foram a julgamento.


No caso de Silvia Suppo, a polícia deve dar alguma explicação para “preencher” a formalidade, e também para deixar contente à população, que a prestigiosa jornalista italiana Oriana Fallaci (1929-2006) qualificou de fascista. Em 1982, após a Guerra das Malvinas, Oriana descobriu com espanto o militarismo popular argentino e deveu suportar críticas e ameaças por tomar-se a liberdade de ser sincera. (Ela foi combatente antifascista já aos 10 anos de idade, e recebeu uma condecoração ao valor aos 14. Mas, num comentário à imprensa, reconheceu que tinha conhecido o “verdadeiro” fascismo na Argentina.)


A polícia de Santa Fé está ajudando ao típico pequeno burguês argentino a dizer: “Estão vendo? É um simples roubo, não tem nada a ver com política. São mentiras de subversivos, judeus e intelectuais”. De fato, hoje seria difícil que mesmo esta maioria reacionária tenha coragem de aplaudir o assassinato publicamente; portanto, é melhor atribuir-lo a criminosos.


Além disso, a polícia não deseja alarmar a classe média, porque esta se debate num conflito entre o desejo e o medo. Enquanto sonha com os tempos dos militares (quando Argentina ganhou a copa, a moeda nacional era mais forte que o dólar, e a esquerda tinha sido “limpada”), também tem medo. Com efeito: os militares não hesitaram em arrebentar pessoas que os admiravam porque, por algum acaso, se tornaram suspeitas, ou porque tinham o número de telefone de alguém comprometido com a esquerda.


Então, a polícia de Santa Fé usa um termo médio: simula resolver o crime para “acalmar” a sociedade. Ao mesmo tempo, manda um recado a todos os defensores de Direitos Humanos: “Fiquem calados, seus filhos da p...., porque as lojas de vocês também podem ser assaltadas!”


Finalmente, uma reflexão: a presidente Kirchner ameaçou várias vezes com recorrer a organismos internacionais para apressar os processos que a justiça obstrui de maneira sistemática. Todos sabem que os organismos internacionais são lentos e indiferentes, e que sua visão dos DH se mistura com os interesses políticos dos países representados neles. Entretanto, de vez em quando tomam algumas decisões justas, e o caso da Argentina preocupa, às vezes sinceramente, a muitos magistrados internacionais.


De fato, a punição dos genocidas argentinos foi, desde o começo, um problema de caráter internacional, tanto pela universalidade dos DH, como pela desaparição de estrangeiros e a conexão existente entre o genocídio e as aventuras belicistas dos militares.


A intervenção internacional já era imprescindível há 20 anos, e a ameaça de utilizar-la (porém sem concretizar-se nunca), apenas serve para aumentar a convicção de impunidade dos hiper-criminosos do aparato policial-militar.


Carlos Alberto Lungarzo é professor e escritor, autor do livro "Os Cenários Invisíveis do Caso Battisti". Para fazer o download de um resumo do livro clique aqui. Residente em São Paulo, é membro da Anistia Internacional e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A tragédia no Rio de Janeiro

Por Laerte Braga*

A jornalista Lúcia Hipólito, discípula de Miriam Leitão no mau caratismo, tentou de todas as formas culpar o Governo Federal pela tragédia que se abate sobre o Rio de Janeiro num programa de variedades da GLOBONEWS, entre 14 e 15 horas, no dia oito de abril.

Tanto ela como a apresentadora do programa, qualquer coisa Beltrão, orientadas a partir de um ponto (aquele negocinho que fica no ouvido), iam conduzindo as entrevistas segundo as conveniências da empresa. Um dos entrevistados foi um dos grandes especuladores imobiliários do Rio, Pedro Bogossian. Quando se fala em especulador imobiliário vale dizer predador.

O ponto, registre-se, é indispensável em se tratando das duas senhoras em questão. Se soltas e aos seus respectivos talantes não vão conseguir sequer dar boa tarde. No máximo, registrar as grosserias da veneranda senhora Susana Vieira que, opinando sobre Caruaru, PE, disse que comunicação ali é “tambor ou sinal de fumaça, não estou agüentando mais”. Versão Regina Duarte para 2010.

Francisco Negrão de Lima, mineiro de Nepomuceno, ministro dos governos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubistchek, foi o último prefeito do Rio de Janeiro enquanto capital do Brasil. Criou a SURSAN – SUPERINTENDÊNCIA DE URBANIZAÇÃO E SANEAMENTO –. Um dos primeiros, se não foi o primeiro, projetos de planejamento a curto, médio e longo prazos para uma cidade do porte do Rio e já considerando a cidade a partir da transferência da capital para Brasília.

Nasceram com a SURSAN projetos de erradicação das favelas, do Aterro do Flamengo, do Viaduto dos Marinheiros, expansão do sistema de adutoras, enfim, tudo o que se deve pensar para uma cidade de milhões de habitantes e que, naquele momento se transformava em mais um estado da Federação. Àquela época o Brasil era quase uma Federação de fato, para além do papel.

José Sette Câmaras, ministro do governo JK, foi nomeado governador provisório do estado da Guanabara com a transferência da capital para Brasília. Naquele mesmo ano Carlos Lacerda foi eleito governador do estado derrotando Sérgio Magalhães, um dos mais completos parlamentares da história dos parlamentos brasileiros.

Lacerda nomeou Enaldo Cravo Peixoto, um engenheiro sanitarista para a direção da SURSAN e quase todos os projetos desenvolvidos desde Negrão de Lima e em desenvolvimento foram realizados justiça seja feita. Dentre eles, inclusive, a Rodoviária Novo Rio.

Em 1965 Francisco Negrão de Lima foi eleito governador da Guanabara derrotando o candidato de Lacerda, Flecha Ribeiro. Tomou posse em 1966 e uma tragédia semelhante se abateu sobre o Rio com desabamentos, deslizamentos de morros, mortes, nada diferente do que acontece hoje.

Negrão retomou os projetos de contenção de encostas, de urbanização de favelas, de construção de moradias populares e ao término de seu mandato, em 1971, saia do palácio sozinho dirigindo um Lafer conversível até sua casa na região da Lagoa Rodrigo de Freitas. Ao parar nos sinais luminosos durante o trajeto era aplaudido pelas pessoas que o reconheciam e quase todas o reconheciam.

Numa dessas paradas, na esquina de Miguel Lemos com Nossa Senhora de Copacabana, o cantor e compositor Carlos Imperial – estava na calçada aguardando a hora de atravessar a rua – pediu licença para dar-lhe um beijo na testa e sob o aplauso das pessoas gritou “aqui está o homem que resgatou a Cidade Maravilhosa”. Meio sem jeito Negrão sorriu, acenou e assim que o sinal abriu engatou a primeira e seguiu.

A tragédia do Rio de Janeiro começou com a eleição – indireta – de Chagas Freitas. Um dos governos mais corruptos do antigo estado da Guanabara. Uma das quadrilhas mais eficientes em saques a cofres públicos.

Teve continuidade com a decisão do general Ernesto Geisel de promover a fusão entre o estado do Rio de Janeiro e o estado da Guanabara por motivos de ordem política. A oposição, à época o MDB, vencia todas as eleições na Guanabara. Nomeou para o governo do estado o brigadeiro Faria Lima, um homem que não metia a mão no bolso de ninguém, mas tratou de montar um novo estado da extinta Federação, vivíamos a ditadura militar e governadores eram capatazes, para produzir capatazes.

A fusão em si não representaria prejuízo algum se a tarefa de Faria Lima não fosse a de esvaziar a cidade do Rio de Janeiro, ainda que essa viesse a ser, como é, a capital do então novo estado.

Faria Lima foi sucedido por Chagas Freitas e o Rio vítima de novos saques.

Em 1982 Leonel Brizola derrota contra a vontade da ditadura, da GLOBO, da PROCONSULT (empresa contratada para totalizar os votos e ligada à ditadura e a GLOBO) a candidatos do porte de Sandra Cavalcanti (lacerdismo), Miro Teixeira (Chagas Freitas) e Wellington Moreira Franco (ditadura militar). Brizola vence as eleições por larga margem de votos no Rio e Grande Rio e perde no interior do estado, ganha na soma.

A cidade retoma sua trajetória de Maravilhosa. O governo Brizola constitui-se no primeiro grande momento do Rio de Janeiro pós ditadura, no seu reencontro com sua história e suas características (e Brizola era gaúcho, fora governador do Rio Grande do Sul). Segundo a GLOBO – que tentou fraudar as eleições no esquema PROCONSULT, era parte do processo – o governador era a encarnação do demônio.

Cheios de orgulho os habitantes da cidade do Rio de Janeiro e de todo o estado do Rio respondem à rede mentirosa e à mediocridade do então presidente José Sarney, que decidira cumprir as determinações de Roberto Marinho e isolar o Rio de todo e qualquer benefício ou direito que pudesse vir a ter, como forma de asfixiar o governo Brizola.

Numa das épocas de chuvas Sarney estava no exterior e Ulisses Guimarães, presidente interino, foi ao Rio, determinou a imediata liberação de verbas e como o ministro da Fazenda fizesse corpo mole, deu-lhe um prazo de vinte e quatro horas para o dinheiro chegar e o dinheiro chegou. Foi nesse período que no destrambelhamento de se achar um faraó, em visita a antiga União Soviética, que Sarney proclamou do alto de sua mediocridade corrupta –“sou eu promovendo a abertura no Brasil e o Gorbachov aqui –. Incrível que o Kremlin não tivesse desabado diante de tamanha cretinice.

É o tempo dos CIEPs, do Sambódromo, de obras de infra-estrutura nas favelas, de retomada de projetos de reurbanização, enfim, com imperfeições lógico, mas um saldo positivo que valeu a Brizola à volta ao governo em 1990, já na esquema de dois turnos e ganhando direto no primeiro turno.

Pós Brizola, Marcelo Alencar (cria de Brizola que voltou-se contra o criador), Garotinho (idem) e Rosinha. Não há lugar nenhum no mundo que possa sobreviver a um trio desses, ainda mais levando em conta que a cidade do Rio de Janeiro, por duas vezes, foi assolada pelo prefeito César Maia (produto do brizolismo também, mas voltou-se contra o ex-governador).

Seria irresponsabilidade julgar neste momento o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes. Tem sido digno o comportamento de ambos na tragédia que se abate sobre a cidade. Pelo menos o que se tem visto.

Tragédia semelhante se abateu sobre São Paulo e a GLOBO em momento algum culpou dois pilantras da política, José Collor Arruda Serra (que usou e usa o estado como trampolim para tentar chegar à presidência da República) e o notório corrupto Gilberto Kassab.

Para Lúcia Hipólito pouco importa que tenham morrido duzentas ou trezentas pessoas. Importa que é preciso culpar os adversários, passar no caixa e receber o cachê. Depois tomar umas e outras e pronto.

Para a GLOBO a cobertura das tragédias que se abateram sobre as duas maiores cidades do Brasil tem que ser diferenciada. Em São Paulo os governos municipal e estadual são aliados e no Rio, adversários, apóiam Lula, o grande alvo num ano eleitoral.

Quando no cúmulo da irresponsabilidade a comentarista afirma que o então ministro Geddel Lima liberou verbas em grande quantidade para o seu estado, a Bahia, por ser candidato ao governo estadual, se esquece que as verbas foram para as mãos de Jaques Wagner, adversário de Geddel e que vai disputar as eleições com o ex-ministro.

Pensa que todo mundo é idiota.

O governador Leonel Brizola, um homem digno, de coragem, costumava dizer que “o Rio é o tambor do Brasil. O que bate aqui ecoa em todo o País”.

Era de fato, já não é tanto assim.

A forma irresponsável, leviana e cretina como a GLOBO cobre a tragédia que se abate sobre o povo fluminense é marca registrada da canalhice dos que querem transformar o Brasil num mero adereço sul-americano do império norte-americano, os EUA.

Bonner e seu jornalismo marrom sonham apresentar o JORNAL NACIONAL em inglês, com legendas em português para os nativos, assim que José Collor Arruda Serra for empossa na presidência da República.

Para que isso, cada vez mais difícil, aconteça, mentem, distorcem, exploram a dor do povo, forjam dossiês, toda a sorte de canalhices possíveis porque são apenas isso, canalhas.

Saudade não é saudosismo. Mas saudades do Rio de Antônio Maria no Le Rond Point ou esculhambando Carlos Lacerda e de dedo em riste. De Sérgio Porto e Alegria contando casos a noite inteira na Figueiredo de Magalhães (onde por sinal JK tinha um apartamento). Do Rio de Nelson Rodrigues e “a vida como ela é”, descobrindo as excelências virtuosas do palavrão (transformou um centro-avante mediano do Fluminense – Rodrigo – em “EL CID”).

O Rio não é Arnaldo Jabor, não é William Bonner, nem Boninho jogando água suja naquelas que acha “vagabundas”, muito menos Lúcia Hipólito. Essa é a geração GLOBO, BBB, Susana Vieira, a turma que leva cachorrinho ao cabeleireiro de helicóptero para que o bichinho não tenha stress no trânsito.

O Rio é maior que todos eles e saberá dar a resposta a essa corja. Fazer com que o tambor ecoe em todo o Brasil. Só faltou, no afã da campanha por José Collor Arruda Serra, dizer que Lula “matou” as vítimas das chuvas que caíram sobre a cidade e o estado.

Como eu disse, só sabem ser canalhas.

*Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no "Estado de Minas" e no "Diário Mercantil". É colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

Bicicleta não é brinquedo, é um veículo



Bicicleta não é brinquedo, é um veículo


O que mais precisa acontecer para que a humanidade mude os seus hábitos e garanta sua sobrevivência? Já não são suficientes e assustadores os sinais enviados pela natureza através de catástrofes ambientais? É fundamental realizar, o quanto antes, alterações no nosso estilo de vida, uma vez que está mais do que comprovado que o atual é autodestrutivo. Entre todas as modificações necessárias, a mais urgente refere-se ao trânsito, responsável por agredir tanto o homem como o planeta. Além de ser um dos maiores geradores de poluição, o trânsito brasileiro mata mais que qualquer guerra. Para reverter esse quadro, é essencial investir em campanhas e ações educativas que sirvam de exemplo para toda a população.


Quando resolvi abrir a Bike-Entrega estava decidido a fazer a minha parte em prol dessa mudança. Tenho filhos e desejo um bom futuro a eles, o que não existirá se a humanidade continuar poluindo como vem fazendo. Não há dinheiro e nem diplomas que garantam a felicidade de um homem sem a natureza a sua volta. Todos sabem que andar de bicicleta é saudável e um meio de transporte que não prejudica o meio ambiente e tampouco o tráfego de qualquer cidade. As bikes não atrapalham o trânsito, ao contrário, elas o desafogam. Nas ruas lotadas de carros e motos, elas atingem quase a mesma velocidade dos veículos motorizados e nas avenidas, ficam na pista destinada aos condutores mais lentos, a da direita. Por essas razões, o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) considera a bicicleta como veículo que tem prioridade e preferência sobre os demais. E para tornar segura a locomoção dos cidadãos foram criados diversos artigos na legislação, deixando claro o incentivo ao seu uso. Especificações essas que vão desde equipamentos de segurança obrigatórios, distância a ser mantida pelos demais veículos e conduta dos ciclistas, às multas.


Não sabemos em que momento as leis de trânsito passaram a ser desrespeitadas no Brasil e nem em que velocidade elas foram ficando para trás. Hoje, a maioria das pessoas não tem conhecimento dessa legislação e nem imagina o quanto está sendo prejudicada por elas não serem fiscalizadas e cumpridas. O Código de Trânsito Brasileiro não foi criado à toa, ele é baseado em estudos realizados por técnicos que apontam o mais correto a ser aplicado.


Mediante as ameaças reais do homem ficar sem água potável e ar limpo para respirar, autoridades e governantes aparecem com novas propostas cometendo sempre o mesmo erro: o de ignorar o que já foi bem feito anteriormente. Neste caso, as leis de trânsito. Antes de se debater um Plano Diretor Cicloviário, o que vem sendo feito pela Câmara de Vereadores e sociedade, é vital se pensar na educação no trânsito. Se a prefeitura de Porto Alegre não fizer um trabalho sério nesse sentido, anterior à execução deste plano, os motoristas se tornarão ainda mais perigosos para os ciclistas que estiverem fora das ciclovias ou ciclofaixas. E o que acontecerá naqueles trechos que não serão atendidos pelo projeto? O que os trabalhadores que não possuem outro tipo de condução a não ser a bicicleta farão nesses locais sem ciclovias? Eles continuarão expostos ao perigo pelo não cumprimento do Código de Trânsito Brasileiro?


Se, atualmente, há alguém que se preocupa com a segurança dos ciclistas no trânsito, esse alguém sou eu. Sei que há na Capital muitas outras empresas que utilizam bicicletas para transporte, seja para entregar botijões de água, gás, compras da quitanda e da farmácia. Contudo, nenhuma delas parece se importar com a segurança de seus funcionários, pois não oferecem equipamentos de proteção essenciais como o capacete, por exemplo. E nem mesmo o Ministério do Trabalho parece se preocupar com esses trabalhadores, já que nunca fiscalizaram ou autuaram esses empreendimentos que colocam seus funcionários a trabalhar até de chinelos de dedo em um trânsito perigoso, onde os primeiros a faltarem com respeito aos ciclistas são os motoristas públicos, principalmente os de lotações. Desde que inaugurei a Bike-Entrega, tenho estudado, observado, praticado e perdido o sono preocupado com a segurança da minha equipe que circula por todos os cantos da cidade entre motoristas que se quer conhecem as normas do trânsito.


Recentemente, fui taxado de revoltado e tirado do ar de um programa jornalístico, ao vivo, sem o direito de explicar o meu ponto de vista sobre o projeto que define cerca de 495 quilômetros de trechos com potencial para ciclovias ou ciclofaixas em diferentes pontos da cidade. Não tive a chance de explicar o porquê de ser contra o debate sobre o Plano Cicloviário sem antes fazer com que as leis do Código de Trânsito Brasileiro sejam respeitadas. Não pude falar sobre os dois grupos de ciclistas que existem em Porto Alegre e que somente um deles será beneficiado com essa proposta, que será o menor e o que menos precisa. Que são aqueles que andam eventualmente de bicicleta, em geral, nos finais de semana. O maior grupo é formado por aqueles que trabalham com suas bikes e precisam enfrentar o trânsito diariamente.


Também não tive a oportunidade de comentar sobre os R$ 80 mil que qualquer microempresa que tenha dez funcionários poderá economizar em dez anos se fornecer bicicletas e a manutenção delas aos seus funcionários em troca de vale-transporte. Ou na quantidade de pessoas que se sentiriam seguras para finalmente deixar o carro na garagem e utilizar bicicletas para se locomoverem. E nem no tanto de dióxido de carbono (CO2) que não seria mais emitido na atmosfera se as leis brasileiras existentes fossem cumpridas.


Vou acreditar e apoiar o Plano Diretor Cicloviário quando verificar que nossos governantes estão corrigindo as coisas erradas, no passado e no presente, que podem oferecer segurança à população e ao meio ambiente. Evitando, assim, o desperdício do dinheiro público em obras que não funcionarão se o que já foi feito não for respeitado.


Kais Ismail é produtor cinematográfico e publicitário. Gaúcho, filho de uma palestina, mora em Porto Alegre e é colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Enchentes




[caption id="attachment_5266" align="aligncenter" width="468" caption="Foto: Marcia Foleto Ag. O Globo"]Enchente RJ Foto: Marcia Foleto Ag. O Globo[/caption]

Enchentes


O Rio de Janeiro hoje (06/04/2010) parou. A chuva que caiu desde a noite de ontem produziu um triste quadro, atingindo como sempre, a população mais pobre. O índice pluviométrico bateu o recorde anterior, de janeiro de 1966.



Outros estados também sofreram com as chuvas neste período, como SC, RS e SP, mas nenhum deles teve uma cobertura tão intensa quanto a tragédia daqui do RJ. E não estou falando dos telejornais locais, mas dos nacionais. Depois do Jornal Nacional, recebi ligações dos 4 cantos do país, de parentes e amigos, para saber se tínhamos sobrevivido à tragédia.



Confesso que me assustei. Como eles sabem, moramos em Ipanema, bairro de classe-média, que sofre com engarrafamentos e outros transtornos, mas sem casos mais graves, e como eu não assisto os noticiários do PIG (Partido da Imprensa Golpista), agora oficialmente assim designado (*), perguntei ao 1º que ligou, meu irmão, a razão de tamanha preocupação. Ele disse que tinha visto na imprensa que o canal do Jardim de Alah (a 2 quadras da minha casa) tinha inundado, e que os moradores estavam com água no joelho. Por acaso, minha irmã tinha ido ao dentista, e passado pelo citado canal, traquilamente, e nem seus pés ficaram encharcados.



Liguei a TV e o 1º canal do PIG que sintonizei e falava sobre o assunto foi a RedeTV, um comentário do jornalista Kennedy Alencar que dizia algo como: ...tinham politizado as enchentes de SP, e que agora não podiam reclamar de estarem politizando a do RJ. O governador Sergio Cabral estava terminando o 2º mandato e o prefeito Eduardo Paes estava há 2 anos à frente da prefeitura, portanto, não podiam colocar a culpa em governos passados... Como é possível o Sergio Cabral estar terminando o 2º mandato e ser candidato à reeleição? No caso do Eduardo Paes, tem 1 ano e 3 meses completos de mandato, e se é para arredondar, está mais próximo de 1 do que de 2 anos.



Lembrei do jornalista Ricardo Kotscho que denunciou a parcialidade da imprensa na divulgação das enchentes em SP: “No tempo das prefeitas Luiza Erundina e Marta Suplicy, os repórteres eram implacáveis. Agora, na gestão demo-tucana - que levou exatamente 1 semana para ir à região onde as ruas de 6 bairros continuam tomadas pelas águas do rio misturadas ao esgoto - o prefeito Kassab e o governador Serra foram poupados de dar maiores explicações.”



Eu não votei no Cabral, mas justiça se faça, ele e o Paes entraram em ação desde a madrugada, tanto que divulgaram um apelo à população para não sair de casa, exceto em caso de “força-maior”, e o comércio esteve fechado. Ficaram de divulgar outro às 4 hs da manhã, com a orientação a ser adotada amanhã.



Depois fui para a Globonews que, aliás, está usando um recurso bem oportuno (para ela). Convoca a população a mandar vídeos da catástrofe, e economiza por não precisar mandar equipes para registrá-las. Depois de exibir toda a catástrofe, com comentaristas acusando os governos municipal, estadual e federal, o Trigueiro entrevista o secretário de saúde do Estado, que estava de galochas, acompanhando a tragédia.



Curioso foi que a imprensa não culpou o Serra e os tucanos, que governam o Estado por 15 anos e 3 meses, pelas enchentes de SP. A culpa foi de São Pedro. Não lembraram que o Alckmin gastou R$ 1,1 bilhão para aumentar a capacidade do Tietê, e que por terem deixado de fazer manutenção, esse dinheiro foi parar no ralo, e que os trabalhadores que pagaram pela obra tiveram mais uma vez suas casas inundadas... Enquanto SP estava no olho do furacão, Serra foi a Copenhagen bater papo com o Swazenagger.



Vi o Kassab falar sobre as enchentes, mas não vi nenhuma declaração do Serra...



Embora o RJ tenha uma situação geográfica mais complexa por ser cercada de morros e montanhas, é claro que já deveriam ter dado um jeito para que esses desastres não acontecessem de forma tão drástica, mas a imprensa, que tem o poder de formar opinião, pressionar os políticos e cobrar providências, não percebe a sua grande parcela de responsabilidade. É que, a exemplo de SP, quando o governo é de seus aliados, o PIG foi, é e sempre será o PIG!



(*) Em 29 de março deste ano, Maria Judith Brito, presidente da ANJ - Associação Nacional de Jornais, afirma no jornal O Globo: "A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo, de fato, a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo."



Sônia Montenegro é analista de sistemas e mora no Rio de Janeiro. Mantém o blog “Farmácia de Pensamentos” e é colaboradora do blog “Quem tem medo do Lula?”

terça-feira, 6 de abril de 2010

Miriam Leitão precisa ir a Wall Street

[caption id="attachment_1176" align="aligncenter" width="262" caption="Ilustração do "The Wall Street Journal" de 29/03/2010"]Ilustração do "The Wall Street Journal" de 29/03/2010[/caption]

Faz me lembrar Cazuza: “Aquele garoto que queria mudar o mundo e hoje assiste a tudo em cima do muro”... De mãos dadas com os tucanos, claro.


Por Ana Helena Tavares* (para o "Observatório da Imprensa")

Na quarta-feira, 31 de Março, Miriam Leitão que, já há algum tempo, por méritos reconhecidos, ganhou de alguns a alcunha de “a jornalista do apocalipse”, mostrou-se preocupadíssima com uma possível saída de Henrique Meirelles do Banco Central, pois, assim, alertou a profeta em sua coluna de “O Globo”, “o BC ficaria sem qualquer economista que tivesse passado pelo mercado”. A profecia não se cumpriu e Meirelles ficou.


Ainda bem, porque, segundo a coluna, que trazia o título de “BC estatal”, palavrinha que causa ojeriza às elites, esta saída não poderia ocorrer em pior hora, pois “é necessário começar um ciclo de aperto na política monetária”. Faltou à sempre tão bem informada colunista ler o “The Wall Street Journal” de dois dias antes. Tivesse se dado ao trabalho de, ao menos, ler a capa do respeitado diário americano, que leva o nome da rua considerada o coração financeiro do mundo, talvez chegasse, ainda que com algum esforço, à conclusão de que os parafusos que ela sempre acha que faltam em nossa economia estão muito bem “apertados”, obrigado.


Para o “The Wall Street Journal” de 29 de Março, “todos os dias os brasileiros estão tão ocupados comprando carros, máquinas de lavar e TVs planas que nem perceberam os efeitos da crise econômica pela qual o mundo passou.”


Recentemente, o diário britânico “The Guardian” foi mais longe, apontando a saúde financeira do Brasil como motivo para o favoritismo de Dilma: “Analistas que descartavam Roussef, agora sugerem que ela é a favorita para vir a comandar os rumos de uma economia crescente”, disse o jornal em sua edição de 14 de Março.


Como se vê, o paradoxo entre o que dizem nossos analistas de salão com sua visão apocalíptica e a visão otimista dos mais especializados veículos da imprensa internacional é da ordem do absurdo. Faz me lembrar o dia em que passei por um curso de idiomas, cuja fachada é totalmente pintada com as cores dos Estados Unidos, com direito à Estátua da Liberdade estilizada, e notei que a atendente vendia cursos de inglês trajando uma camisa com o rosto de Che Guevara, com direito a uma pequena bandeirinha de Cuba na lapela. Quando aparecem na TV, geralmente trajam preto, cor apropriada, mas sabe-se lá a roupa que os jornalistas de nossa grande imprensa usam no sofá de casa.


E os paradoxos não param por aí. Para quem não sabe, Miriam Leitão, que eu apelidaria de “a economista dos números sem contexto”, foi militante de esquerda, chegando a ser presa. Só falta assumir o lado.


Os velhos barões de nossa mídia sabem bem que o pior e mais penetrante autoritarismo é o que se disfarça de democracia. Enquanto isso, “para o ‘país do futuro’, chegou finalmente o amanhã”, lêem nas bancas de Wall Street economistas que sabem muito bem o que é mercado.


*Ana Helena Tavares é jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz. É colunista da revista "Médio Paraíba" e editora-administradora do blog "Quem tem medo do Lula?".

Venezualização da mídia brasileira



Venezualização da mídia brasileira


Por Mario JakobskindNa questão dos meios de comunicação vale a pena transcrever trecho de uma recente fala da presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Maria Judith Brito, também executiva do jornal Folha de S. Paulo, a representantes dos donos de jornais ao defender o que considera ser “liberdade de imprensa”.


Segundo ela, “na situação atual, em que os partidos de oposição estão muito fracos, cabe a nós dos jornais exercer o papel dos partidos. Por isso estamos fazendo isso”. É uma confirmação total de que os jornalões e os telejornalões visivelmente estão dando o recado da oposição de direita ao governo federal. Estão se venezuelando. Maria Judith fez o comentário em uma reunião com empresários dos setores de comunicação que discutiam o Plano Nacional de Direitos Humanos.


São inúmeros os exemplos na cobertura jornalística dos fatos que confirmam a venezuelização da mídia conservadora brasileira. O candidato da aliança PSDB, Dem, PPS vem sendo apresentado de forma diferente da de Dilma Roussef. Espiões benignos infiltrados na TV Globo informaram já há meses que a edição de imagem e texto relacionado com Serra passa pelo crivo de um dos diretores de jornalismo, o senhor Ali Kamel, o tal que escreveu um livro dizendo que no Brasil não há racismo e é contra as quotas.


O ex-governador de São Paulo e atual candidato à Presidência caiu nas graças dos proprietários das Organizações Globo, que têm vínculos com vários setores econômicos interessados em impedir a continuidade do projeto atual do governo de Luiz Inácio da Silva.


Na área da política externa a pressão é pesada e com componentes manipuladores e mentirosos, seja através de editoriais ou mesmo coberturas diárias. Exemplo mais recente nesse sentido ocorreu na edição de O Globo de 31 de março último com a manchete de primeira página “Pressão dos EUA sobre o Irã pode atingir Petrobrás”.


A chamada prossegue na página 31 “informando” que os “EUA pedem respeito ao Brasil se ONU aprovar sanções”. Aí você vai ler a matéria e verificará que tanto a manchete de primeira página como a do relato da notícia é puramente especulativa. O porta-voz do Departamento de Estado, Philip Crowley fala genericamente de empresas que estariam sendo investigadas e o “The New York Times” revela que uma delas é a Petrobrás. Nada oficial como parece pelas chamadas da matéria.


Também genericamente Crowley diz que o Irã foi “tema da visita de Hillary Clinton ao Brasil, com o presidente Lula e Amorim" e “estamos nos movendo para aprovar sanções na ONU e esperamos que o Brasil cumpra a resolução”. O Itamaraty, segundo o informe de O Globo, apresentado sem destaque algum, negou que a Secretária de Estado tenha mencionado a Petrobras.


Ou seja, O Globo, na base da manipulação da informação, quis apenas indispor os leitores contra a posição brasileira na questão do Irã em favor de negociações. Algumas horas antes da edição manipulada do jornal, o próprio chanceler Amorim deixou claro em uma longa entrevista na TV Bandeirantes (Canal Livre) que o Brasil seguiria as resoluções da ONU contra o Irã caso fossem aprovadas.


Em suma, O Globo, para variar, deu o recado de Washington, resta saber se generosamente ou não. O que se questiona é a posição impositiva, portanto inócua, segundo Amorim, de pressionar o Irã. O Brasil defende o caminho do diálogo, por entender inclusive que seria um erro deixar o Irã isolado da comunidade internacional.


É importante acompanhar a cobertura diária dos jornalões e telejornalões, apontar como as Organizações Globo e outras publicações manipulam e distorcem informações agindo como partidos políticos de direita.


Ah, sim: outra informação transmitida por espiões benignos infiltrados em O Globo demonstra que o esquema de manipulação ocorre até na editoria de Polícia. Nesse setor, segundo os tais espiões, cujos nomes não podem ser revelados se não perdem a função que exercem, a pauta passa pelo sinal verde de oficiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. PMs em O Globo viraram pauteiros.


Então, o que acontece? Qualquer ação policial, sobretudo em áreas pobres da cidade do Rio de Janeiro, onde se criminaliza a população, será aplaudida. Ou seja, nas cartas dos leitores aparecerão apologias à repressão que vem sendo feita de forma indiscriminada atingindo muitos inocentes, que aparecerão nas estatísticas como “autos de resistência”, isto é, elementos que resistiram a policiais e por isso foram detonados.


E assim caminham os jornalões e telejornalões deste país tropical.


Mário Augusto Jakobskind é jornalista, mora no Rio de Janeiro e é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de S. Paulo e editor de Internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, dentre outros livros, de "América que não está na mídia" e "Dossiê Tim Lopes - Fantástico / Ibope". É colunista do site "Direto da Redação" e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"


A charge - já bastante antiga, porém, tristemente atual- é do nosso colaborador Bira Dantas.

Projeto 10 PARA A CULTURA



Projeto 10 PARA A CULTURA



Ministério da Saúde R$ 59 bilhões em 2009. Mercado publicitário em 2009 R$ 64 bilhões. R$ 5 bilhões a MAIS do que a saúde brasileira.


Ministério da Educação R$ 41,5 bilhões em 2009. R$ 22,5 bilhões a MENOS do que o mercado publicitário.


Ministério dos Transportes em 2009 R$ 17,9 bilhões. R$ 45,1 bilhões a MENOS do que o mercado publicitário.


Ministério da Defesa em 2009 R$ 2,9 bilhões. R$ 61,1 bilhões a MENOS do que o mercado publicitário.


Como pode isso???


Projeto 10 PARA A CULTURA:


1 – Projeto de arrecadação de fundos para a cultura a nível federal, provenientes do mercado publicitário, com o objetivo de patrocinar produção cultural e artística nos municípios, geração de ocupação e renda e inclusão social.


2 – Destinar-se-á ao projeto, através de Lei Federal, 10% do montante investido em propaganda pelos anunciantes de médio e grande porte.


3 – O projeto financiara produções independentes, através de concursos realizados pela secretaria municipal.


4 – o ministério da cultura repassa as secretarias estaduais e municipais o fundo arrecadado.


O projeto está afirmando que é a melhor maneira de solucionar, de forma simples e imediata, a falta de verba para realização cultural no país.


O projeto é vantajoso à todas as partes envolvidas. Os anunciantes ganham novos e valorosos espaços publicitários, porque estarão financiando produção cultural. Os artistas e produtores locais terão mais uma ferramenta de trabalho junto à comunidade. E o publico ganha mais produtos culturais. Além disso, é tão pouca a verba destinada à cultura que mal tem o agente cultural condições de trabalhar. A produção cultural pode vir a abrir oportunidades de trabalho e inclusão social. Para a cultura nacional esta será uma fonte de financiamentos que fará respirar todas os segmentos culturais do país, e para o mercado de publicidade, nenhum arranhãozinho em seus lucros.
O mercado publicitário movimenta bilhões por ano, para a produção de comerciais, anúncios, etc. Nada mais justo que ofereçam ao publico 10 por cento para a produção cultural do país, uma forma de investimento em longo prazo, uma vez que os agentes culturais trabalham no limiar das novidades lingüísticas e expressivas.
De posse do dinheiro arrecadado, as secretarias de cultura municipais promoverão concursos para aprovação de projetos em todas as linguagens expressivas artísticas e também pesquisas e projetos culturais-pedagógicos, tais como oficinas e cursos. A metodologia será de maneira não-clientelista e desenvolvida através de novas tecnologias de votações, como internet, por exemplo.
As questões técnicas do funcionamento do projeto serão esclarecidas junto aos especialistas em arrecadação federal e fiscalização do tesouro nacional, assistida pela classe artística e empresarial envolvida no processo, e pelos técnicos municipais.


A logo é uma bela arte e também é arte a minha atitude, igual quando eu era criança e o meu pai dizia: Tu estás fazendo arte de novo?!


Primeiro eu lancei o 10 PARA CULTURA em uma comunidade no Orkut, trabalhei exaustivamente até esgotar as possibilidades que o site oferecia. Havia chegado um ponto em que o desenvolvimento do projeto já exigia logística e equipe atuante, com CNPJ de ONG ou tudo isso oferecido pelo governo (o maior interessado) ou iniciativa privada. Portanto, passei a dar mais atenção e urgência para os trabalhos na comunidade PRAÇA PARA AS CRIANÇAS PALESTINAS, que surpreendentemente atingiu o seu objetivo em apenas 9 meses.
Podem até dizer:
Passou um desbocado maluco por aqui, falando que tinha uma proposta que poderia melhorar radicalmente a situação cultural do país. O cara viajava tanto na maionese que não sabia nem escrever direito.
Ou, podem comentar: Puxa! Como pode mesmo uma única empresa gastar 2 X mais em publicidade do que um forte governo investir na sua cultura?? Há algo de errado nisso. Errado e perigoso! Devemos ao menos verificar se os dados que ele passou são corretos e se tudo o que ele fala tem fundamento, pois se tiver merece o nosso apoio.


É um projeto que se constatado que eu não estiver errado, terá 99,9% de aprovação popular.


Falem bem ou falem mal, o importante é que falem!


O logo pode ser livremente usado para a divulgação da idéia, que é outra forma de colaborar.


AS COISAS ACONTECEM QUANDO QUEREMOS E LUTAMOS POR ELAS.


O que estou propondo é uma lei federal. Não ganharei comissão e tampouco serei pago pela idéia e o esforço exaustivo para que ela chegasse até aqui. Ganharei prestígio. Mas prestígio não irá me livrar de pagar conta telefônica e nem pensão alimentícia. O máximo que eu poderei conquistar com prestígio é um bom trabalho. Mas aí não é prêmio, é só trabalho.


Sabem como eu ganho com a realização do 10? Como todos os da classe artística que são NADA favorecidos. Serão R$ 6,4 bilhões anuais distribuídos entre esses talentosos que hoje passam fome. Que hoje são obrigados a se prostituirem ao serem forçados a fazer outras coisas se não o desenvolvimento de sua arte. Que nada mais é um presente de Deus em forma de dom. Eu produzo comerciais para cerveja e outros produtos que eu abomino. Sinto-me um prostituto fazendo isso. Ajudando o PIG a enganar o povo brasileiro. Mas, com a minha arte que já foi reconhecida, não consigo dar de comer aos meus filhos. Com o 10 PARA A CULTURA, as chances de eu e outros tantos milhões de artistas sairmos desta prostituição e miséria, serão imensas!


O 10 PARA A CULTURA atenderá a todos. Desde os artistas que se encontram no Iapoque até os de Chuí. Não haverá pequenas comunidades que não receberam benefícios do 10. O que não acontece hoje com as leis de incentivos existentes. São até vergonhosos, porque o povo deixa de obter melhorias básicas ao cederem descontos nos impostos e as produções realizadas com dinheiro público são novamente cobradas do povo para poderem por eles serem  usufruidas. Assim é fácil e injusto. O produtor pega dinheiro do povo para fazer o seu espetáculo e depois cobra do povo para que ele possa assistir, obtendo assim enormes lucros. No ano seguinte, o mesmo produtor que já lucrou com o dinheiro do público estará lá pegando mais dinheiro para outros espetáculos enquanto os lucros do espetáculo anterior ficam intactos ou são aplicados em suas coisas pessoais. Não tem sentido!!


Vou exemplificar isso usando o filme Tropa de Elite, que pegou dinheiro público no valor de R$ 10,5 milhões. Neste valor, já está incluindo o cachê ou o salário de todos. Ou seja, já garantem o que lhes é de direito, o pagamento pelo seu trabalho.


http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u67237.shtml


Este mesmo filme que pegou R$ 10, 5 dos cofres públicos, conseguiu pegar mais R$ 16 milhões (até a presente data da matéria) do povo através de ingressos adquiridos pelos mesmos que já contribuíram para pagar os R$ 10,5.


No projeto 10 PARA A CULTURA, há uma obrigação de o realizador cultural retornar ao projeto um porcentual do que ele lucrar com a realização de sua arte feita com dinheiro público. Digamos que 20%. Nada mais justo, pois se ele já se pagou e está tendo lucro como plus, nada mais justo que ele devolva um tanto de onde ele tirou, para que outros tenham oportunidade também de realizarem seus trabalhos. Mas isso não acontece atualmente. Estes R$ 6 milhões não serão usados no Tropa de Elite 2, pois mais uma vez eles irão pegar dinheiro público e deixar quietinho este lucro obtido facilmente. NÃO TEM SENTIDO!! http://g1.globo.com/Noticias/Cinema/0,,MUL177924-7086,00-TROPA+DE+ELITE+JA+E+O+FILME+BRASILEIRO+MAIS+VISTO+DO+ANO.html


Agora, para piorar, estão lançando o Vale-Cultura.


Para que todos entendam o que é este Vale-Cultura, vou usar como referência o nosso querido amigo Fernando Campos, que é um puta de um escritor que produz uma cultura positiva e educativa.


Acham que ele será beneficiado por estes R$ 7 bilhões que é a previsão de rendimento do projeto? Acham que com este projeto ele irá conseguir publicar e vender seus livros? NÃO!!


Sabem por quê? Porque os que irão se beneficiar com este projeto será os mesmo que já se beneficiam com a lei de incentivo existente. Ou seja, acharam um jeitinho de tirarem mais dinheiro do povo para esta ELITE classe artística, que produz em sua maioria um tipo de cultura que só beneficia o PIG. Será menos dinheiro entrando para o povo e muito mais para o bolso deles.


Se o projeto 10 PARA A CULTURA fosse lançado hoje, teria a sua disposição R$ 6,4 bilhões para ser distribuídos. No ano seguinte, os R$ 6,4 bilhões seriam acrescidos de mais 20% do retorno dos beneficiados. Assim, seriam R$ 8,2 bilhões em 2011. Em 2012 os 8,2 bilhões mais os 20%. Em menos de uma década, teremos o maior orçamento cultural do planeta. Sem tocar em único centavo do dinheiro público.


Minha maior aflição é que me sinto em uma sala fechada pegando fogo e todos gritando: FOGO! FOGO! Enquanto eu estou num cantinho dizendo: Eu estou com o extintor de incêndio, mas ele é pesado. Não consigo levar até as chamas. Ajudem-me! E as pessoas me olharem e responderem: Preferimos continuar gritando FOGO! FOGO! do que lhe ajudar a trazer este extintor até aqui e apagar o fogo. O ruim nisso tudo, é que eu morro queimado junto.


Com este projeto, o PIG não só perde um tanto de ração, como também terá que lidar com um público mais esclarecido. Não tão alienado.


Tudo o que eu poderia fazer já foi feito. O esboço principal que não encontrou até agora alguém que aponte negativas nele.


As questões técnicas do funcionamento do projeto serão esclarecidas junto aos especialistas em arrecadação federal e fiscalização do tesouro nacional, assistida pela classe artística e empresarial envolvida no processo, e pelos técnicos municipais.


E isto só tem uma forma de acontecer: É chegando no Congresso através de um político ou de um abaixo assinado.


ASSINEM através deste link: http://www.petitiononline.com/cultproj/



Kais Ismail é produtor cinematográfico. Gaúcho de origem Palestina, reside em Porto Alegre. Colabora com o blog "Quem tem medo do Lula?".

domingo, 4 de abril de 2010

Retificação Importante



Retificação Importante


Há três dias eu enviei a todas minhas redes sociais, uma matéria em que se denuncia o assassinato de SILVIA SUPPO DE DISTEFANIS, uma ex-detida-desaparecida política Argentina.


Na minha matéria, eu procurei colocar uma foto. Para tanto, percorri os sites de jornais argentinos onde se fala do fato, e encontrei uma fotografia que anexei a minha matéria e distribui com a mesma.


ESSA FOTO ESTAVA ERRADA


Peço desculpas, mas, só no dia seguinte tive informação da família de Silvia sobre sua verdadeira foto, que estou anexando agora.


Meu erro também induziu a erro a outros sites e outros companheiros de Direitos Humanos, que confiaram em minha informação.


Lamentavelmente, esqueci que em alguns jornais argentinos se pratica a desinformação inclusive no material gráfico, já que grande parte da imprensa esteve sempre do lado do terrorismo de Estado.


Só hoje tomei conhecimento de que a foto que encabeça a matéria nesses jornais é a de uma mulher que foi TORTURADORA da vítima.


De fato, é frequente na mídia argentina de direita (que é a enorme maioria) fazer brincadeiras macabras. Já outras vezes aconteceu de encabeçar uma matéria com a imagem do algoz e não da vítima. É uma forma de denegrir a imagem da pessoa atingida.


Obviamente, eu deveria ter estado mais atento a esta mórbida prática, e por tanto reitero a minha AUTOCRITICA, e peço a todos os que possam que façam a retificação.


São Paulo, 4/4/2010, 02:15


Carlos Alberto Lungarzo


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