O MEDO QUE A ELITE TEM DO POVO É MOSTRADO AQUI

A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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domingo, 15 de agosto de 2010

Para não falar com o espelho

Ao longo do texto, algumas fotos do evento citado,
todas de autoria da jornalista Carolina Maldonado.


Para não falar com o espelho

Por José Ribamar Bessa Freire (*)

Escrevo da aldeia Cachoeirinha, em Miranda (MS), onde acabo de presenciar uma operação arriscada. Vi como desmontaram o gatilho de uma arma infernal que já causou mortes e emudeceu vozes, criando um silêncio de cemitério. O gatilho assassino foi desarmado por dois Terena – a professora Maria de Lourdes Elias Sobrinho, ex-empregada doméstica, filha de um índio plantador de milho, arroz, feijão e banana - e seu colega, o professor Celinho Belizário, ex-cortador de cana.

Nessa sexta-feira, 13 de agosto, cada um deles defendeu sua dissertação de mestrado na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) de Campo Grande (MS), que abriu seu Programa de Pós-Graduação em Educação para formar pesquisadores indígenas, com apoio da Fundação Ford.

No entanto, a defesa aconteceu – o que é inédito no Brasil - não no campus universitário, mas dentro da própria aldeia. Fomos nós, os professores da banca de avaliação, que nos deslocamos até lá, num movimento que não se limitou a uma simples troca de espaço, mas implicou mudança de perspectiva: a universidade desceu de suas tamancas e com isso ampliou seu universo de conhecimentos.

Maria de Lourdes fez a apresentação oral, toda ela em língua terena, para compartilhar sua pesquisa com os índios ali presentes. Na medida em que falava, o data-show ia projetando o texto da tradução ao português, permitindo que a banca e o público não-indígena acompanhassem sua fala. O trabalho escrito também é, em grande medida, bilíngue em terena e português. Essa foi, talvez, a primeira vez no Brasil que um índio não precisou renunciar à sua língua para ter um diploma reconhecendo aquilo que sabe.

O boi baba

A pesquisa de Maria de Lourdes procura identificar, justamente, os mecanismos engatilhados contra a língua terena, buscando um escudo para protegê-la. Através desse caso particular, é possível entender o extermínio, em cinco séculos, de mais de mil línguas indígenas, que deixaram de ser faladas no Brasil. Cerca de 180 delas continuam ainda resistindo, como a língua terena. De que forma foi possível silenciar tantas vozes que enriqueciam o patrimônio cultural da humanidade, sepultando com elas cantos, narrativas, poesia, músicas e saberes?

As tentativas de sufocar a língua terena – um crime de glotocídio - foram testemunhadas pela própria Maria de Lourdes, em sua infância. “Da primeira até a quarta série do Ensino Fundamental, cursei na Aldeia Cachoeirinha de 1968 a 1972, minha professora era purutuye (branca). Quando cheguei à sala de aula, meu primeiro impacto foi com a questão da língua, isto é, eu, falante da língua terena e a professora da língua portuguesa. Quando ela começou a explicar a matéria, parecia que eu estava em outro mundo, pois não entendia nada do que ela estava falando”.

Lourdes se lembra de sua primeira cartilha – O caminho suave – onde lia que “o boi baba”, em voz alta, mas não entendia bulhufas. “Em 1976, na cidade de Miranda, fui para uma escola pública cursar a 5ª série à noite. Numa das aulas, a professora pediu para eu ler um texto de história. Li. Depois ela me pediu para explicar aos colegas o que tinha lido. Sem dizer nada, comecei a chorar, pois não sabia o que o texto dizia, eu não falava a língua portuguesa”.

Lourdes chegou a estudar num convento de freiras, em 1975. Lá, “era tudo estranho, a começar pela língua. Não entendia o que as freiras falavam comigo. Lembro quando uma freira me pediu água. Fiquei parada na cozinha sem saber o que ela tinha pedido. Eu não perguntava o que ela queria, pois não sabia nem como perguntar. A minha comunicação com elas era bom dia, boa tarde e boa noite. Essas foram as primeiras palavras que me ensinaram”.

Quando saiu do convento, Lourdes foi trabalhar como empregada doméstica. “Trabalhava de dia, e à noite estudava o segundo grau numa escola pública, mas tinha vergonha de falar a língua terena no meio dos brancos, isto porque não queria que eles percebessem que eu era índia, pois quando percebiam me isolavam do grupo”. Com a língua, ela silenciou também brincadeiras infantis, danças, benzimentos, cantos, pajelança e até a culinária terena, especialmente o lapâpe – uma massa de mandioca aberta como uma pizza e preparada na frigideira quente.


Lourdes foi atingida no próprio corpo pelos disparos de uma arma letal, que assassina almas e emudece vozes. Dessa forma, descobriu o mecanismo de extermínio, que começa com a discriminação da língua indígena considerada pelo senso comum preconceituoso como “inferior” ou “pobre”. Depois vem a proibição de falar essa língua, o que significa enxotar da escola os conhecimentos tradicionais que ela veicula. Em seguida, a obrigação de aprender a ler em português, uma língua desconhecida. Por último, o falante se automutila, na medida em que é obrigado a esconder sua identidade.

Rito de passagem

Quando Lourdes se formou no Curso Normal Superior Indígena e foi lecionar na primeira série do ensino fundamental, na Aldeia Cachoeirinha, constatou que apesar das garantias constitucionais e do direito dos índios de serem alfabetizados em suas línguas maternas, a escola continuava fazendo com as crianças aquilo que havia feito com ela. As crianças não aprendiam a ler em terena, apresentando alto índice de repetência e evasão escolar.

Foi aí que Lourdes decidiu romper esse círculo vicioso, organizando a resistência ao desmontar os mecanismos que acabariam com sua língua materna. Como coordenadora pedagógica da escola, ela elaborou e implantou em 2007 o projeto de alfabetização e produziu a cartilha “Ler e Escrever na Língua Terena”. O português passou a ser ensinado como segunda língua.

A pesquisa de Lourdes no mestrado teve como objetivo analisar essa experiência. Ela realizou testes de leitura e compreensão de texto com crianças terena alfabetizadas na língua indígena e com outros alfabetizados em português. Os resultados foram surpreendentes: no primeiro caso, as crianças que liam e escreviam em Terena, se expressavam com mais fluência inclusive em português e interpretavam textos com mais facilidade nas duas línguas.


As duas pesquisas – a de Lourdes e a de seu colega Celinho, que analisou o projeto político pedagógico da escola – se apropriaram das teorias e dos conceitos dos autores nacionais e estrangeiros indicados por seus respectivos orientadores: a doutora Adir Casaro e o doutor Antônio Brand da UCDB. No início não foi fácil: “O Homi Bhabha não queria conversar comigo” – disse Lourdes, com humor, referindo-se ao teórico indo-britânico, que analisou o confronto de sistemas culturais e cuja noção de entre-lugar como local da cultura acabou se tornando familiar a ela.

Alguns autores brasileiros como Aryon Rodrigues, Ruth Monserrat e Roberto Cardoso de Oliveira, serviram aos dois pesquisadores que, além disso, realizaram observações na aldeia e na escola. Entrevistaram velhos, professores, alunos, pais de alunos, registraram as falas nas reuniões de trabalho, consultaram os textos de autores indígenas de outras línguas como Higino Tuyuka, Chiquinha Pareci e Darlene Taukane, cruzaram as fontes orais com as fontes escritas. Enfim, produziram uma pesquisa de qualidade, como assinalou a doutora Marta Azevedo, da Unicamp, membro da banca.

“Os Terena estão buscando novas formas de sobreviver em meio a essa cruzada de flechas e às novas e gigantescas colunas de fogo que se alastram em direção a nós, vindas do entorno regional” - escreveu Celinho, que definiu sua pesquisa como “a semente de um sonho”, porque “outros pesquisadores indígenas continuarão essa reflexão”.

Na ocasião, duas cerimônias foram realizadas pela comunidade terena para celebrar o nascimento dos novos mestres. Lourdes entrou no recinto, acompanhada dos membros da banca, passando no meio de duas fileiras formadas por meninas que dançaram o Xiputrena, animadas por um tocador de pife (oxoti étakati) e um tocador de tambor (ixúkoti pepêke). Já Celinho foi recebido com o Kohitoxi Kipâhi ou dança do bate-pau, numa fileira meninos com os corpos pintados de vermelho e na outra, de azul. Tinha algo de belo e de sagrado na reverência daquelas crianças aos novos suportes do saber.

Há alguns anos, o último falante de uma língua indígena foi considerado doido, porque conversava em língua xetá com sua imagem projetada no espelho, como uma forma dramática de manter sua identidade e sua memória. As pesquisas dos dois novos mestres fazem parte de uma estratégia, uma esperança para que nenhum terena jamais precise conversar com o espelho. Que Orekajuvakai nos ouça!
*José Ribamar Bessa Freire (terceiro da esquerda para a direita, na foto acima) é antropólogo, natural de Manaus e assina no “Diário do Amazonas” coluna semanal tida como uma das mais lidas da região norte. Reside no Rio de Janeiro há mais de 20 anos e é professor da UERJ, onde coordena o programa “Pró-Índio”. Mantém o blogTaqui pra ti e é colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.

sábado, 14 de agosto de 2010

A FICHA LIMPA E O STF

A FICHA LIMPA E O STF


Laerte Braga


A simples suposição que um assaltante de cofres públicos como Joaquim Roriz possa voltar a governar Brasília é repugnante. Roriz lidera as pesquisas de intenção de votos do eleitorado da capital e teve seu registro negado pelo TRE (Tribunal Regional Eleitoral), mas permanece na disputa até decisão da última instância, no caso o SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.

Como o STF vai decidir a matéria, especialistas ouvidos pela FOLHA DE SÃO PAULO consideram o assunto uma incógnita. Levam em conta decisões anteriores em casos semelhantes, mas anteriores também à Lei da Ficha Limpa. Há o preceito constitucional que toda e qualquer modificação na lei eleitoral deve ocorrer um ano antes de um pleito.

Em tese, em qualquer circunstância ou qualquer que seja o crime cometido por quem quer que o cometa ou não, a presunção da inocência é válida até que ocorra o trânsito em julgado do fato, ou seja, a última decisão, aquela da qual não cabe recurso mais.

O direito brasileiro não tem características de direito consuetudinário, ou seja, aquele que deriva dos costumes e tradições, embora em determinados aspectos a lei tenda a refletir, lógico, essas características.

Mas é inaceitável que no caso, estou citando um exemplo, de Joaquim Roriz o criminoso possa se beneficiar de brechas no arcabouço legal para, durante mais quatro anos, limpar os cofres públicos de Brasília, lesar o povo de Brasília, ainda que a maioria incauta e, sejamos diretos, alienada, imagine que Roriz seja uma espécie de pai dos pobres.

Roriz é só um bandido como é Beira-mar.

Quem quer que se recorde do processo de votação da LEI DA FICHA LIMPA há de se lembrar também de manobras protelatórias e modificações feitas ao sabor dos interesses dos muitos criminosos que exercem mandatos eletivos, a começar pelo presidente do Congresso Nacional, José Sarney. Foi um parto complicado e a criança nasceu pela metade, mas nasceu.

A lei em si pretende resgatar o mínimo de dignidade a ser requerido a quem pleiteia cargo público, no todo não resolve o grave problema do analfabetismo político no Brasil. Mesmo que se diga que esse analfabetismo é conseqüência do processo de alienação constante e crescente imposto por uma mídia a serviço das elites, do grande capital, do latifúndio, enfim, da mentira e do mundo do espetáculo. Como de fato o é.

Mas é também um avanço. Expõe as vísceras desses caras, faz com que tenham que vir a público, pelo menos para exercer o direito de mentir e jurar inocência.

“Soltem esse homem, o único que diz a verdade aqui”. Um califa ao visitar uma prisão e ouvir de todos os presos aos quais perguntava, um a um, o que havia feito, que era inocente, até que alguém se disse culpado.

É difícil também imaginar que ministros do STF como Gilmar Mendes, corrupto, venal, vá deixar de votar a favor de Roriz, aliado de seu candidato presidencial José Arruda Serra e ligado ao banqueiro Daniel Dantas, um dos patrões de Gilmar.

A situação do fato consumado é outra história. O candidato é impugnado, permanece disputando as eleições até decisão final, vence, toma posse e um ou dois anos depois o STF decide, levando em conta a morosidade da Justiça no País que tanto é pelo excesso de feitos, como por corrupção mesmo, que vai desde juízes, ministros de tribunais superiores a servidores.

Aquela história de segura o meu processo aí.

É uma realidade que tem que ser admitida.

E curiosamente a população, o eleitorado, reage à lei da FILHA LIMPA como quem se vê justiçado, mas mostra intenção de votar num pilantra como Joaquim Roriz.

Um contra senso sem tamanho, uma despolitização vergonhosa e que o fator de importância passa a ser o SHOW DAS ELEIÇÕES – virou um show – ou o as receitas de Ana Maria Braga que, provavelmente, nem sabe a diferença entre uma panela e uma frigideira.

Reduzir tudo isso a expressão modelo, ou sistema, é o modelo, é o sistema, é simples demais. Ou só a uma questão cultural não é tão simples, mas não é o todo da questão.

O desafio das forças populares – os sindicatos em sua maioria viraram meio de vida, não podem mais ser incluídos entre forças da classe trabalhadora, com as exceções de praxe – falo dos movimentos sociais, é buscar formas de impedir que candidatos como Roriz, assaltantes como era José Roberto Arruda, possam disputar eleições.

O bandido que era prefeito em minha cidade, virou manchete no JORNAL NACIONAL, o da mentira, ao receber uma bolada de empresários do setor de transportes coletivos, agora é pastor, já apascenta um rebanho e diz com toda a tranqüilidade que não tem culpa nenhuma que só assinava o que lhe era posto à frente, depois que muita gente, técnicos, secretários, etc, estudavam direitinho. Hoje participa dos lucros do governo atual, tucano, na divisão de propinas montadas em seu período e que permanecem.

O diabo é o dinheiro que apareceu na casa dele, ou o restaurante à beira do Lago Paranoá da família Roriz em franco desrespeito à lei.

O ex-prefeito virou pastor, vai salvar almas, vender tijolinhos para mansões no céu, pilantragem pura e Roriz ameaça voltar. E um monte de gente assim.

Nos corredores dos tribunais a disputa é intensa também, já que uns se apegam ao fato da lei ter entrado em vigor em cima da hora, digamos assim.

A ficha limpa não é necessariamente uma questão de firula legal, detalhe constitucional, mas de necessidade imperiosa de limpeza. A tevê não vive mostrando o tal desinfetante de banheiro que pensa mais que o ser humano e libera perfumes da natureza a cada trinta minutos? Qual o problema político da FICHA LIMPA?

Claro, ninguém vai vetar uma candidatura por críticas ao poder, mas no caso de políticos comprovadamente corruptos, público e notório, caso de Roriz, Sarney, esses pilantras que pululam por aí, não é saber se a lei tem uma brecha ou não, é vergonha na cara mesmo.

Reflete a podridão no todo do institucional, ainda que lá estejam figuras sérias e decentes, mas reflete o modelo falido, fracassado e vira um desafio para os movimentos populares.

O de virar a mesa pura e simplesmente.

Organizar a mesa depois de desinfetar com álcool, nada de perfume da natureza (a natureza hoje está associada ao capital predador, campanha de Marina da Silva, a que não aprendeu a pedir demissão).

É um escárnio um sujeito como Roriz ser candidato. E dependendo da decisão final vamos precisar de uma lei para tribunais limpos. Sem criminosos como Gilmar Mendes e outros.

No duro mesmo, vamos precisar e estamos, de uma Assembléia Nacional Constituinte, uma refundação do Estado, sem todo esses remendos que só ajudam os bandidos.

E os bandidos são a síntese do modelo capitalista. São conseqüência. A corrupção pode ter um que de natureza humana, mas é essencialmente implícita ao capitalismo. Está na gênese de qualquer Eike Batista. O que atua por trás dos bastidores, o Capone que não aparece.

A questão não é técnica, isso é firula, é política. E se um político bandido como Roriz vai ter a julgá-lo, ao final, um ministro bandido como Gilmar Mendes, estamos todos malhando em ferro frio. De uma certa forma fazendo coro com a farsa. Ou como dizia Darcy Ribeiro, “cacarejar para a esquerda e botar o ovo à direita”.

A cultura pior é a que dá a dianteira em Brasília a Roriz, é a do rouba, mas faz, pai dos pobres, introjetada no cidadão comum. Um cara que devia estar na cadeia, em cela de segurança máxima. Assim como Gilmar Mendes (o que emprega uns caras da GLOBO para comprar o silêncio da rede e compra).

O candidato Wadson Ribeiro, em Minas, está despejando rios de dinheiro numa campanha no mais violento esquema financeiro possível e escudado na tal moralidade. De onde surgiu o dinheiro? Apurem as verbas liberadas pelo Ministério dos Esportes para a região da Zona da Mata Mineira e o custo real das obras, a sobra é caixa dois de campanha do dito cujo.

Essa é outra questão. Poder econômico.

Ou seja, para cada Chico Alencar, ou Luciana Genro, ou Milton Temer, ou Nilmário Miranda, ou o comandante Carlos Eugênio Paes, tem duzentos Wadson, corruptos e venais.

O xis da questão é o institucional. Está falido, é preciso enterrá-lo do contrário vamos ter leis e ao mesmo tempo Joaquim Roriz governador de Brasília.

Onde anda a corrupta senadora Kátia Abreu (desviou verbas destinadas a CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA AGRICULTURA – nome dado à quadrilha latifúndio) depois que a CPI que ela quis, provou que ao contrário do que a GLOBO fala na propagação da mentira, não houve um único centavo de desvio do MST, nos recursos destinados aos programas do movimento?

A questão da FICHA LIMPA é muito mais ampla e pode morrer nas eternas firulas jurídicas do falta uma vírgula aqui, ou essa palavra dá direito a duas interpretações.

Para gente da espécie de Gilmar Mendes isso é aquele negócio de tirar de letra.

A LUTA ARMADA NO TIROTEIO ELEITORAL


















A revista Época chega às bancas neste sábado (14) com uma matéria de capa sobre a participação da presidenciável Dilma Rousseff na luta armada.

Eumano Silva, um dos autores (ao lado de Leandro Loyola e Leonel Rocha), é meu velho conhecido e colega de editora: em parceria com Taís Morais, escreveu Operação Araguaia.

A reportagem em si é reconstituição histórica, a mais objetiva e neutra possível se considerarmos as limitações da grande imprensa. A Veja, tratando do mesmo assunto, decerto produziria um aberrante panfleto ultradireitista.

Cheguei a dar depoimento um tanto inconclusivo, já que conheci brevemente a Dilma durante o Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares (outubro/1969) e nossos caminhos jamais se cruzaram de novo. Não acrescentaria mesmo nada e Eumano fez bem em deixá-lo de lado.

Mas, independentemente da integridade ou não do trabalho jornalístico, o tema é espinhoso para Dilma e para o PT, daí ela ter se recusado a atender aos pedidos de entrevista da Época e a deplorável nota que sua assessoria de imprensa emitiu:
".Dilma não participou [de ações armadas], não foi interrogada sobre o assunto e sequer denunciada por participação em qualquer ação armada, não sendo nem julgada nem condenada por isso.

"Dilma foi presa, torturada e condenada a dois anos e um mês de prisão pela Lei de Segurança Nacional, por 'subversão', numa época em que fazer oposição aos governos militares era ser 'subversivo'".
Quantas ressalvas! Na minha humilde opinião, de tudo que li na reportagem, o trecho mais nocivo à imagem de Dilma é este, pois, em contraste com sua verdadeira trajetória, nem de longe mostrada de forma negativa, soa terrivelmente falso.

Ambos, Dilma e o PT, têm preferido deixar o passado no limbo, como um estorvo, do que explicar francamente às novas gerações que o Brasil de Médici chegava a lembrar, em muitos aspectos, a Alemanha de Hitler, a Espanha de Franco ou o Chile de Pinochet: um festival de horrores e atrocidades.

Para não indisporem-se com velhos gorilas e novos autoritários, eles não dão, salvo quando a imprensa e os adversários políticos os encostam na parede, o merecido destaque às bestialidades que os tiranos cometeram, nem à bravura dos que os combateram.

Então, quando as viúvas da ditadura acusam falsamente Dilma Rousseff de assaltar bancos, sequestrar diplomatas e outras ações armadas, as novas gerações, desinformadas, tendem a vê-la e julgá-la a partir dos parâmetros atuais, como se tivesse sido uma criminosa do PCC.

Se soubessem que enfrentávamos algo próximo a uma Gestapo, em condições de extrema inferioridade de forças, poderiam nos olhar como os franceses olham sua Resistência, dela orgulhosos por haver salvado a honra do país.

Fugir do dever, entrentanto, nunca é resposta para nada.

O dever de quem enfrentou a tirania é manter viva a lembrança dos anos de chumbo, até para criar, nos que vieram depois, anticorpos contra o totalitarismo.

Esquivando-se do assunto em circunstâncias mais amenas, os petistas serão obrigados a defrontarem-se com ele no auge da campanha eleitoral.

Então, é o momento de abandonarem de vez as esquivas, declarando em alto e bom som: quem resistiu à ditadura mais brutal que o Brasil conheceu, tinha todo direito de pegar em armas contra os déspotas e merece, acima de tudo, o reconhecimento da cidadania.

E isto vale tanto para Dilma, que não entrou na ação direta, como também para Carlos Lamarca, Carlos Marighella, Eduardo Leite, Devanir de Carvalho e outros que usaram a força contra um inimigo que pela força usurpou o poder e pela força nele se mantinha: todos eles, indiferenciadamente, foram heróis e mártires deste sofrido país!

Nada de tergiversações. Quem participou da luta armada, cumpriu as funções que seu agrupamento lhe designou. Se, como Dilma e eu, acabou recebendo outras incumbências, isto era irrelevante do nosso próprio ponto de vista e só estabelecia distinções entre nós aos olhos do inimigo, quando tratava de nos enquadrar nas suas leis draconianas, características de um regime de exceção.

Então, a postura digna nunca será a de se desculpar com afirmações tipo "estava lá mas não fiz isso ou aquilo", mas sim a de proclamar que "estava lá e faria tudo que fosse necessário, porque nossa luta era justa e confrontávamos o despotismo mais hediondo".

É o mínimo que podemos fazer, pela nossa honra e por respeito aos companheiros que tombaram.
Por: Celso Lungaretti, jornalista, escritor e ex-preso político. http://naufrago-da-utopia.blogspot.com

"The Economist" - "Glória refletida: a musa do Lula (Lula's Lady) está na reta para herdar sua presidência" - Tradução exclusiva.

Ofereço aos leitores do blog tradução na íntegra, feita em exclusivo para o "Quem tem medo do Lula?" por minha mãe, Maria do Céu Ribeiro, professora de inglês há 35 anos, de uma matéria veiculada na edição desta semana da revista britânica "The Economist". Conhecida pela defesa de idéias neoliberais, a revista já enxerga o inegável: o Brasil está prestes a ver uma mulher, ex-guerrilheira, subir a rampa do Planalto e receber a faixa presidencial de um ex-metalúrgico. Enquanto isso, a revista assume também (e, para mim, esta é a melhor parte da matéria): "O problema não é a apresentação, embora o Sr. Serra pareça esquisito, a não ser quando sorri, pois aí parece assustador." Segue o texto completo.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Glória refletida: a musa do Lula está na reta para herdar sua presidência

Traduzido diretamente da revista "The Economist"

No papel, José Serra, do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB), o maior partido de oposição no Brasil, deveria ser capaz de ganhar a eleição presidencial marcada para 3 de Outubro, sem ter que suar. Ele ocupou muitas importantes posições políticas, numa longa e bem sucedida carreira: deputado, senador, ministro do planejamento e depois da saúde, prefeito e governador de São Paulo, a maior cidade brasileira e o estado mais poderoso. Ele é o oposto da novata: uma conselheira e burocrata, que era quase desconhecida alguns anos atrás, e que nunca precisou lutar sozinha por uma eleição, pela certeza de que ganharia.

Ao contrário, o Sr. Serra está lutando para permanecer na corrida. As pesquisas o apontam entre 5 a 10 pontos atrás de Dilma Rousseff, a candidata do governo federal e do Partido dos Trabalhadores (PT). O problema não é a apresentação, embora o Sr. Serra pareça esquisito, a não ser quando sorri, pois aí parece assustador. A Sra. Rousseff é pouco carismática e tem uma tendência a dar respostas de uma hora para perguntas de uma linha.

O problema do Sr. Serra é que a Sra. Rousseff é a consagrada sucessora de Luís Inácio Lula da Silva, o atual presidente. Quatro quintos dos brasileiros aprovam Lula, e quase metade dizem que, numa eleição presidencial, votariam ou nele (se a Constituição não o impedisse de concorrer a um terceiro mandato) ou no seu candidato. Desde que escolheu seu sucessor, Lula tem colocado Dilma Rousseff nas alturas (ela é “como Nelson Mandela”, chegou a dizer) e atravessou o país com ela a tiracolo. Agora a maioria dos brasileiros sabe quem é a candidata de Lula – e, crescentemente, eles pretendem votar nela.

No dia 05 de Agosto, o dia do primeiro debate pela televisão entre os candidatos, um instituto de pesquisa (Sensus) colocou a Sra. Rousseff com 41,6%, 10 pontos acima do Sr. Serra. Marina Silva, do Partido Verde, ficou num distante terceiro lugar, com 9%. Excluindo os votos inválidos, a Sra. Rousseff estaria perto de atingir a maioria necessária para evitar o 2º turno. Esta pesquisa pode ser pretensiosa, mas outros institutos também dão à Sra. Roussef uma posição crescente (ver gráfico).

A Sra. Rousseff parecia nervosa no debate, e lutou para dar suas respostas prontamente. O Sr. Serra se saiu melhor. Mas, uma vez que o debate foi marcado na mesma hora que uma importante partida de futebol, quase ninguém viu.

Mais preocupante para o Sr. Serra, o debate lhe mostrou as dificuldades que ele irá encarar para o resto da campanha. Provavelmente e acertadamente, o Sr. Serra percebeu que, atacando um presidente tão popular como Lula, não ganharia muitos votos. Ele discorda da Sra. Roussef em algumas coisas, tais como a política externa e o papel do estado na economia. Mas ele concorda com outras. Ele se sentiu obrigado a prometer que continuaria alguns dos programas de Lula, tais como o “Bolsa Família”, um privilégio para as famílias pobres. Enquanto isso, com a economia crescendo bastante, os brasileiros estão desfrutando da vida. “Sensação de bem-estar” entrou na língua portuguesa.

Mas, estável como está, serve melhor aos governistas do que a aventureiros. O slogan do Sr. Serra é “O Brasil pode mais” – exemplifica a dificuldade. Ele está lutando para tirar proveito de sua trajetória. Ele é melhor conhecido pelo seu papel nos governos de Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 2002, que, apesar de sólidas conquistas, são lembrados sem afeição pelos brasileiros.

“Para Dilma, é simples: persuadir as pessoas de que ela representa Lula”, diz Rubens Figueiredo, um consultor político de São Paulo. “Mas Serra tem que lembrar às pessoas de que Lula não é o candidato – e, de alguma forma, tem que fazer isso sem se opor, ou, preferencialmente, sem nem mesmo mencionar Lula”, completa.

A posição da Sra. Rousseff não está ainda inabalável. Se o Sr. Serra conseguir evitar a vitória dela no primeiro turno, pode ter chance no segundo.E, no Brasil, há sempre a possibilidade de um escândalo ou deslize.

Mas há ainda uns poucos votos a mais que a Sra. Roussef pode ganhar por ser a escolhida de Lula. Cerca de 8% dos eleitores ainda dizem aos pesquisadores que querem votar na candidata do presidente, mas não a mencionam pelo nome.

Ela, em breve, terá uma maior oportunidade de reforçar esta ligação. A partir de 17 de Agosto, a televisão brasileira e as estações de rádio terão de mostrar propaganda política gratuita, com mais tempo para os candidatos cujas alianças ocupam mais espaço no Congresso. Isso significa que a Sra. Rousseff terá mais de 10 minutos, três vezes na semana, enquanto o Sr. Serra terá que se virar com pouco mais de 7 minutos. Esta vantagem pode se tornar decisiva.


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Adotamos a Licença Creative Commons.

Os lobos que se vestem de Marina Silva


Quando Marina Silva acordar da viagem na maionese em que embarcou ao aceitar ser candidata à presidência pelo PV e perceber que este partido não tem nada de verde e, na verdade, suas tonalidades giram em torno do “marrom”… – talvez seja tarde demais para reparar os danos à sua biografia. A ex ministra de Lula, deslumbrada com a projeção nacional do nada absoluto que representa, ou seja a tal terceira via, terá a difícil e solitária tarefa de se reconstruir em outra realidade.

Honestamente: um povo que foi subjugado por uma elite escravagista durante séculos e vislumbrou uma luz no fim do túnel nos últimos 8 anos, precisa de uma de terceira via? Um cidadão que acabou de sair da miséria absoluta; outro que acabou de chegar ao mercado de consumo pela primeira vez; outro que recuperou a dignidade de estar empregado, colocar o alimento na mesa de sua família e ver os filhos frequentando a escola – vão considerar a hipótese de darem seu voto a um grupo de oportunistas pintados de verde a serviço das mesmas elites que sempre lhes negaram a cidadania?

A verdadeira terceira via é coisa de primeiro mundo, onde a miséria e a falta de oportunidades foram superadas há décadas. Aí então, couberam outras variantes, mais sofisticadas, em seus processos eleitorais. Mas no Brasil de hoje, só cabem duas variantes distintas: inclusão e cidadania ou exclusão e escravidão. E ser ecológico não é uma postura política ou partidária. É obrigação de todos: desde o gari até o presidente da república. Não precisamos de um partido político para termos consciência ecológica e buscarmos desenvolvimento sustentável.

A única via que interessa à esmagadora maioria da população brasileira é o emprego com carteira assinada, o direito à saúde e à educação. O resto é conversa pra boi dormir.

Os românticos eleitores de Marina e seu partido lembram os caras-pintadas que saíram às ruas para derrubar Collor há 18 anos. Acreditaram que, naquele momento, borrifavam perfumes florais e pintavam de rosa a política brasileira. Em 1994, ajudaram a eleger um sociólogo emplumado que se transformou, da noite para o dia, no economista salvador da Pátria ao posar para a capa da revista Veja exibindo a cédula mágica – o Real – em tom paternal. FHC prometia felicidade. Mas, durante os 8 anos de sua aventura irresponsável, tudo o que se viu foi o país ajoelhar-se diante do “Plano Real”, que na verdade foi imposto pelo FMI a todas as economias inflacionárias da América Latina. Descobriu-se que não era a moeda que faria milagres e sim a maneira como os governos a utilizariam. Com FHC – que tinha Serra como Ministro do Planejamento e que, aliás, também não é economista – resultou em recessão, desemprego, arrocho salarial, falência estrutural, moral e física de toda a nação brasileira. Já os economistas do governo Lula souberam usar a moeda corretamente, tiraram o Brasil da estagnação e o projetaram para tornar-se, ainda nesta década, a quinta economia mundial. Esta, aliás, é a verdade que a “jornaleira” Miriam Leitão foge de ver ao comentar economia, política e as diferenças entre os governos FHC e Lula.

Obviamente, como é da natureza do processo político, não há perfumes florais que escondam-lhe as impurezas. Então alguns cidadãos, privados de seus sonhos cor-de-rosa diante das alianças e apoios da candidatura Dilma, optam pela terceira via. Assim, empunhando sua indignação moral e vestindo a fantasia do “politicamente correto”, registram seu protesto contra a classe política dando seu voto justamente à candidata “verde” que é o instrumento enganoso mais escancarado dos lobos travestidos de cordeiros. Pois não passa disso o Partido Verde.

Por outro lado, a direita e sua mídia fiel sabem que sua única chance é um contra-ataque golpista. E este ataque só seria mortal no cenário de um segundo turno – quando não haveria tempo para qualquer reação. Um factoide escandaloso bem elaborado e bem repercutido pelo consórcio sincronizado da mídia pode ser a “bala de prata” que derrubaria Dilma, sem chances nem tempo hábil para sua defesa.

Um primeiro ensaio dessa tramóia foram as entrevistas dos três candidatos ao Jornal Nacional nesta semana. O jogo de cena do casal de âncoras, requentando o caso do suposto mensalão do PT de 2005, mostrou até onde estarão dispostas a ir as velhas ratazanas da direta que conspiram por baixo da mesa de William Bonner e Fátima Bernardes.

Basta lembrarmos de 1989, Color x Lula, quando o sequestro de Abílio Diniz na véspera das eleições foi atribuído a grupos armados ligados ao PT e a Globo passou o dia inteiro ao vivo especulando em torno disso até o encerramento das votações, quando desmentiu todos os boatos e Collor já estava eleito; ou de 2006, quando a imagem do suposto dinheiro do suposto dossiê “vazou” na capa da Folha de SP na véspera das eleições, levando Alckmin ao segundo turno. Duas verdades foram provadas naquele momento: a primeira foi a de que a mídia paulista tem a capacidade de manipular o eleitor mesmo contra a sua vontade. A segunda a de que Lula era tão forte e popular que mesmo assim, venceu Alckmin de forma espetacular.

Dilma é o governo Lula, mas não é Lula. Tem competência gerencial infinitamente maior que José Serra. Mas não tem a trajetória de Lula. José Serra, só tem uma coisa que, somada aos fiéis serviços do PIG, pode lhe bastar: é, há 30 anos, o garoto propaganda do boneco de si mesmo. É isso que os velhos caras pintadas, eleitores de Marina, precisam entender. Marina não é um projeto. E o projeto da extrema direita com Serra é qualquer coisa, menos vencer democraticamente.

Por tudo isso, a inocente e útil candidata “verde” e seus inocentes e úteis eleitores, podem causar a desconstrução de todos os avanços do governo Lula, subtraindo – por mero capricho – os votos que elegeriam Dilma já em 3 de outubro. Isso levaria as eleições a um segundo turno, palco de perigos imprevisíveis, vindos de uma minoria disposta a tudo para reaver o que considera seu por desígnios celestiais.

Portanto, é melhor que os “sensíveis” eleitores de Marina Silva saibam que, ao votarem nesta senhora – que não se elegerá a nada, não fará parte de nada e ainda haverá de ser cuspida pelo seu partido na próxima esquina como um caroço seco – estarão fazendo exatamente o jogo que a direita e as elites paulistas precisam para recolocarem o Brasil e seu povo na senzala dos EUA como serviçais da nobreza global.

A não ser que acredite que um eventual governo Serra dará continuidade ao que está “dando certo” e – tsk! – corrigirá o que “estiver errado”, a pergunta que o eleitor de Marina deve se fazer é a seguinte:

Voto em Marina porque não quero Dilma nem Serra? ou Voto em Marina porque Dilma já venceu? Qualquer que seja sua resposta, o fato é que estará dando seu voto a Serra. O que, convenhamos, é o oposto exato de ser ecológico.


Do Blog O que será que me dá? Do ótimo articulista Roni Chira.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O dia em que a GloboNews desnudou Serra e a oposição



"Serra é o genérico. O remédio de marca é a Dilma".

LOCARNO DÁ LEOPARDO A ALAIN TANNER


Rui Martins - do Festival de Locarno, Suíça

O Festival de Locarno reparou uma velha injustiça cometida pela sociedade suíça contra um de seus melhores cineastas – deu o Leopardo de Ouro a Alain Tanner, cujo primeiro longa-metragem tinha sido discretamente proibido na Suíça.

Um dos maiores cineastas suíços, Alain Tanner foi marginalizado e rejeitado durante algumas décadas dentro da Suíça por ser um homem politicamente de esquerda e por ter feito filmes que desagradavam o establishment suíço.

Essa rejeição teve sua recíproca por Alain Tanner, que obrigado a fazer alguns de seus filmes fora da Suíça, nunca escondeu sua aversão pela sociedade helvética. Só nos últimos anos, Tanner foi reconhecido pela sociedade suíça e o Festival de Cinema de Locarno acaba de lhe entregar um Leopardo de Ouro por sua obra. Mas é necessário se destacar que Locarno foi exceção na Suíça. Pois seu filme Charles mort ou vif tinha ganhado o Leopardo de Ouro em 1969.

Por uma coincidência da vida, conheci Alain Tanner há quase 40 anos, em Paris, logo no início de meu exílio. Passava pelo Quartier Latin, quando vi num dos seus pequenos cinemas, na rua de La Huchette, um simples aviso na porta – Cinema Suíço, hoje Charles mort ou vif, de Alain Tanner. Entrei a tempo de pegar o começo do filme.

Era agosto ou outubro de 1969, não me lembro exatamente, e Paris ainda vivia a atmosfera deixada pela revolta estudantil de 1968. O filme de Tanner tinha sido feito dentro do espírito contestador de maio-68 e mostrava a ruptura de um suíço com o sistema, internado a seguir numa clínica psiquiátrica por sua família inconformada. Charles mort ou vif foi a chave para eu entender a sociedade suíça, seu racismo latente que, em 1970, iria detonar o movimento A Suíça para os Suíço, do líder nacionalista de extrema-direita, anti-imigrantes, Schwarzenbach. Sua hipocrisia do segredo bancário, exploradora dos países pobres que seria contada em 76, no livro de Jean Ziegler, Uma Suíça Acima de qualquer Suspeita.

Terminado o filme, Alain Tanner, naquela época um jovem de 40 anos, explicou como tinha sido o movimento estudantil de 68 na Suíça e respondeu perguntas do curioso público ali reunido.

Ao contar a Alain Tanner essa minha experiência, neste festival de Locarno, ele revelou um fato que me era desconhecido. O filme Charles mort ou vif, considerado por mim uma autêntica obra-prima do cinema, tinha sido praticamente proibido de exibição na Suíça mesmo sem uma declaração oficial a respeito. Tanto que, para ser exibido, foi preciso seus produtores e ele próprio entrarem com um processo contra os distribuidores suíços que, reunidos em cartel, tinham bloqueado seu filme.

Para se ter uma idéia dessa rejeição, é como se o Pagador de Promessas, de Glauber Rocha, tivesse sido proibido de passar no Brasil na época da ditadura, coisa que os militares não ousaram fazer. Mas a Suíça tranquilamente fez e ousou com Tanner. E Charles mort ou vif só foi exibido discretamente na Suíça, nos anos 80. Era o troco dos banqueiros e donos do poder suíço ao Tanner marxista, que se suspeitava pertencer ao partido comunista em plena guerra-fria.

INCESTO E RETORNO AO CRIACIONISMO EM LOCARNO


Clonagem e incesto apimentam o filme Womb, no festival de Locarno, mexendo em genética e provocando controvérsia.

Para os fundamentalistas religiosos, ardorosos defensores da teoria criacionista do casal Adão e Eva, para explicar o surgimento da espécie humana, desde os evangélicos ortodoxos aos judeus talmúdicos e árabes islamitas, a pergunta mais difícil de responder é com quem se casavam, para não se dizer transavam, os filhos do legendário casal?

Ora, supondo-se terem sido Adão e Eva o pai e mãe da humanidade, também fazem parte do criacionismo dois tabus atuais para as religiões – o clonagem e o incesto. Mesmo se Eva não é uma cópia de Adão, teria havido clonagem, pois a Bíblia fala que depois de ter criado Adão com o barro, Deus teria criado a mulher de uma costela de Adão.

E o fato dos filhos e filhas se casarem entre si, sem se omitir a possibilidade de Adão ter filhas ou netas amantes assim como Eva teria filhos e netos amantes, mostra que no princípio do mundo bíblico, o incesto era coisa comum, sem se esquecer das filhas de Lot que, após a destruição de Sodoma e Gomorra e a transformação da esposa de Lot em estátua de sal, tiveram de « dormir » com o pai para assegurarem descendência.

O cineasta húngaro Benedek Fliegauf dirigiu a coprodução germano-húngaro-francesa Womb, um estranho filme rodado na Frísia, na Alemanha do norte, próxima da Dinamarca, onde vive uma mãe isolada do mundo com seu filho. A história é uma ruptura dos tabus do clonagem e do incesto, com belas imagens mesmo se a economia de diálogos cria insatisfação.

É uma história de amor entre duas crianças, Rebecca e Thommy, interrompida pela mudança dos pais de Rebecca para o Japão. Cerca de doze anos depois, Rebecca vai ao encontro de Thommy, mas ele morre logo depois num acidente, quando ambos tinham transformado o amor infantil em adulto e se preparavam para o futuro.

Inconformada com a perda, Rebecca consegue se engravidar de seu namorado por clonagem e para evitar preconceitos se isola num litoral deserto, onde vive quase exclusivamente para seu filho, que cresce igual ao seu namorado do passado.

E, ao chegar aos vinte anos, o inesperado ou esperado acontece – Rebecca se apaixona pelo filho e, talvez movido por uma memória genética, Thommy 2 também se sente atraído pela mãe como se fora a namorada do passado. E transam. Porém, ele um jovem de 20 anos, diante do risco de se tornar amante da mãe de mais de 40 anos, decide partir. Sentada diante da praia e acariciando seu ventre de grávida, Rebecca está grávida do próprio filho.

O tema do filho que dorme com a mãe tinha também sido usado num de seus filmes pelo cineasta francês Louis Malle. E já foi tema de tragédia grega.

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Rui Martins é ex-correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. Autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criou os Brasileirinhos Apátridas e propõe o Estado dos Emigrantes. Vive na Suíça, colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, é colunista do site Direto da Redação. Colabora com o Correio do Brasil , com a Agência Assaz Atroz e com este "Quem tem medo do Lula?".

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons
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PressAA

Agência Assaz Atroz

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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Jefferson e Estadão: “JN ajudou Serra”


Do blog Escrevinhador

Não é nenhum blogueiro que afirma. É o analista (e bom jornalista) do “Estadão”, João Bosco Rabello, quem analisa a forma como Bonner e Fatima trataram Serra na sabatina do “JN”:

“Foi o candidato que passou menos tensão (…) Teve espaço para desenvolver sua gestão e suas ideias na saúde e foi contemplado pelos apresentadores com o bônus de discorrer sobre as vantagens de um sistema de pedágio que premia os resultados das rodovias estaduais. Não foi pressionado nos temas mais delicados. Foi mais fácil para ele que para seus antecessores os 12 minutos na bancada do Jornal Nacional.”

E não é nenhum deputado do PT que reforça, mas o Roberto Jefferson, hoje aliado de Serra:

“William Bonner e Fátima Bernardes facilitaram para o meu candidato. Foram mais amenos com ele.”

Preciso dizer algo mais?

Preciso.

Como já afirmei aqui, a blogosfera talvez tenha força para oferecer um contraponto à velha mídia impressa. Mas a Globo, sozinha, ainda faz estrago. Por hora, vai agir como na sabatina dos candidatos. Finge que trata todo mundo igual, mas vai empurrando Serra.

Ah, mas a maioria percebe que Serra foi favorecido. Quem percebe essas sutilezas é o povo que acompanha política. O povão dos rincões, da periferia, fica com a imagem geral: Serra pareceu mais calmo que Dilma. Pouco importa o que ele disse. A imagem final foi levemente favorável a ele.

Ah, mas Dilma foi maltratada e mesmo assim manteve-se relativamente centrada. Ótimo. Mas para o povão isso não é mais que obrigação.

A tática é dar a ele a chance de chegar à reta final com cerca de 30% dos votos. O “DataFolha” também deve colaborar para isso. Vocês verão a próxima pesquisa… Anotem aí.

Mantendo Serra nesse patamar, e desde que Marina e Plinio fiquem com cerca de 10%, Dilma deve se manter em algo em torno de 45% dos votos.

Se ficar assim, Serra tem chance de forçar um segundo turno. (Dilma 45% x 40% para outros candidatos). E, aí, vocês verão do que a Globo é capaz: ´mudar 3% a 5% dos votos na reta final, é o que basta.

O Lula pode receber o Marinho (não sei qual deles, João, Roberto, José?) no Palácio. A Dilma pode fazer pose de boazinha. Do outro lado, os pitbulls estão prontos para atacar. Não precisam assumir o ônus de uma campanha aberta pró-Serra. Pra isso, há a “Veja”. Basta à Globo, na última semana antes do primeiro turno, “repercutir” alguma denúncia pesada contra Dilma.

Uma semana de repercussão, dez minutos por dia no JN. A Globo já não fala sozinha como há vinte anos. Ok. Mas o JN ainda tem o triplo de audiência do segundo jornal mais visto durante a noite.

Acreditem: faz efeito. Talvez, a Globo já não ganhe eleição. Mas pode empurrar pro segundo turno, como em 2006.

Para contrapor a força (não menosprezem essa força) da Globo, só há um elemento: Lula. Ele vai comprar a briga de frente? Vai dizer, olho no olho do eleitor durante o horário político, que a televisão mais poderosa do país favorece um candidato – por isso o eleitor precisa ter um pé atrás com o noticiário?

Não sei. Não tem sido o estilo de Lula.

Mas é preciso disseminar desde agora essa idéia – de resto, absolutamente verdadeira – de que a Globo tem lado. Não adianta dizer isso na reta final. Aí, será tarde. E a Globo já estará “repercutindo” as denúncias da “Veja” e da “Folha” – sob a coordenação de Ratzinger, o príncipe das sombras do jornalismo global.

À pupila, com carinho: a renomada economista Maria da Conceição Tavares, ex-professora de Serra e Dilma, declara voto na petista



Lembrando ainda que Serra se diz formado, mas ninguém sabe onde anda o diploma...

De mulheres e de morte

De mulheres e de morte

Espantoso é que ainda haja quem defenda o agressor. Eliza, cujo corpo ainda não foi encontrado, ganhou pecha de “Maria Chuteira”. Maristela foi taxada de adúltera, e o marido já era ex, há dois anos. São inesquecíveis as palavras do sogro, criminalista de renome: "se não matasse, não comia na minha mesa".

Por Sulamita Esteliam (*)

No aniversário de quatro anos da sanção da Lei Maria da Penha, dia 06 de agosto, Pernambuco e sua capital, Recife, registram queda nos índices de violência doméstica letal contra a mulher. São ligeiros os recuos, mas, num país onde se mata uma mulher a cada duas horas, segundo pesquisa recentemente divulgada pelo Instituto Sangari, de Brasília, qualquer redução é avanço. Afinal, é de vidas que se trata. Nesta contagem, o “Leão do Norte” figura em 5º lugar, com taxa de 6,5 em 100 mil e a capital pernambucana em 40º, com 10,6 dentre os municípios com mais de 10 mil mulheres. Pelo critério, Alto Alegre, em Roraima, é o mais violento, com índice de 22,0. A média nacional é de 4,2. O levantamento foi realizado com base nos dados do SIM – Sistema de Informações de Mortalidade, do Ministério da Saúde. De 2003 a 2007, foram assassinadas, em média, 4 mil mulheres por ano, num total de 19.440 no quinquênio. Agregados os cinco anos anteriores, a matança atinge 41.532 mulheres.

Como se vê, os números do recorte de gênero feminino no Mapa da Violência 2010, do Instituto Sangari, são assustadores. Apontam o Espírito Santo e Vitória como estado e capital mais violentos para com a mulher, no período 2003/2007. A média de homicídios femininos naquelas hostes é de, respectivamente, 10,3 e 13,3 em 100 mil. Quando a classificação leva em conta as capitais, Recife, está na segunda posição. Em terceiro, vem Belo Horizonte, a cidade cordial, com 7,8. Aracaju, João Pessoa, Rio de Janeiro e Porto Alegre ocupam as posições subsequentes, com o mesmo índice: 5,4 em 100 mil. Brasília está em 9º lugar, com 4,9 e São Paulo vem em 10º, com 4,7. O cálculo, obviamente, é proporcional à população-alvo.

O mapa falha, todavia, quando não apresenta o quesito raça, nos homicídios femininos, como faz com as taxas globais e de assassinatos dentre os jovens. Se o fizesse, muito provavelmente, concluiria que boa parte das vítimas é negra, além de pobre, e suas mortes não viram manchetes de jornal.

Cerca de 40% das mulheres assassinadas estão na faixa etária de 18 a 30 anos. Jovens como a paranaense Eliza Samúdio, que segundo apurou a polícia, foi sequestrada no Rio de Janeiro, levada para Minas Gerais, onde teria sido estrangulada, esquartejada e seus restos jogados aos cães, num sítio nas proximidades de Beagá. O caso ganhou notoriedade, não pela barbaridade do crime, ou não só. Mas, principalmente, porque o mandante teria sido o goleiro Bruno, do Flamengo, com quem Eliza teve um caso - e que seria o pai do filho ainda bebê, a quem ele se recusa a dar o nome. Bastava um simples exame de DNA para dirimir dúvidas e querelas.

As crianças, destaque-se, assistem às agressões. É o que dizem 68% dos casos relatados ao 180, número do disque-denúncia da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres. Não raro, 15%, são também alvos da violência. A exemplo do casal de filhos de Maristela Just, a pernambucana de 25 anos assassinada com cinco tiros pelo marido, no bairro de Candeias, Jaboatão dos Guararapes. Sobrou bala e sequelas – físicas e psicológicas - para a menina, de cinco anos, e o menino, de dois anos e meio. Adultos, ambos foram testemunhas-chave no julgamento do pai, 21 anos depois do crime, em junho último.

Bruno e alguns de seus cúmplices estão presos, preventivamente, enquanto aguardam julgamento. José Ramos Lopes Neto foi condenado a mais de 90 anos de cadeia, por homicídio qualificado, mais tentativa de parricídio. À revelia, pois nem o assassino confesso nem o advogado compareceram à sessão, pela segunda vez, em menos de dois meses. Continua foragido. A diferença entre os dois casos não está nas circunstâncias. Nem tampouco se deve ao tempo decorrido entre um e outro episódio. A diferença é a Lei Maria da Penha. É ela que dá instrumentos para enfrentar a impunidade, ao prever rigor no trato desse tipo de violência, mesmo quando não desagua em morte.

Faltam estudos que tracem o perfil do agressor. Sabe-se, contudo, que assim como o homem que reprime, oprime e/ou espanca, o assassino é, quase sempre, velho conhecido: marido, namorado, ex-companheiro ou parente; por isso, violência doméstica. Em geral, o homem rejeitado, ou amado, por ela ou de quem teve a desventura de parir descendente. O motivo pode ser nenhum - se é que possa haver razão ou cultura que justifique a desumanidade. Seguramente envolve machismo, baixa autoestima, sentimento de posse ou misogenia - desprezo pelas mulheres. Travestidos em macheza e arroubos de valentia. A palavra talvez seja desamor. Covardia, com certeza.

Espantoso é que ainda haja quem defenda o agressor. Eliza, cujo corpo ainda não foi encontrado, ganhou pecha de “Maria Chuteira”. Maristela foi taxada de adúltera, e o marido já era ex, há dois anos. São inesquecíveis as palavras do sogro, avô dos filhos que ela gerou com o homem que se transformou em seu inimigo fatal. Criminalista de renome, às vésperas do júri popular - que seu conhecimento das artimanhas jurídicas conseguiu protelar por duas décadas -, não se furtou em pregar, nas páginas dos jornais e ondas de rádios: “Se não matasse, não comia na minha mesa”. A OAB-PE o está processando por apologia ao crime.

Talvez o tal senhor não tenha atentado para o sinal dos tempos. De fato, homens com pensamento semelhante continuam na contramão. E os dados do Mapa da Violência 2010, são prova disso. O mesmo Pernambuco que se esforça para fazer valer seu Pacto pela Vida, programa do governo estadual para redução da violência, ainda está muito longe de poder comemorar vitórias, tanto no geral quanto no particular. No que diz respeito ao sexo feminino, que ora é a nossa pauta, a situação continua grave, sim: até o dia 4 de julho, por exemplo – as estatísticas oficiais não acompanham ritmo e frequência das mortes – 121 mulheres e meninas haviam sido assassinadas.

Entretanto, o Departamento de Polícia da Mulher, da Secretaria de Defesa Social no estado, garante que os números se mantém decrescentes, sobretudo no último ano. Um dos motivos, reconhece, é a força da Lei Maria da Penha, que obrigou o Estado a se estruturar para tirá-la do papel. O outro é o vigor dos movimentos de mulheres, um dos mais organizados e criativos do país. Passeatas e apitaços para cobrar providências das autoridades e sacudir a leniência da sociedade, fazem parte da paisagem da “Veneza Brasileira”. Unem militantes feministas e políticas, intelectuais e mulheres de terreiro, artistas e lideranças populares. As performances das Loucas da Pedra Lilás, por exemplo, grupo de teatro de rua que denuncia a violência sexista no Recife, agregam arte à repercussão do drama.

No concreto, a busca de mais agilidade no atendimento começa na descentralização e interiorização das delegacias e centros de referências de mulheres. Já são sete o número de Delegacias de Polícia de Prevenção e Repressão de Crimes contra a Mulher – Recife, Jaboatão dos Guararapes, Paulista e Ipojuca, na área metropolitana; Caruaru, no Agreste, Petrolina e Surubim, no Sertão. Há previsão de mais seis em diferentes regiões do estado. E há uma Delegacia de Polícia de Plantão para Crimes contra a Mulher, que funciona com quatro turmas, em regime de 24 horas, na capital.

O trabalho ganha efetividade na adoção de medidas protetivas para garantir a integridade física e moral das vítimas potenciais, asseguram os responsáveis. O afastamento imediato da mulher de sua casa, quando ela sofre violência no seu convívio familiar é uma das práticas-padrão. A outra é o encaminhamento do pedido ao Judiciário, em 48 horas, impreterivelmente. Segundo a delegada Lenise Valentim, gestora do Departamento de Polícia da Mulher foram expedidas mais de 4 mil medidas protetivas nos últimos quatro anos, e efetuadas algumas prisões de agressores que as desrespeitaram.

O esforço no combate à violência, explica Lenise Valentim, passa pela capacitação dos agentes da lei para receber e atender bem a mulher agredida, e tomar as providências necessárias para se evitar o mal maior. O foco, entretanto, é a prevenção, através de campanhas educativas de mulheres e homens, num trabalho conjunto de governo e sociedade, de todos e de cada um. Nas palavras da delegada Valentim: “É preciso conversar com o homem, porque é ele quem bate, é ele quem mata. Convocar os homens a serem machos de verdade”.

(*) Sulamita Esteliam é jornalista e escritora. Autora dos livros Estação Ferrugem, romance-reportagem que resgata a história da região operária de Belo Horizonte-Contagem, Vozes, 1998; Em Nome da Filha – A História de Mônica e Gercina, sobre violência contra mulher em Pernambuco; e o infantil Para que Serve Um Irmão, os dois últimos ainda inéditos. Apresenta, nas manhãs de sábado, o programa Violência Zero pela Rádio Olinda AM – 1030. Colabora com o blog "Quem tem medo do Lula?".

A HISTÓRIA REAL DO BRASIL

A HISTÓRIA REAL DO BRASIL


Laerte Braga


Em pleno funcionamento do Congresso Nacional Constituinte (não tivemos Assembléia Nacional Constituinte) e ainda sob a tutela de setores das forças armadas, pior, sendo presidente da República José Sarney (aliado incondicional da ditadura militar), o trêfego Pimenta da Veiga, deputado eleito pelo PMDB de Minas, buscava assinaturas para propor emenda ao anteprojeto de Constituição que determinava a liberação de documentos secretos do governo federal após vinte e cinco anos e em casos extremos, após cinqüenta anos, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos.

Um dos deputados procurados por Pimenta da Veiga foi Amaral Neto, oriundo do lacerdismo e figura fundamental para a ditadura em seus primeiros momentos. A resposta do deputado carioca foi fulminante – “você está louco, quer por fogo no Brasil?”

Pimenta da Veiga, bem ao seu estilo tucano (é anterior à fundação do PSDB) respondeu que aquilo não era para valer, era apenas para fazer média com seu eleitorado.

Não prosperou como era fácil de prever. E Amaral Neto não assinou.

A candidatura do general Ernesto Geisel à presidência da República em 1974 foi imposta por seu irmão, Orlando Geisel, todo poderoso ministro do Exército, do famigerado governo de Garrastazu Medice.

Geisel fora chefe do Gabinete Militar de Tancredo Neves, no breve período parlamentarista no governo de João Goulart, historicamente era ligado ao marechal Lott – falo de Ernesto – e tido como militar anti-americano entre seus pares. Escapou do processo de degola nas forças armadas após o golpe de 1964 por conta de dois fatores. O primeiro deles Castelo Branco. Foi o presidente que abriu a temporada de barbárie e era amigo íntimo do Geisel que viria a ser o futuro presidente. Segundo, seu próprio irmão, Orlando.

De qualquer forma foi jogado em escaninhos das forças armadas. Primeiro na PETROBRAS e em seguida no STM (Superior Tribunal Militar), uma espécie de velório para militares incômodos ou então prêmio para amigos dos donos do poder.

O principal mentor político de Geisel, ou oráculo do ex-presidente, era Tancredo Neves, então deputado federal do PMDB. E foi de Geisel que partiram as primeiras articulações dentro das forças armadas para levar Tancredo a ser o primeiro presidente civil no pós ditadura.

Entre o golpe de 1964 e sua candidatura presidencial Ernesto Geisel dedicou-se ao exercício de não falar nada, entrar na muda como dizem em Minas, para evitar ser estraçalhado pela chamada linha dura – extrema direita – do Exército brasileiro.

A própria escolha de Garrastazu Medice se deu após o golpe dentro do golpe em 1968, com a incapacidade do presidente Costa e Silva, num processo eleitoral interno, dentro das forças armadas. Disputou a indicação e venceu o general Afonso de Albuquerque Lima, que acabou ministro do Interior.

Medice era o preferido dos grupos de repressão e as eleições nos quartéis quase que repetiram o sistema de votação anterior à revolução de 1930. Voto aberto e sob vigilância dos setores que detinham os comandos. Era uma época em que a tal hierarquia se fundava na maior vocação para a barbárie. Vale dizer que em determinados momentos sargentos mandavam mais que majores, capitães, por aí afora.

Contava o número de escalpos de presos políticos torturados, presas estupradas, assassinatos, o de sempre em regimes dessa natureza e com essa característica.

Sem julgamento de mérito, Ernesto Geisel equilibrou-se entre concessões à linha dura e atitudes como a mandar Delfim Neto para ser embaixador em Paris, numa espécie de exílio dourado, mas longe do Brasil, conhecida a extraordinária capacidade do ex todo poderoso ministro para articulações de bastidores (fofocas para ser mais direto).

A cada passo numa direção Geisel dava outro noutra direção.

O assassinato de Wladimir Herzog foi um desafio à determinação do general presidente de colocar um fim à tortura. Mas só conseguiu demitir o comandante do antigo II Exército, com a segunda morte, a do operário Manuel Fial Filho. Geisel, dentro de seu Ministério, tinha um adversário, Sílvio Frota, ministro do Exército e ligado à linha dura.

A vitória final de Geisel só veio quando da indicação do general João Baptista de Oliveira Figueiredo para seu sucessor. Com apoio do chefe do Gabinete Militar Hugo de Andrade Abreu o presidente deu um contra golpe às manobras de Sílvio Frota. O ministro pretendia ser ele o indicado para concorrer à sucessão presidencial.

A rigor, Frota, que tinha como certo o apoio da maioria da tropa, foi pego de surpresa e praticamente ficou detido no chamado Forte Apache – Brasília – enquanto Hugo Abreu anulava suas forças principalmente dentro do Exército.

O golpe militar de 1964 promoveu o maior expurgo na história das forças armadas brasileiras. Mais de dois mil e quinhentos oficiais, suboficiais e sargentos foram reformados ou demitidos, muitos deles presos e assassinados, caso do capitão Lamarca e do major Cerveira, por exemplo. Ou do brigadeiro Rui Moreira Lima, de larga tradição legalista dentro da força aérea, vivo até hoje e exemplo de brasilidade em todos os sentidos.

O próprio Eduardo Gomes, fundador e patrono da Aeronáutica brasileira foi colocado numa geladeira ao dar apoio ao capitão Sérgio Macaco punido por ter denunciado o plano terrorista do brigadeiro Burnier. Esse queria explodir o gasômetro no Rio de Janeiro e colocar a culpa do atentado nos comunistas, aumentando o tom da repressão. Anulando os chamados setores moderados do golpe.

Há dúvidas sobre as circunstâncias da morte de Castelo Branco, como resta como última tentativa visível de sobrevivência das forças de extrema direita, o fracassado atentado do Rio Centro, no Rio, durante um show de música popular brasileira. No governo Figueiredo. A bomba explodiu no colo de um sargento que estava a bordo de um karmanghia com um capitão, ambos encarregados do atentado. Os culpados seriam os comunistas.

O sargento morreu e o capitão terminou coronel. Valeu a saída de Golbery do Couto e Silva, ligado a Geisel e que defendeu a punição dos culpados com inquérito público.
O processo democrático, numa boa medida, implica em reconstrução das forças armadas brasileiras. A imensa maioria dos chefes militares continua batendo continência para a bandeira e os interesses dos Estados Unidos e enxergando a presença de comunistas debaixo de cada cama de cada brasileiro.

Não há um compromisso explícito dos militares brasileiros com o País, mas com empresas multinacionais, latifúndio e a política imperialista dos EUA. Vivem ainda na pré-história, no tempo da guerra fria.

Uma das atitudes de Geisel quando presidente foi romper o acordo militar Brasil – EUA. Uma das concessões mais perigosas do governo Lula na sua política de uma no cravo e outra na ferradura foi o de reatar esse acordo.

Outra atitude de Geisel foi fortalecer a IMBEL (INDÚSTRIA BRASILEIRA DE MATERIAL BÉLICO) e a ENGESA (ENGENHEIROS ESPECIALIZADOS S/A). Num dado momento os veículos militares brasileiros, produzidos por essas empresas estatais, OSÓRIO e URUTU se mostraram superiores aos produzidos pela indústria bélica dos EUA, da França, da Grã Bretanha, da Bélgica e ganharam mundo afora sobretudo países árabes como a Líbia e o Iraque.

A EMBRAER, ainda estatal, começou a desenvolver em parceria com setores da construção aeronáutica da Itália, um projeto de caça bombardeio com tecnologia brasileira e italiana.

Quando citei acima a questão dos documentos secretos tinha em mente a história até agora secreta, das pressões e ações (de guerra inclusive) do governo dos EUA, contra a exportação de equipamentos bélicos produzidos por empresas estatais brasileiras para outros países.

O sucateamento da ENGESA e da IMBEL começou no governo Figueiredo e foi acentuado nos seus sucessores civis. A EMBRAER estatal, capaz de colocar a indústria aeronáutica brasileira entre as melhores do mundo, foi privatizada no governo de FHC.

Nada por acaso, tudo deliberado em Washington. Militares e governos subordinados aos interesses norte-americanos.

É recente a decisão do governo do ex-presidente Bush de vetar a venda de aviões de treinamento tucano da EMBRAER para a Venezuela. Por deterem tecnologia norte-americana em determinados componentes e pela participação acionária de grupos dos EUA.

Essas concessões, perigosas e que ferem a nossa soberania, plenas a absolutas no governo de FHC, cederam, por exemplo, no primeiro escândalo daquele governo (por si só um escândalo), o controle da Amazônia, no projeto SIVAM – SISTEMA DE VIGILÂNCIA DA AMAZÔNIA –, operado por uma “empresa” dos EUA e militares brasileiros, ou supostamente brasileiros.

FHC só não cedeu a base de Alcântara, no Maranhão, por força da pressão popular e da reação de setores nacionalistas das forças armadas.

A hipótese da eleição do candidato José Arruda Serra abre a possibilidade tão sonhada pelos norte-americanos no campo militar. Bases no Brasil. Na Amazônia, no Nordeste e no Sul.

Várias tentativas já foram feitas e refugadas.

Como dizia Nixon, “para onde se inclinar o Brasil, vai se inclinar a América Latina”, logo, é fundamental ter o controle do Brasil.

Num momento em que os EUA assumem o controle de praticamente todo o mundo a partir de uma “uma embriaguês pelo poder militar” (definição de Hans Blinx, inspetor da ONU no Iraque à época que precedeu a invasão - 2003 – e constatou a mentira das armas químicas e biológicas) o Brasil ganha contornos vitais para a política capitalista e imperialista norte-americana.

A presença de governos independentes e com projetos de integração latino-americana como o da Venezuela, da Bolívia, da Nicarágua, Cuba, a própria Argentina e o Brasil noutra dimensão – uma no cravo outra na ferradura – ou o “capitalismo a brasileira” como bem definiu Ivan Pinheiro, secretário geral do PCB – Partido Comunista Brasileiro – e candidato à presidente da República, transforma o processo eleitoral brasileiro num jogo decisivo para as políticas norte-americanas.

Lula reativou o acordo militar com os EUA e com isso abriu espaços para os militares que vestem fardas brasileiras e pensam e prestam obediência a Washington e em seus quase oito anos, não foi capaz de resolver o problema de novos caças bombardeios para a FAB – FORÇA AÉREA BRASILEIRA -, tamanhas as pressões dos EUA, tanto quanto, retardou a construção de submarinos nucleares, indispensáveis à nossa soberania. A compra de dois desses submarinos à França foi paliativo, temos tecnologia nacional para construir essas belonaves.

Se uma no cravo e outra na ferradura é uma forma de buscar avanços compensatórios em outros setores, é algo a se discutir. As concessões muitas vezes, ou todas as vezes, são maiores que os ganhos. A própria política de alianças é complicada quando se tem setores do latifúndio próximos do governo.

O agronegócio é uma das formas de dominação econômica e estratégica. Está todo ele em mãos estrangeiras. Cria um nível de dependência absoluto na agricultura.

É claro que retrocesso é José Arruda Serra. Não significa que Dilma Roussef seja avanço lato senso. Significa que uma volta aos tempos de FHC liquida qualquer perspectiva a curto e médio prazo de nos transformamos numa potência livre, soberana e justa em todos os sentidos.

E isso, como disseram Ivan Pinheiro em entrevista a RECORDNEWS e Plínio de Arruda Sampaio no debate da BANDEIRANTES, vai depender basicamente dos movimentos populares. Da formação e organização. São a força motriz da real independência do Brasil.

Se não temos bases militares dos EUA no Brasil, temos boa parte de nossas forças armadas colonizadas e subordinadas aos EUA.

E o maior de todos os desafios em tempos atuais. O da Comunicação. A grande mídia em nosso País é tudo menos brasileira. Controlada por grupos econômicos estrangeiros, submissa a interesses de potências outras. Concentrada em poucas mãos, poucas famílias (mafiosas), tenta moldar o pensamento do brasileiro de tal forma que num dado momento, por exemplo, saci pererê some para dar lugar ao haloween. Nossas escolas, tanto privadas como públicas, já incorporaram essa data ao seu calendário. É só um exemplo.

A história real do Brasil precisa ser conhecida. Precisa ser pública. E um desafio, dentre tantos para o próximo governo, o Poder Legislativo, é acabar com os segredos de Estado.

Exibir a barbárie nua e crua da ditadura militar que hoje permite a torturadores como Torres de Melo se arvorarem em patriotas defensores da honra nacional. Mas pior que ele, pau mandado, na junção de grandes empresas, latifúndio, banqueiros e boa parte das nossas forças armadas, transformados em uma realidade de espetáculo, alienar o cidadão comum, as classes médias (come arroz e feijão e arrota maionese e está sempre pronta a dizer sim senhor), impedir que o movimento popular ganhe força, criminalizando-o (a recente CPI do MST não encontrou nenhuma irregularidade no uso de financiamentos para agricultores e a GLOBO sequer tocou no assunto), enfim, uma espécie de FANTÁSTICO SHOW DA VIDA, onde o principal problema do Brasil é o goleiro do Flamengo, Bruno.

Não se trata só de abrir os baús da ditadura. Mostrar a face real dos governos militares. Mas colocar a nu também os que hoje se escondem sob o manto da democracia e conspiram para que sejamos apenas um sonho emasculado em colônia do capitalismo selvagem dos norte-americanos e tudo o que representam.

Gente padrão Jarbas Vasconcelos, Roberto Freire, Alberto Goldman, etc, etc.

Aviões militares fabricados por Israel estão, dois deles, na região de Santa Cruz do Sul, com presença de técnicos de Israel, fazendo demonstrações de vôos não tripulados e podem vir a se incorporar a FAB.

São vinte toneladas de equipamentos no aeroporto Luís Beck da Silva. São dois “HERMES 450” fabricados pela empresa israelense ELBIT SYSTEMS e perto de quarenta homens acompanham os exercícios da Base Aérea de Santa Maria, entre eles representantes da empresa fabricante e seus credenciados no Brasil, a AEROELETRÔNICA.

Esses aviões são usados no Oriente Médio para monitorar o povo palestino, despejar bombas, monitorar o sul do Líbano e a eventualidade de uso deles pelo Brasil implica em dependência tecnológica – não há transferência de tecnologia para o Brasil -, naquilo que somos capazes de fazer.

Segundo o tenente coronel Paulo Ricardo Laux, gerente do grupo de trabalho os aviões vão se exibir até o dia vinte de agosto.

Por coincidência ou não, a grande colônia palestina no Brasil está naquela região, no Sul do País. Onde Bush queria colocar uma base para controlar o “terrorismo”. E também o Aquífero Guarani, a quinta maior reserva de água subterrânea do mundo.

É hora de encarar o desafio de expor as histórias secretas que são, na verdade, as histórias reais dos que controlam o Brasil e querem-no colônia de interesses estrangeiros. E de enfrentar o desafio da Comunicação. Romper a barreira imposta pela grande mídia corrupta, venal e dominada igualmente por esses mesmos grupos.

AS ENTREVISTAS, OS DEBATES, SENHORAS E SENHORES HOJE TEM ESPETÁCULO

AS ENTREVISTAS, OS DEBATES, SENHORAS E SENHORES HOJE TEM ESPETÁCULO


Por Laerte Braga(*)


Eu tenho a sensação que quando William Bonner acorda deve fazê-lo imaginando quem um coro celestial desceu dos céus para despertá-lo e a partir daí dar início à missão diária de iluminar o mundo.

Deve ir ao twitter e colocar a clássica pergunta, ansiosamente desejada pelos mortais comuns, “quem quer bom dia?” Acredita, lógico, que isso soa como bênção de um papa aos fiéis na Praça de São Pedro. No caso, chega via computador e telinhas.

Marcelo Rossi, Fábio Melo, Edir Macedo, o cara que escapou dos tubarões e hoje cura AIDS, todas as doenças existentes ou que virão a existir por mandato divino, nada disso se compara a Bonner na pista do aeroporto de Congonhas –devidamente vacinado para não morder a equipe – esbravejando em tom patético e dramático, que faltam ranhuras na pista.

As entrevistas com os candidatos Dilma Roussef, Marina da Silva e José Arruda Serra, além da que vai ao ar hoje, quinta-feira, dia 12, com Plínio de Arruda Sampaio são pauta do show.

No Brasil, o principal oráculo do deus mercado é a GLOBO e Bonner é quem dá a sentença. Fátima Bernardes é como uma assistente de mágico de circo, fica segurando o casaco brilhante e ao final estende a mão para sugerir os aplausos.

Bonner tentou de todas as formas colocar a candidata Dilma Roussef contra as cordas. Desqualificar a candidatura Marina da Silva (sem necessidade, a própria candidata se desqualifica) e por pouco não convocou os anjos que o assessoram para ungir a candidatura de José Arruda Serra.

É o supremo sacerdote da comunicação no Brasil.

Pelo que sei, a não ser que haja mudança de última hora, a entrevista de Plínio de Arruda Sampaio não será ao vivo, no estúdio do JORNAL DA MENTIRA, o que chamam de JORNAL NACIONAL, mas gravada em São Paulo, ou no estúdio de São Paulo.

Plínio não tem compromisso que esse culto à rede GLOBO. Pelo contrário.

Nem vai ajoelhar-se ao entrar no PROJAC e rezar o Pai Nosso versão Roberto Marinho.

Como não o fariam Ivan Pinheiro e José Maria, respectivamente candidatos do PCB e do PSTU ignorados pela corte celestial global (até rimou).

Nas três entrevistas – Dilma, Marina e Arruda Serra – faltou a orquestra. É possível que no debate entre os candidatos um desses homens foguete venha direto de Washington e suba em direção aos céus para desfraldar uma faixa, “nós podemos mais”.

Quem? A GLOBO, ou o marionete tucano que atende pelo nome de José Arruda Serra?

Desde a aprovação da lei Adauto Lúcio Cardoso, em 1958 e até 1974, quando a ditadura introduziu o modelo santinho, candidato mudo, o debate se dava nos horários reservados aos partidos e ao vivo.

Da drástica mudança feita pelo general Geisel e a perspectiva de derrota avassaladora em 1978 para a ditadura (como aconteceu em 1974) chegamos ao ápice no estilo show das eleições, espetáculo das eleições.

Quem tira mancha melhor.

Vai chegar um dia que o voto vai ser dispensado. Vão fazer uma edição especial do programa de Fausto Silva, formar um júri, sortear provas especiais para os candidatos, tipo dança com um trabalhador, dança com um camponês, plantar uma árvore, coisas assim e o júri, ungido pelo sacerdote supremo decidir qual dos candidatos é o mais apto para o exercício da presidência da República.

A forma como a GLOBO, a grande mídia no seu todo, conduz o noticiário do processo eleitoral tem esse formato, esse feitio, de espetáculo e com o objetivo de atender aos interesses dos patrocinadores.

José Arruda Serra é apenas o marionete escolhido para representar esses interesses. Dão corda antes e colocam para dormir ao fim do dia. Dizem que ele não dorme, deve ser por isso, marionete, não é de carne e osso, foi montado pelos cenógrafos da GLOBO para atender aos interesses de bancos, latifundiários, grandes empresários e Washington.

Neste final de semana tudo indica que o INSTITUTO DATA FOLHA deve divulgar pesquisa montada em laboratórios desse paraíso – cheio de comerciais de desinfetantes mais inteligentes que você – tentando equilibrar o estrago feito pelas outras pesquisas que mostram o vampiro paulista em processo acelerado de anemia eleitoral, votos.

Tentar dar fôlego, gás e esperar os esquemas de todas as eleições, onde o show substitui o debate democrático, a participação popular, resumir tudo à dança com famosos e ao trambique do Criança Esperança (aliás, deve ser maldição, o São Paulo Futebol Clube jogou o primeiro jogo com o Internacional, semi-final da Libertadores com a camisa Criança Esperança e foi para o beleléu).

Nessa história não é só o São Paulo que dançou não, as crianças dançam também, o Brasil então...

Tem espetáculo sim, com direito a mágicas de Bonner e sua corte de anjos. Pelo menos até outubro, na tentativa de exorcizar essa mania de brasileiros de sonhar um País livre, soberano, justo, vale dizer, sem o show global.

Senhores proprietários de companhias aéreas, por favor, não deixem seus aviões caírem antes das eleições. Podem atrapalhar as manobras da GLOBO para transformar o esquema FIESP/DASLU em grande sonegação nacional através de José Arruda Serra.

O menino de ouro da GLOBO.

José Arruda Serra o criador de tudo. Lembra um amigo dono de um antigo armarinho no interior de Minas. Quando o freguês pedia um produto que não tinha estoque, respondia assim – “não se preocupe, o que não tem está chegando”.

No duro mesmo é aquele mail cretino que circula na internet sobre senadores que mortos, têm o direito de escolher entre o céu e o inferno. A propaganda do capeta é de tal ordem que escolhem o inferno. Quando chegam, de mala e cuia, só encontram um deserto pleno e absoluto. Não adiantou a reclamação. O Bonner de lá avisa, “ontem era campanha eleitoral”.

O programa de Arruda Serra é isso aí, a prática é outra.

*Laerte Braga, jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no “Estado de Minas” e no “Diário Mercantil”. É colaborador e co-editor do blog “Quem tem medo do Lula?

BÁRBAROS EMPEDERNIDOS E CRUÉIS ASSASSINOS

Por Celso Lungaretti (*)

Quando saí dos cárceres da ditadura militar, com uma lesão física permanente, muitos problemas psicológicos e terríveis danos morais, havia aclarado meu conceito sobre ditaduras.

Antes já repudiava as de direita, claro, mas me deixara iludir pelos textos que impingiam, como mal necessário, uma ditadura do proletariado, atenuada nas ressalvas: seria tão cirúrgica quanto possível, durando apenas o tempo necessário para se criarem os pré-requisitos de sua abolição.

A experiência vivida falou mais alto do que qualquer argumento: decidi que nada, absolutamente nada, justificava que um indivíduo fosse colocado na condição de vítima indefesa do Estado, qualquer que fosse o Estado.

Meus algozes podiam me torturar como e quando bem entendessem.

Privar-me do sono, de roupas, de alimentos, de higiene, de assistência médica e até da luz solar.

Ameaçar-me de estupro (com as mulheres, muitas vezes iam às vias de fato).

Simular roletas russas e fuzilamentos.

Emitir comunicados mentirosos a meu respeito.

E me matar, seja por excessos involuntários nas sessões de tortura, seja por tédio.

Aos 19 anos, estive próximo de um enfarte no terceiro dia de prisão, quando, após medirem minha pressão, suspenderam as torturas e me encheram de calmantes.

Ao contrário do que aconteceria a partir de 1971, ainda não haviam partido para a matança indiscriminada -- não por respeito à vida humana, mas porque as mortes chocantes davam ensejo a campanhas humanitárias exortando governos estrangeiros a suspenderem linhas de crédito para o Brasil.

A partir do quarto diplomata trocado por presos políticos, no entanto, os tiranos decidiram absorver os prejuízos de ordem econômica, de preferência a exilar militantes que pudessem depois voltar e contribuir para a libertação do povo brasileiro.

Então, ao invés de oficializar suas prisões, passaram a sequestrá-los, levá-los para centros de tortura clandestinos, submetê-los aos piores suplícios, executá-los e dar sumiço nos cadáveres.

Mesmo quando a ordem ainda não era matar, contudo, houve oficial que me incentivou a tentar a fuga, "agora que ninguém está olhando", para me fuzilar pelas costas e depois apresentar seu ato como necessário. Por quê? Porque havia tido um mau dia e estava enfastiado...

A PRIMEIRA BRECHA

Enfim, percebi que jamais se deveria conceder ao Estado tamanho poder sobre o cidadão, por não haver garantia nenhuma de que, mesmo sendo fixados limites, estes não seriam ultrapassados ao sabor dos acontecimentos.

Os textos marxistas sobre ditadura do proletariado e, p. ex., nem de longe justificam os massacres de camponeses durante a coletivização forçada na URSS ou os genocídios de Pol Pot no Camboja. No entanto, estes decorreram daqueles.

Vale lembrar uma frase antológica do filme O Julgamento de Nuremberg (d. Stanley Kramer, 1961).

Face ao desabafo de um magistrado alemão, estupefato por as coisas terem saído tanto do controle durante a era nazista, um membro do tribunal explica:
"Esses horrores todos começaram quando o primeiro juiz condenou o primeiro réu que ele sabia ser inocente".
Então, não se pode deixar que seja aberta a primeira brecha, ainda que ínfima, pois haverá sempre os que a alargarão.

Quem luta para criar a sociedade perfeita, com a concretização plena da liberdade e da justiça social, não deve transigir com nenhuma ditadura e nenhuma forma de desigualdade, seja em que ponto for da caminhada. Caso contrário, não chegará aonde pretendia, mas a lugar bem pior.

FARSA CONTRA SAKINEH

Foram as reflexões que me vieram à mente após ler que as autoridades iranianas exibiram na TV um vídeo com uma suposta Sakineh Ashanti, em fala ademais dublada, praticamente admitindo a cumplicidade jamais provada no assassinato do seu marido.

Foi condenada a ser apedrejada até a morte por adultério, só por adultério.

Como isso teve a pior repercussão possível junto às pessoas civilizadas do mundo inteiro, armaram uma farsa para justificar a sentença hedionda.

E o fizeram depois de privarem sakineh do seu advogado, com abusos grotescos, inclusive o de aprisionar-lhe os entes queridos para usá-los como reféns.

Assim como quando Stalin fazia condenarem dignos revolucionários sob pretextos os mais falaciosos e ridículos, depois de triturados em seus cárceres, não existe condescendência possível com tais práticas por parte de quem pretende sinceramente transformar o mundo.

Há que se defender, sim, o Irã das ameaças de intervenção armada dos EUA, como represália por seu programa nuclear.

Mas, isto não pode -- jamais!!! -- implicar nossa conivência com o estupro sistemático dos direitos humanos por parte das autoridades iranianas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu oficialmente asilo a Sakineh, dando aos aloprados do Irã uma saída honrosa neste episódio, ao menos.

Então, o assassinato com requintes de extrema crueldade que tramam só servirá à propaganda dos EUA enquanto eles mantiverem sua postura de fanática/asnática intransigência.

E enquanto a mantiverem, não merecem a simpatia de ninguém. São bárbaros empedernidos e cruéis assassinos. Nada mais.

*Celso Lungaretti, jornalista e escritor. Autor do livro "Náufrago da Utopia" (sobre sua experiência durante a ditadura militar) e mantém blog homônimo. É colaborador e co-editor do "Quem tem medo do Lula?".

Lula daqui para a frente

Lula daqui para a frente

Por Carlos José Marques
, diretor editorial da revista ISTOÉ

Já dá para afirmar, o presidente Lula é o governante mais popular da história do País. Sai do posto daqui a alguns meses com a maior aprovação jamais registrada na República. Na corrida presidencial que se desenrola rumo à eleição de outubro, todos querem ser Lula. Candidatos e partidos tentam vincular sua imagem à dele. Afinal, Lula vai embora do Planalto deixando um legado de avanços sociais e resultados econômicos que nenhum dos aspirantes a sucedê-lo contesta. Em campanha não ousam sequer atacá-lo. Talvez por entenderem ser esta uma estratégia inócua. Lula parece ter mesmo incorporado o já lendário efeito teflon e contra ele, dizem, nada cola. Às vésperas de terminar o mandato, Lula está à vontade. Se diz tranquilo. Talvez ciente de que a saída do cargo não necessariamente signifique, no seu caso, a retirada do poder. Lula carrega consigo vários planos. O de um instituto de ideias para irradiar sua influência. O de caravanas internacionais, nos moldes das que fez Brasil afora, arrebanhando simpatizantes e seguidores.

E, talvez por que não? , o da construção de uma ampla aliança suprapartidária que lá na frente desenhe grandes rumos para o País. Só descarta o de um posto em organismos multilaterais como a ONU, para o qual, se convidado, dirá não. De uma maneira ou de outra, sabe, milhões ainda vão querer ouvi-lo. Aqui e no mundo. Apesar de bater um pouco de saudosismo quem está no governo acha oito anos pouco, quem está na oposição acha uma eternidade , Lula está animado com a nova etapa. Se entusiasma em especial quando fala da possibilidade de fazer um sucessor. E de que esse sucessor seja uma mulher. A primeira com reais chances de comandar o País. Lula concebeu a candidatura de Dilma à sua imagem e semelhança, muito embora faltem à ex-ministra o carisma e o traquejo político do seu mentor. Para Lula, não é um problema. Ele acredita piamente na continuidade de seu trabalho na Presidência. Com Dilma. Na longa entrevista exclusiva que concedeu à ISTOÉ, na tarde da quinta-feira 5, no gabinete improvisado montado no Centro Cultural Banco do Brasil, de onde despacha desde que o Planalto entrou em reforma há mais de um ano, Lula manda um recado: Minha relação com a sociedade ninguém pode destruir.

PSDB monta estratégia para enfrentar Lula na TV

Por Raquel Ulhôa, de Brasília
Para o Valor Econômico de 12/08/2010

O PSDB está preocupado com o impacto da participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no programa eleitoral gratuito de televisão da candidata do PT a presidente, Dilma Rousseff. É o que um dirigente tucano chama de "Lula na veia". Para minimizar o estrago, aliados do candidato do PSDB, José Serra, avaliam que ele precisa ser mais "humanizado" em seu próprio programa eleitoral.

O foco da propaganda eleitoral de Serra será a apresentação do candidato e de suas propostas. Seus coordenadores gostariam de estimular no eleitor a comparação entre Serra e Dilma. A aposta é que, no conteúdo, a vantagem seria do tucano. No entanto, a expectativa é que o programa de Dilma venha com muita produção e emoção, despertada pela participação de Lula.

Envolvidos na campanha de Serra acreditam que a emoção pode causar grande impacto nos primeiros programas eleitorais, mas deve se diluir ao longo dos 45 dias do horário gratuito. Com o tempo, a comparação de conteúdo deve prevalecer, favorecendo a candidatura tucana.

Aliados de Serra no PSDB e no DEM ficaram apreensivos após o debate entre os presidenciáveis na televisão, realizado pela Band no dia 5. Havia muita confiança na experiência do candidato tucano e na falta de traquejo de Dilma. Avaliam, no entanto, que Serra "não foi decisivo" e não soube explorar os pontos fracos de Dilma. Como resultado, a candidata do PT, apesar do visível nervosismo, acabou saindo-se melhor do que era esperado pelos tucanos e temido pelos petistas.

Além do programa eleitoral, o PSDB está preocupado em reforçar a campanha em Minas e no Rio, Estados que devem decidir a eleição, na avaliação do partido. A razão é a falta de "solidez" nas intenções de voto até agora registradas pelas pesquisas nos dois Estados.

No caso de Minas, Serra tem mais votos que o governador Antonio Anastasia (PSDB), candidato à reeleição apoiado pelo ex-governador Aécio Neves. Há margem paracrescimento do governador e, à medida que ele conquistar fatia maior do eleitorado, consequentemente aumenta as intenções de voto em Serra. Para isso, a campanha estadual precisa ser mais compartilhada com a nacional. A avaliação é que, por enquanto, a preocupação dos mineiros é com a eleição de governador, senadores e deputados, havendo pouca integração com a disputa nacional.

O caso do Rio é diferente. Sem candidato a governador dos partidos da aliança (PSDB, DEM e PPS), a coordenação da campanha aposta na "independência" do eleitorado fluminense. O objetivo é que Serra adote um discurso que o aproxime do eleitor, sem depender da campanha do candidato a governador do PV, deputado Fernando Gabeira.

Há, ainda, o objetivo de aumentar a diferença de intenção de voto para Serra em São Paulo. Na avaliação dos tucanos, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) está pouco empenhado em fazer campanha, já que lidera as pesquisas. Como sua intenção de voto é maior do que a que Serra tem no Estado, a conclusão é que o presidenciável precisa colar mais em Alckmin - que, por sua vez, precisaria ir mais para a rua.

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