O MEDO QUE A ELITE TEM DO POVO É MOSTRADO AQUI

A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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quarta-feira, 31 de março de 2010

Ivanovitch, 1964

Por Urariano MotaRecife (PE) - Ivanovitch era um dos seis filhos de seu Joaquim-da-carne-de-porco. Seu Joaquim, simpatizante do velho Partidão, havia posto nos filhos nomes russos, porque na época a Rússia era a pátria da revolução. Lembro que da sua casa feia, sem janelas, com fachada de pobre ponto comercial, vinha um cheiro de torresmo. Lembro do cheiro abusivo, enjoado, repugnante que dava aquela coisa gorda e farta, só ela e mais nada.


Naqueles anos, um rapaz de futuro, naquele cheiro ativo de toucinho torrado, era um rapaz que gostava de ler, de perguntar, de argumentar. De futuro também era Ivanovitch. Dos seis filhos de seu Joaquim ele era o mais brilhante: gostava de matemática, de química, de física, de política, de filosofia, de romance, lia como um animal que tem fome de letras. E sempre a sorrir.


Por que as pessoas que levam a vida a gargalhar tendem a terminá-la com amargura ou violência? Por que os indivíduos sombrios não são os que enfiam o cano na boca e estouram os próprios miolos? Não, o trágico quer os plenos, cheios de coração. Pois assim como o câncer, que dizem se alimentar da saúde vigorosa, o golpe militar comeu o cérebro do meu amigo. E ele que era diurno, solar, tornou-se febril e noturno, naquele fim de tarde.


Cadê Ivan? – eu perguntei, quando voltei da padaria, no primeiro de abril de 64. – Cadê Ivan? – perguntei, porque eu queria conversar com ele sobre os últimos acontecimentos. Eu queria que ele me explicasse os tanques na rua, se Arraes ainda era governo, se os comunistas haviam perdido a batalha. – Cadê Ivan?


- Vem ver o teu amigo, a sua mãe me disse. Veja como ele está.


E sua mãe me conduziu até o quarto, que era uma divisória de tabique sem porta, como um quarto de estúdio de cinema. Então ela se pôs a chamá-lo, a lhe dizer que eu estava ali, como se eu tivesse o dom de fazê-lo voltar à realidade, a realidade que ela não sabia ser o pesadelo que começava. Chamava-o “Ivan”, para torná-lo ao Ivanovitch de 31 de março, ao rapaz que era a esperança daquela família de seu Joaquim-da-carne-de-porco. Ao que ele respondia:


- As cobrinhas estão subindo em mim. Mãe, me tira essas cobrinhas.


Não era mais Ivanovitch. O de antes era um jovem que passava o dia todo a estudar, todos os dias. Entre uma fórmula e outra me recebia na única mesa da casa. E passava a contar anedotas, a contar casos de meninos suburbanos, espertos, anárquicos, galhofeiros. E sorria, e ria, e gargalhava, porque ao contar ele era público e personagem, e de tanto narrar histórias de meninos moleques deixava na gente a impressão de ser um deles. E contava a rir, a soltar altíssimas gargalhadas o caso que depois foi a sua perdição:


- Na greve dos estudantes de Direito, eu fui lá para prestar solidariedade aos colegas. Eu estava só no meio da massa, assistindo à manifestação. Aí chegou o fotógrafo da revista O Cruzeiro. Quando ele apontou o flash, eu me joguei na frente dos estudantes. Olha aqui a foto.


E mostrava uma página em que ele aparecia de braços abertos, destacado, em queda, como um jogador de futebol em uma brilhante jogada, em voo sobre as palavras de ordem viva Cuba, yankees go home, reforma agrária na lei ou na marra. Sorrindo em queda livre o meu amigo, na página da revista O Cruzeiro.


Por isso ele gargalhava, por sair em edição nacional, por força do seu espírito moleque. Por isso ele me diz agora em 1º. de abril de 1964:


- Tem umas cobrinhas... Eles vêm me pegar!


Sei agora que naquele delírio ele não perdera de todo a lógica. Será que enlouquecemos assim, num diálogo entre a desrazão e a razão? Ivanovitch diminuía o tamanho das cobras para ter milhares delas subindo-lhe pelas costas. Meu amigo delirava e, para ele, para mim, como um último consolo, perdia a razão, mas não perdia a inteligência.


Muitos anos depois eu revi Ivanovitch. Ele estava mais largo, obeso, imenso, com os gestos lentos de um drogado. No rosto, sem acusar reação, havia só olhos apagados, distantes, que não me reconheceram. Ele passou ao largo de mim como um hipopótamo sem sombra, como um elefante sem orelhas, sem tromba, sem presas passaria, só a grande massa de carne. Então eu soube que para ele a barbárie havia vencido.


Parabéns, gorilas, parabéns, golpistas. A família de Ivan até hoje conta que ele enlouqueceu em 31 de março. Esquecem que foi em um 1º. de abril. Não sei se isso faria o meu amigo dar uma gargalhada ampla, grande, do tamanho do futuro e do seu coração de antes.


Urariano Mota é jornalista e escritor. Autor do livro "Soledad no Recife", recriação dos últimos dias de Soledad Barret, mulher do Cabo Anselmo, executada pela equipe de Fleury com o auxílio de Anselmo. Urariano é pernambucano, nascido em Água Fria e residente em Recife. É colunista do site "Direto da redação" e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

Lenda viva, Hélio Bicudo mantém um blog onde continua lutando pelas causas justas



Lenda viva, Hélio Bicudo continua lutando pelas causas justas







Por Celso LungarettiHélio Pereira Bicudo, 87 anos, é um herói brasileiro. Dos maiores.


Para os que se lembram dele apenas como o vice-prefeito paulistano na gestão de Marta Suplicy, vale a pena evocarmos o ponto mais alto de sua longa trajetória (que registra, inclusive, passagem pelo Governo Goulart, como ministro interino da Fazenda).

No pior momento da ditadura de 1964/85, Bicudo era procurador de Justiça no Estado de São Paulo e travou luta incansável, perigosíssima, contra o Esquadrão da Morte, uma organização criminosa constituída por policiais para, alegadamente, exterminar bandidos.

O chefe da quadrilha atendia pelo nome de Sérgio Paranhos Fleury.

Ocorre que esse delegado se transferiu para o Deops e virou um dos símbolos da repressão política, ao armar a canhestra cilada na qual foi executado Carlos Marighella -- e mortos também o motorista de um carro que trafegava pelo local e uma investigadora alvejada pelos colegas. A censura impediu que se divulgasse a existência dessas duas vítimas da incompetência policial.

Em função de seus bons ofícios como torturador e assassino de resistentes, os militares tudo fizeram para evitar que Fleury recebesse a justa punição pelos crimes que antes cometera, à frente do Esquadrão da Morte. Acreditavam que isso desprestigiaria a luta contra a subversão.

Apesar das pressões, intimidações e ameaças recebidas, Bicudo travou luta sem trégua para levar os carrascos do Esquadrão a julgamento. O único apoio de peso com que contava era a imprensa dos Mesquita (O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde).

Quando conseguiu que Fleury fosse indiciado, a ditadura introduziu uma lei com o objetivo exclusivo de evitar que ele tivesse de aguardar preso o julgamento, como até então era norma. Ficou apropriadamente conhecida como Lei Fleury.

O destemor e a perseverança de Bicudo, entretanto, acabaram prevalecendo. Sua cruzada começou a ser vitoriosa quando ele conseguiu provar que o Esquadrão da Morte não era um bando de justiceiros, mas tão-somente a jagunçada que, a soldo de um grande traficante, eliminava seus concorrentes.

Os militares não se vexavam de acumpliciar-se com homicídios e práticas hediondas, endossando-as/acobertando-as, mas queriam distância de traficantes.

Então, tiraram a proteção e os privilégios de Fleury, que acabou sendo vítima de um estranho acidente, por muitos interpretado como queima de arquivo.

Para quem quiser conhecer a história toda, recomendo o magnífico relato do próprio Bicudo: Meu depoimento sobre o Esquadrão da Morte, que já teve nove edições no Brasil e foi lançado também na Alemanha, Espanha, França e Itália.

E a boa notícia é que Hélio Bicudo tem um pouco divulgado blogue, que recomendo com entusiasmo: Direitos Humanos.

Esta vem sendo, aliás, sua bandeira principal desde a década passada, quando presidiu a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, tendo depois criado a Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos, da qual é presidente.

Uma das pérolas do seu blogue é o artigo abaixo, que reproduzo e subescrevo:



UM ESTADO POLICIALESCO


Por Hélio Bicudo



Quando militei no PT, uma das questões pela qual seus parlamentares lutavam era a unificação das polícias, com a instituição de uma polícia civil com uma carreira que tivesse início no seu posto inicial, mas que permitisse – mediante os esforços daqueles que pretendiam diferenciar-se não só pela experiência como pelo aperfeiçoamento acadêmico – alcançar os postos mais altos da carreira.

Conquistado o primeiro mandato de Lula, não se sabe bem quais os compromissos assumidos, abandonou-se a idéia inicial, com o esquecimento de projetos que buscavam a unificação já apresentados à consideração do Congresso Nacional por deputados da bancada dos Partido dos Trabalhadores.

Não demorou muito tempo e o Congresso aprovou e o Presidente da República promulgou lei concedendo poder de polícia aos militares do Exército. Isso, não obstante o malogro de medida adotada no governo FHC, quando tropas do Exército passaram a policiar as favelas do Rio de Janeiro. E mais recentemente as demais forças (Marinha e Aeronáutica) passaram a ter mais esse poder. Agora, o governo quer dar à Receita Federal, não só poder de polícia, como atribuições judiciárias, permitindo às “tropas” da Receita a quebra de sigilo, penhora de bens e até mesmo invasão de domicílio.

Isto tudo aconteceu sem que ninguém dissesse uma só palavra, quando é certo que, segundo o art. 142 da Constituição Federal, as forças armadas destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes Constitucionais e, pela iniciativa de quaisquer dos poderes, da lei e da ordem.

A Polícia é responsável pelo policiamento ostensivo e pela investigação criminal.

Quais as conseqüências da instituição de um estado policial, pergunta-se? Um claro caminho para o autoritarismo.

Veja-se que, na medida em que se procurou limitar a competência da justiça militar estadual, as leis que outorgam poder de polícia às Forças Armadas entregam o processo e julgamento dos crimes cometidos pelos militares dessas forças, mesmo que tenham como sujeito passivo vítimas civis, à justiça militar, cujo corporativismo tem impedido julgamentos justos.

Longa foi a caminhada para impor o processo e o julgamento dos crimes dolosos contra a vida de civis ao tribunal do júri, hoje, com a reforma do Poder Judiciário (Emenda Constitucional nº 45/2004), restrito apenas ao julgamento (art. 125 § 4º da Constituição Federal), que é o mesmo que acalentar a impunidade que pretendeu reprimir.

Ora, se as polícias militares são forças auxiliares do Exército, pelo princípio da isonomia interpretado extensivamente, por que os policiais militares devem ter restrições nos seus julgamentos pela justiça militar?

É uma pergunta que não irá demorar para ser feita. Qual será a resposta? É fácil identificá-la: irá derrubar todos os esforços que objetivavam impedir a impunidade conseqüente do corporativismo dos julgamentos militares.

Algo que foi feito a duras penas, enfrentando o poderoso “lobby” da polícia militar no Congresso Nacional, começa a desmanchar-se em benefício da impunidade.



Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. É paulistano, nascido e residente na capital paulista. Mantém o blog “Náufrago da Utopia”, é autor de livro homônimo sobre sua experiência durante a ditadura militar e colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”







Armando Nogueira



[caption id="attachment_5103" align="aligncenter" width="350" caption="Homem digno e cronista irretocável Foto Ag. Estado"]Homem digno e cronista irretocável Foto Ag. Estado[/caption]


Armando Nogueira


Por Laerte Braga


O cinismo e o despudor das organizações GLOBO não têm limites. O jornal THE GLOBE, da família Marinho e editado em português, parte do maior complexo empresarial de comunicação de toda a história do Brasil, publica na edição de 30 de março, em sua primeira página, uma charge de Chico, onde aparece o jornalista Armando Nogueira sendo recebido no que seria o céu, por Roberto Marinho e Evandro Andrade, ex-diretor de jornalismo da REDE GLOBO.


Armando Nogueira chegou a ser chamado de “o Machado de Assis da crônica esportiva” e junto com Mário Filho foi autor de obras definitivas sobre futebol num país fascinado pelo esporte, mas com pouca literatura sobre o assunto.


Anos a fio escreveu uma coluna diária no JORNAL DE BRASIL, leitura obrigatória de quem gosta de futebol, mesmo os que não torciam pelo Botafogo, time da preferência de Armando.


Se a charge mostrasse Armando Nogueira sendo recebido por José Maria Scassa, Nélson Rodrigues, João Saldanha, Sandro Moreira, ou botafoguenses históricos como Paula Azeredo, Xisto Toniato, Otávio Pinto Guimarães, Canôr Simões Coelho, Arides Braga e outros, tudo bem.


Por vários anos o jornalista fez parte de uma das mais significativas dentre as várias mesas redondas sobre futebol e que, pelo nível extraordinário dos demais participantes, ultrapassava os limites do futebol, para inserir-se no todo, num dos mais completos programas da televisão brasileira.


À época, houvesse a preocupação com audiência, a doença que existe hoje com níveis de audiência, a mesa ganharia disparado de qualquer programa em qualquer tempo. Nogueira e Saldanha pelo Botafogo, Scassa pelo Flamengo, Nélson Rodrigues pelo Fluminense e, imperdoável, me esqueço agora o nome do jornalista torcedor do Vasco. Mas era da mesma estirpe, do mesmo naipe.


É impossível, por exemplo, comparar a notável capacidade de Armando Nogueira, ou qualquer outro integrante da mesa, comandada por Luís Mendes (ainda vivo e comentando futebol), com a mediocridade arrogante de Galvão Bueno hoje.


Roberto Marinho recebendo Armando Nogueira no céu?


Marinho era mafioso, chefe de uma das mais nocivas e perigosas quadrilhas de todos os tempos, dentre todas as máfias, as ORGANIZAÇÕES GLOBO. Armando Nogueira era alma pura.


Em 1982, Armando Nogueira era o diretor de jornalismo da GLOBO. Roberto Marinho se valeu de sua extraordinária capacidade jornalística para montar a estrutura que hoje é o JORNAL NACIONAL e que tempos antes contara com Sebastião Nery na mesma função. Nos primórdios da GLOBO.


Partícipe direto da fraude da PROCONSULT na tentativa de fraudar a eleição de Leonel Brizola para o governo do Estado do Rio, uma ação de militares da reserva e civis de extrema direita (transferiam os votos brancos e nulos na totalização para o candidato Moreira Franco, da antiga ARENA), Roberto Marinho, com a astúcia covarde dos canalhas, nunca foi outra coisa, quando viu desmontada a fraude, a impossibilidade de materializá-la, já havia ganho as ruas, outros jornais denunciavam e pior, um dos diretores da PROCONSULT já confessara o crime e a conversa estava gravada (a gravação foi feita por César Maia, então ligado a Brizola e num restaurante do Rio de Janeiro), Marinho serviu a cabeça de Armando Nogueira em bandeja de prata aos seus algozes, aos que desmascararam a fraude, o típico bode expiatório pego de surpresa e jogado à arena das feras.


Deixou a direção de jornalismo da GLOBO, não fazia o tipo, tinha caráter e isso é inaceitável na rede, na empresa.


Eu nunca soube como Nogueira reagiu ao golpe, à punhalada nas costas que Roberto Marinho desfechou contra ele. Era a característica de Roberto Marinho.


Prefiro ficar com as notáveis crônicas do jornalista, suas intervenções na mesa redonda e seu “Drama e Glória dos bi-campeões”, um dos mais completos livros sobre as conquistas das copas de 1958 e 1962, principalmente essa.


Sua fascinação pela seleção húngara de 1954 (a de Puskas que acabou perdendo a final para a Alemanha por três a dois depois de estar ganhando por dois a zero) era absoluta. Fascinação que carregou a vida inteira e era objeto de comentários de seus companheiros de mesa, “Armando Nogueira e seu scratch húngaro”.


Foi amigo de Newton Santos e junto com Sandro Moreira (pouca gente se lembra ou sabe que Sandro era filho de Álvaro Moreira, membro da Academia Brasileira de Letras e um dos personagens mais famosos e libertários de sua época) tentou diversas vezes ajudar Mané Garrincha – Sandro e Newton eram como que “pais” de Garrincha, mas pais que Garrincha adorava, mas não acatava. E nem por isso, como todo quase todo pai, deixaram de ser pais até o fim da vida de Mané.


Tinha paixão pelo Botafogo, mas acima de tudo pelo futebol. Duas pessoas, com estilos distintos eram capazes de transformar um jogo, uma partida comum, numa epopéia.. Ele e Nélson Rodrigues.


Um Olaria e Madureira virara uma Odisséia. Imagine um Botafogo e Fluminense.


E simples, sem aquele negócio de sou o dono da verdade que Galvão Bueno carrega hoje.


Foi uma das mais importantes personalidades do futebol brasileiro, historiador, cronista, torcedor, características de cavalheiro inglês no trato com as pessoas, enfim, alguém digno.


Mas ser recebido por Roberto Marinho no céu é o cúmulo da canalhice das ORGANIZAÇÕES GLOBO. Tentam dar a Marinho um papel que ele nunca teve. O de homem decente. Já Armando Nogueira não, era decente. Era tão decente que nunca disse uma única palavra pública sobre o assunto PROCONSULT.


Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no "Estado de Minas" e no "Diário Mercantil". É colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

Sinal dos tempos?

Por Rui MartinsBerna (Suiça) - E como vai a mídia por esse mundo afora com a concorrência dos jornais gratuitos, e da Internet, que atualiza constantemente as notícias e substitui o papel pela telinha mesmo nos celulares mais recentes ?


Parece que vai se adaptando e embora alguns jornais percam leitores, ainda há os que aumentam o número de seus assinantes, pelo menos aqui na Suíça, oferecendo tanto a informação impressa como eletrônica.


Porém, não é essa aqui nossa preocupação, mas ainda a velha questão da coleta das informações. E é o jornal suíço Le Temps quem levantou a questão ao revelar uma estranha e constante diminuição de correspondentes internacionais em Bruxelas, sede da União Européia.


Nos últimos anos, o número de jornalistas credenciados na capital belga e européia diminuiu de um terço. De 1200 reduziram-se a 800, justamente quando a UE vai se transformando no grande país continental sonhado pelos pioneiros do Tratado de Roma. Sabendo-se que toda regulamentação européia passa por Bruxelas, qual seria a causa desse aparente desinterêsse ?


Citando o blog de um dos veteranos correspondentes, do jornal francês Liberation, o jornal suíço revela a provável causa principal – a dificuldade criada para os correspondentes chegarem ao fundo das questões debatidas pela União Européia. Alguns conseguem furar a barreira das filtragens, das declarações anódinas, porém isso exige tempo e a quase totalidade tem de se contentar com o que a UE aceita divulgar. Em outras palavras, os correspondente curiosos são mal vistos e evitados. Ou aceitam os press releases, nem sempre bem preparados, ou ficam sem nada.


Sem conseguir levantar questões importantes, impedidos de levar avante uma investigação jornalística, diante da conversa mole ou mutismo dos entrevistados, os correspondentes acabam repetindo o entregue aos jornais pelas agências de imprensa, também submetidas ao regime, e perdem seu ganha pão. Mesmo porque alguns são frilas, como se diz no jargão jornalístico para os que ganham por reportagem, e não conseguem temas interessantes para oferecer.


Assim, a UE estaria praticando uma espécie de controle da informação ou informação seletiva, sem provocar protestos em consequência da falta de apetite atual dos jornais e agências, reforçando a tendência do jornalismo sedentário, sem busca que se contenta com informações impressas e alguns telefonemas.


Parece haver outros fatores paralelos mas não principais, como os ligados à obtenção dos documentos de permanência na Bélgica, difíceis para os jornalistas frilas e custos relacionados com seguro-saúde, que a UE também não estaria muito interessada em facilitar, reforçando assim a filtragem da informação.


Mudando de Bruxelas para Genebra, onde funciona a segunda sede da ONU e numerosas organizações a ela ligadas, cabem algumas informações relacionadas também com a mídia. Nos anos 80, exceto o correspondente de O Globo, Janos Lengel, a imprensa brasileira não demonstrava nenhum interesse por Genebra. Os encontros da ONU geralmente não davam (e não dão) em nada e para ela eram mobilizados correspondentes de outras capitais quando havia conferências ou encontros internacionais de importância.


Hoje, o número de correspondentes europeus em Genebra diminuiu mas foi contrabalançado pelos vindos da Ásia, África e América Latina, permanecendo invariável a média de 200 jornalistas credenciados. Entretanto, embora acreditados pela ONU, com seu crachá eletrônico, a maioria desses recém-chegados se dedica de preferência à cobertura da Organização Mundial do Comércio, onde realmente acontecem coisas. No Palácio das Nações, não se trata de filtragem como em Bruxelas. Exceto as pesquisas econômicosociais da Unctad poucas coisas vão além das discussões, fora o caráter não coercitivo das decisões ali tomadas.


E a falta de desafios acaba por criar maus hábitos. Foi em Genebra, que a OMS lançou sua campanha contra a Gripe A, mas apesar da evidência do exagero das medidas de prevenção e das desconfianças de interesses dos laboratórios farmacêuticos na venda de remédios e vacinas contra essa gripe menos perigosa que a gripe comum, pouca coisa saiu dali em termos de denúncias por parte dos correspondentes ali credenciados.


Rui Martins é jornalista. Foi correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. É autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. É colunista do site "Direto da Redação" e vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, e com o blog "Quem tem medo do Lula?"

A coligação Globo/Serra/DEM



A coligação Globo/Serra/DEM


Por Laerte BragaO governador de São Paulo José Collor Arruda Serra inaugurou na terça-feira parte das obras do RODOANEL em seu estado. Cobertura jornalística ampla, geral e irrestrita.


José Collor Arruda Serra é um dos políticos mais corruptos do Brasil e pior que FHC em muitos sentidos. A prisão de executivos da ALSTOM em Londres vai revelar no curso das investigações que foi um dos comprados para a concessão de obras públicas em seu estado, inclusive o RODOANEL. Os empresários foram presos exatamente por comprar políticos sul-americanos como Serra.


O JORNAL DAS BANDEIRANTES ao mostrar a inauguração de parte das obras (neste momento ele está inaugurando promessas inclusive) mostrou também um imenso protesto de professores da rede pública do estado, largados à deriva, como toda a educação em qualquer governo tucano (educação dá dinheiro, não permite caixa dois, propina).


O JORNAL NACIONAL, parte da programação do PARTIDO GLOBO que integra a coligação DEM/PSDB (o partido de Serra), mostrou a solenidade de inauguração e cortou as imagens da manifestação.


O PARTIDO GLOBO é mestre nisso. Mau caratismo e desonestidade na informação. Distorce, mente, inventa, tem um time de canalhas padrão William Bonner que além de não ter o menor escrúpulo, são de quem paga mais, ou de quem paga, ainda se dá ao luxo de chamar o telespectador de idiota, tratá-lo como tal e considerá-lo de fato assim.


O PARTIDO GLOBO sempre foi assim. Para início de conversa é uma organização estrangeira com aparência de nacional. Começou com capital estrangeiro, pouco antes do golpe militar de 1964 (o próprio Carlos Lacerda, líder de extrema-direita à época denunciou o fato). Dispôs de todos os recursos necessários para implantar-se, crescer e com o golpe transformou-se em veículo oficial da ditadura.


Roberto Marinho, o canalha chefe, escondia notícias de tortura, notícias de escândalos do governo militar (corrupção generalizada), como escondeu as manifestações populares que pediam diretas já. Só as liberou quando o próprio ditador Figueiredo autorizou e quando perceberam que mais de um milhão de brasileiros estava comparecendo a cada um dos comícios pelas diretas.


Inventou a figura do caçador de marajás dentro do projeto político da nova ordem econômica, o neoliberalismo, foi parte beneficiada com recursos públicos no governo de Collor, só tratou do impedimento quando jeito não tinha mais, quando o Brasil inteiro clamava por isso.


Apoiou os oito anos de corrupção e barbárie do governo FHC, sustentou-se com dinheiro público, inclusive em sua monumental divida externa (da empresa), paga em parte por FHC em troca do apoio a Serra em 2000 (havia um pedido de falência numa corte de New York contra a GLOBO).


Às vésperas das eleições de 2006, como as pesquisas indicassem a vitória de Lula no primeiro turno, a sua reeleição, deixou de noticiar um acidente aéreo, principal fato jornalístico do dia, mais de 150 mortos, a queda do avião da GOL, para divulgar um dossiê falso, mentiroso como se viu mais à frente, na tentativa de forçar o segundo turno e tentar eleger o corrupto Geraldo Alckimin (aquele que a mulher ganhou 300 vestidos para leiloar em benefício de uma instituição de caridade e preferiu ficar com eles).


Um mês antes das eleições criou uma “caravana da cidadania” conduzida pelo cafetão travestido de jornalista Pedro Bial para percorrer o País fazendo a campanha de Alckimin e em seguida às eleições, Bial teve que engolir em seco o dedo no nariz do governador do Paraná Roberto Requião que chamou a ele e a Miriam Leitão de “mentirosos”. São mentirosos muito bem remunerados.


Tem entre seus principais jornalistas um antigo agente da ditadura, Alexandre Garcia, acabou demitido por assédio sexual. Era funcionário do Banco do Brasil e foi para o Gabinete Militar eufemismo para SNI (SERVIÇO NACIONAL DE INFORMAÇÕES), sinônimo de dedo duro.


É um partido político, está coligado com duas das principais quadrilhas partidárias do Brasil, o PSDB e o DEM (venderam setores estratégicos da economia nacional, patrimônio público a chamada privatização) e quer vender agora a candidatura de um político que além de corrupto, sem nenhum caráter, é lato senso um boçal.


GLOBO/PSDB/DEM, a coligação que pretende passar a escritura do Brasil vendendo o patrimônio que resta e mudar a grafia do País para BRAZIL.


Trazem partidos menores consigo. A FOLHA DE SÃO PAULO, VEJA, RBS no sul do País, ESTADO DE SÃO PAULO, PPS (do corrupto Roberto Freire, ou o ex-honesto) e é no mínimo curioso que a BANDEIRANTES tenha mostrado a manifestação de professores, se levarmos em conta que Serra é um dos “herdeiros” da rede. Os pagamentos devem estar atrasados.


A campanha eleitoral deste ano vai ser das mais sórdidas da história.


Essas máfias, meios de comunicação da chamada grande mídia, partidos agregados vão tentar de tudo para levar ao poder uma das figuras mais repulsivas da política brasileira, José Collor Arruda Serra.


Seria necessário criar um superlativo para canalha, o único jeito de defini-lo lato senso..


A opção do eleitor brasileiro vai ser simples. Ou aceita o rótulo de idiota que William Bonner criou para o telespectador do JORNAL NACIONAL, ou rejeita e repudia todas essas quadrilhas preservando o Brasil como nação soberana. Preserva a integridade do nosso território, nossa história, nossa liberdade, sobretudo a perspectiva de termos futuro.


Serra é sórdido. Mas GLOBO em tudo e por tudo é bem mais.


É uma coligação GLOBO/PSDB/DEM. E é contra o Brasil e os brasileiros.


Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no "Estado de Minas" e no "Diário Mercantil". É colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".


A liberação do uso da charge é uma cortesia do cartunista Bira Dantas, também colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

Assim matava a ditadura


Assim matava a ditadura




"Eremias
era mau aluno,
treinava judô.
Sorriso moleque,
morreu em pedaços,
35 balaços."
(
"Formatura", CL)



Por Celso LungarettiContatou-me um leitor que até hoje mora próximo do local onde, há 40 anos, meu amigo de infância, colega de escola e companheiro de armas Eremias Delizoicov, aos 18 anos de idade, foi executado pela repressão da ditadura militar com requintes de extrema bestialidade -- tanto o balearam que ficou irreconhecível!

Esse digno advogado Leonardo Amorim ressalva que nunca tomou partido na política brasileira, mas foi pessoalmente tocado pelos eventos presenciados, tanto que jamais os esqueceu. Graças a ele, posso oferecer-lhes mais detalhes sobre o que se passou naquele terrível 16 de outubro de 1969.

Quem leu meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005) deve lembrar-se bem do Eremias. Foi, p. ex., quem praticamente provocou uma guinada de 180º na minha vida de secundarista pacato e politicamente desinteressado, ao nela introduzir Maria das Graças Lima, que era sua colega de classe no nosso Colégio Estadual MMDC, no bairro paulistano da Mooca:
"...numa noite de maio de 1967, o Eremias vem lhe apresentar uma menina.

Os dois estudam na mesma escola desde o Primário. Haviam sido colegas de classe, depois o Eremias foi ficando para trás. Agora está na 4ª série ginasial, enquanto Lungaretti cursa o 2º Científico. Mas, continuam se vendo pelos corredores, enfrentando-se no futebol.

Fez também o papel de cavalaria americana num dia em que Lungaretti estava prestes a enfrentar um colega muito mais forte. De repente, o Eremias apareceu com dois primos e evitou a briga, salvando Lungaretti da surra anunciada. Este, para manter as aparências, não poderia agradecer, mas passou a tratar Eremias com mais consideração.

Atarracado, com o rosto redondo de descendente de eslavos, Eremias parece um Rod Steiger adolescente. Chega com aquele seu sorriso de sempre, meio franco e meio zombeteiro:

— Esta é a Maria das Graças, colega da minha classe, ela quer bater um papo com você".


O papo deu início a uma amizade que eu, por timidez, não soube transformar em namoro.

A amizade me levou a seguir os passos de Maria e acompanhar os do Eremias no movimento estudantil, começando por algumas iniciativas de conscientização dos colegas no próprio MMDC, no segundo semestre de 1967.

Juntamente com o Eremias, fiz um curso apressado de marxismo na virada do ano. E juntos organizamos o movimento secundarista em toda a zona Leste paulistana ao longo de 1968.

Também entramos lado a lado na Vanguarda Popular Revolucionária. Aí as tarefas diferentes nos distanciaram: eu fui incumbido de estruturar serviços de Inteligência e ele designado para os grupos de ação.

Até que recebi a terrível notícia de sua morte, quando foi cercado por efetivos da PE da Vila Militar num sobrado da Vila Kosmos (RJ). Os militares acreditavam ter encurralado caça bem mais importante, o ex-sargento José Araújo da Nobrega - tanto que anunciaram primeiramente a morte do dito cujo, só retificando a informação um ou dois dias depois:
"Naquele aparelho viviam mesmo o Nóbrega e o Eremias. Quando a repressão fechou o cerco, o Eremias abriu fogo. O Nóbrega, que estava chegando a pé de uma missão, viu o alvoroço, desviou caminho e se pôs a salvo.

Eremias resistiu bravamente. Mas, quando atiraram gás lacrimogêneo, ele ficou sem ação por alguns instantes, tonto e sufocado. Foi quando os torturadores da PE da Vila Militar invadiram o sobrado.

O cabo Polvorelli, um monstruoso mulato de 140 quilos, lutador de judô, conseguiu enlaçar o pescoço do Eremias com uma gravata. Eremias se recuperou o suficiente para atirar no braço do cabo. Os outros militares, então, dispararam à vontade.

O cadáver ficou tão desfigurado com os 35 balaços recebidos que, num primeiro momento, a repressão acreditou tratar-se mesmo do Nóbrega".


O receio de que o estado lastimável dos restos mortais ficasse registrado numa autópsia deve ter sido o motivo da negativa dos militares em entregá-los ao pai do Eremias, o inconsolável sr. Jorge, chegando a ameaçá-lo de prisão, caso insistisse em reaver o corpo do filho!


"NUM DOS QUARTOS, PEDAÇOS DE
CRÂNIO FICARAM GRUDADOS NA PAREDE"





Para minha surpresa, esse advogado conheceu meu blogue e, não encontrando outro meio para entrar em contato comigo, postou como comentário o seguinte relato do tiroteio:
"...em julho de 1969, com seis anos de idade, vim morar no bairro de Vila Kosmos (com 'K’ - a Kosmos Engenharia construiu o bairro numa antiga fazenda de Guilherme Guinle), e a rua onde ‘tombou’ Eremias Delizoicov chama-se Toropi e não Toroqui ou Tocopi, como dizem desinformados ‘historiadores’.

Aliás, no número 59 reside a minha amiga, Mariza, que em 1969 era muito jovem e o seu pai alugou a casa para os chamados ‘terroristas’ sem saber de quem se tratava, o grupo: ela e seu pai foram incomodados pelo serviço reservado das Forças Armadas, achando que tinham participação!

Lembro-me como se fosse hoje, o barulho dos tiros; os muros eram baixos e a casa 59 da rua Toropi era fronteiriça à minha, na rua Alecrim, aonde resido há 40 anos. A rua Toropi ficou cercada de viaturas do Exército, de ponta a ponta. Um grupo invadiu a casa pela rua de trás (Assurema), pulando o muro, enquanto outros seguiram pela frente.

Dias antes (ou horas antes? - não lembro!) a ‘nossa’ lavadeira (apelidada de Lola - que reside no morro do Juramento, desde aquela época), e que ainda está viva, viu um homem sem as unhas (sangrando nas mãos!) apontando para a casa, indicando o local, de dentro de um carro, agarrado por vários homens que o ameaçavam. Teria sido Carlos Minc?

É verdade que Lamarca esteve aqui, dias antes? Dizem, que sim! Mariza conta que num dos quartos, pedaços de crânio ficaram grudados na parede, provavelmente de quem morreu baleado no local (Eremias).

Lembro-me como se fosse hoje, também, o meu falecido pai mostrando à minha mãe o jornal Correio da Manhã com a foto de um dos quartos da casa, talvez aquele onde mataram Eremias, com várias placas de carro penduradas. Se não me engano, o cofre do governador Ademar de Barros foi recuperado no local”.


Finalmente, o bom Leonardo Amorim indica um logradouro que deveria receber o nome de Eremias Delizoicov, jovem mártir deste país tão pouco reconhecido aos que defendem as causas justas:
“Sim: eu me lembro do que vi e do que ouvi! Minha sugestão: no entrocamento entre a rua Toropi, Abagerú e Imbiaçá existe um largo, que pode vir a ser chamado Eremias Delizoicov. Quero ser convidado ao evento para homenagear aquele de quem por 40 anos ficava imaginando o nome”.


Obs.: artigo de 09/08/2009, que resolvi divulgar novamente neste dia de efeméride negativa, por dar uma boa idéia de como eram abatidos os mártires brasileiros no auge do terrorismo de estado que assolou este país.






Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. É paulistano, nascido e residente na capital paulista. Mantém o blog “Náufrago da Utopia”, é autor de livro homônimo sobre sua experiência durante a ditadura militar e colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”

Pesquisas, para que servem?

Por Laerte BragaIBOPE e DATA FOLHA cumprem um papel dentro do processo eleitoral. O de distorcer e criar realidades inexistentes, que pareçam reais, na tentativa de fazer com que os interesses que representam sejam alcançados.


Pesquisas são importantes, ninguém tem dúvidas disso, falo de pesquisas eleitorais. Mas têm servido a propósitos bem diversos daqueles que em tese se propõem. Medir a intenção de votos do eleitorado.


Não faz tempo um hacker foi preso nos Estados Unidos depois de muitos anos de busca e rastreamento. Não tirava milhões de contas bancárias. Tirava centavos, no máximo dez ou vinte dólares de milhões de contas. A soma do produto era o mesmo. O jeito de fazer não.


Partidos políticos representam, como a própria expressão partido indica, a representação organizada de parte da sociedade dentro do processo democrático, ou supostamente democrático.


Têm programas. Um conjunto de idéias nas quais aparentemente se estruturam e idéias que pretendem transformar em realidade quando alcançam o poder, qualquer que seja o seu nível, municipal, estadual ou federal.


O PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira – surgiu de uma dissidência no PMDB e o argumento de seus fundadores, Mário Covas à frente, era o de que o PMDB havia perdido sua essência, seu sentido, transformara-se num partido movido a clientelismo e fisiologia política. Um amontoado de interesses de caciques desse ou daquele estado.


O PSDB, na verdade, era muito mais uma dissidência paulista que chegou a Minas Gerais no momento em que Orestes Quércia e Newton Cardoso foram eleitos, 1986, respectivamente governadores dos dois estados mais importantes da Federação.


Começou a amadurecer em 1985, quando FHC perdeu as eleições para a prefeitura de São Paulo para o tresloucado Jânio Quadros.


Os principais líderes do partido estavam à esquerda do PMDB, resgatavam (era o que diziam) posições históricas do antigo MDB (o partido de combate a ditadura) e em 1989, logo após a definição dos dois nomes que iriam para a disputa presidencial – Collor e Lula -, seu principal líder Mário Covas arrastou o partido a apoiar Lula. Para isso enfrentou a oposição de FHC e Serra que defendiam o apoio a Collor..


De lá para cá o PSDB, ou tucanos como são conhecidos, foi se transformando, se descaracterizando e virou aliado da extrema-direita no Brasil, a antiga ARENA, que virou PFL e agora é DEMocrata – partido de Arruda, aquele do “vote num careca e eleja dois -.


Em São Paulo o antigo desafeto de FHC e José Collor Arruda Serra, Orestes Quércia é hoje o principal aliado do governador tucano. Quércia continua no PMDB e deve ser eleito senador com o apoio de Serra.


Quando se viu em palpo de aranhas, enrolado com a corrupção em seu governo, Collor de Mello tentou de todas as formas um acordo com o PSDB, através de FHC e não fosse a atitude de Mário Covas, um simples não, FHC iria tentar salvar o insalvável governo. Não há diferenças entre Collor e FHC, nem de Serra. Representam os mesmos interesses, são funcionários de potência estrangeira.


FHC não conseguiu salvar Collor, enrolou Itamar e virou presidente em 1994. Deu um golpe branco em 1998 comprando uma reeleição e vendeu o País. Lula assumiu um Brasil quebrado, em vias de ir para o espaço.


Querem voltar e vender o resto. Arruda Serra é o nome indicado.


Uma das características do PSDB – não é mais um partido, mas um departamento da Fundação Ford – é a de escorar-se num programa, sinalizar à esquerda e virar à direita. Não se trata de um programa de governo o que é oferecido aos brasileiros, mas um engodo que para eles é um grande negócio.


A polícia britânica, Scotland Yard prendeu na semana passada diretores da empresa ALSTOM. A acusação é simples. Suborno de políticos latino-americanos para conseguir obras. Uma delas? O metrô de São Paulo. Subornou Geraldo Alkimin e suborna José Collor Arruda Serra.


Outra característica do PSDB é ter a chamada grande mídia como aliado. A mídia brasileira, a eletrônica principalmente, desde o governo FHC conta com participação do capital estrangeiro às claras (antes contava às escuras, tinha que disfarçar). Redes de Tevê como GLOBO e BANDEIRANTES, todo o sistema de rádios dessas empresas, jornais, outros grupos como o que edita VEJA, FOLHA DE SÃO PAULO, ESTADO DE MINAS, são como que jornais marrons, ou seja venais, a serviço desses interesses, desse capital estrangeiro.


O Brasil é um país chave para os projetos das grandes empresas. E se o Brasil é estratégico para essa gente os brasileiros não. Que se danem.


A pesquisa do Instituto Data Folha, no dia seguinte ao término do show Nardoni e pouco antes da final do bordel BBB, foi estratégica. Num momento em que a candidatura José Collor Arruda Serra afunda, tentam resgatar do fundo do poço o governador de São Paulo. À boca pequena os seus principais aliados já admitem a derrota diante não só das indecisões de Serra, como por conta do seu mau caratismo (passou a perna em vários companheiros, inclusive Aécio, que está liberando prefeitos para apoiar Dilma e vai repetir o que fez em 2006 – de público é Serra, para valer quer que Serra se estrepe).


Roger-Gérard Schwartzenberg, cientista político e autor de “O ESTADO ESPETÁCULO” (DIFEL, São Paulo, 1978), ao tratar de pesquisas de opinião pública diz o seguinte entre outras coisas.


“Desejando fazer como todo mundo o eleitor abandona sua escolha inicial. Volta-se para o candidato sustentado pela maioria”. E cita o exemplo da eleição do presidente francês Giscard D’Estaing, derrotando Jacques Chaban Delmas.


E conclui – “a sondagem passaria então a constituir um instrumento de manipulação e pressão. Criando um sentimento de unanimidade ou, pelo menos, de preponderância a favor de um candidato. Normalizando os comportamentos eleitorais para ajustá-los ao modelo dominante”.


A pesquisa do DATA FOLHA, quando a realidade mostra o contrário, é exatamente essa tentativa de normalizar o comportamento eleitoral.


O que é o eleitor? Ninguém, ou seja, se alguém o é, é para ser a manipulado, ludibriado, enganado.


“Vendam seus candidatos como o mundo dos negócios vende seus produtos”. Declaração de Leonard Hall, presidente do Partido Republicano, na campanha eleitoral de 1956, quando a chapa Eisenhower e Nixon derrotou a democrata. O candidato rival a presidente era Adlai Stevenson.


“Agora o candidato-produto deve conquistar um eleitorado-mercado e provocar votos-compra”. É o que diz o presidente do Young and Rublicam France e mais – “o produto passa a ser o candidato. Sua embalagem é seu aspecto físico, sua maneira de falar, de sorrir, de se mexer. Sua definição , seu posicionamento, é seu programa”.


Serra é isso. Um produto vendido aos brasileiros pela grande mídia, venal e corrupta em função de interesses de grandes grupos econômicos estrangeiros, dos EUA e em cumplicidade com as fétidas elites brasileiras. O esquema FIESP/DASLU.


Dois exemplos de como se compra ou um jornalista, ou a mídia.


O jornalista Gilberto Dimenstein escreve no JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO, tem uma escrita de bom moço, preocupado com a educação, voltado para o interesse público, etc, etc. Aí montou uma arapuca, ONG, fechou um contrato com o governo de São Paulo e recebeu desde 2006, quando da eleição de Arruda Serra, a “modesta quantia de três milhões setecentos e vinte e cinco mil duzentos e vinte e dois reais e setenta e quatro centavos. A arapuca se chama ASSOCIAÇÃO CIDADE ESCOLA APRENDIZ.


O fato pode ser constatado no próprio DIÁRIO OFICIAL do governo paulista e foi levantado pelo blog NAMARIA NEWS. O jornalista que tinha um acentuado espírito crítico, foi linha de frente no combate à corrupção no governo Collor, mudou de lado, passou a receber para falar bem.


O governo de São Paulo fechou contrato com a Editora Abril, que entre outras publicações edita a mentirosa e venal VEJA. Milionário, o contrato, revistas são distribuídas às escolas, não houve concorrência e a “ideologia tucana”, o “lucro acima de tudo nem que seja necessário vender a mãe”, imposta às escolas. Professores apanham da Polícia e recebem salário de fome.


Quanto a GLOBO não é necessário falar. Nasceu corrupta, corrupta permanece, é o principal instrumento de transformação do brasileiro em bocó, pronto a aceitar qualquer arreio, qualquer sela, desde que seja do interesse de quem paga, ou dos que pagam.


E são as elites que pagam.


Paulo Henrique Amorim, em seu blog, jornalista independente, mostra que a senadora Kátia Abreu, corrupta e sem nenhum princípio ético, recebeu vinte e cinco vezes mais o que o MST recebe para financiar seus pequenos assentamentos e sustentar a agricultura familiar (sem os transgênicos de Kátia Abreu, que acrescentam a propina ao que a senadora recebe para “financiar” projetos que acabam sendo campanhas eleitorais).


Está correndo o Brasil colhendo “recursos” para a campanha de José Collor Arruda Serra junto às quadrilhas DEM e tucana e latifundiários. E vendendo a idéia que tem algum respeito pelo Brasil e pelos brasileiros.


A pesquisa do DATA FOLHA cumpriu esse papel. De tentar “normalizar”, vale dizer enquadrar, o eleitor. Só não mostrou que na espontânea, ou seja, naquela que o eleitor responde sem ver nomes, Dilma está à frente.


São bandidos travestidos de políticos e a Polícia Federal tem já em mãos dados da corrupção ARRUDA SERRA/VEJA.


É como concluiu o presidente do Partido Republicano em 1956, Leonard Hall. “o candidato agora é sabão, tratem de vender sabão aos eleitores”.


Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no "Estado de Minas" e no "Diário Mercantil". É colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

terça-feira, 30 de março de 2010

Fraude no julgamento de Battisti


FRED VARGAS E CARLOS LUNGARZO PROVAM FRAUDE NO JULGAMENTO DE BATTISTI


Por Celso LungarettiAgora, não resta nenhuma dúvida: o escritor italiano Cesare Battisti foi condenado à prisão perpétua num julgamento irregular, pois não estava sendo defendido por advogados que houvesse constituído para tanto, inexistindo qualquer evidência de que, foragido no exterior, ele tivesse ciência de que o julgavam.


Quem o representou, na verdade, incorreu em crimes como os de fraude e falsidade ideológica, motivados pelo empenho em favorecer outros réus, cujos interesses eram conflitantes com os de Battisti.





Isto foi totalmente provado por uma investigação independente conduzida pela escritora Fred Vargas, que agora é disponibilizada para os brasileiros por Carlos Lungarzo, professor aposentado da Unicamp e membro há três décadas da Anistia Internacional.

Acrescento que o conteúdo desse dossiê é de extrema gravidade: comprova irrefutavelmente o direito que Cesare Battisti tem de ser julgado novamente na Itália, já que sua condenação se deu à revelia.

Esse direito está sendo escamoteado pela Justiça italiana que, ao ignorar a denúncia consistente que lhe foi apresentada, cedeu à razão de Estado, acumpliciando-se com uma fraude.

Também o relator do Caso Battisti no Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso, descumpriu clamorosamente seu dever de servir à causa da Justiça e não apenas ao de uma parte, a mais poderosa: foi alertado de que o escritor sofreu gravíssima violação dos seus direitos e preferiu o caminho fácil da omissão.

Finalmente, dou testemunho pessoal de minhas tentativas de encontrar espaço para esta denúncia na grande imprensa brasileira, sem que houvesse um grande jornal, uma grande revista nem uma grande rede de TV com disposição de fazer jornalismo, publicando o que é notícia de importância decisiva num caso extremamente polêmico.

Segue o texto em que Carlos Lungarzo apresenta esse trabalho, dando as coordenadas para quem quiser conhecer o dossiê no seu todo.


Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. É paulistano, nascido e residente na capital paulista. Mantém o blog “Náufrago da Utopia”, é autor de livro homônimo sobre sua experiência durante a ditadura militar e colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”

Caso Battisti, finalmente: provas da falsificação das procurações




Por Carlos LungarzoA descoberta inicial - Em 2005, a historiadora, arqueóloga e romancista francesa FRED VARGAS, auxiliada por uma perita do Tribunal de Apelações de Paris (Evelyne Marganne) e por dois advogados franceses (Turcon & Camus), descobriu um fato fundamental: as procurações utilizadas pelos advogados italianos de Battisti, no processo de 1982 até 1990, no qual foi condenado a prisão perpétua, FORAM FALSIFICADAS.

A perita mostrou que três procurações (de maio de 1982, de julho de 1982, e de 1990) foram assinadas no mesmo momento. A doutora Vargas deduziu, então, que essas assinaturas tinham sido feitas por Battisti em folhas em branco quando fugiu da Itália. Isso é uma prática muito frequente entre perseguidos, inclusive na América Latina, pois permite que amigos e familiares usem essas folhas vazias para dar procuração a pessoas da sua confiança.

Fred Vargas percebeu também que as duas procurações separadas por dois meses (maio-julho 82) eram idênticas, e coincidiam por transparência como dois xerox coincidem com o original (salvo algumas palavras trocadas). Nenhuma pessoa jamais teve uma coordenação motriz tão perfeita como para reproduzir sua própria escrita, de maneira exata, meses depois. Segundo meu amigo Lars Brejde, professor de geometria diferencial em Oslo (que gentilmente me auxiliou por e-mail e por MSN), a probabilidade de que isso aconteça é quase zero.

OBSERVAÇÃO - Se você escreve uma linha de texto de (+ ou -) 40 caracteres, e dois dias após repete a mesma linha em outro papel, a probabilidade de que ambas coincidam é muito baixa.

Digamos que seja de uma vez em 100 (de fato, é muito menor, mas não quero parecer tendencioso). Então, a probabilidade de que coincidam duas linhas é de uma vez em 10 mil. (De fato, é um pouco menos, porque devem coincidir de maneira conjunta.) A probabilidade de que coincidam três é uma em 1 milhão (1003). Portanto, a probabilidade de que coincidam seis é de 1 vez em 1 bi. Então, a probabilidade de que coincidam as duas procurações em todos os caracteres deve ser, menos de 1 vez em 100 bi.

Portanto, a única explicação é que alguém usou uma antiga procuração verdadeira de Battisti (que ele tinha dado aos advogados em 1979), e a calcou sobre duas folhas em branco. O objetivo disto era fingir que Battisti tinha dado procuração aos advogados. Então, ele não poderia aduzir que foi julgado sem direito à legítima defesa.

(Obviamente, o julgamento teve muitas outras irregularidades, mas neste momento só nos interessa falar nisto.)

A senhora Vargas mostrou sua descoberta aos advogados defensores brasileiros, e a vários políticos e juristas que se interessaram muito e entenderam que era realmente um caso de fraude. Os advogados e o senador Suplicy denunciaram o fato publicamente. Além disso, Fred Vargas pediu ao relator do processo, Peluso, que pedisse à Itália o envio dos originais para fazer uma nova perícia no Brasil. Ele recusou.

Um fato interessante é que um amigo meu, que também tomou conhecimento da descoberta, fez xerox de tudo e conseguiu, por via de contatos familiares, ser recebido por MICHELE VALENSISE, embaixador da Itália no Brasil entre 2004 e 2009. Ele esperava que o embaixador, a quem não conhecia, se incomodasse quando lhe mostrasse os documentos, mas não foi assim. Segundo ele, o diplomático ficou pálido e sussurrou: “Eu não sabia nada. Não tive nada a ver”. Alguns meses depois desta visita, Michele foi deslocado para a Alemanha.

A minha parte - Os documentos possuídos pela doutora Vargas eram suficientes para entender o que tinha acontecido, especialmente utilizando as explicações dela. Entretanto, eu vi algumas dificuldades. O leitor médio, mesmo comprometido e solidário, nem sempre possui tempo e paciência para se mergulhar em mais de 20 documentos fotocopiados, às vezes escuros. Não é estimulante ordenar textos, olhá-los com cuidado, transcrevê-los, cortá-los, uni-los, compará-los e finalmente tirar conclusões.

Por causa dessas dificuldades, decidi fazer uma apresentação PASSO A PASSO (com 55 slides) que permitisse acompanhar todo o processo, como se fosse um catálogo para usar um aspirador ou uma receita para fazer sopa. A apresentação contém todas as xerox necessárias e os comentários. Além disso, há uma pequena animação que mostra a falsificação. Adicionalmente, o TEXTO EXPLICATIVO (de 19 páginas) que acompanha tira todas as dúvidas, junto com outro texto de Fred Vargas. No site podem analisar os 22 documentos originais, claramente expostos.

Em novembro de 2009, eu pedi à doutora Vargas as cópias dos documentos, que ela me entregou com enorme generosidade e comentários muito esclarecedores. Decidi então estudar com detalhe o problema durante dois meses. O truque do decalque era óbvio, e podia ser percebido a olho nu por qualquer pessoa, se for advertida do fato. Mas era necessário colocar tudo isso numa forma que todos pudessem acompanhar facilmente, e não deixasse nenhuma dúvida.

Portanto, auxiliado por várias pessoas, fiz uma reprodução detalhada do processo de falsificação utilizando as cópias legítimas fornecidas por Fred Vargas, tomadas dos documentos que a Itália tinha entregado a França para a extradição de Battisti. Produzi com isso uma apresentação em PowerPoint, onde se mostra de maneira indubitável a coincidência entre duas das procurações.

Uma parece xerox da outra. Ou seja, jamais poderiam ter sido escritas a mão livre. Minha apresentação inclui também exemplos históricos e EXPERIMENTOS QUE SE PROPÕEM AO LEITOR, para que ele os realize e perceba que é IMPOSSÍVEL que dois textos coincidam dessa maneira se não tivessem sido CALCADOS.

Acompanho o PowerPoint com um documento de 19 páginas onde explico o processo passo a passo. Não estou enviando cópia a todas as redes, como faço com a maioria de meus artigos, porque o tamanho dos arquivos poderia obstruir os computadores menos velozes. Mas fico totalmente ao dispor de quem se interessar para maiores esclarecimentos. Todos poderão encontrar estas provas em vários sites e blogs que cito no final desta nota.

Assumo toda a responsabilidade civil e criminal, ante qualquer suspeita de que meus dados possam estar errados, ou de que estou fazendo uma denúncia temerária.

Onde encontrar - Em meu site O Caso de Cesare Battisti (http://sites.google.com/site/lungarbattisti/) se encontra:

  1. a apresentação animada com a descrição do processo de falsificação;

  2. o texto explicativo de 19 páginas, colocado como documento PDF no ANEXO (1) (rodapé).

  3. A coleção de 22 fotocópias que compõem o material da perícia, contendo documentos públicos e escritos privados de Battisti, para propósito de comparação;

  4. outro texto explicativo, este de Fred Vargas (Anexo 2º)


Recentemente, Nádia Gal Stabile, a quem muito agradeço, construiu um blogue de excelente qualidade (http://ocasodecesarebattisti.blogspot.com/), com o mesmo nome, para que eu pudesse armazenar também aí estes documentos. Aí a visibilidade é perfeita.

Observação - Tenho absoluta confiança na correção de minhas provas. Entretanto, apreciarei muito a opinião de quaisquer outras pessoas e instituições. Especialmente, gostaria conhecer o parecer de pessoas que trabalhem em pesquisa grafológica, geometria da escrita e áreas similares. Também apreciaria a opinião de membros da PF e do MPF. Gostaria de saber se num julgamento feito no Brasil, estes documentos teriam sido aceitos.

Peço a todos os que considerem valiosa a causa da justiça, especialmente aos possuidores de blogues, sites e outros veículos, divulgar o máximo possível nossa informação.

Atenciosamente,


Carlos Alberto Lungarzo, professor e escritor, autor do livro "Os Cenários Invisíveis do Caso Battisti". Para fazer o download de um resumo do livro clique aqui. Membro da Anistia Internacional e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

domingo, 28 de março de 2010

O petróleo nos debates


O petróleo nos debates


Por Mario JakobskindO mês de abril bate às portas trazendo o início da campanha eleitoral para a escolha de quem ficará no lugar de Lula, dos novos governadores, da renovação da Câmara dos Deputados e parte do Senado. Dilma Roussef e José Serra se desencompatibilizam nos próximos dias, enquanto os demais candidatos, Ciro Gomes, Marina da Silva e outros menos votados, inclusive representantes de partidos de aluguel e mesmo de grupos de esquerda minúsculos estão entrando no páreo como azarões.


A Copa do Mundo interrompe por algum tempo a corrida atrás do voto. Pelo andar da carruagem, a disputa principal se dará entre Dilma e Serra, a primeira como candidata de Lula e o outro, apesar de envergonhado, de Fernando Henrique Cardoso, o príncipe sociólogo que governou o país por dois mandatos e só não entregou todas as riquezas do país porque não teve força política para tanto.


Por mais que não queira, o governador de S. Paulo, que trata os professores e os funcionários públicos na base da repressão e ameaças, é vinculado ao governo Cardoso, do qual foi Ministro. Ele agora, com a ajuda da mídia conservadora, tenta demonstrar que não tem nada a ver com aquela fase. Mas se alguém perguntar-lhe, por exemplo, sobre o pré-sal e o restante das riquezas do petróleo, defenderá o regime de concessão e a manutenção dos leilões das bacias petrolíferas. Ou seja, justificará toda a entrega vergonhosa iniciada no governo FHC e usará de sofismas para afirmar que o que foi feito fortaleceu a Petrobras, o que não é verdade.


Cardoso começou uma privatização branca da Petrobras, ou seja, entregando pelas beiradas e hoje mais de 50% das ações da empresa de petróleo pertencem a acionistas estrangeiros e outra parte está nas mãos de testas de ferro. Aliás, a questão do petróleo deverá ganhar dimensão nesta campanha. Possivelmente a mídia conservadora e seus colunistas de sempre vão tergiversar e tentar convencer leitores e telespectadores sobre a necessidade de se manter as facilitações ao capital estrangeiro petrolífero.


O esquema já começou inclusive em toda a celeuma relacionada com os royalties do petróleo para o Estado do Rio e Espírito Santo. Ibsen Pinheiro, o irresponsável, entrou na história só como o culpado de todos os horrores. Ele sem dúvida é culpado por apresentar um projeto inconstitucional e que não tem condições de se sustentar mesmo sendo aprovado agora pelo Senado.


Mas não é só Ibsen o vilão. Há outros parlamentares, entre os quais o Deputado Henrique Alves e o senador Francisco Dornelles, que defendem com unhas e dentes a manutenção da quebra do monopólio estatal de petróleo determinada pelo ex-presidente Cardoso, coringa de Serra. E tem mais: os dois são colocados nas alturas pela mídia conservadora ao se apresentarem como defensores incondicionais do regime de concessão às multinacionais.(lei 9478/97), que permitiu que empresas estrangeiras, através de leilões, se apropriassem do petróleo extraído no solo. Querem manter o mesmo para a extração no mar.


Alves e Dornelles são também verdadeiros traidores da pátria. Enquanto os Estados Unidos para abocanhar petróleo do Iraque precisa invadir e ocupar o país árabe, fazer ameaças em outras partes do mundo, haja vista a Venezuela e o Irã, as riquezas brasileiras do setor são entregues com justificativas mentirosas. O atual governo apresentou a proposta de partilha das riquezas do pré-sal, avaliadas em cerca de 10 trilhões de dólares, ou seja, uma proposta intermediária entre o regime de concessão e a reestatização da Petrobras, defendida pelos movimentos sociais. Dornelles e Alves combatem até o meio termo, da mesma forma que O Globo. Defendem a entrega total, da mesma forma que o outro traidor de nome Fernando e sobrenome Cardoso.


E para dourar a pílula da doação, todos os candidatos que adotam a tese da concessão terão espaço garantido nos telejornais em horário nobre. Não é à toa que os jornalões e os telejornalões estão se portando cada vez mais como linhas auxiliares de projetos políticos lesivos aos interesses nacionais. E quem questiona isso ainda leva a pecha de defender restrições à liberdade de imprensa.


A campanha vai pegar fogo depois da Copa do Mundo. Resta saber de que forma o(a)s candidato(a)s vão se posicionar na questão do petróleo e outras. E se as editorias da mídia conservadora vão orientar os repórteres no sentido de abordar o tema nas perguntas ou então evitar o aprofundamento da matéria, deixando apenas aparecer a superfície dando espaço de mão beijada a governadores que contemplam com polpudas verbas os seus departamentos comerciais.


Em tempo: George W. Bush reapareceu em Porto Príncipe limpando a mão nas costas de Bill Clinton depois de apertar a mão de um haitiano. Precisa dizer mais alguma coisa?


Nossas boas-vindas ao nosso novo colaborador, Mário Augusto Jakobskind, que é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de S. Paulo e editor de Internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, dentre outros livros, de "América que não está na mídia" e "Dossiê Tim Lopes - Fantástico / Ibope". É colunista do site "Direto da Redação" e, a partir de hoje, colabora com o blog "Quem tem medo do Lula?"

E segue a boiada...



E segue a boiada...


Por Laerte BragaTerminado o show Nardoni o jornal FOLHA DE SÃO PAULO estampou em sua primeira página, edição de 27 de março, os resultados de uma pesquisa do Instituto Data Folha dando vantagem de nove pontos percentuais ao governador de São Paulo José Collor Arruda Serra.


Ao contrário de todas as demais pesquisas inclusive do IBOPE, que detectam ascensão de Dilma e queda de Arruda Serra.


Mais ou menos como o sinal de partida para a corrida eleitoral, pelo menos até copa do mundo e tentando amenizar o impacto exatamente das outras pesquisas, buscando dar sobrevida à candidatura do governador paulista. Arruda Serra já disse a mais de uma pessoa em seu partido e fora dele que preferia não ser candidato a presidente.


Atenuar a queda dos índices do governador Arruda Serra. Dar fôlego a um paciente em estado terminal.


Faz parte do show fabricar fatos e gerar notícias na tentativa de desviar a boiada do caminho indesejado, no caso de FOLHA DE SÃO PAULO e da grande mídia, desviar o eleitor do voto em Dilma Roussef.


Como a turma da GLOBO estivesse exausta cobrindo até a última gota o sangue da menina Isabela, coube à FOLHA a tarefa de tentar evitar a queda do avião tucano/DEM.


Aproveitar o espaço e a ressaca do caso Nardoni e começar a tanger o gado noutra direção.


Foi assim em várias outras ocasiões e é assim que vão tentar fazer até o último minuto do jogo eleitoral. Para esse tipo de mídia, marrom, não importam os fatos reais, mas a versão que querem, desejam.


“Os povos gostam do espetáculo, através dele dominamos seu espírito e seu coração”. Luís XIV, rei de França.


Um outro espetáculo, o de mães com crianças ao colo, pela madrugada e à porta do fórum onde foram julgados os Nardonis. Lembraram as cenas de velhos filmes de faroeste em que a multidão cercava a delegacia e exigiam que o preso fosse linchado.


É fácil tanger essa boiada. De agora em diante estarão todos empenhados em buscar justiça no final do BBB. Funcionar como jurados para decidir quem leva um milhão e meio de reais. A sensação que o povo decide alguma coisa. Pode qualquer coisa na cabeça dos donos, desde que não mude absolutamente nada, ou não sejam permitidos novos avanços em termos de conquistas dos trabalhadores.


Um por cento dos proprietários rurais, latifundiários, grandes proprietários, paga a contribuição previdenciária de seus empregados. Noventa e nove por cento não. Os dados são da própria Confederação Nacional da Agricultura.


Trabalho escravo sob a batuta de miss desmatamento, a senadora Kátia Abreu do DEM.


As condições miseráveis, vergonhosas a que esses trabalhadores são levados não passa na GLOBO, não merece caravana da cidadania e tampouco que sejam levadas ao conhecimento da boiada. De repente pode haver um estouro e a coisa desandar.


Tem que existir sempre uma pesquisa mentirosa pronta para salvar as elites. Como aquele técnico que perdendo de nove a zero manda “os arfie arrecuá pra evitá a castastre”.


A Operação Satiagraha, conduzida pelo delegado Protógenes Queiroz foi considerada correta pelo Superior Tribunal de Justiça. O delegado foi execrado pelo presidente do STF DANTAS INCORPORATION LTD, Gilmar Mendes. Queria inclusive, o presidente da empresa que o juiz Fausto De Sanctis fosse afastado do processo. Não foi. A farsa de falsas gravações de conversas do ministro com um senador do DEM não sobrevive a uma perícia, já que o esquema agora é perícia.


Foi montada nos laboratórios de VEJA, na terceirizada CORRUPÇÃO PSDB/DEM INC. LTD.


“O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não vivo” – Guy Debort, A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO –.


No espetáculo de boçalidade da PM paulista contra professores que reclamam melhores condições de trabalho e melhores salários, em tudo e por tudo, numa educação pública sucateada por Arruda/Serra (não gera propina para caixa dois) um professor carrega um PM ferido no choque. Carrega ao colo.


Arruda/Serra não tem a menor idéia do que seja isso. Entende muito de “quanto vão pagar para realizar as obras do metrô porque tenho que pagar à FOLHA DE SÃO PAULO pela pesquisa que montaram para mim”.. Caixa dois, a turma que pagou está presa na Inglaterra e causando terremotos aqui, entre tucanos e DEMocratas.


A foto é de Clayton de Sousa, da AGÊNCIA ESTADO e está dando a volta ao mundo por conta do seu extraordinário significado se tentarmos imaginar que ainda somos seres humanos. O professor o é, claro, o PM vai acabar aprendendo, tomara. Retirei de


http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2010/03/26/o-mundo-bizarro-de-jose-serra/#comment-2931


A FOLHA é aquele jornal que emprestava os carros para que os torturadores desovassem os corpos dos presos políticos mortos nos quartéis da tortura e exibidos á sociedade como vítimas de atropelamento.


Os Nardonis, criminosos cruéis com certeza, foram condenados com base em indícios concretos e indesmentíveis de provas periciais. A investigação policial foi um desastre. Como quase todas. Mexeram no local antes da perícia chegar, delegado e delegada falaram pelos cotovelos para a mídia, propuseram acordo ao casal, ameaçaram, um assumia a culpa, outro saia livre, enfim, tudo para ao final apresentarem os culpados com aquela bandeira atrás – Polícia Civil –.


Um juiz, não faz muito tempo, reclamou que tinha que fazer um esforço tremendo para condenar determinados criminosos. É que o que vinha da Polícia não prestava como prova.


Quem sabe a lição do professor carregando o PM ferido?


Essa turma da mídia chama todo esse processo de democrático, cristão, ocidental e acha que isso é livre expressão.


Ê boi!


Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no "Estado de Minas" e no "Diário Mercantil". É colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

Explicando o boicote brasileiro no exterior

[caption id="attachment_5030" align="aligncenter" width="183" caption="Bandeira dos Emigrantes"][/caption]

Explicando o boicote


Por Rui MartinsBerna (Suiça)


Exmo. Sr. Presidente da República


O movimento de cidadania Estado do Emigrante (que não é Ong, não tem e nem pediu verbas, funciona na base do voluntariado), sucessor do movimento Brasileirinhos Apátridas (que deu dores de cabeça ao MRE ao denunciar e lutar contra o risco de uma geração de brasileirinhos sem nacionalidade, situação resolvida com a Emenda constitucional 54/07) vem à sua presença explicar porque decidiu boicotar o alistamento eleitoral dos emigrantes nos Consulados, no Exterior, e porque poderá pedir aos emigrantes para não votarem nos Consulados e boicotarem as próximas eleições presidenciais.


Mas Senhor Presidente não se assuste com nossa ameaça. Ela não causará grandes estragos.


Por uma razão bem simples – nós somos os excluídos do Exterior, não temos nenhuma importância política e a grande maioria, mesmo sem que decretemos boicote, já não vota. Na sua reeleição, em 2006, por exemplo, havia 4 milhões de emigrantes espalhados pelo mundo, mas só havia 80 mil eleitores emigrantes (!) e metade deles justificou ausência e não votou.


E é por isso que lhe escrevemos – os emigrantes brasileiros, que o MRE chama com o nome bonito de Brasileiros no Mundo, embora mandem 7 bilhões de dólares anuais à Matriz brasileira, não têm grandes direitos e não participam da vida política brasileira. E, por isso, ninguém se interessa em votar - pegar o carro, um trem, avião, gastar dinheiro duramente ganhado, para votar no Consulado mais próximo mas sem poder escolher representantes em Brasília, não paga a pena.


Mesmo porque não existe também até agora uma política nacional da emigração. É verdade, durante seu governo, criou-se uma Subsecretaria-geral das Comunidades Brasileiras no Exterior, montou-se um Portal Consular na Internet e se fizeram duas Conferências dos ditos Brasileiros no Mundo, no Itamaraty. Graças a um abaixo-assinado por iniciativa do nosso movimento criou-se uma Comissão de Transição, que virou Conselho de Representantes mas sem nenhum poder decisório, que qualificamos de vaquinha de presépio.


Não é isso que reivindicamos. Queremos alguma coisa concreta, como existe em outros países. Portugal, por exemplo, cuja população emigra desde a época de Vasco da Gama e de Cabral, tem uma experiência que levou a criar uma verdadeira política de emigração.


Existe um Ministério das Comunidades, são eleitos quatro deputados representando as quatro regiões do mundo povoadas com emigrantes portuguêses e elege-se um amplo Conselho Consultivo dos emigrantes com 63 representantes. Com essa estrutura, Portugal desenvolve toda uma política social, cultural, educativa junto aos emigrantes.


Mas não é só Portugal, com ligeiras variantes o mesmo acontece na França, Itália e mesmo em países latinoamericanos como o México e o próprio Equador.


Os emigrantes constituem uma população nacional externa, mas não é por isso que devem ser considerados como parte das funções das Relações Exteriores. Devem ser considerados como um segmento da população brasileira e possuir em Brasília uma Secretaria Especial de Estado ou um Ministério, autônoma e independente do MRE (por que não um super Ministério englobando migração, imigração e emigração?), ter parlamentares emigrantes e um amplo Conselho Consultivo de emigrantes.


Se tivermos parlamentares emigrantes, nossos representantes em Brasília, haverá interesse na comunidade do exterior pelo alistamento eleitoral, transferência do título de eleitor e pelo exercício do voto. Os partidos também darão importância política aos emigrantes e instalarão seus comitês e farão campanha no Exterior. E os emigrantes poderão levar suas reivindicações a Brasília, por seus representantes eleitos por voto direto.


Como vê, nossas reivindicações são justas e, se incorporadas neste final do seu governo, assinalarão uma nova política de emigração. E, tão logo seja anunciada essa sua intenção, suspenderemos o boicote e colaboraremos no alistamento eleitoral.


Receba Excia nossos cumprimentos, na expectativa de que dê provimento a estas reivindicações.


PS. se o MRE confirmar eleição do Conselho de Representantes de emigrantes em maio, o fato de ser apenas consultivo não responderá nossas reivindicações. Participaremos dessa eleição e do registro dos emigrantes, muitos não-documentados, pela Internet para poderem votar, mas não incentivaremos a transferência de títulos de eleitor e nem o alistamento eleitoral, enquanto não houver eleições para parlamentares emigrantes irem a Brasília.


Rui Martins é jornalista. Foi correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. É autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. É colunista do site "Direto da Redação" e vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, e com o blog "Quem tem medo do Lula?"

Enigmas Pendentes do Caso Battisti


Enigmas Pendentes do Caso Battisti


Por Carlos LungarzoTrês meses depois que o caso Battisti fosse juridicamente encerrado, ainda persistem algumas dúvidas sobre fatos concretos e pontuais.. Vou selecionar três delas:


1.       Como é possível, em qualquer sistema jurídico, que um Tribunal permita a uma das partes tomar decisões?  Ou, melhor: como não foi possível encontrar um fórum jurídico internacional no qual se pudesse protestar contra tamanha aberração?


2.       Mas esta, apesar de concreta, é uma pergunta conceitual.. Vejamos uma dúvida mais factual? Por que o embaixador italiano Michele Valensise foi abruptamente separado da sua missão no Brasil?


3.       Finalmente, onde está o acórdão ou, pelo menos, para quando podem nos dar uma posição? (Não os estamos apressando, apenas queremos informação.)



Inimicus Curiae


Se você foi abalroado por um carro dirigido de maneira imprudente talvez queira levar o motorista ante a justiça, seja para demandá-lo civilmente, seja para que o MP e o advogado de acusação o querelem criminalmente. Durante o julgamento, seu advogado, o promotor e o defensor do réu poderão trocar numerosas queixas, e reclamar junto ao juiz sobre procedimentos ofensivos, especulativos, protelatórios, etc. Mas, vamos além: imagine agora que, acabadas as alegações das partes, o juiz olha para você e pergunta:


“O Senhor quer que o réu seja condenado por crime culposo, por dolo eventual, ou por culpa consciente? Acha boa uma pena entre 15 e 20 anos?”


Absurdo? Que nada! Isto acontece no Brasil. Pelo menos, aconteceu com Battisti nove vezes. O escritor italiano era naquele momento refugiado sob o mandato do estado brasileiro e, portanto, de acordo com leis internacionais aceitas pelo Brasil, deveria encontrar-se em liberdade. Se o próprio marquês de Beccaria ressuscitasse, ele não teria direito a dizer “deixem Battisti preso”, mesmo que ele fosse o relator do caso ou o presidente do Tribunal.


Numa exacerbação do absurdo, o relator consultou o estado Italiano em todos os casos em que a defesa do escritor pediu sua liberdade. Obviamente, os patrões disseram que deveria continuar preso. Essa infâmia não surpreende, mas preocupa o fato de que nada razoável pôde ser feito para evitar-la. Por que, alguém que é parte no conflito, é também parte do Tribunal?


Não pode argumentar-se que Itália era amicus curiae no caso Battisti. Eu não sei nada de processos judiciais, e nunca pisei uma faculdade de direito, mas desde a adolescência sempre ouvi dizer que os amici curiae não podem ser parte na ação. Não posso ser amigo de mim mesmo. Terei sido vítima de algum vigarista?


Por essa e outras razões, o 21 de julho de 2009 decidi ingressar uma queixa contra o STF na CIDH, mesmo correndo o risco de aguçar a sede de vingança.  Denunciei esta “privatização” do julgamento no contexto da violação dos artigos 24, 25, 26 e 27 da Carta Americana de Direitos Humanos, incluindo o direito de todo refugiado a permanecer em liberdade.


Com certeza, a OEA não é mais aquela que o Che Guevara chamou o Ministério de Colônias dos Estados Unidos, mas ninguém faz milagres. Mesmo sendo agora mais justa, seria exagerado pedir uma mudança radical. Com efeito, a CIDH reagiu positivamente 162 dias depois, me informando que minha denúncia seria aceita para uma primeira avaliação. De fato, não posso queixar-me: a demora foi menos de 200 vezes maior que o tempo que a CIDH tomaria para aceitar uma denúncia contra Venezuela pela desapropriação de um campo de golfe.


Embora Battisti continuasse preso, parte dos motivos da denúncia estava ultrapassada. Minha queixa contra a protelação indefinida do julgamento, e contra a negativa do tribunal de explicitar qual era a acusação que pesava sobre o réu, já não tinha vigência. Em janeiro desse ano, quando recebi a carta da CIDH, Battisti já tinha sido julgado. Aliás, a ilegalidade de sua prisão se resolveria logo de redigido o acórdão, quando o presidente do Brasil pudesse decidir sobre sua aplicação. Por isso, e para evitar colocar demasiada pressão, pedi à CIDH dar um tempo.


Mas, ainda, uma pergunta “metafísica” persiste: Será que num país ocidental, com ampla visibilidade, cujo governo recebe muitos elogios (sinceros ou não) no exterior, não existe nenhuma regra para que o mais alto tribunal se comporte de maneira legal? Ou será que esse arbítrio próprio de uma fazenda é o que se chama “independência de poderes”?



A Defenestração do Embaixador


Michele Valensise é um diplomático de carreira, conhecido como excelente comunicador e especialista em jornalismo, que durante algum tempo manteve uma relação de conflito com alguns cidadãos italianos ou ítalo-brasileiros. Estes se queixavam de negligência no tratamento, do pouco interesse do diplomata nos problemas dos empresários italianos, e coisas semelhantes. Pelo pouco que sei, Valensise não prestava muita atenção às exigências da classe média italiana, que, imaginamos, se achava mais respeitável que os “nativos” deste país tropical, mas essas dificuldades parecem ter sido esporádicas e sem maiores conseqüências.


Além disso, nenhum país é tão ciosamente protetor de seus cidadãos como para remover um embaixador porque produz alguns constrangimentos no público. Um diplomata não é um gerente de loja, que o patrão substitui quando desaponta algum cliente.


A razão pode ter sido muito diferente. Em novembro de 2008, um amigo meu ao qual identificarei pelo codinome de “Sérgio”, pediu e obteve uma entrevista com Valensise, do qual ficou com uma impressão bastante favorável, tendo em conta o que poderia esperar-se de um representante do governo italiano.


Sérgio perguntou ao embaixador se achava justo que se condenasse um inocente como Battisti, e recebeu uma resposta elegante, porém previsível: ele tinha sido condenado pela justiça italiana em três instâncias, e o diplomata não aceitava, obviamente, que o julgamento tivesse sido forjado.


Foi então que Sérgio mostrou uns rascunhos a partir dos quais, tempo depois, seria construído um documento muito detalhado que ainda não foi publicado: era a prova de que justiça italiana tinha falsificado as procurações dos advogados de Battisti. Mesmo que as provas definitivas da fraude sejam muito detalhadas (como se verá quando se publiquem) e possam ser entendidas por qualquer leitor de qualquer idade e condição, aqueles rascunhos eram suficientes para que o embaixador, uma pessoa experiente e culta, descobrisse a verdade.


Segundo Sérgio, o diplomata não argumentou: olhou os papéis, ficou pálido e pareceu que ia desmaiar. Ele disse algo que não quero distorcer, mas, segundo me contaram, seria mais ou menos isto: “Eu não sabia disso. Eu nunca tive nada a ver com o caso”. Não havia dúvida que ele não estava a fim de negar a verdade irrefutável daqueles documentos, e era evidente de que seu conhecimento da fraude era zero.


Embaraçadíssimo, o embaixador se despediu, e Sérgio acreditou ouvir algo como: “Verei o que posso fazer”. Entretanto, como bom soldado, conseguiu contribuindo ao processo de linchamento. Seu Michele tem 58 anos, e era um jovem diplomata em pleno treinamento quando se produziram os crimes dos quais se acusa a Battisti, em 1979. Mal poderia ter contato com a justiça de Milão e possivelmente nunca ouvi falar nos PAC, especialmente porque entre 1978 e 1981 esteve destinado ao Brasil. Portanto, sua consternação com a descoberta de que estava envolvido na tramóia deve ter sido sincera.


Por outro lado, ele foi nomeado embaixador da Itália no Brasil no dia 15 de novembro de 2004, quando Battisti estava na França. Logo em seguida começaram as queixas da comunidade italiana desapontada, o que sugere que a Farnesina (Ministero degli Affari Esteri) teve muito tempo para deslocá-lo antes que os conflitos atingissem seu ápice. Mas isso não aconteceu. Ele pareceu ser operacional no caso Battisti (e até foi chamado para “consultas” em janeiro de 2009), mas a meados do ano, antes que começara o dito “julgamento” foi nomeado embaixador na Alemanha.  Alguns europeus que dizem ter intimidade com ele (especialmente italianos e alemães) afirmam que a Farnesina (e, de fato, todo o estado italiano) se incomodou pelo fato de que ele tivesse dialogado com pessoas favoráveis a Battisti. Não sabemos se Michele confessou ao governo que tinha visto provas da fraude.



Demora, porém não Muita


A demora do acórdão não é catastrófica. Afinal, algumas destas sentenças coletivas foram publicadas até com 6 meses de atraso, sem que houvesse má vontade com a causa. Neste caso, em que a má vontade é infinita, se demorasse 8 meses não deveria causar perplexidade. Mas, de qualquer maneira, é bom que o relator e seus aliados saibam que o Comitê de Solidariedade com Cesare está atente, e se for necessário entrar com novas denúncias internacionais, será feito. Há alguns meses, perguntei a um parlamentar o que faríamos se o STF protelasse indefinidamente. Ele não duvidou um instante e respondeu: “Entraremos com queixa em todos os tribunais internacionais”.


Outro ponto interessante é a nova manifestação do ex-presidente do STF.


Numa reportagem da Folha de S. Paulo, com motivo do fim de seu mandato como presidente do STF, o ministro Mendes disse que Lula não pode usar para refugiar Battisti os mesmos argumentos que já foram objetados pelo STF. Mas, se tiver outros, eles serão analisados.


Esta manifestação parece indicar que o STF não sossega e que continuará com intervenções cíclicas que giram até o fim dos tempos como o samsara bramânico. Então, qual é o significado, para esta galera, da expressão “O Presidente tem a última palavra”?


A fase jurídica está concluída e até os mesmos subservientes e bajuladores da cúpula do SFT (por exemplo, vários magistrados e juristas que escreveram em blogs e que até deram consultoria para STF) disseram que o asilo era um ato discricionário. O leitor pode ver isto nas muitas declarações que foram feitas no ano passado (no mínimo, duas por semana) dizendo que Tarso Genro estava ferrado porque ele concedeu refúgio, quando o único instrumento absoluto para o caso seria o asilo. Eles enfatizaram a diferença entre refúgio e asilo para ridicularizar o ministro. Claro, esta torcida de linchadores não pensava que em algum momento iria a aparecer a possibilidade de asilo.


Mas, o Presidente pode, perfeitamente, recusar a extradição usando a decisão do próprio Supremo (mesmo que seja redundante). Decidida a não extradição, é só garantir asilo (não refúgio!!) em nome do Estado Brasileiro. Com o asilo não há truque que adiante.


Seria bom que os altos magistrados não imitassem a mídia, pois eles possuem uma fé pública, pelo menos formal, da qual a mídia carece. Muitas vezes tentou-se fazer estourar os nervos de Battisti (e também os milhares de pessoas que acompanham o caso). Houve notícias falsas nos jornais, boatos sobre pretensas intenções do governo, e assim em diante. Fora do caso Battisti e alguns outros percalços, o Supremo tem mostrado uma trajetória interessante nos últimos 25 anos, se pensamos que vivemos numa sociedade semifeudal e escravocrata, e que uma metade, ou talvez mais, da classe jurídica, está formada por “excelsos”, “egrégios” e “sábios” que representam o último resíduo das monarquias hereditárias (embora se utilizem concursos para melhorar a imagem).


Então, não faz sentido tentar assustar. O STF já fez sua faina e terá de aceitar a decisão do poder executivo, porque este problema não deve transformar-se numa vendetta digna da Córsega.


Carlos Alberto Lungarzo é professor e escritor, autor do livro "Os Cenários Invisíveis do Caso Battisti". Para fazer o download de um resumo do livro, disponibilizado pelo próprio autor, clique aqui. É membro da Anistia Internacional e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

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