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A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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sábado, 21 de agosto de 2010

"Pô, Jabor, vamos ouvir uma musiquinha!"

Ilustração de Cavalcante

Pô, Jabor, vamos ouvir uma musiquinha!

Por Arnaldo Bloch*

Prezado xará Jabor, estava lendo dias
atrás sua coluna sobre os arrepios
que vem sentindo diante do cenário
eleitoral (com Serra ou com Dilma,
uma grande cilada nos aguardaria!), e dos pe-
rigos de nosso atual momento, no qual esta-
ríamos cercados por forças que, de um modo
ou de outro, nos levarão às trevas da mais
inexpugnável opressão. Jabor, eu aqui decla-
ro: ao contrário de você e de tanta gente à mi-
nha volta, ainda não escolhi meu candidato.
Que nem disse o Jards Macalé: “Meu voto é
tão secreto que eu mesmo desconheço.” Além
disso, Jabor, não sou analista situacional nem
tenho a sua bagagem em vivência de proces-
sos políticos traumáticos. Nasci em 1965,
meus pais não eram ativistas, minha família
não rezava por cartilhas muito libertárias.
Por motivos de superproteção materna
maior, não frequentei os movimentos da es-
querda sionista (pô, mamãe!). Fiquei mesmo
ali, na santa ignorância sobre o arbítrio e a
violência do regime, até a sua abertura.
Entre um Dostoievski, um Kafka, um Hess e
um Ionesco, abria os jornais locais e relaxava
com os quadrinhos e os esportes. Achava Mé-
dici um velhinho simpático (o único defeito
era ser Flamengo) e me emocionava com as
paradas militares. Até hoje, quando ouço ruí-
dos de helicóptero em domingo de sol, volta-
me aquela sensação de conforto alienado. E
fico com um baita sentimento de culpa.
Em compensação, minha primeira grande
emoção cívica esclarecida (até onde era pos-
sível ser esclarecido) foi de lavar a alma: a
corrente das Diretas Já, a vigília, o comício do
milhão na Candelária. O pano da censura bai-
xou e eu bebia, no teatro, no cinema, nas ar-
tes, nos jornais, essa água nova do saber. Na
faculdade, liberto do cerco familiar, integrei
uma turma que já via como anacrônicas as
“questões de ordem” dos veteranos engaja-
dos e, ao mesmo tempo, negava as ondas de
caretice da direita tecnocrática que se insi-
nuava na arena do movimento estudantil.
Sabe, Jabor, gosto muito da sua verve e
aprecio seu alarmismo quando ele traz junto
uma autoironia redentora, uma confissão da
própria paranoia, um reconhecimento do pa-
thos do seu discurso, aquela coisa do bode
preto, do seu bode preto, estar sempre à es-
preita. Mas ao tomar o trem de seus arrepios
recentes, confesso que senti também um ar-
repio, provocado pelo seu desencanto e pela
sua desesperança no povo brasileiro. Bati na
folha do jornal e disse: não, não e não! Não
vou crer que os tais 80% de Ibope a que você
se refere sejam compostos de uma substância
humana miseravelmente iludida, incapaz de
contemplar o andar da carruagem, desprovi-
da de qualquer juízo. O brasileiro tem lá suas
carências de educação e de proteína, mas não
consigo, não consigo mesmo, ver esse povo,
passadas duas décadas e meia do início da re-
democratização, caminhar no escuro, ou na
direção do abismo.
Vejo, sim, um país que, por obra do eleitor,
levou Collor, FH e depois Lula ao poder e que,
através de suas escolhas, certas ou erradas,
deu um belo passo no sentido da consolida-
ção do tal processo democrático. Olha Jabor,
não vejo encanto em nenhum dos candidatos.
Não é, aqui, uma questão de preferência, mas
de referência. Talvez por ser um filho da ig-
norância que de repente acordou na grande
virada; ou talvez por ser menos marcado por
convulsões radicais eu tenha esta percepção
positiva. Por outro lado, há fatos a apoiá-la:
independentemente dos desmandos desse ou
daquele, dos equívocos, das apropriações de
ideias, há uma verdade indiscutível: não veio
a ruptura institucional que tantos temeram.
O Brasil foi, e é, maior que Lula, maior que
FH, que Dilma, que Serra, que os Arnaldos, os
jabores e os blochs. O Brasil é esse bêbado
equilibrista que não caiu. Que estabilizou a
moeda e a manteve estável. Que não fechou o
Congresso. País onde as instituições e os
meios de difusão de informação têm lá suas
turras, mas a imprensa está aí, dialogando
com a sociedade e com as esferas políticas
em meio à transformação revolucionária, pa-
ra o bem e para os males, que ocorre na tec-
nologia. Sei lá, Jabor. Essa sua ideia do perigo
iminente — ou será imanente? — me lembrou
um pouco a Regina Duarte em 2002, dizendo
que íamos mergulhar na hiperinflação.
Não vamos mergulhar em nada, nem a cur-
to nem a médio prazo. Acho, sim, que o ho-
mem, num âmbito global, tem questões fun-
damentais a resolver sobre sua relação com o
meio ambiente, com os recursos, com sua dis-
tribuição. O Brasil, por outro lado, vejo mais
como uma nação que cresce do jeito que uma
sociedade democrática recente (onde vigora,
incontestável, e mais do que nunca, o capita-
lismo) consegue crescer. Um país com um
passado pleno de conflitos, estruturas ainda
muito viciadas, que evolui.
Os arrepios que venho sentindo, Jabor, são
de ordem sensorial, no sentido do belo. Arre-
pios ao tocar um pianinho. Ao sentir o vento
dourado de poente invernal varrer da cuca o
bode preto. Arrepio dessa aragem boa que
qualquer um, no carro, no asfalto, no morro,
pode sentir, irmanando-se. Arrepio com um
romance filosófico da lavra de “Paisagem com
dromedário”, de Carola Saavedra. Arrepios de
bicicleta. Da crença súbita no amor. E no amor
ao Brasil. Ao que somos. Ao que fizemos até
aqui. Na boa, Jabor. Pô. Vamos ouvir uma mu-
siquinha. Dar uma respirada.

*Saiu no jornal "O Globo" de hoje, 21 de Agosto de 2010. Sim, no jornal "O Globo". Há muito tempo que eu não fazia isso, mas este texto merece leitura.

sábado, 17 de abril de 2010

Réquiem para Arnaldo Jabor



Réquiem para Arnaldo Jabor


Essa figura deprimente e fracassada chamada Arnaldo Jabor, é algo realmente digno de pena. Começou a ganhar fama no Brasil através do cinema e, embora esta seja uma das mais belas artes que o homem já produziu, das mãos do Jabor não saiu absolutamente nada de extraordinário, diferente, genial, sublime, etc. Para falar a verdade, não fossem os grandes atores com os quais trabalhou (Paulo Gracindo, Fernanda Montenegro, Darlene Glória, dentre outros) seus filmes não teriam ido além da mediocridade. A sua falta de talento, sensibilidade e inteligência, que são necessárias para qualquer tipo de arte, ficaram bem claras e nítidas nos seus poucos trabalhos como cineasta. Glauber Rocha (esse sim um gênio da arte cinematográfica e com uma inteligência e sensibilidade à flor da pele) é que fez bem em não permitir a entrada do Jabor no movimento do Cinema Novo. Glauber, com certeza, já pressentia o tipo de pessoa que o rondava como mosca de padaria na tentativa de fazer parte daquele movimento que fez história no cinema brasileiro.


Uma vez, no programa do Jô Soares, o Jabor, durante uma entrevista, disse que havia parado de fazer cinema porque ele já teria feito todos os filmes que poderia fazer. O Jô não só concordou com ele (e ambos são amigos) como disse ainda que lhe internaria numa clínica psiquiátrica se ele tentasse fazer cinema novamente. Este episódio parece ser mais do que suficiente para constatarmos o tamanho do talento do Jabor para a arte cinematográfica. Ou será que alguém consegue imaginar um Glauber Rocha, um Roman Polanski, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Walter Salles e tantos outros diretores geniais dizendo, depois de meia dúzia de filmes, que já fizeram todos os filmes que poderiam ter feito. Alguém que realmente tem o dom, a inteligência e a sensibilidade de produzir obras de arte (sejam pinturas, esculturas, teatro, cinema, literatura, música, etc.) só para de se dedicar à sua arte quando morre ou se tiver algum outro grave impedimento físico ou psicológico que o impeça de ir em frente na busca por uma superação a cada obra. Nenhum artista abandona a sua arte; mas, é, sim, por ela abandonado. Portanto, não foi o Jabor que abandonou o cinema, foi o cinema que o abandonou.


Bem, após essa separação litigiosa que o cinema lhe impôs, o inútil Jabor ficou vagando por aí em busca de sua própria identidade e tentando um lugar ao Sol. Começou a escrever para colunas de jornal. E foi aí que cometeu seu segundo erro: achou que poderia ser escritor. Mais um fracasso! Os livros do patético Jabor são tão ruins que fariam até mesmo Paulo Coelho se sentir um Balzac perto dele. Mas como Jabor é brasileiro e não desiste nunca, ele agora pensa que é comentarista político. Para começar não conseguiu agradar sequer aqueles pelos quais ele demonstra a mais completa subserviência e alto grau de adestramento, a família Marinho. Começou falando 30 ou 40 segundos (se muito) no Jornal Nacional (horário nobre) e logo foi jogado para o Jornal da Globo (um jornal de baixíssima audiência porque seu horário é incerto e geralmente muito tarde). Mas como não lhe sobrou mais nada, ele continua a sua cruzada como comentarista, só que agora resolveu encarnar o Inspetor Javert (personagem do clássico livro de Victor Hugo, Os Miseráveis) numa versão tupiniquim e escolheu os comunistas como seu Jean Valjean (o outro personagem do livro citado acima e que é perseguido pelo Inspetor Javert de forma estúpida e até mesmo patológica). Numa recente palestra onde foram cobrados 500 reais de entrada e que tinha o título de: 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão (pelo preço, fica fácil perceber que democracia aqui não é para qualquer um) o "popular" Jabor vociferou as seguintes acusações e avisos:


"Então o perigo maior que nos ronda é ficar abstratos enquanto os outros são objetivos e obstinados, furando nossa resistência. A classe, o grupo e as pessoas ligadas à imprensa têm que ter uma atitude ofensiva e não defensiva. Temos que combater os indícios, que estão todos aí. O mundo hoje é de muita liberdade de expressão, inclusive tecnológica, e isso provoca revolta nos velhos esquerdistas. Por isso tem que haver um trabalho a priori, contra isso, uma atitude de precaução. Senão isso se esvai. Nossa atitude tem que ser agressiva."


É realmente uma análise política à altura do seu talento como cineasta. O adestrado Jabor esqueceu de considerar na sua fala que a esquerda não possui um único grande meio de comunicação em todo o país. Não há ninguém de esquerda que possua grandes redes de televisão, de rádio, jornais e revistas de grandes tiragens mensais, semanais ou diárias. Ao contrário, todos os grandes meios de comunicação estão nas mãos da direita e estão sob a posse de algumas poucas famílias como os Marinho, o clã do Edir Macedo, os Saad, etc. A liberdade e a possibilidade de comunicação rápida e de grande alcance criada pela nova tecnologia, ao contrário do que diz o perturbado Javert Tupiniquim, está sendo uma grande arma de comunicação para a esquerda que, como já foi dito, não tem acesso aos meios mais convencionais e mais populares. Portanto, somente num cérebro extremamente limitado ou mal intencionado alguém pensaria que a esquerda poderia ser contra a liberdade de expressão. Os fatos provam exatamente o contrário, pois é através dessa liberdade que a esquerda está incomodando e conseguindo alcançar certos objetivos: como uma maior conscientização das pessoas, uma maior diversidade de opiniões e debates verdadeiramente críticos. Como mostram as preocupações do "brilhante" comentarista, parece que o que eles mais desejam é o retorno ao pensamento único, sem questionamentos e sem a possibilidade de uma visão crítica. O que o adestrado candidato à comentarista político está propondo para seus iguais é uma guerra ideológica para tentar frear o avanço da esquerda não só no Brasil como em toda a América Latina, pois eles sabem que estão perdendo essa guerra mesmo com o monopólio da comunicação em suas mãos.


Porém, essa derrota não foi implementada apenas no campo ideológico. O projeto defendido pelo Jabor e pela sua corja é o mesmo que exauriu e massacrou os trabalhadores latinos americanos durante a década de 1990, mas que acabou por alavancar os movimentos sociais e partidos de esquerda em toda a América Latina para a luta política e pela disputa do poder com as classes dominantes: o projeto neoliberal. Um sistema que defende o individualismo, a supremacia do mercado e do lucro sobre a vida e uma falsa meritocracia. Não há méritos quando alguns poucos começam uma corrida já com um dos pés na linha de chegada, enquanto a grande maioria tem que percorrer todo o trajeto para completar a prova. Essa é uma concepção de mundo que tem como ideal de justiça a perpetuação de uma classe no poder e de um sistema que concretiza, reproduz e aprofunda as condições de desigualdade e miséria. Eles temem uma sociedade mais igualitária e mais justa porque sabem que somente numa sociedade com essas características pode-se falar em mérito, pois todos partem de uma mesma base material, numa real igualdade de condições. O que seria do Jabor, por exemplo, se tivesse nascido pobre, negro e morador de favela? Se com todas as vantagens e benefícios que ele obteve por sua condição de classe, não conseguiu superar sequer o patamar do medíocre em tudo aquilo que se propôs a fazer, pode-se pelo menos imaginar o que seria dele em tais condições tão adversas...


Para concluir, gostaria apenas de comunicar ao fracassado Jabor sobre a sua própria morte, dedicar-lhe um belo réquiem e desejar, sinceramente, que descanse em paz!


As boas-vindas ao nosso novo colaborador, Renato Prata Biar. Historiador, pós-graduado em filosofia, mora no Rio de Janeiro.

domingo, 14 de março de 2010

Arnaldo Jabor e eu: quem é o boçal?

Arnaldo Jabor e eu: quem é o boçal?

Por Raul Longo*

Eu, claro. Afinal, ainda que filho de operária, me tornei um classe-média. E o Arnaldo Jabor conhece muito da contumaz boçalidade da classe média.

A meu ver Jabor fez um único filme realmente notável: "Tudo Bem". Mas é tão bom que apesar da produção posterior do que chamou “trilogia do apartamento” ser de enredo paupérrimo e péssima direção, “Tudo Bem” justifica o longo aprendizado de Jabor sobre a classe média brasileira.

“Tudo Bem” é um verdadeiro tratado sobre a incapacidade de raciocínio e de percepção da realidade que o circunda, pelo cidadão comum de classe média. Mas a concepção farsista de nossa pequena-burguesia sobre o país e sobre si mesma, já despertara a atenção do Jabor há muito mais tempo, como se verifica em seu primeiro longa-metragem de 1967: “A Opinião Pública”. Um documentário onde, através de um mosaico de depoimentos, Jabor possibilita à própria classe média a exposição de seu empedernido atrasismo fascistóide e moralista, ao apoiar a ditadura militar instaurada pelo golpe de 64.

Em sua primeira produção ficcional, “Pindorama” de 1970, através de alegórica representação da irracionalidade e alienação da classe média através de uma personagem feminina viciada e manipulada pela Igreja, Militares, Políticos e o poder econômico dos verdadeiros burgueses; Jabor transpõe a atualidade dos anos 60 ao Brasil do século XVI.

Todo esse interesse e análise desenvolvida ao longo de uma década de críticas mordazes e profundas, em 1978 se concretizam em um dos mais atilados tratados sociais já produzidos sobre o segmento médio dos estratos sociais brasileiro, o “Tudo Bem”.

Nem da Casa Grande nem da Senzala, sempre excluída e menosprezada pelos clãs dos Donos do Poder, a classe média nunca mereceu maiores atenções de nossos mais destacados historiadores, cientistas e analistas sociais. Até mesmo os modernistas que dela se originaram, não dedicaram mais do que breves ironias. E os que alguma vez tentaram enaltecê-la, nunca superaram as rimas pobres como aquelas das “bandeiras de 13 listas que marcam conquistas de paulistas trabalhistas”.

Além de Machado de Assis no início do século passado e de Nelson Rodrigues nos meados, só Roberto Carlos e sua turminha da jovem guarda buscaram interpretar as pequenezes e comezinhas vicissitudes desta classe que nunca se destacou por nenhum maior envolvimento com o país e seu povo. Apenas deixaram se enganar por duas campanhas promovidas por Assis Chateaubriand, entregando relíquias familiares e acreditando no Ouro Para o Bem do Brasil (que o Brasil nunca viu) e a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em prol da ditadura militar.

Interessaram somente aos publicitários e estrategistas comerciais que chegaram a contratar os irmãos Paulo e Marcos Vale para compor um hino ao “Corcel cor de Mel e o Mustang cor de sangue”, e ao marketing da ditadura que versou o “America love or leave” para “Brasil ame-o ou deixe-o”, ao que seus integrantes que ainda preservavam algum senso crítico completavam com “E o último a sair apague a luz do aeroporto”.

Ridicularizada por si mesma e menoscabada pelas esquerdas, mais interessadas nas classes produtivas em cultura ou em contribuições ao desenvolvimento da civilização brasileira; é essa pobre classe média que Jabor denuncia em “Tudo Bem” como sintoma de um capitalismo tardio; cruelmente tratando-a como bocas inúteis a serem alimentadas pelos que ela despreza e ocupante de espaços adaptados para conter o vácuo, o vazio, o nada.

O filme resgata de Lima Barreto a ironia às inócuas boas intenções de um Policarpo Quaresma adaptado e reinterpretado por Paulo Gracindo em anacrônica preservação do Integralismo, contracenando com a divina Fernanda Montenegro reproduzindo uma patética esposa incapaz de incluir-se na própria realidade, mas ridiculamente disposta a ensinar sobre o que não consegue ver e sequer ter qualquer noção do que seja.

Antes da instalação da primeira indústria automobilística brasileira Noel Rosa já reclamara da operária que atendia ao apito da fábrica, embora surda à buzina de seu carro. E Newton Mendonça fotografou numa alemã Roleiflex a ingratidão composta pelo Jobim e cantada pelo João Gilberto; mas analisar, estudar, descobrir os medos, os segredos, inseguranças, vazios... Os pequenos engodos que utiliza para enganar-se a si mesma e as vãs fantasias cotidianas, ninguém antes reproduziu tão bem quanto o Jabor.

Se alguém descobrir alguma razão para conhecer em profundidade essa grande falácia que é a pequena burguesia urbana brasileira, não terá como fugir. Obrigatoriamente haverá de consultar a obra do cineasta, pois assim como não se conhece o sertanejo sem ler Guimarães Rosa, não é possível conhecer nossa classe média sem Jabor.

Mas a questão que resta é que enquanto o sertanejo continua sendo uma matéria riquíssima, seja para o teatro e a literatura de um Ariano Suassuna, para a música de um Elomar, ou o espetáculo de um Antônio Nóbrega; qual a utilidade de todo o conhecimento que Jabor reuniu sobre a classe média?

Para o próprio Jabor não teve nenhuma, pois quando se deu conta das restrições de conteúdo de seu objeto de estudo e resolveu tirar proveito com algum retorno financeiro, é que acabou quebrando a cara.

Ao explorar as emoções baratas da classe média através de suas típicas crises existenciais e conseqüentes reflexos sexuais, tudo o que fez foi produzir dois fracassos brochantes: “Eu te Amo” em 1980 e “Sei que vou te amar” em 1986.

Tim Maia, emérito frasista, dizia que o Brasil é o único país onde traficante se vicia e prostituta se apaixona pelo freguês. Quando Chico Anísio casou com a Zélia Cardoso, o Macaco Simão da Folha de São Paulo completou a relação com o humorista que casa com a piada. No caso do Jabor, podemos adicionar o intelectual que se tornou tão estúpido quanto a estupidez que ironizou. Como Jabor foi cometer a burrice de tentar ganhar dinheiro com a classe média brasileira reproduzindo a própria nulidade desse grupo social, é incompreensível. Como, apesar de duas décadas de estudos e análises, não percebeu que a colonizada classe média brasileira desconhece e despreza a si mesma, apenas reconhecendo e valorizando sua congênere estadunidense, por mais idênticas que sejam.

O vazio é o mesmo, o mesmo nada, mas com uma diferença fundamental: a classe média norte-americana, conhecida como “maioria silenciosa”, ainda que silenciosa é muito orgulhosa de si: do seu chiclete, da sua coca-cola, dos seus carros, do seu sanduíche e de sua calça jean. A brasileira tem o mesmíssimo orgulho, mas do chiclete, coca-cola, carros, sanduíches e jeans deles, dos norte-americanos.

Difícil imaginar de onde o Jabor tirou que os brasileiros médios dariam o mesmo valor para uma porcaria de filme produzido aqui, que dão às porcarias de filmes produzidos lá; mas nem por isso se pode dizer que Jabor seja um boçal.

Não! Pois apesar do fracasso como cineasta, Jabor logo descobriu outra forma de utilizar seus conhecimentos sobre a boçalidade da classe média brasileira, colocando-os a serviço do maior grupo de comunicação do país. Deu um pouco de azar, coitado, pois resolve fazer isso justo quando o tal grupo inicia um processo de decadência e perda de público, mas isso Jabor não tinha como imaginar, porque apesar de seu convívio com Glauber Rocha, de povo ele entende muito pouco ou praticamente nada.

Ainda assim, e graças as suas pontas no jornalismo da Globo, as madeixas do Jabor conseguiram algum sucesso entre as senhoras da mesma classe que ele tanto desprezou, ironizou, satirizou e menoscabou através de seus longa-metragem.

Foi o também cineasta César Cavalcanti quem me chamou a atenção para o detalhe da cor da gravata diária no Jabor na TV: vermelha! E vermelha continuou cotidianamente desde a vitória eleitoral de Luís Ignácio Lula da Silva, até o anúncio da indicação de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura. Talvez um pouco mais, na esperança de biscoitar algum alto cargo de confiança, mas a medida que o estafe se definiu em todo o Ministério, Jabor mudou de vez a cor da gravata e, de lá pra cá, não há o que o faça perdoar Lula. E nem deve! Pois se não for o que recebe dos Marinhos pra falar mal do governo Lula, vai viver do quê?

Difícil a situação do Jabor! Mas não se pode dizê-lo boçal, afinal está tirando algum proveito de tantas décadas de áridas análises e estudos sobre a classe média. Boçal sou eu que tento demonstrar a essa mesma classe média quanto o Jabor a trata como fruto da mais pura e refinada boçalidade.

Reconheço que sou boçal, pois jamais o típico pequeno-burguês do Brasil será capaz de enxergar algum valor em sua gente, em seu país, em sua história e em si mesmo. Muito pelo contrário! Sente-se afagado pelo William Bonner quando confessa que faz jornal para Hommer Simpsons, o personagem idiota do famoso seriado animado dos norte-americanos. Idiotas, sim, mas idilicamente idiotas norte-americanos!

Lembrando disso é que me contive quando vi o Jabor comentando a notícia do outro, o William Waack, culpando o Presidente Lula – evidentemente! – pela morte do prisioneiro cubano. Dizia a notícia que o presidente brasileiro negligenciara um pedido por sua intervenção, emitido pelo grupo do Orlando Zapata Tamayo de dento da prisão.

Aí aparece Lula negando ter recebido tal pedido, afirmando que se houvesse recebido até conversaria a respeito com os mandatários cubanos, mas que não fora protocolado. E então, para meu espanto, surge o Jabor especulando sobre a desumanidade do Lula ao exigir que o moribundo Zapata, fraco e com fome, ainda protocolasse o tal pedido.

Naquele momento não me contive e considerei o Jabor um boçal por desconhecer que qualquer pessoa que pretenda se dirigir por escrito a uma autoridade de onde for no mundo, terá de fazê-lo através de um registro protocolar, exatamente para preservar o direito de comprovar a intenção de se comunicar com a autoridade.

Se sou mal atendido por um assessor de serviço público e pretendo me queixar com seu titular, não adianta pôr uma cartinha no correio, pois o secretário, diretor ou o que seja, simplesmente poderá alegar que a missiva não lhe foi entregue. Jabor pode até cogitar que o governo cubano não entregou o pedido ao protocolo da embaixada brasileira, mas em meu imediato entender proferiu evidente boçalidade ao cogitar sobre desumana exigência burocrática a um moribundo em greve de fome. Afinal quem protocola não é o que emite o comunicado e, sim, o órgão que o recebe.. Assim se atesta o recebimento de qualquer documento ao longo da história.

Muito fácil qualquer um dizer que entregou um documento a Lula, mas somente aquele que apresentar o protocolo de recebimento desse documento pela chancelaria de Lula poderá prová-lo. Qualquer pessoa com um mínimo de informação sabe disso e só o ignoram os muito desinformados ou boçais.

Mas então me lembrei da filmografia do Jabor. Lembrei quanto conhece bem de seu público, quanto sabe de suas fantasias e da facilidade de sugestioná-lo. Jabor sabe com o que e com quem está lidando, afinal passou quatro décadas analisando, documentando e ridicularizando a pasmaceira daqueles que hoje o adoram.

Não! Sem nenhuma sombra de dúvida, Jabor não é um boçal. Está ganhando para fazer o que faz.

Boçal sou eu que, sem ganhar coisa alguma, fico aqui perdendo meu tempo na tentativa de impedir que a classe média seja tratada tal qual é afeita, acostumada, e com tanto gosto e enrosco.

*Raul Longo é jornalista, escritor e poeta. Mora em Florianópolis (SC), onde mantém a pousada "Pouso da Poesia". É colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".
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