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A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Lula exalta Marighella e Bezerra, heróis da luta contra duas ditaduras














Lula exalta Marighella e Bezerra, heróis da luta contra duas ditaduras

Por Celso Lungaretti (*)

Dois dos vultos mais emblemáticos da resistência tanto à ditadura dos generais quanto à getulista, Carlos Marighella e Gregório Bezerra, foram reverenciados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que os colocou no mesmo patamar de Tiradentes, Joana Angélica, Gregório de Matos, Maria Quitéria e Zumbi dos Palmares, como heróis brasileiros que ajudaram o País a conquistar sua independência.

Discursando nesta 5ª feira (22) em Salvador, onde recebeu a Grã-Cruz da Ordem dos Libertadores da Bahia, Lula disse que muitos heróis nacionais foram esquecidos ou apresentados como bandidos: "Isso é um equívoco histórico que foi incutido na nossa cabeça pela doutrina da elite dominante”.

Daí a necessidade, frisou Lula, de resgatar suas histórias e lutas, reconhecendo o que fizeram pelo País e o povo. E acrescentou:
“Nós ficamos às vezes martelando muito mais no castigo a quem matou do que em enaltecer a imagem das pessoas que morreram acreditando numa coisa.
"Vamos pegar por exemplo o Gregório Bezerra que foi arrastado pelas ruas de Recife. Ao invés de nós ficarmos querendo saber quem arrastou Gregório Bezerra, nós precisamos valorizar o significado do sacrifício a que ele foi submetido.
"Poderíamos pegar Marighella que é aqui desta terra. Ao invés da gente ficar querendo condenar eternamente o [seu assassino, delegado Sérgio] Fleury, vamos valorizar as razões pelas quais Marighella fez o que fez.
"E assim a gente iria construindo mais heróis neste País. Iríamos construindo mais gente que pudesse servir de exemplo".
MARIGHELLA: "COMPROMISSO INABALÁVEL
COM AS LUTAS DO NOSSO POVO"

Filho de imigrante italiano e de uma negra baiana, Carlos Marighella (1911-1969) ingressou jovem no PCB e já em 1932 era detido por protestar contra o interventor da ditadura getulista na Bahia, Juracy Magalhães.

Foi atuar como organizador do partido no RJ e novamente preso em 1936, quando a polícia política de Filinto Muller o torturou bestialmente.

Incluído na anistia de 1945, elegeu-se deputado em 1946, foi cassado em 1948 e se tornou, na clandestinidade, um dos principais dirigentes do PCB. Preso novamente em 1964, conseguiu reconquistar a liberdade por decisão judicial, em 1965.

Convertido às teses guerrilheiras, organizou a ALN e participou de ações armadas como o sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, que resultou na libertação de 15 presos políticos.

Para evocar Carlos Marighella, nada melhor do que os parágrafos iniciais do manifesto divulgado quando do 40º aniversário de sua morte, sete meses atrás:
"Carlos Marighella tombou na noite de 4 de novembro de 1969, em São Paulo, numa emboscada chefiada pelo mais notório torturador do regime militar. Revolucionário destemido, morreu lutando pela democracia, pela soberania nacional e pela justiça social.

"Da juventude rebelde, como estudante de Engenharia, em Salvador, às brutais torturas sofridas nos cárceres do Estado Novo; da militância partidária disciplinada, às poesias exaltando a liberdade; da firme intervenção parlamentar como deputado comunista na Constituinte de 1946, à convocação para a resistência armada, toda a sua vida esteve pautada por um compromisso inabalável com as lutas do nosso povo".
GREGÓRIO BEZERRA, EXIBIDO COMO TROFÉU
E TORTURADO EM PRAÇA PÚBLICA

Gregório Bezerra (1900-1983) foi uma lenda viva no seu tempo.

Nascido no Agreste pernambucano, começou a trabalhar na lavoura de cana com a idade de quatro anos, perdeu os pais antes dos dez, migrou para o Recife, trabalhou como carregador de bagagens e ajudante de obras, paupérrimo a ponto de dormir nas catacumbas de um cemitério.

Já em 1917, como jornaleiro, participou de manifestações de apoio à Revolução Bolchevique e de greves por direitos trabalhistas, sendo condenado a cinco anos de prisão.

Depois ingressou no Exército, alfabetizou-se e, já como militante comunista, liderou em Recife a chamada Intentona de 1935, que lhe acarretou uma sentença de 28 anos de prisão.

Anistiado ao final da ditadura getulista, elegeu-se como o deputado constituinte de maior votação em Pernambuco. Teve seu mandato cassado em 1948 e passou nove anos na clandestinidade, organizando núcleos sindicais.

Preso imediatamente após o golpe de 1964, foi não só torturado em Recife, como arrastado em praça pública com uma corda no pescoço; além disto, colocaram seus pés em solução de bateria de carro, deixando-os em carne viva. Tal espetáculo, exibido pelas televisões locais, provocou protestos em escala mundial.

Permaneceu prisioneiro até 1969, quando foi resgatado no sequestro do embaixador estadunidense. Voltou ao Brasil em 1979, com a anistia.

É frequentemente comparado a Nelson Mandella, pelo longo tempo de prisão por motivos políticos: 22 anos, cinco a menos do que o grande líder africano.
*Celso Lungaretti, jornalista, escritor e ex-preso político.
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Procura-se Gregório Bezerra


Procura-se Gregório Bezerra


Por Urariano Mota (*)


Por Urariano MotaRecife (PE) - Há coincidências que não se explicam. No mesmo dia em que o STF derrotava a revisão da Lei da Anistia, por entender que essa lei era fruto de um acordo entre torturadores e torturados, entre homicidas do Estado e vítimas, nesse mesmo dia o livro “Soledad no Recife” abria um seminário na USP sobre Escritas da Violência. Entendam, essa coincidência não é um arbítrio burro do colunista, que estaria ligando fatos distintos sem qualquer relação. O livro que abria o seminário narra um, seis, das centenas de crimes da ditadura até hoje sem punição.


No entanto a coincidência maior viria à noite, durante uma conversa em um restaurante paulista que serve arroz e feijão. Na mesa, a editora Ivana Jinkings, da Boitempo, mencionou de passagem que gostaria de ter mais fotos de Gregório Bezerra, para o livro de memórias do comunista que vai editar. Sim, eu lhe disse enquanto esperava o feijão e bebia uma cachaça, constrangido por beber álcool sozinho como um degenerado, sim, eu lhe disse, esse livro será um best-seller, porque atende a todos os públicos do Brasil. Assim disse porque, como todo autor, olho o miolo do livro, as páginas impressas. Ao que a editora, com o gosto da estética do objeto livro, insistia, “mas eu quero fotos de Gregório nos dias de sua prisão no Recife”.


Para ela, essas fotos exprimem melhor a dignidade imensa do valoroso comunista, e portanto são o núcleo indispensável do seu objeto livro. O filho de Gregório já lhe havia assegurado que existe inclusive um filme, um filme!, exibido na televisão em 1964, cujas imagens mostravam o comunista arrastado pelo pescoço, amarrado em uma corda pelas ruas do Recife. Um ato bárbaro, público, no pacato e civilizado bairro de Casa Forte onde existem árvores centenárias, numa das quais o coronel Vilock esteve a ponto de pendurar Gregório. A isso outro consultor de Ivana teria dito a ela que o filme existiu, mas teria sido “apagado” por conveniência ou para não deixar prova contra o nosso espírito conciliador.


Na volta ao Recife, corri atrás, como dizem os paulistas. Sem esperança, mas teimoso, perguntei por email ao jornalista Ivan Maurício, artista e pesquisador, que me respondeu: “o filme de Gregório Bezerra existe e quem tem cópia dele é José Mário Austregésilo. Acho importantíssimo a publicação das memórias”. Sem respirar, mas com fôlego e paciência, descobri o número do telefone celular de José Mário, e ele me confirmou que, sim, o filme existe, no tempo em que dirigiu a TV Jornal do Commercio procurou preservar a memória política e cultural da cidade, no acervo da televisão existe até o filme do enterro do poeta Carlos Pena Filho. Como resposta apenas consegui suspirar: “Meu Deus”. Então Zé Mário viu que um ateu não pronuncia o santo nome em vão, e que o caso era sério. Então ele me passou o nome do responsável atual pelo arquivo da TV Jornal do Commercio.


Em resumo. Ao fim do dia, na terça-feira, passei um email para a editora com estas informações:


“Desde a manhã de hoje que passo email, ligo e pesquiso com jornais, fundação Joaquim Nabuco, celulares, etc. Resultados até aqui:


1. O filme existe - na TV Jornal do Commercio do Recife. O problema é localizá-lo. Deve estar em Super 8, ultra delicado ao manuseio. Nesse fim de semana, o responsável me responderá se é possível localizá-lo.


2. De qualquer maneira, irei ao Jornal do Commercio, onde devem existir pelo menos duas fotos de Gregório em 1964. Disseram que é pago, claro, e eu respondi ‘tudo bem’. Não irei amanhã porque esse é o dia da minha coluna pro Direto da Redação.


3. No Diário de Pernambuco eles TÊM a foto, aquela foto que você possui em má qualidade. Segundo me informou o funcionário no CEDOC a foto está em muito bom estado. Mas a comercialização tem que ser feita via Brasília. Pelo que o funcionário me disse, trata-se da mesma foto de Gregório sentado, sem camisa”.


Ao que me respondeu a editora:


“Que grande notícia! dá uma certa esperança, agora. Vamos torcer pra que encontres esse filme”.


No momento em que escrevo esta coluna, acabo de ligar para a coordenadora do arquivo do Jornal do Commercio, e ela me informou uma nova esperança: existem mais que duas fotos de Gregório Bezerra nos dias de sua prisão em 1964, e com boa qualidade técnica. Ainda não é o filme, mas por Deus.


Talvez o que chamamos de coincidência sem explicação seja uma prova do que Hegel já havia notado: “o verdadeiro tem a natureza de eclodir quando chega o seu tempo, e só quando esse tempo chega se manifesta”.


A imagem oculta de Gregório pode voltar no ano do julgamento da anistia no STF.


*Urariano Mota é jornalista e escritor. Autor do livro "Soledad no Recife", recriação dos últimos dias de Soledad Barret, mulher do Cabo Anselmo, executada pela equipe de Fleury com o auxílio de Anselmo. Urariano é pernambucano, nascido em Água Fria e residente em Recife. É colunista do site "Direto da redação" e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

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