Leia a parte I
O MEDO QUE A ELITE TEM DO POVO É MOSTRADO AQUI
A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”
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quarta-feira, 23 de junho de 2010
A falsa história nas escolas militares (II)
Leia a parte I
Lula em quadrinhos - Cap. 20 - As viagens de Lula pelo Brasil e os oito anos de governo FHC
Esta história em quadrinhos, que foi lançada em 2002, começou a ser publicada em nosso endereço antigo e continuará sendo publicada aqui em capítulos. Faltam 4. Tentarei manter freqüência semanal. A liberação dos direitos autorais é uma cortesia de seu autor, o cartunista Bira Dantas, colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.
Sabatinador da Trolha: “Penico de barro enferruja?” – Serra: “Se Lula ou Dilma usá-lo, sim”
Fernando Soares Campos
A equipe de humoristas da nossa Agência Assaz Atroz acompanhou atentamente a sabatina que o jornal Folha de S. Paulo aplicou no candidato do PSDB à Presidência da República, o ex-governador José Serra.
“Sabatina”, conforme nos informa um ex-ministro da Cultura, é o nome que se dá a uma “pequena tese que os estudantes de filosofia sustentavam ao fim do primeiro ano do curso”. Ou “atividade escolar, geralmente realizada aos sábados, como recapitulação da matéria da semana”. A palavra também pode ser empregada para designar a “recapitulação oral de certo número de lições através de perguntas e respostas”.
Considerando que o ex-governador de São Paulo já não frequenta os bancos escolares há, mais ou menos, não se sabe quanto tempo, deixemos de lado esses significados da palavra “sabatina”. Resta considerá-la através de uma das três outras acepções: “matéria a examinar, a discutir; tese, questão, debate”, ou “reza própria para o sábado”, ou ainda “reunião turfística que se realiza aos sábados” (só consideramos este significado como determinante das características do encontro Folha/Serra, se também levarmos em conta a questão do vice: Qual será o cavalo que vai assumir essa empreitada?).
Mas, entre os significados de “sabatinar”, que descrevem os aspectos a serem observados quando queremos especificar uma “sabatina”, também se faz alusão ao comportamento dos sabatinadores e sabatinados: “discutir miudamente e usando sofismas”.
Então, nesse caso, o leitor tem opções para estabelecer o significado mais apropriado para a tal sabatina, baseando-se no questionário elaborado pela editoria da Folha, na forma como foi feita a entrevista e no comportamento dos entrevistadores e do entrevistado.
Antes de fecharmos esta edição, consultamos mais uma vez o ex-ministro da Cultura no governo Itamar Franco, e ele tratou da questão dos sofismas: “Sofisma é argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa”, garantiu o ex-ministro.
E foi assim que os humoristas desta nossa agência decidiram considerar a sabatina Folha/Serra como uma discussão miúda, mera sofistaria.
Confira os melhores momentos de Serra na sabatinada da Folha.
Serra em “Eu sou eu, Nicuri é o diabo"
Serra: “Fui eu quem introduziu. Quem inventou no Brasil a vacinação contra a gripe fui eu. Quem introduziu fui eu”.
Serra: "O eleitor deve olhar e julgar a história, a biografia. Coerência, capacidade de fazer. O Lula é muito experiente. Quando ele entrou no governo, era experiente. Ganhou na quarta vez. FH foi ministro da Fazenda e fez o Plano Real. Tinha experiência."
Serra [sobre o vice]: "Eu também tenho uma enorme curiosidade. Até o fim do mês resolve. Essa não tem sido uma questão estressante para mim nem para grande parte do PSDB. Estamos procurando fazer uma boa avaliação. Qualquer indicação acaba dando confusão."
Serra [sobre a popularidade de Lula]: "Claro que eu não temo. Imagina o escândalo que seria: "José Serra teme tal coisa". Posso dizer o seguinte: esta é uma eleição difícil. Nunca disse nada diferente disso."
Serra: "Adoraria ser um herdeiro [dos votos de Marina], mas a decisão é dos eleitores. Eu até que toparia uma tabelinha, mas não tem. Não acho que a Marina esteja fazendo algum viés. Eu me considero um ambientalista. Isso pode promover proximidades, mas não há nenhum tipo de entendimento político.

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Agência Assaz Atroz
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terça-feira, 22 de junho de 2010
JS - A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
Candidato José Serra,no final de outubro de 2008, eu lhe pedi, por meio de carta aberta, que tomasse as providências cabíveis, como governador de São Paulo e como cidadão que foi perseguido pela ditadura militar, para que a página virtual do 1º Batalhão de Polícia de Choque da PM, mais conhecido como Rota, não continuasse exibindo elogios rasgados à ditadura de 1964/85 e ao papel que ele próprio desempenhou na repressão aos que resistiam à tirania.
Depois, diversas vezes voltei ao assunto. Idem, o portal "Brasil de Fato", que chegou a receber uma falsa promessa da Polícia Militar de que o site seria revisado, para adequar-se aos valores da democracia e da civilização.
Até hoje continua no ar, por exemplo, o seguinte:
"Marcando, desde a sua criação, a história desta nação, este Batalhão teve seu efetivo presente em inúmeras operações militares, sempre com participação decisiva e influente, demonstrando a galhardia e lealdade de seus homens, podendo ser citadas, dentre outras, as seguintes campanhas de Guerra: (...) Revolução de 1964, quando participou da derrubada do então Presidente da República João Goulart, apoiando a sociedade e as Forças Armadas, dando início ao regime militar com o Presidente Castelo Branco".Então, pergunto:
- O Sr. concorda com a afirmação de que os golpistas de 1964 estavam apoiando a sociedade?
- Se não concorda, por que permitiu que ela permanecesse no ar, inalterada, durante todo seu governo.
Seria ela pertinente, numa campanha eleitoral?
Nada seria mais pertinente, na verdade. Pois, a campanha inteira tem ignorado os grandes temas políticos e se travado em torno de ninharias como dossiês fantasmas, com um acusando "você fez!" e outra retrucando "eu não fiz!".
Então, o eleitorado ganharia subsídios mais ricos para sua escolha se pudesse avaliar o caráter de José Serra.
Ou a falta dele, caso assumisse, de viva voz, já não dar a mínima se e quando uma corporação sob sua autoridade mantém no ar a mais repulsiva retórica ditatorial.
Mas, o mediador Fernando Rodrigues poupou o entrevistado de constrangimentos, ao omitir que eu havia interpelado Serra em carta aberta -- enviada, como manda o figurino, primeiramente para o destinatário.
Também não citou o nome do "internauta" que fez a indagação, o que já é de praxe na Folha: meu nome deve ser, tanto quanto possível, omitido; e minha atuação, minimizada.
Pelos critérios jornalísticos, seria mais do que relevante ele esclarecer que a cobrança era feita por uma vítima da ditadura, que tinha todos os motivos para indignar-se com tal descaso em relação aos valores democráticos.
Noblesse oblige, Serra negou rapidamente que estivesse certo quem apoiou o golpe.
Que mais poderia fazer um ex-presidente da UNE? Evitou, entretanto, qualquer afirmação mais contundente, que pudesse indispô-lo com seus aliados atuais.
Disse não ter tomado conhecimento da existência de tais excrescências na página virtual da Rota - e ninguém lhe perguntou se era normal que uma carta aberta a ele encaminhada por um ex-preso político, expondo uma questão que envolve a fidelidade aos princípios democráticos, não chegasse às suas mãos.
Comparou a omissão de sua administração em resolver tal problema à do Governo Lula quanto ao viés totalitário dos manuais de História dos colégios militares.
E já ia mudar de assunto quando a jornalista Renata Lo Prete lhe indagou se não caberia, afinal, a tomada de alguma providência para sanar tal aberração.
Serra respondeu que não via isso como algo prioritário, mas aquiesceu.
Para que não fique o dito por não dito, encaminharei em seguida uma mensagem ao governador Alberto Goldman, fazendo-lhe a mesma cobrança.
De resto, não fiquei para assistir à sabatina. Entreguei o papel e fui tratar de assuntos mais relevantes. Afinal, avaliei, quem se atrasa 42 minutos para um debate não deve ter mesmo nada de importante para dizer.
E a versão integral disponibilizada pelo UOL (que vi depois) confirmou isso. O que ele falou foi mais do mesmo... de novo. Nada que valesse manchete.
Mas, houve algo marcante, sim. A entrada de Serra, assim descrita pelo colunista Fernando de Barros e Silva:
"Eram 11h42 quando o candidato tucano à Presidência entrou no palco da sabatina Folha/UOL, evento com transmissão ao vivo marcado para as 11h.Como cinéfilo inveterado que sou, logo me ocorreu um paralelo com a sétima arte.
"Esperavam-no sentados na primeira fila, à frente da plateia que lotava o teatro, Gilberto Kassab, Geraldo Alckmin, Orestes Quércia, Aloysio Nunes Ferreira, entre tantos outros. Não é fácil descrever a cena, mas todos ali pareciam seus empregados. Serra chegou sério, sem dizer bom dia nem pedir desculpas pelos 42 minutos de atraso".
O atrasadíssimo Serra surgiu sem aviso no fundo do palco, por trás dos entrevistadores sentados, caminhando lentamente. Magro, careca, envelhecido, carrancudo e meio encurvado, deu a impressão de ter... encolhido.
Os espectadores foram surpreendidos por essa irrupção em cena que deveria ser jovial e esfuziante (política é a arte da representação...), mas foi, isto sim, sinistra. Houve um átimo em que todos ficaram estupefatos e não se ouviu ruído nenhum. Silêncio ensurdecedor.
Depois soaram as palmas, mas sem convicção. Foram aplausos pra lá de constrangidos.
Sempre achei de mau gosto as comparações que fazem na internet, mas -- juro! -- Serra lembrou mesmo o Nosferatu, de Murnau e Herzog.
Quase cheguei a temer que desse um bote para cravar os caninos na jugular da Lo Prete...
de Serra no palco do Teatro Folha...
Dilmasia, Lulécio, Dilseane, Petedino, Tucadino... (Eu também quero um palanque!)

O deputado Flávio Dino continua apoiando o governo Lula e a Dilma para Presidente, disso eu não tenho a menor dúvida. Considerando que ele é uma liderança do Maranhão, a direção do PT não pode descartá-lo da disputa política no seu estado.
É preciso ser inteligente com as alianças. Saber fazer a diferença entre uma aliança que soma e outra que destrói.
No caso do Maranhão ao governo do estado, exigir um palanque único é burrice e falta de sensibilidade política e social.
Quem disse que não se pode somar esforços para ousar o novo lá no Maranhão? Um candidato como Flávio Dino quebra aquela vellha oligarquia dos Sarney onde ninguém pode nada.
É preciso quebrar no voto o sagrado clã dos Sarney, e taí uma possibilidade real com a candidatura do comunista Flávio Dino. E no meu entendimento, o PT deveria valorizar e não baixar o centralismo democrático em desuso.
Pelo que li e pelo que me consta, o Deputado do PC do B não disse que vai apoiar o Serra e sim que não veria impedimentos em abrir seu palanque para candidatos do PSDB. Para bom entendedor, isto quer dizer que se candidatos estaduais do PSDB estão dispostos a apoiá-lo ao governo do Maranhão e não a Roseana Sarney, ele não impedirá, porque deseja ser o governador do Maranhão.
É preciso entender que os conflitos regionais podem unir candidatos de partidos que, no âmbito nacional, não vão marchar do mesmo lado. É o caso da Dilmasia em Minas, como foi o Lulécio em 2006. Isso vai acontecer nas eleições regionais de algumas federações, impedir isso é missão impossível.
Pode baixar ordens que não haverá essa obediência civil.
Os marxistas já disseram que a política é a arte do possível, então, no Maranhão é possível o PT marchar com o PC do B, mas não é o caso de outros lugares, devemos aceitar isso e não querer que seja tudo igual de norte a sul, de leste a oeste, só pra lembrar umas palavras de ordem de comunistas.
Abraços,
Myrna
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"A imprensa, raivosa contra Dilma e contra o progresso social e político do Brasil, diz que Dilma tem 'problemas nos palanques estaduais'. Mas sabem quais problemas? Excesso de palanques." (Leia artigo completo na redecastorphoto)
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segunda-feira, 21 de junho de 2010
Mensagens de Ódio Pela Internet: Um Apelo ao Ministério Público
Charge: Carlos Latuff
"Populista extremista"

Arnold Toynbee entendeu, num determinado momento da guerra fria, que um confronto entre as duas grandes superpotências militares – EUA e URSS – seria inevitável. Para o historiador não havia sentido em todo aquele arsenal se não fosse a perspectiva real de guerra.A partir daí, acreditou ele, que o mundo a renascer após o que chamou de “hecatombe nuclear”, teria um caráter puritano severo, regido por ditaduras tribais – os grupos sobreviventes –.
Os EUA engoliram a URSS. O caráter puritano severo é uma realidade na hipocrisia do capitalismo e as ditaduras não são tribais. Escoram-se no poder militar dos EUA e no que chamam de “nova ordem política e econômica”. A globalização, que não passa de “globalitarização”, máxima precisa do geógrafo brasileiro Milton Santos.
Há dias uma afiliada da REDE GLOBO mostrou o padre Fábio Melo, sucesso de vendagem em CDs religiosos, parabenizando os tantos anos de atividades da tal afiliada. Garoto propaganda no melhor estilo Renovação Carismática. A tentativa da Igreja Católica de reverter o avanço das seitas e igrejas neopentecostais, aproveitando e usando os mesmos métodos de “bispos” padrão Edir Macedo.
O jornal oficial do Vaticano L’OSSERVATORE ROMANO rotulou o escritor português José Saramago de “populista extremista”. É a típica linguagem que latifundiários, por exemplo, usam quando se fala de reforma agrária. Ou banqueiros, quando se critica o sistema financeiro internacional.
Um grupo de jogadores da seleção do Brasil fez chegar há cerca de duas semanas ao técnico Dunga que não estava mais suportando a pressão de jogadores e integrantes da Comissão Técnica evangélicos, para que aceitassem “Jesus em seus corações” e vestissem a camisa de “eu amo Jesus”.
Ganhariam a salvação e naquele momento um por fora para veicular a crença. Do jeito que as empresas de material esportivo pagam a atletas para que usem produtos de suas marcas.
Uma das idiossincrasias vaticanas em relação a Saramago está numa afirmação contida no livro do escritor português O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO. Ele, Cristo, teria perdido e com Maria Madalena a sua virgindade.
Sionistas enxergavam em Saramago um anti-semita.
A forma candente da crítica feita pelo jornal oficial da Igreja Católica a Saramago não é comum. De um modo geral o Vaticano trata mortes de críticos do catolicismo com notas frias, sem maiores considerações, notas assépticas.
O furor da crítica só faz acentuar o caráter fascista do papado de Bento XVI. É diferente do de João Paulo II. O papa anterior usava luvas para não sujar as mãos de sangue na tortura inquisitória perpetrada, por exemplo, contra o brasileiro Leonardo Boff. Ratzinger deixa a mostra seu coração suástico.
Não existe na história da humanidade ditadura mais cruel, perversa e duradoura que a Igreja Católica. A forma como são sufocados os que se opõem, por dentro, a essa barbárie religiosa, não difere da usada por ditadores clássicos se podemos definir Pinochet assim, ou qualquer outro. Trujillo assistia à missa todos os domingos.
Os militares golpistas que derrubaram o presidente de Honduras Manuel Zelaya o fizeram com as bênçãos do cardeal hondurenho e entraram no Palácio Presidencial carregando um imenso crucifixo. Como antes, em 2002, o cardeal venezuelano estava ao lado de Pedro Carmona e seu golpe macarrônico contra Chávez.
O avanço da seitas e igrejas neopentecostais em todo o mundo – se voltam agora para tentar chegar aos países islâmicos – tem a bênção dos senhores do mundo em Washington e Wall Street, embora boa parte das lideranças prefira ficar em Miami, caso do brasileiro Edir Macedo..
Os papados de João XXIII e de Paulo VI foram desmontados por seus sucessores (não estou levando em conta João Paulo I, vítima da burocracia fascista do Vaticano nas pressões “outra” Igreja, durou apenas um mês).
Na prática a nova ordem econômica, ou a globalização como chamam, é a nova ordem religiosa. O neoliberalismo. Como cruzados são os que na estupidez da barbárie, da tortura, de todas as formas de violência possíveis tentam “evangelizar” povos “pagãos”, na esteira do novo deus, o Mercado.
O que tudo regula, se auto regula inclusive.
No Brasil ganharam uma nova adepta, a senadora Marina da Silva. Fez tratamento para engolir e digerir sapos sem maiores danos ao seu estômago. Consciência já era.
“Evangelizam” no Iraque, no Afeganistão, em Honduras, na Colômbia, no Paquistão, tentam estender suas garras a outros cantos.
A Igreja Católica é como a Europa hoje. Um negócio assim de pedestais de ouro, erguido em barões, viscondes, condes, marqueses, duques, principes, reis e rainhas.
Fellini dimensionou isso com fulminante precisão em ROMA DE FELLINI. Nos vários modelitos capazes de encantar sua eminência e no brilho fascista de Pio XII. O tamanho do gênio, a capacidade da percepção do próximo capítulo nessa grotesca história de Marcelo Rossi salvando almas e vendendo CDs.
Se há luz, necessariamente tem que haver sombra. Os técnicos não entenderam assim. A luz de uma vela carregada por Roberto Benigno enquanto subia uma escada do lado de fora de um celeiro era insuficiente para gerar sombra. O gênio de Fellini quis a sombra e a sombra gerou todos os debates sobre esse lado sombrio da luz.
“Vocês são apenas técnicos, gênio aqui sou eu”. “Quero mar de papel crepon”.
Saramago, ao contrário do que dizem os porta-vozes da Igreja não hostilizou a convicção católica. Esse é um problema individual de cada um. E tampouco negou erros e crimes supostamente praticados por governantes da antiga União Soviética.
Ao contrário. Aceitou as evidências, as narrativas e os fatos apresentados, apenas reafirmou sua convicção. Um católico não tem culpa de Bento XVI. O caráter perverso do papa não pode ser estendido ao fiel. Nem o banditismo de Edir Macedo àquele que crê piamente que o dízimo constrói casa na vida eterna.
E nem a obra de José Saramago pode ser vista apenas sob esse ângulo. Não era um escritor que fazia do anti-catolicismo a razão de ser de sua obra. É pretensão demais cingi-la a isso. Apenas detectou um dos cânceres. Entendeu o mundo como um todo capitalista a subjugar seres humanos e transformá-los em objeto de uma engrenagem bárbara, “neomedieval” como dizia, mas recheada de tecnologia.
Transcende à dimensão anã do catolicismo de Bento XVI. Projeta-se na compreensão que vivemos o dilema extremo do ser humano.
Ou somos objeto dessa nova ordem, ou nos rebelamos e construímos outra ordem possível e desejável.
Daqui a mil anos, se alguma coisa e alguém ainda existir, com certeza, Saramago será lembrado. Bento XVI vai constar apenas daqueles almanaques em que se lista quem foi papa, ou a ordem dos papas desde a fundação da Igreja.
“Populista extremista”. Não pesquisei, mas se alguém o fizer vai encontrar a raiz dessa expressão em algum momento de Hitler. Com certeza.
Charge: Carlos Latuff
Grande Mídia dá uma Trégua no Caso Battisti


Nos últimos dois anos, Barroso tem publicado vários artigos sobre Cesare, alguns muito detalhados, precisos e com abundante e clara informação, como este aqui. No entanto, o publicado agora, em minha opinião, é o mais categórico e assertivo de todos. Já o nome da matéria, Terrorismo Verbal, é sumamente duro. Tem eloquência suficiente para referir-se sem eufemismos à tarefa cumprida pela grande mídia contra Battisti: aterrorizar a opinião pública apresentando uma imagem falsa do romancista italiano, ex ativista de esquerda, que está totalmente resocializado há “apenas” 28 anos, e fez amigos em todo o mundo civilizado por sua sensibilidade literária, artística e social.
Ao apresentar a versão real sobre os fatos, Barroso não se furta de dizer: “A história documentada, que raramente se consegue contar ao público, é a seguinte: ...” [grifo meu]. Deixa assim claro que as histórias que descrevem Cesare como terrorista, homicida e pessoa perigosa são as histórias falsas, mas, além disso, são as histórias “obrigatórias”, que os establhishments italiano e brasileiro (ambos, não apenas o italiano) impõem como as únicas possíveis, proibindo a verdadeira.
Barroso também denuncia o ânimo persecutório, e as maiores irregularidades do processo. Cesare foi acusado oficialmente de subversão, e não de homicídio, e aqueles crimes foram “carregados” em sua conta sem acusação formal, apenas como “fofoca” dos delatores premiados, que ganharam depois a liberdade, enquanto Battisti recebia uma sentença que incorporava esses delitos sem qualquer prova nem testemunha.
Bom, o leitor poderá apreciar a importância deste texto numa leitura e não se justifica repetir aqui todos seus acertos. Entretanto, meu objetivo ao comentar a matéria de Barroso é chamar a atenção para um fato surpreendente: um dos maiores órgãos da mídia brasileira, a Folha de S. Paulo, tem dado espaço para alguém que diz a verdade sobre o caso Battisti!
É algo muito positivo, que deve ser celebrado, mas também algo inesperado, que ninguém poderia imaginar, e que produz uma estonteante surpresa. Qual é o motivo pelo qual a grande mídia resolveu dar uma trégua em sua campanha de perseguição contra Battisti? As verdadeiras causas devem ser conhecidas por poucas pessoas, mas podemos analisar as hipóteses mais prováveis.
Não é o caso de voltar a revisar as inúmeras campanhas de difamação da grande mídia contra Cesare Battisti, até porque ninguém dispõe de tanta memória de computador para o tamanho da lista. Alguns órgãos ou programas instilaram mensagens de ódio de altíssima voltagem: a revista Veja, o Jornal da Globo, e a revista Carta Capital, esta última considerada de centro-esquerda por muitas pessoas (o que coloca o grave problema de entender o que é esquerda no Brasil). Já, órgãos mais sérios, como os grandes jornais, mantiveram uma parcialidade mais dissimulada.
A Folha, por exemplo, referiu-se sempre a Cesare como “terrorista”, pelo qual é esquisito que publique um artigo onde se critica esta palavra infame e sensacionalista. Em alguns momentos, os editores talvez entenderam a dificuldade de fazer terrorismo dentro de uma prisão, e mudaram, por pouco tempo, para “ex terrorista”.
O jornal publicou algumas matérias favoráveis a Battisti. Uma apareceu em 28/01/2009 (vide) como notícia: era a opinião de Antígone, a mais importante ONG Europeia sobre Direitos Humanos de prisioneiros, que elogiava o refúgio político concedido ao escritor italiano. No 19/01/2009, apareceu, agora na seção Tendências/Debates, a carta onde o filósofo francês Bernard-Henri Lévy justificava seu apoio a Battisti e pedia ao presidente sua liberação.
É claro que um órgão jornalístico que se autoprojetou sempre como imprensa séria, não podia omitir as opiniões de celebridades como Suplicy, Dallari e outras, que se manifestavam em favor de Battisti, sendo que os ataques verbais contra o refugiado ocupavam milhares de linhas por unidade de tempo. Mas, ainda assim, esta forçada objetividade foi relativa. Em novembro de 2009, o político italiano Fassino, na época da máxima ofensiva italiana em favor do linchamento, emitiu opiniões pseudojurídicas sobre a necessidade de punir o escritor. Eduardo Suplicy, um já lendário defensor dos DH sem reparar nos esforços que isso custe, escreveu uma carta de leitores à Folha, um modesto texto de umas poucas linhas, que assinamos ambos, em como membro da Anistia Internacional. A Folha, que publica cartas sobre vizinhos que reclamam de buracos no asfalto, de pessoas que se queixam de barulhos de roqueiros, e outras bobagens, nem se deu o trabalho de publicar um resumo de cinco linhas.
Por outro lado, notícias derrogatórias sobre Cesar podiam ocupar mais de 1000 palavras por semana. Devem adicionar-se, ainda, os comentários, em sua maioria destilando ódio e ressentimento, dos leitores dessas matérias. Algumas dessas notícias eram apresentadas com neutralidade, mas outras eram destacadas sem nenhum motivo. Por exemplo, as contínuas provocações do então presidente do STF contra os que apoiavam Battisti foram reproduzidas sem poupar uma linha. Ainda mais aberrante foi o destaque dado a Alberto Torregiani, filho de Pier Luigi, o ourives vítima do PAC, cuja morte seus autores atribuíram a Battisti. Embora seja mais do que compreensível a dor de uma pessoa condenada a movimentar-se em cadeira de rodas, não é fácil entender a causa de seu resentimento contra o Cesare, sendo que ele mesmo reconhecia que o escritor não estava entre os que mataram seu pai, nem entre os que dispararam tiros por causa dos quais ficou paraplégico.
Nos últimos tempos, a Folha publicou uma notícia difundida por ANSA, que evitou, no entanto, colocá-la em seu site, percebendo o ridículo nela embutido. Nela, Alberto pedia ao STF que lhe permitisse manifestar-se na Corte. É óbvio que isso não podia ser concedido, porque a Corte não interroga testemunhas. Então, dar uma notícia sobre um fato impossível era apenas uma manobra para tumultuar ao máximo o processo..
O Jornal ignorou declarações de celebridades que apoiavam Battisti, que um jornal sério, mesmo que fosse o mais conservador ao Oeste dos Montes Urais, teria publicado: a de Anita Leocádia Prestes, a segunda declaração do presidente de Antígone, Patrizio Gonnella, dirigida agora ao presidente, a carta encaminhada a Lula pela Liga dos Direitos do Homem, a ONG francesa que foi a primeira organização de DH no mundo.
Ainda, no dia da retomada do julgamento de Cesare Battisti, em novembro de 2009, o diretor do jornal ou coisa que o valha (não sei qual é o título que recebe o capo numa empresa) publicou um estrondoso editorial exigindo a extradição de Battisti. Claro! Ele o publicou como matéria da casa, então ninguém pode acusá-lo de parcialidade. Qualquer cidadão sabe que uma matéria editorial manifesta a opinião pessoal da empresa que, afinal, tem esse direito.
Fazendo breve, de toda a mídia, a única que mostrou imparcialidade compatível com o que deve ser a informação num país civilizado (ou tido como tal) foi Isto É. Mesmo assim, não posso menos que lamentar sua falta de comedimento ao não responder minha proposta de publicar as provas da falsificação das procurações, e o pedido de Lungaretti no mesmo sentido. Uma vez, o Estadão concedeu uma entrevista ao juiz Marco Aurélio, o que foi um grande parêntese em sua campanha contra Cesare, e mostro imparcialidade, pelo menos, naquele momento.
Devo reconhecer que um blog de um jornalista da Veja chamado Nunes, publicou uma carta de leitor minha, onde eu desfazia as opiniões erradas de que os filhos de Sabbadin e Torregiani tinham sido testemunhas de que seus pais foram mortos por Battisti. Mas, este foi um caso especial. Essa afirmação sobre a culpa de Battisti foi publicada no meio de um comentário grosseiro e injurioso contra o Senador Suplicy, quem, muito corretamente, negava que alguém tivesse visto alguma vez Battisti cometendo homicídio. Acredito que o editor acedeu publicar minha carta (um longo texto, rigorosamente justificado), porque teve consciência que tinha exagerado suas injúrias e sarcasmos.
Mas, agora, a situação é diferente. A Folha, numa de suas páginas mais lidas, que chega a centenas de milhares de pessoas, publica a opinião do mais autorizado e erudito conhecedor do caso Battisti. Por quê?
Não vou incorrer na ingenuidade de dizer que é por respeito à verdade, nem pela famosa liberdade de imprensa, que existe e é muito bem aproveitada pelos donos, mas não pelos usuários. Penso que toda a campanha de difamação e ódio contra Battisti está muito esgotada. Goebbels estava certo ao proclamar o poder de mentira, mas ele não revelou que o sucesso de suas calúnias se devia não apenas à insistência, mas também à força bruta que o Reich possuía.
Com efeito, este é um assunto longo, mas vou dar uma ideia. A lógica do ódio é confusa, e acaba envenenando os próprios feitores. Se o nazismo conseguiu manter mentiras e preconceitos durante muito tempo, foi porque ele tinha força e podia oferecer alguma coisa aos que secundavam suas mentiras.
Mas a sociedade brasileira, metaforicamente democrática pode oferecer pouco em troca aos linchadores de Battisti. Sabemos que a classe média que escreve comentários na própria Folha e outros jornais, encontra uma catarse para sua paranóia quando externa seus preconceitos, ódios, sentimentos xenofóbicos e neofascistas. Mas isso dura pouco: se Battisti for deportado, poucos conseguirão vê-lo morrer... talvez, apenas os guardiãs da prisão, os parentes dos que se dizem “vítimas” da esquerda, e alguns dignitários de estado.
Mas o homem comum de classe média, a maioria silenciosa, o frustrado advogado de cadeia que não consegue nem prestígio nem grande fortuna, o fundamentalista teológico, os militares e policiais, que sonham ver esquerdistas autênticos queimando na fogueira... etc., ninguém deles poderá ver morrer o refugiado, como podem ver morrer um assaltante linchado na rua, ou um trombadinha arrebentado por tiras. Ou seja, manter o ódio sempre é um esforço, mesmo para quem odeia. E ninguém pode prometer uma recompensar por formar parte da claque de linchadores de Cesare. O Terceiro Reich poderia oferecer vítimas sucessivas (que começam na Noite dos Cristais) para manter viva a energia linchadora. Brasil não pode oferecer nada parecido.
Foi esse fenômeno o que desmoralizou até os mais assanhados, sádicos e doentios perseguidores. Os membros mais corruptos do Senado, os soldados da máfia evangélica, os ruralistas, etc., já não tem mais imaginação nem esforço para gritar “Matem Battisti!” e estão encontrando inimigos novos. O incrível vice-presidente, e sua versão mais light, o presidente de Senado, ambos se limitaram a dizer, várias vezes, que Battisti devia ser extraditado. Mas, não envidaram nenhum esforço.
Um exemplo singelo de que mesmo ser linchador exige algum talento:
O site de petições contra Cesare, organizado pelo grupo do Orkut chamado Fora Lula!, abriu uma lista de assinaturas em janeiro de 2009, encabeçada por um manifesto pieguíssimo e subserviente onde bajulavam escandalosamente Napolitano e Berlusconi. Apesar da cumplicidade de mídia e do apoio dos políticos, eles obtiveram até o dia de hoje (20/06/2010), 307 assinaturas.
No site que Celso Lungaretti e eu abrimos no mesmo portal em dezembro de 2009, já temos 3809 assinaturas. Em termos absolutos, nós temos 12,4 vezes mais do que eles. Se vocês consideram que o site deles está funcionando durante 17 meses, e o nosso durante 6 meses, então eles tiveram 19 assinaturas por mês, e nós 685, ou seja, 37 vezes mais. Ainda, esta superioridade nossa é pequena, e pessoalmente me penitencio de não ter investido mais esforço em nosso petitório porque poderíamos ter multiplicado várias vezes esse número.
A história mostra, pelos menos nos séculos 19 e 20, que a direita só atua quando possui uma esmagadora superioridade de poder militar, policial e econômico. Mas este exemplo da falta de empenho dos inimigos de Battisti prova que ela não consegue ser eficiente, mesmo nesses casos, quando é necessário convencer e raciocinar.
Estamos no QED de nosso teorema. A Folha é um jornal conhecido, possui numerosos serviços, é lido pelos muitos brasileiros que moram fora do país. Ela comprou uma batalha muito confortável contra Battisti, e o atacou com toda a violência que fosse compatível com uma aparente elegância. Sabe que continuar com a mentira será puro desgaste. Aliás, segundo um boato (que, obviamente, não tenho condições de confirmar) que veio da Suíça, parece que os italianos não estão dispostos a gastar mais dinheiro no linchamento de Battisti. Até porque seus problemas domésticos estão ocupando todo seu poder de “sedução”.
*Carlos Alberto Lungarzo é graduado em matemática e doutor em filosofia. É professor aposentado e escritor, autor do livro “Os Cenários Invisíveis do Caso Battisti”. Para fazer o download de um resumo do livro clique aqui. Ex-exilado político, residente atualmente em São Paulo, é membro da Anistia Internacional (registro: 2152711) e colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.
domingo, 20 de junho de 2010
Futebol e esquizofrenia

Já virou rotina as tentativas da mídia em estabelecer o esquema pão e circo. Não que o futebol em si seja alienante, mas o que há em redor cumpre esse papel com a colaboração inestimável dos meios de comunicação conservadores. Exemplo mais recente nesse sentido ocorreu, para variar, na TV Globo, em uma reportagem de Nova York com argentinos lá residentes acordando cedo para assistir um jogo da seleção de Maradona.Em determinado momento o repórter foi ouvir um indiano torcendo pela Argentina e dizendo que tinha ”ódio do Brasil”, pois “se ama a Argentina tinha que ter ódio do Brasil”. Mas o pior da história foi que o indiano não apareceu falando, sendo apenas “traduzido” pelo repórter.
Ficou claro que os “patriotas” da TV Globo aproveitaram o embalo para envenenar, ou seja, colocar o tema não como uma rivalidade normal de disputa futebolística, mas jogar um país contra o outro, como fazem ao longo dos anos. Na prática essa gente joga contra a integração latino-americana, que tem como ponto relevante a aproximação brasileiro-argentina.
A mídia conservadora preferiu ignorar que a seleção argentina ao se despedir dos torcedores numa apresentação em Buenos Aires ergueu uma faixa informando que os jogadores apoiavam a indicação das Avós da Praça de Maio para o Prêmio Nobel da Paz. Ou seja, a seleção comandada por Maradona deu toda força a um grupo de senhoras mobilizadas desde 1977 para cobrar o desaparecimento político de netos e filhos durante a ditadura. Já imaginaram uma seleção brasileira defendendo direitos humanos erguendo uma faixa o que faria a mídia conservadora?
O aprofundamento do tema futebol e tentativas de manipulação da opinião pública são necessários sobretudo agora que em 2014 o Brasil sediará a próxima Copa do Mundo. Ou seja, muita grana vai rolar e corre-se o risco de as obras necessárias para a realização da Copa e dois anos depois as Olimpíadas não serem revertidas posteriormente para o benefício da população, aliás, como aconteceu com os Jogos Pan-americanos no Rio de Janeiro, onde, por sinal, t
udo ficou por isso mesmo em matéria de investigação de denúncias sobre irregularidades cometidas em construções para o evento. Quando se tentou isso, a administração municipal do Rio, então sob o comando do Prefeito Cesar Maia conseguiu abortar a iniciativa com a medíocre bancada de vereadores áulicos.Na verdade, daqui para frente, mesmo depois da Copa do Mundo, os brasileiros vão respirar futebol e o esquema conservador de sempre vai reforçar a manipulação da informação. É só acompanhar o que acontece com uma visão minimamente crítica.
Na área da sucessão presidencial, vale o registro de dois fatos. O primeiro envolvendo o tucano Fernando Henrique Cardoso, que de tão queimado que está nem apareceu presencialmente na convenção do PSDB que oficializou a candidatura José Serra, mas só numa tela com uma mensagem ao estilo senso comum que caracteriza o ex-presidente que fez tudo para sucatear o Brasil inteiro, não apenas as estatais. O segundo, a candidata Marina Silva.
Cardoso investiu furiosamente, em uma entrevista no jornal espanhol El País contra a política externa do governo Lula, sobretudo em relação à aproximação com Cuba e a tentativa brasileira e turca para uma distensão nas relações do Irã com o Ocidente, o que foi impedido pelo governo estadunidense de Barack Obama, na voz de Hillary Clinton, a secretária de Estado vinculada ao complexo industrial militar, que não esconde, agora via governo Benyamin Netanyanhu de Israel, o desejo de bombear o Irã. Cardoso está também furioso com o fato de o governo Lula não se alinhar automaticamente com os Estados Unidos, como aconteceu nos oito anos que esteve a frente do Executivo nacional.
Marina Silva, uma verde meio desbotada, porque quer todos os setores políticos de mãos juntas administrando o Brasil, não separando o joio do trigo, deu uma grande escorregada no Roda Viva, programa de entrevistas da TV Cultura e com transmissão nacional pela TV Brasil. Em certa altura, Marina disse que “graças a Constituição de 1988 o Estado brasileiro é laico”.
Como a senadora é formada em História, a escorregada é ainda pior, pois o Estado e a Igreja são separados no Brasil desde a primeira Constituição da República, em 24 de fevereiro 1891. O mais estranho é que nenhum dos entrevistadores deu uma palavra sobre o fato. Imaginem se em algum momento o Presidente Lula falasse algo dessa natureza o que aconteceria em matéria de contestação dos colunistas amestrados?
*Mário Augusto Jakobskind é jornalista, mora no Rio de Janeiro e é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de S. Paulo e editor de Internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, dentre outros livros, de “América que não está na mídia” e “Dossiê Tim Lopes – Fantástico / Ibope”. É colunista do site “Direto da Redação” e colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”
Aposentadoria é coisa de vagabundo

Berna (Suiça) - O economista puxa as estatísticas e pontifica: «vejam bem, a qualidade de vida melhorou e as pessoas estão vivendo mais, muito mais, isso vai levar à falência todos os fundos de pensões para aposentados. A única solução é aumentar a idade para se chegar ao benefício da aposentadoria. Onde é 60 anos a idade limite, como na França (país típico de Estado providência de economia arcáica), deve passar para 65 e onde já é 65, o jeito é ir aumentando para 67 até chegar aos 70 ».Que beleza de argumento, até eu, sem maiores informações, poderia ser convencido. Há mesmo muitos trabalhadores franceses batendo palmas e dizendo - « é isso mesmo, é lógico, vivemos mais, temos de trabalhar mais ».
Mas calma, devagar com o andor, e toda aquela história, livros, artigos, conversa na tevê, na mídia, de que no futuro todos iam trabalhar menos com o desenvolvimento do lazer, viagens, coçação de saco, passeios, turismo ? Zebrou ? Onde é que eu perdi o fio dessa história ? pois eu achava que a redução das horas de trabalho na França para 35 semanais era justamente o começo dessa nova vida para os trabalhadores.
Ainda há alguns anos, quando a esperança de vida de um francês era de 65 anos, um metalúrgico, por exemplo, só teria 5 anos para gozar a vida, embora muitos já tivessem reumatismo, diabete, distúrbios vasculares e nem pudessem dar uma passada na Geni por impotência. Como o salário
também da maioria não era dessas coisas, se tinham conseguido fazer uma poupança não dava nem para uma volta ao mundo, nem que fôsse de balão à moda de Jules Verne. O jeito era ficar sentado na frente da televisão ou ir jogar bocha ou cartas com os amigos e, em lugar de um Saint Emilion ou champagne, tomar mesmo uma birita daquelas de quatro reais a garrafa ou criar uma barriga com cerveja.A ilusão era a de que os filhos, esses sim, iriam aproveitar – menos horas de trabalho e mais lazer. E agora, antes de morrer, a desilusão – os filhos vão ter de ficar mais cinco anos na fábrica, no comércio, no trabalho.
E tem mais, a história de que o lazer para todos seria nosso futuro se baseava também no advento das novas tecnologias, na robotização de muitos trabalhos pesados e rotineiros. A máquina a serviço do homem, era o que se dizia. E quem acreditou se ralou. A robotização nas fábricas deu demissões e a máquina ficou a serviço do capital e contra o homem. Terceirização, robotização, globalização, a massa operária não irá mais ao paraíso porém ao inferno do desemprego e dos salários vis.
Essa história de aumento da idade para a aposentadoria tem outro ângulo geralmente esquecido – na teoria, diz-se que vivendo-se mais é normal se trabalhar mais, porém, quem ultrapassa os cinquenta anos, se perder o emprego já não acha outro. Ou seja, para as empresas quem tem 50 anos já não presta para o trabalho porque ficou velho; para os governos e fundos de pensões quem vive oitenta ou mais tem saúde e condições para trabalhar até os 65, 65 e 70 anos.
E é aí que os governos e fundos de pensões podem economizar e bastante – o empregado perde o emprêgo aos 55 ou 60 anos, passa a viver dois ou três anos com seguro desemprego, fica na miséria, deixa de contribuir para a caixa de pensões e não tem patrão também contribuindo. Quando chegar aos 67 ou 70 (como queria um ministro suíço e onde muitos países vão tentar chegar), sua média salarial já foi reduzida ao mínimo e terá uma aposentadoria de miséria.

Esta realidade de que idoso não acha emprego é simplesmente escamoteada pelas argumentações em favor do aumento da idade da aposentadoria. Resultado – criou-se nos anos 70 e 80, a esperança de um mundo robotizado, com 35 horas semanais, trabalho a domicílio, férias mais longas e, de repente, a especulação financeira, o grande capital assume o comando e decreta – sociedade do lazer ? O que é isso ? Vamos todos trabalhar e quem não conseguir segurar seu emprego depois dos 60 que monte uma barraquinha.
O capital financeiro perdeu os tubos, os países estão endividados, um socialista é que dirige o FMI, não tem mais moleza não minha gente, acabou o sonho. Robô, que não precisa de descanso semanal, nem férias e se contenta com uma corrente elétrica e um pouco de óleo, vai ter melhor tratamento que operário humano.
*Rui Martins é jornalista. Foi correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. É autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. É colunista do site "Direto da Redação" e vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, e com o blog "Quem tem medo do Lula?"
Sem saída, José?
O que o leitor lerá, até outubro, nas colunas da imprensa corporativa é tão previsível quanto a sucessão de dias e noites. O desequilíbrio do setor público será apresentado como resultante do modelo de intervenção do Estado na economia. O único problema é que, ao contrário da gestão neoliberal, não há qualquer evidência de exaustão macroeconômica. Na linha inversa do que afirma o credo conservador, o Estado não perdeu força como agente de desenvolvimento em uma economia complexa. Quem se mostrou um estorvo ao progresso, em razão de uma interferência caótica na vida das pessoas e das empresas, gerando privilégios para setores improdutivos, foi o mito do mercado como mecanismo capaz de regular-se a si mesmo.
Serra sabe que é herdeiro de um legado assustador. O governo ao qual se opõe foi capaz de ultrapassar o modelo supostamente modernizante e concentrador de rendas, herdado do consórcio liderado pelo PSDB, para uma etapa caracterizada pelo trinômio “crescimento-distribuição-participação”. Os critérios de escolha, em outubro, estão dados pelos êxitos obtidos pelo campo democrático-popular: retomada do desenvolvimento econômico e tomada de medidas voltadas para a redistribuição de renda e riqueza entre classes e regiões. Tudo isso realizado por atores políticos capazes de hierarquizar adequadamente as prioridades e de tratá-las dentro de um arcabouço de legalidade. Será de pouca valia argumentações que desconsiderem situações políticas novas e completamente distintas das que existiam em 2002.Arquivo do blog
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