Os mais recentes acontecimentos no Rio mostram que o crime não é propriamente organizado. O que há na verdade são bandos de pessoas levadas à delinquência exatamente pelo fato de o Estado não lhes proporcionar opções. A barbárie então impera.

Só que o “ficar“ das autoridades tem se resumido em ocupação militar e ainda por cima acham que resolveram os problemas. E a mídia de mercado entra no jogo sem questionar nada. Os telejornais falam em “dia histórico de vitória” o dia da ocupação da Vila Cruzeiro. Promovem heróis e incutem na opinião pública que o Rio virou uma outra cidade. No complexo do Alemão, onde vivem 400 mil brasileiros, ocorreu a mesma coisa. Vamos aguardar o desenrolar dos acontecimentos.
O governador do Estado do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, diz que os recentes acontecimentos em vários pontos da capital são sinais de desespero dos bandidos, porque a sua política de combate ao tráfico está produzindo resultados. Esse argumento já foi dito em outras ocasiões e também por outros governadores. Claro que o desejo é que os moradores das áreas pobres da cidade, sobretudo o Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro, possam viver em condições dignas e com o direito de ir e vir normalmente.
Tem também fatos meio estranhos, como, por exemplo, o próprio Secretário de Segurança dizer em alto e bom som que o Comando Vermelho é radical, mas os Amigos dos Amigos cuidam apenas dos negócios. Nestes dois anos, a maioria das favelas eram ocupadas pelo Comando Vermelho. A cobertura dos acontecimentos lembra um pouco a invasão e ocupação do Iraque, ou seja, como se tudo que acontecia fosse quase um piqueninque. Só que com o passar do tempo o piquenique terminou. Espera-se que aqui a história seja outra.
Na verdade, antes mesmo dos atuais acontecimentos as autoridades do Estado e do Município estavam preparando terreno em outras favelas que estão no caminho da Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016. Ou seja, a dupla Cabral e Eduardo Paes, já chamado nas áreas pobres da cidade de Eduardo Guerra, faz e acontece com o total apoio da mídia de mercado. As autoridades pouco se importam com os moradores das áreas pobres e valorizáveis.
E nas atuais operações militares tome de caveirões, balas perdidas etc. Mas hospitais, ensino de qualidade e construção de moradias para seres humanos que é bom, nada. O Estado em geral só tem entrado nas favelas através de ocupação militar. Será esta a solução para acabar com as desigualdades sociais, onde se encontram as verdadeiras causas da barbárie carioca?
Em relação as UPPs, na realidade quem conhece o departamento sabe perfeitamente que muitas vezes as aparências enganam. O “território” foi recuperado em algumas favelas da zona Sul do Rio e do bairro da Tijuca. Então vale uma pergunta: o Estado só entra nesses locais militarmente e não faz mais nada? Outra pergunta até agora não respondida: como as armas supermodernas circulam com tanta facilidade entre os marginais pé de chinelo?
Os mais recentes acontecimentos no Rio mostram que o crime não é propriamente organizado. O que há na verdade são bandos de pessoas levadas à delinquência exatamente pelo fato de o Estado não lhes proporcionar opções. A barbárie então impera.
Quanto ao narcotráfico propriamente dito, em outras áreas da cidade, não pobres, muito pelo contrário, como em condomínios de luxo, o barato está deitando e rolando, mas aí são “territórios nobres”, nada de polícia. O tráfico corre solto e não tem nenhum pé de chinelo, porque os traficantes no caso integram famílias abastadas que só pensam naquilo, ou seja, o lucro fácil, inclusive de forma ilícita. De vez em quando um é pego, mas depois o tema é esquecido.
Aproveitando o embalo de os meios de comunicação estarem voltados para os acontecimentos no Rio, inclusive promovendo shows midiáticos, a Secretária de Educação, Claudia Costin, uma ex-colaboradora do governo FHC, confirmou a desativação dos Cieps no Sambódromo, que lá funcionam há 26 anos. Com isso, cerca de 700 crianças que vivem em sua maioria no morro do Estácio e imediações vão ser transferidas para escolas da rede que não funcionam em tempo integral. Claudia Costin alega que o espaço não é apropriado para atividades escolares.
É totalmente infundado o argumento da secretária, até porque quando Darcy Ribeiro e Leonel Brizola criaram o sambódromo, convocando o arquiteto Oscar Niemeyer, o destaque dado foi exatamente para o fato de parte das dependências servirem ao longo do ano de salas de aula para as crianças das redondezas. Darcy e Brizola devem estar se virando no túmulo.
Por trás dessa decisão da Prefeitura do Rio pode estar o interesse de poderosas empresas da área de entretenimento de ocuparem o local tendo em vista a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Para Paes é muito mais importante aproveitar espaços como o do sambódromo para outros fins que não o favorecimento a crianças pobres. Mas o tema não é de interesse da mídia de mercado. A Prefeitura visivelmente joga em favor do lado do poder econômico.
*Mário Augusto Jakobskind é jornalista, mora no Rio de Janeiro e é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de S. Paulo e editor de Internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, dentre outros livros, de “América que não está na mídia” e “Dossiê Tim Lopes – Fantástico / Ibope”. É colunista do site “Direto da Redação” e colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.
=> Artigo publicado originalmente no site "Direto da Redação".
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