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A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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sábado, 19 de fevereiro de 2011

EUA vetam na ONU projeto que condena colonização israelense e Palestina vai ter que "reavaliar" processo de paz

Reunião da ONU em que os EUA determinaram seu veto
Da AFP*

A Autoridade Palestina vai "reavaliar" o processo das negociações de paz, após o veto americano na ONU ao projeto condenando a colonização israelense, afirmou na noite desta sexta-feira Yasser Abed Rabo, secretário geral do Comitê Executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

"Vamos reexaminar nossa avaliação de todo o processo de negociação" com os israelenses. "Foi (o veto) uma decisão infeliz e desequilibrada, que afeta a credibilidade da administração americana", disse Abed Rabo, um dos principais negociadores palestinos.

Pouco antes do veto, em um discurso na sede da Autoridade Palestina em Ramallah, o dirigente Mahmud Abbas lembrou que "o povo palestino quer o fim da colonização e da ocupação". "A colonização é inaceitável e ilegal em nossa terra".

Os Estados Unidos vetaram hoje no Conselho de Segurança das Nações Unidas o projeto de resolução árabe que condenava a política de colonização israelense nos territórios palestinos.

Israel, por sua vez, convocou após o veto os palestinos a retomar as negociações sem condições prévias.


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Parlamento de Israel vai investigar grupos de esquerda


A Knesset (parlamento de Israel) decidiu criar uma comissão especial na tarde desta quarta-feira para investigar atividades de cidadãos e grupos locais de esquerda acusados por membros do governo de “deslegitimar o Estado de Israel”.

A decisão foi aprovada em plenário do parlamento. Uma espécie de CPI investigará os recursos empregados por estes cidadãos e grupos israelenses, que frequentemente participam de atividades internacionais ou usam a internet para denunciar soldados e o exército em suas atividades nos territórios palestinos ocupados.

O jornal israelense Haaretz informa que a proposta foi ideia do ministro do Exterior, Avigdor Lieberman, que pediu a abertura da investigação sobre as vias de financiamento de todos estes grupos e verificar se por trás deles existem governos estrangeiros ou grupos terroristas.

domingo, 15 de agosto de 2010

ISRAEL VERSUS IRÃ

ISRAEL VERSUS IRÃ


Laerte Braga


Um grupo de mulheres israelenses revoltadas com a decisão do governo de seu país de impedir o deslocamento de mulheres palestinas até um determinado ponto de terras palestinas ocupadas (roubadas) por Israel, furou o bloqueio dos soldados e levou as mulheres palestinas até aquele ponto. Ver o mar, chegar ao mar, era a proibição do Reich de Tel Aviv.

Mulheres palestinas, de um modo geral, só servem a soldados de Israel para serem estupradas. E depois mortas. O povo que se considera escolhido por Deus como eleito nessa hora não é tanto eleito assim, é boçal na essência.

O absoluto silêncio da mídia ocidental sobre as condições de vida em Gaza, submetida a um bloqueio odioso por parte de Israel não permite que as pessoas tenham consciência do nível de barbárie dos sionistas/nazistas contra palestinos.

E nunca é demais registrar que Gaza é governada pelo Hamas, como resultado de um acordo entre o então presidente dos EUA Bil Clinton e o primeiro ministro de Israel Itzak Rabin. O acordo previa, entre outros itens, a criação do Estado Palestino, a devolução das terras ocupadas (roubadas) e eleições livres na Palestina. O Hamas venceu as eleições em Gaza. Israel não aceitou o resultado.

Nos festejos comemorativos da paz um sionista fanático, ou judeu fundamentalista como se costuma dizer, matou Rabin e a partir daí a escalada da violência das SS de Israel tornou-se incontrolável.

O estado de Israel (terrorista) dispõe de armas nucleares, é o principal aliado dos EUA no Oriente Médio e em operações terroristas pelo mundo afora, como o assassinato de um líder do Hamas em Dubai. Agentes do MOSSAD, serviço secreto do nazi/sionismo usaram passaportes reais da Grã Bretanha, Alemanha e Itália com nomes falsos.

Mais que isso, bem mais, têm o controle de importantes grupos empresariais e bancos norte-americanos, ou pseudo-norte-americanos, além de profundas ligações com o Partido Republicano.

Deitam suas ações terroristas por todos os cantos do mundo em estreita colaboração com a CIA – serviço secreto dos EUA – o que os transforma, aos dois países numa espécie de organização terrorista dotada de um arsenal nuclear capaz de destruir o planeta cem vezes se necessário for.

O presidente Barack Obama fez um apelo a um site internacional que divulgou perto de noventa mil documentos secretos da guerra do Afeganistão onde fica clara e visível toda a natureza da guerra sórdida e terrorista que norte-americanos fazem naquele país.

Seqüestros, prisões sem culpa formada, assassinatos seletivos, eliminação sumária de civis considerados suspeitos (homens, mulheres e crianças). Os documentos ligam militares dos EUA aos tráficos de droga e mulheres passando pelo Oriente Médio e Europa.

Obama pede que novos documentos não sejam divulgados.

A Europa ocidental hoje é uma grande colônia dos EUA. Ocupada militarmente e sem condições de resistir a esse imperialismo. Antigas nações como Grã Bretanha, Alemanha, França, Espanha, nada mais são que bases do império norte-americano. Seus governos têm autonomia limitada. São usados para operações terroristas do complexo EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A.

A invasão e ocupação do Iraque no governo Bush se deu sob o pretexto da existência de “armas de destruição em massa” (expressão do governador geral da Grã Bretanha, Tony Blair), fato negado pelos inspetores das Nações Unidas e solenemente ignorado pelos EUA. O Iraque continua sendo um país ocupado e sua maior riqueza, o petróleo, está em mãos de companhias internacionais, dentre elas a BRITISH PETROLEUM, responsável pelo maior vazamento do chamado ouro negro em um oceano (danos irreparáveis ao meio-ambiente).

Não foram poucas as imagens de tortura e toda a sorte de violência em prisões iraquianas contra civis. Os torturadores eram os norte-americanos.

O governo do Afeganistão, tutelado pelos EUA, acaba de anunciar a descoberta de uma jazida de petróleo com reservas de um bilhão e oitocentos milhões de barris no norte do país. Segundo o ministro das Minas, Jawad Omar, “em breve começaremos a explorar a região. O próprio ministro declarou que os trabalhos de prospecção acontecem a seis meses e junto a geólogos norte-americanos.

O petróleo afegão vai para companhias internacionais. A maioria delas norte-americanas e outras tantas associadas.

O ministro das Minas havia anunciado dias antes que seu país iria começar a explorar jazidas de diferentes metais, algo no valor de “trilhões de dólares”. O NEW YORK TIMES anunciou que se tratavam de jazidas de ouro, lítio e outros minerais.

Obama luta até hoje, pouco mais de um ano e meio de governo, para de fato governar os EUA. Não se impôs, de saída não conseguiu fechar o campo de concentração de Guantánamo, eliminar as prisões secretas – muitas delas navios em alto mar – e pouco avançou em negociações de paz em qualquer parte do mundo que esteja em conflito, sobretudo Oriente Médio.

Tem um pepino nas mãos. O governo paralelo do Partido Republicano, que havia dado o sinal verde para o golpe militar em Honduras, a derrubada do presidente Manuel Zelaya (ação direta do senador John McCain, derrotado nas eleições por Obama), deu sinal verde a Israel para atacar o Irã e tentar destruir as instalações e usinas nucleares daquele país.

A hipótese que o Irã venha a construir armas nucleares e com isso mude a correlação de forças no Oriente Médio, acabando com a barbárie do estado terrorista de Israel, forçando negociações sérias de paz, ensejando a criação real e efetiva do Estado Palestino (decisão tomada pela ONU em 1948 e até hoje não cumprida), leva pânico ao bunker nazi/sionista em Tel Aviv.

A forma como a mídia ocidental trata o Irã, criminaliza a revolução islâmica, transforma-a em grande satã, tem, entre outros objetivos, o de propiciar um terreno favorável a Israel para uma ação terrorista desse porte.

Se milhões de pessoas morrem num conflito com essas proporções, o Irã tem defesas capazes de resistir a Israel, isso é o de menos desde que os negócios fiquem preservados. Tanto para norte-americanos como para os que governam Israel.

O caso da iraniana condenada a morte por adultério é um exemplo típico dessa criminalização. A pena de morte por apedrejamento foi e continua sendo vendida pela mídia. Quer simbolizar o atraso, o caráter medieval de um governo, uma Nação e estigmatizar mais ainda os muçulmanos.

O apedrejamento já foi suspenso e o anúncio oficial feito para todo o mundo. A pena de morte mantida pelo simples fato que a condenada em conluio com um outro homem foi responsável pela morte de seu marido. Centenas de crimes com esse viés acontecem no mundo inteiro. Um sem número de filmes mostrando esse tipo de situação já foram produzidos por Hollywood.

É evidente que apedrejar alguém até a morte por adultério é uma boçalidade sem tamanho. A pena de morte em si é a negação do ser humano como tal. E considerar adultério crime é outra estupidez.

Quando era governador do estado do Texas o ex-presidente George Bush não atendeu a nenhum pedido de clemência de dezenas de presos executados nas cadeias texanas. Hoje, com os avanços da genética, muitas famílias desses presos assassinados pelo estado estão recebendo indenizações monstruosas, pois os chamados exames de DNA comprovaram que boa parte era inocente.

O Ato Patriótico assinado por Bush, delírio nazista de um governante estúpido, permitia a tortura, entre elas a simulação de afogamento, para facilitar as políticas de combate ao terrorismo.

Se para combater o crime é preciso usar armas criminosas, um e outro são iguais.

A expressão terrorista vulgarizou-se no fanatismo nazi/sionista e imperialista dos EUA

Um eventual ataque de Israel ao Irã, a despeito dos apelos de Obama para que isso não aconteça, leva o mundo a riscos maiores que os já existentes e os já existentes estão exatamente no que Hans Blinx definiu como “embriaguês pelo poder militar”, referindo-se aos EUA em relação à guerra do Iraque. Blinx foi o inspetor chefe da ONU que declarou não existirem provas de armas químicas e biológicas no Iraque. Isso antes do ataque terrorista dos norte-americanos.

Israel é o câncer do Oriente Médio como está e como age.

É guerra hoje é um negócio fantástico para empresas desde que privatizadas, terceirizadas.

Na alienação vendida diariamente pela mídia mundial, nos EUA inclusive, tentando mostrar árabes, ou muçulmanos como terroristas, povos inferiores, atrasados, não se exibe, por exemplo, o concurso de língua mais comprida do mundo, realizado numa cidade norte-americana e com cobertura nacional da mídia, na demonstração indesmentível da mediocridade a que foram submetidos os habitantes do complexo terrorista EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A.

O imperialismo capitalista, selvagem, brutal, terrorista.

Essa denúncia, entre nós, é feita sistematicamente pelo secretário geral do PCB – Partido Comunista Brasileiro (não confundir PCB com a empresa PC do B S/A) – Ivan Pinheiro em cumprimento a decisões da Conferência Nacional do seu partido.

O governo do Irã é legítimo, produto de um processo revolucionário que pôs fim a um regime totalitário de décadas. O presidente é eleito pelo voto direto dos iranianos e a condenação à morte de uma mulher é repugnante por ser exatamente condenação a morte, mas o crime não é necessariamente adultério, é homicídio.

Quem dera que o JORNAL NACIONAL no histerismo mentiroso de William Bonner denunciasse todas as execuções em estados norte-americanos e todos os erros judiciários descobertos recentemente na barbárie que é intrínseca à sociedade norte-americana.

Um eventual ataque ao Irã será um ato de terrorismo puro e simples dos nazi/sionistas de Israel. Não diferem em nada de Hitler e seu Reich. São iguais.

E Obama, nessa história toda, é só um bobo que acha que é presidente dos Estados Unidos, que supõe, ele muitos, ser uma nação, mas é apenas uma grande empresa controlada por EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A.

Combater o terrorismo na palavra dessa gente é tomar conta do petróleo, do ouro, do lítio no Afeganistão. No caso do Brasil, investir em José Arruda Serra para colocar de joelhos um país com dimensões continentais e trilhões de dólares em petróleo, nióbio, urânio, etc, etc.

Já o Irã é evitar que a revolução islâmica crie condições efetivas de vida digna para os palestinos, para o Estado Palestino, pondo fim ao saque sionista promovido a partir de um tumor canceroso na região, Israel.

domingo, 25 de julho de 2010

O fim programado de Israel

O fim programado de Israel

Por Rui Martins (*)

Berna (Suiça) - Não se trata de uma bomba nuclear programada para arrasar Israel, coisa improvável mesmo se os iranianos tiverem a bomba, pois destruiria também os palestinos. É outro tipo de bomba, gerada na cama, entre gemidos e suspiros, é a bomba demográfica.

« O ventre da mulher árabe é a minha arma mais forte », dizia Yasser Arafat.

O jornal Expresso, de Lisboa, dedicou duas páginas, na semana finda, para essa questão, tantas vezes descartada pelos israelenses. As informações foram colhidas com o israelense Arnon Soffer, do departamento de Geografia da Universidade de Haifa. Se em Israel há quase seis milhoes de israelenses judeus, igual número de habitantes se obtém somando-se os árabes que vivem na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e dentro de Israel.

E a coisa se complica para Israel ao se saber que a população israelense cresce no ritmo de 1,3% ao ano, enquanto os árabes progridem em dobro, 2,5%. Atualmente, vivem dentro de Israel 20% de cidadãos árabes e muitos israelenses deixam o país anualmente em consequência da falta de segurança para o futuro da família.

Soffer argumenta haver três maneiras de se impedir que Israel passe a ter uma maioria de população árabe – voltar a encorajar a imigração de judeus para Israel (nos EUA vivem praticamente tantos judeus quantos os que vivem em Israel, 5.280 milhões; no Canadá são 374 mil e na Argentina e Brasil somam 280 mil e mais de 1.5 milhão na Europa); investir na educação das mulheres muçulmanas, já que normalmente têm menos filhos e não anexar a Cisjordânia, dentro do projeto de uma nação para dois povos.

Sergio Dellapergola, da Universidade Hebráica de Jerusalém, acha que a melhor solução seria a dos dois Estados, um israelense e outro palestino, mas depois de um acordo de mudanças de fronteiras pelo qual o Estado de Israel englobe as atuais colônias da Cisjordânia, onde vivem 300 mil colonos, em troca de parcelas de Jerusalém e da chamada Linha Verde, habitada por árabes.

Entretanto, essa solução possível no papel tem como ferrenhos opositores os judeus ultraortodoxos, ainda sonhando com o Grande Israel ou um retorno às antigas fronteiras bíblicas. Ora, segundo Soffer, se esta hipótese fosse viável, os judeus israelenses seriam minoritários, mesmo se os judeus ultraortodoxos têm também muitos filhos.

Diante da intransigência dos judeus ultraortodoxos que se negam a ceder a Cisjordânia aos palestinos, Soffer - conta o jornal Expresso - diz ter mais medo dos judeus fanáticos que dos árabes. E, repetindo o que muitos israelenses começam a pensar, afirma - "se depender de mim, meus netos não viverão num Estado religioso típico da Idade Média. Iremos todos viver em Portugal".

*Rui Martins é jornalista. Foi correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. É autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. É colunista do site "Direto da Redação" e vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, e com o blog "Quem tem medo do Lula?"

Charge: Carlos Latuff

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PARA A CORTE E SEUS BOBOS, BRASIL SERIA "CACHORRINHO RANHETA DO 3º MUNDO"

Celso Lungaretti (*)
O reaça-mor da Veja, Reinaldo Azevedo, finalmente encontrou quem pense exatamente igual a ele sobre o Governo Lula: uma articulista do Wall Street Journal chamada Mary Anastasia O'Grady.

Triunfalmente, deu-se ao trabalho de traduzir, publicar e comentar no seu blogue o artigo dessa Anastasia que não é nenhuma princesa, está mais para serviçal da Corte. O motivo de seu júbilo, RA trombeteou logo no título: ela, supostamente, "arrasa com a política externa de Lula".

As pessimamente traçadas linhas de A dança de Lula com os déspotas, da Anastasia sem nobreza, não passam de descarado lobby israelense contra a posição brasileira de resistir à imposição de sanções contra o Irã.

Israel quer porque quer abortar o programa nuclear iraniano, na suposição de que servirá para fabricar bombas atômicas.

ONU, EUA e países subservientes às paranóias israelenses se desmoralizam ao punirem apenas o Irã.

Pois, enquanto o mundo não colocar sob o mais rígido controle o arsenal nuclear de Israel, nação responsável pelos recentes massacre de palestinos (2008/09) e chacina de pacifistas (2010), não pode exigir nada de país nenhum.

A pior ameaça à humanidade, o governo mais bestial em relação a outras nações e outros povos, é exatamente o israelense, em razão de suas reações apocalípticas a qualquer agressão sofrida e da sua absoluta amoralidade, a ponto de haver oferecido ármas nucleares para a África do Sul no auge do apartheid.

O artigo da pistoleira de aluguel que tanto excitou RA diz:
"O mais recente exemplo de como o Brasil ainda não está pronto para figurar no horário nobre dos círculos internacionais se deu na semana passada, quando votou contra as sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU. A Turquia foi a única parceira do Brasil neste constrangedor exercício. Mas a Turquia pode ao menos usar como desculpa suas raízes muçulmanas. Lula está levando a reputação do Brasil para o brejo só para a sua satisfação política pessoal".
Para bom entendedor, fica evidente que este é o único motivo para a peça propagandística ter sido redigida e veiculada no house organ do parasitismo financeiro, não o fato de Lula "defender e exaltar (...) alguns dos mais notórios violadores dos direitos humanos do planeta".

Se Ahmadinejad se dedicasse apenas a exterminar oposicionistas e homossexuais, não lançando ameaças (meramente retóricas, por enquanto) contra Israel, o estado judeu não daria a mínima para essas matanças -- abomináveis, sem dúvida, mas cuja escala foi muitíssimo inferior à do último pogrom israelense sobre Gaza.

É sempre bom lembrar: de uma tacada só Israel varreu 1.434 palestinos da face da Terra, enquanto os executados por denunciarem fraude eleitoral no Irã seriam, no máximo, 70.

Choca-me ver um jornalista brasileiro, por pior que seja, repercutindo panfletos estrangeiros contra o presidente e o ministro das Relações Exteriores do Brasil -- o primeiro tratado como "um político esperto que veio das massas mas ama o poder e o luxo" e o segundo, como "um intelectual notoriamente antiestadunidense e anticapitalista".

Pior ainda é o tratamento dado ao próprio Brasil, que a Anastasia publicista apresenta como "um país ressentido, um cachorrinho ranheta do 3º Mundo".

* Jornalista e escritor. http://naufrago-da-utopa.blogspot.com


segunda-feira, 14 de junho de 2010

Israel vai investigar a si próprio e as conclusões serão censuradas


Seria cômico, se não fosse trágico.

Ao admitirem desfecho farsesco para o caso do ataque à flotilha de ajuda humanitária a Gaza, a Organização das Nações Unidas e os países mais influentes do mundo, EUA à frente, acabam de jogar no lixo mais uma oportunidade para impor aos piratas israelenses o respeito pelo Direito internacional.

Num episódio inquestionável, claríssimo, gritante de chacina em alto mar, cometida por militares israelenses armados até os dentes contra civis de várias nacionalidades que se defendiam com estilingues, não só deixaram de aplicar sanções imediatas ao brutal agressor -- o que havia, ainda, para se averiguar? --, como abdicaram até mesmo de uma investigação internacional do episódio.

Os homicidas determinaram que só seriam investigados por seus pares, e esta aberração jurídica e moral foi aceita pelos poderosos do planeta!

Para completar a pantomima, os magnânimos carrascos admitiram que dois estrangeiros integrem a comissão especial constituída para tentar, em vão, salvar as aparências.

Então, serão cinco os investigadores: três israelenses, o prêmio Nobel da Paz David Trimble - um dos articuladores do acordo de paz na Irlanda do Norte de 1998 - e o promotor militar aposentado canadense Ken Watkin.

Podemos até admitir que façam honestamente seu trabalho.

No entanto, está antecipadamente vetada a apresentação ao público e à comunidade internacional de qualquer conclusão que "possa causar dano substancial à segurança nacional [de Israel...], as relações internacionais, o bem-estar ou a privacidade de qualquer indivíduo ou os métodos operacionais confidenciais de entidades autorizadas".

Ou seja, esses homens de reputação, para fazerem jus à dita cuja, deverão concluir o óbvio ululante:
  • que Israel agiu com bestialidade extrema, ao abordar em alto mar embarcações de outro país;
  • ao invadi-las da forma mais truculenta;
  • ao assassinar nove civis e ferir muitos outros;
  • ao sequestrar os sobreviventes, rebocando-os ao seu território;
  • ao roubar equipamentos que portavam;
  • ao mantê-los em cativeiro sem nenhuma autoridade para tanto;
  • e, finalmente, ao despachá-los para onde decidiram ao invés de soltá-los para ir aonde quisessem.
No entanto, tudo isso ficará em segredo, assim como o nome dos culpados por esses crimes.

E, como todos sabemos da dificuldade em disciplinar Israel, tal relatório (com as partes inócuas divulgadas e o que realmente importa mantido em sigilo) vai produzir efeito nenhum, já que nem cobranças da opinião pública haverá.

Afinal, sequer o contundente Relatório Goldstone teve as consequências que se impunham, embora haja concluído e informado ao mundo que Israel perpetrou massacres dantescos em Gaza, na virada de 2008 para 2009.

Depois desta, a ONU também deixou de existir. Só falta enterrarem.

A Liga das Nações acabou por ter sido impotente para conter Hitler.

A ONU acabou por ter sido impotente para conter Israel.

Simples assim.


Por Celso Lungaretti, jornalista e escritor. http://naufrago-da-utopia.blogspot.com

terça-feira, 8 de junho de 2010

Netanyahu é também kamikase?


Netanyahu é também kamikase?


Por Rui Martins (*)


Por Rui MartinsBerna (Suiça) - Daniel Cohen Bendit deu a ênfase necessária, num discurso pronunciado no Parlamento Europeu, no lançamento, em maio, da campanha por uma paz durável entre israelenses e palestinos, num abaixo-assinado que circula entre judeus principalmente da Europa.*


Daniel Cohen Bendit, o Daniel Vermelho da revolta estudantil de maio de 68, em Paris, agora Daniel deputado Verde na União Européia, fez uma comparação pertinente – o ódio entre israelenses e palestinos é o equivalente ao que existia entre alemães e franceses e, hoje, disso ninguém mais se lembra.


O abaixo-assinado, chamado de Apêlo à Razão, já tem quase 7 mil assinaturas e viu confirmados seus temores, no episódio da frotilha comandada pelo navio Mavi Marmara, do qual sai reforçado o apêlo de tantos intelectuais judeus para que Israel mude sua política e evite o atual isolamento, numa espécie de suicídio diplomático e político de Netanyahou e do governo israelense.


O apelo condena a política de implantação de novas colônias na Cisjordânia e na parte árabe de Jerusalem, por constituir uma falta moral e política e por constituir uma deslegitimação de Israel como Estado. O documento deplora também a manutenção do bloqueio de Gaza, com o objetivo de obter a libertação do soldado Guilat Shalid, que produz como resultado o refôrço do movimento Hamas e do fundamentalismo islâmico.


Bernard-Henry Levy, filósofo francês judeu, assinou o manifesto e lamenta a política atual de Netanyaou que, pelo jeito, « está pouco ligando para o que pensa o mundo ». É verdade que são assinaturas de judeus de esquerda e Daniel Cohen Bendit afirma não ter feito sua bar mitzva e que sete assinaturas é muito pouco num país onde vive uma enorme comunidade judáica, de um milhão de pessoas, mas serve para mostrar que entre os intelectuais judeus da diáspora européia existe um clima de oposição à política de Netanyahou, qualificada de perigosa para a própria existência de Israel.


Como as relações entre Israel e os palestinos puderam se deteriorar de tal maneira, desde o promissor 13 de setembro de 1993, em Washington, quando Bill Clinton saudava o aperto de mão entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat ? Como aquele « processo de paz » talhou e virou processo de guerra, se naquele dia Arafat reconhecia a existência de Israel e Israel reconhecia a OLP e cedia uma parcela do território ocupado ?


Era justamente o inverso do que ocorre hoje. Com esse acordo, Israel saía do isolamento em que se encontrava, o mesmo isolamento no qual retorna. Mas esse acordo tinha sérios opositores – a direita israelense do Likud, o lobby americano do Aipac, que não queriam negociar nenhuma parcela do território. Eram igualmente contra esse acordo os islamitas palestinos do Hamas, que ia se fortalecendo e se opondo ao Fatha de Arafat, contrário a qualquer negociação com Israel, e o Irã, por questões geopolíticas.


Por mais absurdo que possa parecer, esses inimigos do processo de paz agiram com o mesmo objetivo para torpedeá-lo. Assim, logo a seguir, o Irã qualificou Arafat de traidor e pediu a destruição de Israel. Dizem especialistas que o Irã temia ficar de lado com o surgimento de uma potência palestino-israelense. Mas foi a direita israelense que agiu rapidamente assassinando Rabin, e provocando o sepultamento do acordo de paz palestino-israelense.


Seguem-se os atentados em Israel que provocam a vitória de Netanyahou em 96. Ao contrário de Rabin e Peres, em lugar de acusar os iranianos ele acusa os palestinos e os árabes em geral, é o começo do fim do processo de paz. Seu retorno ao poder é o retorno ao mesmo processo. Obama quer forçar Israel a suspender a implantação de colônias, mas não consegue convencer Netanyahou, que evita ir a Washington, no dia seguinte, ao ataque israelense à frotilha comandada pelo Mavi Marmara.


Alguns europeus vêem na maneira como Israel quis impedir o avanço da flotilha, uma punição à Turquia por ter agido junto com o Brasil no sentido de se encontrar uma solução para o impasse nuclear do Irã. Entretanto, o cálculo teria sido mal feito, pois a reação da Turquia pode significar o fim de numerosos acordos com Israel, isolando-o ainda mais, pois a Túrquia é o único país muçulmano que tem acordos, inclusive militares, com Israel.


Paradoxalmente, se a própria criação de Israel tem suas raízes no navio Exodus, impedido de aportar, é um outro navio, impedido de acostar, que isola, destrói a imagem e coloca em questão a própria existência de Israel. Com sua intransigência, implantando novas colônias, desafiando até um antigo e importante aliado, Netanyahou não está se transformando no mais perigoso kamikase do Oriente Médio ?


*www.jcall.eu


*Rui Martins é jornalista. Foi correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. É autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. É colunista do site "Direto da Redação" e vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, e com o blog "Quem tem medo do Lula?"


Charge: Carlos Latuff

Estado delinquente protegido pelos EUA


Estado delinquente protegido pelos EUA


Por Mario Augusto Jakobskind (*)


Por Mario JakobskindO mundo continua chocado com o ataque de um comando militar israelense contra uma flotilha de nove navios, com 800 passageiros de várias nacionalidades, que levava ajuda humanitária para Gaza e provocou nove mortes. A investida ocorreu em águas internacionais e recebeu o repúdio de todos os governos do mundo.


A exceção ficou por conta dos Estados Unidos, cuja titular do Departamento de Estado, Hillary Clinton, pediu apenas cautela para as partes, enquanto o vice de Obama, Joe Biden deu integral apoio a Israel. Ou seja, cautela e apoio para assassinos? Na segunda incursão do Exército, o barco foi levado para um porto israelense Os militantes foram deportados.


O importante agora é exigir a instalação de uma comissão de investigação internacional, sem a presença de israelenses, para evitar parcialidades, para apurar com rigor o que aconteceu. E a partir daí, punir em Tribunais internacionais os responsáveis. Mas o governo Obama-Biden quer israelenses investigando, exatamente para não apurar nada.


Israel, governado por trogloditas políticos de extrema direita, tal como um tumor maligno, precisam ser extirpados para o bem da humanidade. Netanyahu e o Ministro do Exterior, um tal Lieberman, fazem lembrar judeus nos campos de concentração que faziam serviços para os nazistas em troca da sobrevivência. Lieberman é racista declarado e prega a violência contra palestinos.


O extremismo dos atuais dirigentes de Israel, acompanhado pelo trabalhista Edhud Barak, Ministro da Defesa, e pelo Presidente Shimon Peres chegou ao cúmulo de culpar os integrantes da missão de paz pelo incidente. Há acusações graves, inclusive de que os feridos não receberam cuidados médicos e que foram fuzilados pelos integrantes do comando israelense, que não podem ficar por isso mesmo.


Na verdade, os fundamentalistas de Israel, que só entendem a linguagem da truculência, que envergonha a humanidade e os próprios judeus progressistas ou que não professam a ideologia sionista, deveriam responder no Tribunal Penal Internacional pelo que fizeram agora e antes em matéria de violação dos direitos humanos.


Curioso nesta história trágica é o fato de Madame Clinton, hoje a maior representante dos falcões que só pensam naquilo, ou seja, na guerra e como escoar os armamentos que fabricam, faz jogo duro com o Irã e pede apenas cautela para quem está cometendo crime contra a humanidade.


Os trogloditas de Israel são hoje uma ameaça à paz mundial. Utilizam-se da chantagem da vitimização, ou seja, da tragédia representada pelo III Reich nos anos 40 do século passado. Mas é preciso colocar os pingos nos is e mostrar como os trogloditas apenas usam o holocausto para chantagear. Tal fato tem sido denunciado até por vítimas da II Guerra Mundial que também não professam a ideologia sionista.


Na II Guerra Mundial, seis milhões de judeus foram trucidados pelos nazistas. Quem mais sofreu foram os que viviam no Leste da Europa, geralmente grupos de baixo poder aquisitivo. Os judeus dos Estados Unidos, agrupados no forte lobby que pressiona governantes estadunidenses, tanto democratas como republicanos, em apoio a Israel, nada sofreram.


E o que acontece então? Israel desrespeita seguidamente os direitos humanos e no Conselho de Segurança das Nações Unidas saem no máximo condenações verbais, geralmente tímidas que na prática sugerem a impunidade. Isto é, Israel faz o que faz e nada acontece em matéria de punição, porque o padrinho Estados Unidos não permite.


Os israelenses são arrogantes e quem os critica é tachado de antissemita. Como prova de arrogância, o embaixador de Israel aqui no Brasil, Giora Becher, falando à TV Globo fez críticas ao governo brasileiro pelo posicionamento louvável que vem mantendo em matéria de política externa.


O Itamaraty poderia perfeitamente considerar este senhor persona non grata ou pelo menos dar-lhe uma advertência pelo tipo de crítica rasteira que fez, inclusive numa demonstração de intromissão em assuntos internos.


O governo brasileiro e os demais do Mercosul deveriam suspender os acordos comerciais firmados recentemente com Israel. Só assim um governo extremista como o atual de Israel, veria como a comunidade internacional está de fato adotando providências para frear o genocídio que vem ocorrendo na região.


Mas para que isso aconteça é preciso que esses governos escutem a voz rouca das ruas que está indignada com as atrocidades que vem sendo cometidas por Israel.


Esta, vale assinalar, é uma das poucas formas de se pressionar um país delinquente como Israel. Na África do Sul o bloqueio funcionou.


*Mário Augusto Jakobskind é jornalista, mora no Rio de Janeiro e é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de S. Paulo e editor de Internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, dentre outros livros, de "América que não está na mídia" e "Dossiê Tim Lopes - Fantástico / Ibope". É colunista do site "Direto da Redação" e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

Israel mata. E a ONU pune o Irã por pretender matar

Por Celso Lungaretti (*)



O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas deverá votar nos próximos dias um novo pacote de sanções ao Irã por estar, SUPOSTAMENTE, pretendendo desenvolver armas nucleares.



Israel não só possui, COMPROVADAMENTE, armas nucleares, como até se dispôs a fornecê-las à África do Sul, no auge do apartheid.

O estado teocrático iraniano representa mesmo uma grande ameaça... para sua população, já que executa seres humanos por serem homossexuais, por participarem de manifestações pacíficas de protesto e outras insignificâncias que o mundo civilizado nem sequer considera crimes. Mas, não tem mostrado a mesma agressividade em relação às demais nações, salvo nas palavras que o vento leva.

Já Israel é useiro e vezeiro em cometer genocídios e atrocidades contra os outros povos, desrespeitando sistematicamente o Direito internacional, como comprova a incursão pirata da semana passada.

Retórica à parte, não há elementos que nos permitam concluir que o Irã pretenda mesmo jogar uma bomba atômica em Israel.

Da história das últimas décadas se pode concluir, sem sombra de dúvida, que Israel responderá a qualquer ataque de maior envergadura que sofra lançando quantas bombas atômicas tiver contra o inimigo. Sua norma é sempre reagir com força desmesurada, não só como retaliação, mas também para intimidá-lo e traumatizá-lo ao máximo.

Então, cabem as perguntas:


  • qual desses países, a partir de sua prática concreta, tem-se demonstrado uma ameaça maior para o resto do mundo?

  • que sentido faz punir o Irã por uma bomba que ainda nem fabricou, depois de não punir Israel pelas bombas que possui há décadas, sem controle internacional de nenhuma espécie?



No fundo, só há um motivo: o de que os EUA vetam qualquer resolução do Conselho de Segurança da ONU contra Israel, enquanto o Irã não conta com um protetor que lhe garanta a impunidade.

Ou seja, o Direito não possui nenhuma força. E a força tem todos os direitos.


* Celso Lungaretti (http://naufrago-da-utopia.blogspot.com) é jornalista e escritor.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Xeque a Obama



Xeque a Obama


Por Celso Lungaretti (*)



Por Celso LungarettiEm tempos de Copa do Mundo, o resultado do último confronto entre Israel e pacifistas foi uma goleada. O estado judeu atacou de forma destrambelhada a flotilha de ajuda humanitária a Gaza e ficou com a defesa tão exposta que os adversários marcaram gols à vontade.

O mundo inteiro já chegou a conclusões definitivas:





  • Israel cometeu óbvios crimes ao abordar o comboio em águas internacionais, ao assassinar pelo menos nove estrangeiros no curso de uma ação ilegal, ao agredir vários outros, ao sequestrar os sobreviventes, ao mantê-los presos por alguns dias e ao despachá-los para onde não optaram por ir;

  • o bloqueio do Gueto de Gaza (em tudo e por tudo semelhante ao Gueto de Varsóvia...) é criminoso e aberrante, devendo ser levantado o quanto antes.


A alegação de que os assassinos israelenses estariam exercendo legítima defesa, ao encherem de balas vítimas que não portavam armas de fogo, é risível.

Nem que a flotilha tivesse invadido seu território faria sentido, pois o emprego desmedido de força salta aos olhos.

Em alto mar, então, nem há o que discutir. Os coitados tinham todo direito de reagir ao ataque de piratas; e estes, nenhum de acrescentar uma atrocidade a uma ilegalidade.

Houve quem levantasse uma questão cabível: o que Israel fez foi uma ação pirata ou um ato de guerra?

Como a embarcação atacada tinha bandeira turca, formalmente o segundo enquadramento é o mais correto.

Mas, como se tratava de uma missão humanitária internacional, a agressão de Israel se deu contra o mundo civilizado como um todo, e não especificamente contra a Turquia. Considero que andou certo o governo turco ao não levar o episódio às últimas consequências, declarando guerra a Israel, como poderia ter feito.

Agora, o estado judeu, também de forma risível, nega-se a aceitar a participação de outras nações ou organismos na investigação do episódio.

Pretende fazê-la sozinho, com o propósito de acobertamento, claro. A Turquia está certíssima em interpretar tal atitude como uma admissão de culpa.

Pelos mesmos motivos expostos acima, o país formalmente agredido tem todo direito formal de liderar as investigações. O pleito da Turquia procede.

Mas, como o ataque se deu em águas internacionais e a vítima foi uma missão humanitária integrada por cidadãos de vários países, a investigação deveria competir mesmo é à ONU.

Continua valendo o que eu afirmei na semana passada:


"Respaldado no poder econômico e de mídia de judeus do mundo inteiro, Israel aplica, há décadas, a lei do mais forte.


"A ONU terá de agir da mesma maneira, se quiser ser respeitada: fazendo valer a força maior de que teoricamente dispõe.


"Para começar, exigindo o imediato levantamento do bloqueio israelense a Gaza.


"Depois, impondo a rigorosa apuração desse episódio de pirataria em alto mar, seguida da não menos rigorosa punição dos responsáveis."



Não tenho dúvidas de que um relatório elaborado pela ONU condenará Israel de forma tão enfática quanto o fez o de Richard Goldstone, sobre o genocídio praticado contra os palestinos de Gaza na virada de 2008 para 2009.


Nem de que será aprovado, como sempre, por esmagadora maioria.

Mas, produzir efeitos concretos é outra história.

Como assinalou o colunista Jânio de Freitas, em dia inspirado (A cara e a alma):


"Se há mais de quatro décadas nenhuma das tantas e diferentes tentativas de pacificação da área prosperou, (...) é bastante lógico que o fundamento do problema esteja em um fator influente sobre toda a área ou sobre partes decisivas dela.


"Tal fator existe. Tem cara e tem alma. Sua cara é o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, uma cara cínica, apta a adotar ares de seriedade e de cumprimento compungido do dever, quando põe em prática os atos mais abjetos. Sua alma é de testa de ferro, de guarda-costas matador, de agente duplo, de traficante.


"Tais características do Conselho de Segurança ativam-se a cada vez que um dos seus cinco integrantes permanentes [EUA, Rússia, França, Inglaterra e China] invoca o direito de veto a uma resolução proposta por um dos 15 membros...


"(...) Dominante, há mais de 40 anos a direita belicista de Israel não precisa pensar em conter suas ambições territoriais e de dominação; nem em possíveis fórmulas de convívios sem beligerância na região, respeito aos acordos internacionais sobre práticas toleradas e crimes de guerra, violações de direitos, respeito a fronteiras e a águas internacionais.


"Israel é uma população dividida em relação ao que o país faz, mas é um país de mãos livres para fazer o que quiser. E faz, implícita e explicitamente autorizado pela assegurada cobertura da maior potência mundial".




Então, em última análise, é Barack Obama quem decidirá se Israel vai ou não continuar cometendo impunemente as piores truculências.

Obama terá de optar entre suas conveniências políticas domésticas, num país em que o apoio dos judeus ricos e da mídia que eles controlam decide eleições, e o respeito à Justiça e ao Direito nas relações internacionais. Nem mais, nem menos.

Temo que ainda não seja desta vez que os EUA dirão: "Sim, nós podemos... ser justos".


*Celso Lungaretti, jornalista e escritor

http://naufrago-da-utopia.blogspot.com

sábado, 5 de junho de 2010

TV de Israel ridiculariza Lula por seu apoio ao presidente do Irã







Para quem não sabe o significado de hipocrisia da mídia, aí está. O governo israelense bombardeando de forma covarde e sangrenta uma embarcação humanitária, que viajava em missão de paz em águas internacionais, e, enquanto isso, a TV de Israel "Latma TV" se dá a cara-de-pau de criticar o Lula, ridicularizando a ele e ao Brasil, pelo acordo com Ahmadinejad, presidente de um país que, diga-se, ostenta um histórico bem mais pacífico do que Israel. O conteúdo do vídeo é uma afronta total, uma falta de respeito sem limites. Chegam a insinuar claramente que o "Lula não tem cérebro". Imagino que o Netanyahu tenha.


Agradeço ao nosso colaborador Kais Ismail pelo envio do vídeo.

A tragédia do Oriente Médio (para reler e refletir)



Os folhetins, o cinema e a TV nos acostumaram a observar os complexos dramas das pessoas, povos e nações a partir de uma ótica simplista: heróis-vilãos-vítimas.

Ou, simplificando mais ainda, a acreditarmos que quem causa sofrimento às vítimas são os bandidos e quem as defende, os mocinhos.

No fundo, trata-se do velho e obtuso maniqueísmo, a que os pensadores marxistas contrapuseram a dialética: Bem e Mal não existem como instâncias metafísicas que, desde os píncaros do paraíso celestial ou das profundezas do inferno, teleguiam a práxis humana, mas sim como resultado das decisões e ações adotadas pelos homens em cada situação.

No primeiro caso, alguns encarnam o Bem absoluto e o Mal absoluto, sem nuances: os mocinhos são sempre mocinhos e os bandidos, eternamente bandidos.




Na análise marxista, os papéis vão sendo assumidos a cada instante, de forma que o mocinho de ontem poderá ser o bandido de hoje, e vice-versa.

A esquerda mundial até hoje não se recuperou do pesadelo stalinista, que, como Isaac Deutscher bem assinalou, foi um amálgama do pensamento sofisticado dos revolucionários europeus com a religiosidade primitiva da Santa Mãe Rússia.

E a História, infelizmente, favoreceu essa perda de densidade crítica por parte da esquerda. O nazifascismo parecia mesmo encarnar o Mal absoluto, colocando os que o combatiam na condição de cruzados do Bem absoluto.

Veio a guerra fria e a estreiteza de visão se consolidou definitivamente, de ambos os lados. A política mundial se tornou um mero western daqueles tempos em que os mocinhos se vestiam sempre de branco e os bandidos só usavam trajes negros.

Então, desde a década de 1950, quando os EUA se colocaram como protetores de Israel e os soviéticos se compuseram com o líder egípcio Gamal Abdel Nasser, ficou estabelecido que a única forma progressista de encararmos os conflitos do Oriente Médio é beatificando os árabes e satanizando os judeus.

A questão no Oriente Médio é muito mais complexa.

Em primeiro lugar, temos um povo (o judeu) milenarmente perseguido, não só devido à maldade intrínseca dos poderosos de todos os tempos, mas também a uma certa vocação para o martírio: nunca quis misturar-se aos outros povos e conviver harmoniosamente com eles, fazendo, pelo contrário, questão de preservar sua identidade cultural/religiosa e de ostentá-la aos olhos de todos.

Então, mais do que a outros povos, fazia-lhe imensa falta um território próprio. Constituindo uma colônia minoritária em outros países e segregando-se rigidamente dos naturais desses países, neles despertava previsível hostilidade.

Ademais, os judeus eram invejados pelos gênios da cultura e da ciência que produziam (Marx, Freud, Einstein e tantos outros) e por seu êxito nas finanças, além de despertarem a hostilidade dos governos pela participação marcante que tinham em movimentos libertários/revolucionários.

É sintomático, aliás, que a esquerda hoje esqueça ou omita a importantíssima contribuição do Bund (União Judaica Trabalhista da Lituânia, Polônia e Rússia) para a gestação do movimento revolucionário russo, no início do século passado.

HOLOCAUSTO – Ao buscar um inimigo comum contra o qual unir a nação alemã, Hitler não precisou pensar muito: os judeus eram a opção óbvia.

Finda a II Guerra Mundial, a indignação que o Holocausto provocou na consciência civilizada fez com que a idéia do lar judaico passasse a ser vista com simpatia generalizada.

Foi quando os judeus cometeram seu maior erro de todos os tempos: aceitando a liderança espúria de fundamentalistas religiosos/terroristas sanguinários, implantaram seu estado nacional numa região em que se chocariam necessariamente com outros fundamentalistas religiosos/terroristas sanguinários.

A Inglaterra, império decadente, bem que tentou impedir, em vão. E as pombas desnorteadas, judeus imbuídos dos melhores ideais, acabaram aderindo em massa ao projeto sinistro dos falcões.

Então, uma das experiências socialistas mais avançadas que a humanidade conheceu, a dos kibutzim (comunidades coletivas voluntárias israelenses), acabou sendo tentada num país que logo viraria bunker – e, melancolicamente, foi definhando, até quase nada diferir hoje em dia das cooperativas dos países capitalistas.

As nações árabes só não exterminaram até agora o estado judeu porque jamais o enfrentaram juntas e disciplinadas, sob um verdadeiro comando militar. Mesmo quando vários exércitos combateram Israel, atuaram praticamente como unidades independentes, em função das querelas e disputas de poder entre os reis, sheiks, sultões, califas, emires, etc., de países cuja organização política e social ainda é feudal.

Os israelenses, por enquanto, têm compensado sua inferioridade numérica com a superioridade de seus quadros e equipamentos militares, bem como com a repulsiva prática de promover massacres intimidatórios, reagindo de forma desproporcional e freqüentemente genocida aos ataques que sofre.

Os movimentos fundamentalistas/terroristas árabes agem como provocadores: sabem que jamais conseguirão enfrentar de igual para igual Israel, mas atraem retaliações contra seus povos, na esperança de que isto acabe trazendo as nações para o campo de batalha. Querem ser o estopim de uma guerra santa e não hesitam em sacrificar os seus em nome dos desígnios de Alá.

Os governantes feudais árabes, entretanto, têm mais medo de serem desalojados dos seus tronos do que ódio por Israel. Sabem que o despertar das massas contra o inimigo nacional pode derivar para levantes revolucionários em seus países. Preferem preservar o status quo, ao preço de fecharem os olhos a atrocidades como as cometidas contra os palestinos em Gaza.

Não se trata de nenhum filme de mocinho-e-bandido, pois só há vilãos entre os atores políticos; ninguém que mereça nossa simpatia e apoio.

Quanto às vítimas, estas sim são indiscutíveis: os civis que, nas últimas seis décadas, têm sido abatidos como moscas, devido à cegueira e (sejamos francos) imoralidade monstruosa desses atores políticos.

No fundo, a solução sensata seria o estabelecimento dos judeus noutro território qualquer – quantos países paupérrimos não lhes cederiam terras e autonomia administrativa, em troca de recursos e cooperação para seu desenvolvimento?

Mas não é a sensatez que rege o mundo e sim, como Edgar Allan Poe destacou, o horror e a fatalidade.

Então, os Hamas da vida continuarão ensejando carnificinas e os israelenses seguirão massacrando os vizinhos, trucidando seus velhos, mulheres e crianças, até que surja um novo Lawrence da Arábia e consiga levar à vitória a guerra santa sonhada pelos fundamentalistas/terroristas árabes.

O que temos no Oriente Médio é uma tragédia: os acontecimentos marcham insensivelmente para o pior desfecho e nada podemos fazer, exceto atenuar, tanto quanto possível, os banhos de sangue.



ESCREVI ESTE ARTIGO EM JANEIRO DE 2009, NA ESTEIRA DOS MASSACRES QUE ISRAEL PERPETRARA NA FAIXA DE GAZA.

PERMANECE, INFELIZMENTE, ATUALÍSSIMO.

OS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS NOS REVELAM, P. EX., QUE O BLOQUEIO DE GAZA SÓ FUNCIONOU PORQUE O EGITO COLABOROU COM ISRAEL NESSE INTENTO DESUMANO.

AGORA, FINALMENTE, SE DISPÔS A REVER SUA POSIÇÃO DE CONSIDERAR O HAMAS PIOR INIMIGO AINDA DO QUE O ESTADO JUDEU.

QUANTO A ISRAEL, FICAMOS SABENDO QUE SE TORNA, CADA VEZ MAIS, UM MONSTRO DE FRANKENSTEIN: AS ILUSÕES DE OUTRORA VÃO CEDENDO LUGAR À DURA REALIDADE DE QUE OS JUDEUS SOFISTICADOS NÃO QUEREM NELE RESIDIR, DAÍ O CRESCENTE AFLUXO DE JUDEUS MAIS PRIMITIVOS (E, PORTANTO, IMPIEDOSOS) PARA QUEM COMPENSA TROCAR A POBREZA NA QUAL VIVIAM PELOS RISCOS DE SE ESTABELECEREM NUMA ZONA DE CONFLITO.

ESSES NOVOS CONTINGENTES SÃO PREDOMINANTEMENTE DE FANÁTICOS RELIGIOSOS -- E, COMO TAIS, TENDENTES A APOIAR QUAISQUER SOLUÇÕES DE FORÇA CONTRA OS PALESTINOS.

ELES AUMENTAM MÊS A MÊS SUA ASCENDÊNCIA NA POLÍTICA E NO EXÉRCITO ISRAELENSES. E QUEREM MESMO QUE SURJAM CONFRONTOS COMO O ATUAL, PARA FECHAREM TODAS AS PORTAS AO DIÁLOGO CIVILIZADO, CONSOLIDANDO A OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO USURPADO AOS PALESTINOS.

DAÍ A HIPÓTESE, COGITADA POR ALGUNS ANALISTAS, DE QUE O MASSACRE DA FLOTILHA DE AJUDA HUMANITÁRIA EM ÁGUAS INTERNACIONAIS NÃO TENHA SIDO UM FESTIVAL DE ERROS E ABUSOS, MAS SIM UMA PROVOCAÇÃO DELIBERADA, URDIDA PELOS FALCÕES ISRAELENSES PARA AFASTAREM AINDA MAIS QUALQUER POSSIBILIDADE DE SOLUÇÃO NEGOCIADA.

IDEM O RECENTE ANÚNCIO DE NOVAS OCUPAÇÕES NO EXATO INSTANTE EM QUE OS ESTADOS UNIDOS EMPENHAVAM-SE EM BUSCAR UM ACORDO, O QUAL IMPLICARIA, PELO CONTRÁRIO, DEVOLUÇÃO DE TERRA AOS PALESTINOS.

MANTENHO MINHA ANÁLISE: O QUE ESTAMOS VENDO SÃO EVOLUÇÕES NO SENTIDO DE UMA ENORME TRAGÉDIA QUE NINGUÉM ESTÁ CONSEGUINDO EVITAR.

OS JUDEUS SÓ CONSEGUIRÃO PERMANECER EM ISRAEL SE CHEGAREM A ALGUMA FORMA DE ENTENDIMENTO COM OS LEGÍTIMOS PROPRIETÁRIOS DAQUELAS TERRAS.

NO LONGO PRAZO, A ALTERNATIVA PARA ELES É: COEXISTÊNCIA PACÍFICA OU EXPULSÃO (EVENTUALMENTE EXTERMÍNIO).

MAS, APROFUNDANDO SUA INTRANSIGÊNCIA, CONTRIBUEM INSENSIVELMENTE PARA ESSE DESFECHO.

MAIS DIA, MENOS DIA, OS POVOS ÁRABES SE UNIRÃO E VÃO ALCANÇAR A VITÓRIA. SE OS JUDEUS NÃO RECUAREM DE SUA LOUCURA BELICISTA, ACABARÃO COLHENDO O QUE ESTÃO PLANTANDO.

NO ENTANTO, NÃO VEJO MOTIVO NENHUM PARA NOS REGOZIJARMOS COM BANHOS DE SANGUE.

FICO ENOJADO AO VER CIDADÃOS ANTEGOZANDO DESDE JÁ O DIA EM QUE TAL "CANCRO" SERÁ "EXTIRPADO". QUEM GOSTA TANTO ASSIM DE VER PESSOAS MORRENDO, POR QUE NÃO VAI MATÁ-LAS PESSOALMENTE?

CONTINUAREI LAMENTANDO QUE SEJAM O HORROR E A FATALIDADE A REGEREM OS DESTINOS DO MUNDO, ENQUANTO O CAPITALISMO, JÁ PUTREFATO E CADA VEZ MAIS DESTRUTIVO EM SEUS ESTERTORES, NÃO CEDER FINALMENTE LUGAR À COOPERAÇÃO E SOLIDARIEDADE ENTRE OS HOMENS.



Por: Celso Lungaretti, jornalista e escritor

http://naufrago-da-utopia.blogspot.com

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Solidariedade e terrorismo



Solidariedade e terrorismo



"Fui educada na história judia, uma história de opressão, de carência, de sofrer faxina étnica, de sermos expulsos de uma comunidade após outra. Poderíamos nós estar fazendo estas coisas a outra gente?"


(Neta Golan, fundadora do Movimento Internacional de Solidariedade)


Por Carlos Alberto Lungarzo (*)


Por Carlos LungarzoA autora da frase acima não é original, mas é penetrante. De fato, são milhares os judeus de todo o mundo que se preocupam pela transformação da dor e o sofrimento de sua comunidade num instrumento de retribuição e vingança. Dona Hedy Epstein, de 85 anos, sobrevivente do genocídio antijudio dos nazistas, foi impedida em Chipre de embarcar no MV Rachel Corrie, um navio irlandês que, no momento de escrever este artigo, está desacelerando sua marcha rumo a Gaza, para evitar ser pego por surpresa durante a noite..


Apesar de todos os riscos, o cargueiro continua de encontro ao bloqueio contra o qual pode esbarrar no dia sábado 5 de junho. É importante observar que a frotilha da solidariedade continha alguns judeus. Se seu número é pequeno, isso acontece porque também é pequena a coletividade (13 milhões no mundo todo), e porque o terrorismo de estado israelense criou uma “peste emocional” análoga a do nazismo. Mas essa história de solidariedade poucas vezes é narrada.



O Sionismo e o Terrorismo de Estado


O fundador do sionismo moderno, Theodor Herzl (1860-1904) era um civil pacifista. Ele faleceu antes da Declaração Balfour (1917) e, na sua época, cogitavam-se várias soluções diferentes para o povo judeu.


Os sionistas do século 19 pertenciam a diversas correntes e, apesar de influentes, as tendências religiosas não eram hegemônicas. O principal objetivo da reunião da diáspora era a proteção dos judeus contra a perseguição implacável dos países católicos e ortodoxos. O antisemitismo atingiu o clímax nas partes mais modernas do mundo com o escandaloso “caso Dreyfus”, na França de 1894.


Durante décadas, setores diversos do sionismo, incluídos alguns religiosos radicais, repudiaram a ideia de reocupar a região Palestina. Os seculares entendiam a ocupação como uma manifestação de saudosismo e melancolia reacionária, e alguns religiosos a consideravam uma profanação, pois a “Terra Prometida” não poderia ser habitada até a chegada do Messiah.  Os mais esclarecidos compreendiam que seria também um ato de violência contra seus habitantes.


Mas, a procura de um território para um povo (um processo que não acontecia desde o fim das migrações indo-europeias) seguiu várias rotas divergentes.


Os judeus progressistas não sionistas aconselhavam a assimilação aos locais em que viviam, e a transformação da luta contra o antisemitismo numa luta internacional e pan-étnica pela emancipação humana. Esse ponto de vista aparece nos primeiros socialistas, notadamente na chamada “esquerda hegeliana”, com a básica obra de Bruno Bauer A Questão Judia (Die Judenfrage, 1843), e no comunismo, com a réplica a Bauer por Karl Marx, na universalmente famosa Sobre a Questão Judia (Zur Judenfrage, 1844).


Bauer propunha a renúncia do judeu a sua religião, como um caminho para a secularização do estado e sua emancipação, não como judeu, mas como cidadão. Marx considerava isso insuficiente, pois, por exemplo, os Estados Unidos eram um estado secular e não teocrático como a Prússia, mas também aí as pessoas eram discriminadas por sua religião. Como é bem conhecido, Marx afirmava que os judeus não poderiam emancipar-se apenas como cidadãos, mas como membros da Humanidade.  Para tanto, o problema não era afastar-se da religião, mas substituir toda a estrutura social capitalista. Este documento é um dos maiores expoentes do internacionalismo, do antiracismo e do comunismo, como única possibilidade da libertação humana (seja ou não judaica).


Marxistas e anarquistas influíram massivamente no deslocamento de judeus para a esquerda. Os menos radicais propuseram uma forma de sionismo socialista, que construísse vários estados nos países em que os judeus viviam em ghettos. Aliás, outros cogitaram alternativas fora da Palestina, como o Congo e a Argentina.


O trabalhismo sionista enfatizou os traços leigos e proletários da comunidade judia, entrando em conflito com religiosos e classes abastadas, mas também aprofundou o toque nacionalista. Muito antes de 1977, quando perderam o governo de Israel, os trabalhistas já apoiavam à burguesia israelense em sua política de “terra queimada” com os árabes, mas seria exagerado dizer que eles já eram terroristas de estado. A situação mudou após a invasão ao Líbano, e hoje praticamente todo o establishment político israelense apoia as práticas semi-genocidas, embora haja uma minoria crescente de defensores dos DH na sociedade civil.



Terrorismo de Estado Nuclear


Há um fato que não é totalmente certo, mas é muito provável: talvez o Oriente Médio tivesse sido arrasado por uma ação nuclear israelense, se um homem não tivesse revelado ao mundo, em 1986, os secretos da indústria bélica nuclear em Israel: Mordechai Vanunu (n. 1954), judeu marroquino, filho de um rabino, emigrado a Israel com toda sua família quando estava com 9 anos.


Vanunu foi sempre alvo dos serviços de inteligência por seu espírito independente, por sua participação em manifestações e por sua oposição ao militarismo. Deveu abandonar a universidade, mas, entre 1976 e 1985, esteve empregado como técnico no Centro de Pesquisas Nucleares. Foi dispensado em 1985, quando seus chefes acharam que parecia impressionado pelo programa nuclear.


Em setembro de 1986 viajou a Londres, onde informou The Sunday Times dos planos nucleares agressivos do Estado de Israel, e até forneceu fotos por ele tiradas da planta na qual tinha trabalhado. Apesar da cumplicidade de Israel com a falconete britânica Margareth Thatcher, o Reino Unido estragaria sua reputação se permitisse um sequestro em seu território. O Serviço Secreto britânico “se lavou as mãos”, guardou silêncio, e deixou que os israelenses esperassem uma viagem de Mordechai para Roma, onde foi sequestrado e retornado a Israel. A União Europeia protestou, mas Itália se mostrou condescendente. Afinal, era apenas um negócio entre fascistas de credos diferentes.


Em 05/10/1986, The Sunday Times dedicou sua principal manchete às informações de Vanunu sobre o arsenal nuclear de Israel.


Como Israel não aplica a pena de morte (a única foi a do arquigenocida nazista Adolf Eichmann em 1962), o diretor da Mossad, Shabtai Shavit, cogitou, junto com outros, a possibilidade do assassinato extrajudicial de Vanunu. Entretanto, o próprio racismo israelense salvou a vida de Mordechai: os que tinham o poder de decisão concluíram que não era permitido matar um judeu por aquele procedimento clandestino reservado aos “gentis”.


Foi sentenciado a 18 anos de prisão em 1988, após um julgamento secreto, cujas irregularidades (embora menos gritantes) lembram o caso Battisti. Durante a prisão, esteve 11 anos em total isolamento, mas assim mesmo rejeitou tratamento psiquiátrico. Deu muitas amostras de alta moral, como a de declarar à polícia que o povo judeu não precisava ter um estado próprio, e a de recusar-se a falar em hebraico. Antes disso, quando ainda estava livre, Mordechai mudou seu nome para um nome inglês, deixou o judaísmo pelo anglicanismo, e afastou-se de sua família, que tinha uma bem definida identidade judaica, salvo de um de seus irmãos, progressista como ele. Seus valores éticos estavam acima de qualquer contingência involuntária baseada em sangue ou tradição.


Teoricamente, Vanunu foi liberto em 2004, mas continua sofrendo grandes restrições que o tornam um preso em regime aberto. Sua única liberdade é a de morar fora da prisão e deslocar-se pela cidade, mas não pode mudar de domicílio, nem falar com estrangeiros, nem manter contatos por telefone ou e-mail, nem se aproximar de embaixadas. Aliás, continuamente é hostilizado pelo judiciário e a polícia israelense, que aduzem qualquer motivo para novos cargos.


Anistia Internacional protestou pelo tratamento a que foi e é submetido, mas Israel acusou sempre nossa organização de antisemitismo, e dessa vez não foi diferente. Entre 1988 e 2004, foi indicado todos os anos para o prêmio Nobel da Paz. Difícil imaginar alguém que mereça mais um prêmio à Paz, mas a Fundação Nobel se faz de distraída. Afinal, esse prêmio está bastante deturpado e foi dado a grandes genocidas como Henry Kissinger.


Mas, em 1987, ele já tinha recebido o prêmio Nobel alternativo, que foi inventado na Suécia para compensar a parcialidade do prêmio oficial. Além disso, foi nomeado Doutor Honoris Causa pela universidade Norueguesa de Tromsø. Também, em 2005 recebeu o Prêmio da Paz do Povo Norueguês, uma distinção substitutiva para os que são discriminados pela imprevisível fundação. A solidariedade mais forte recebida por Mordechai vem da Escócia, onde foi nomeado (em ausência) reitor da universidade de Glasgow.


O apoio que Mordechai Vanunu recebe é ínfimo, se comparado com o serviço prestado à humanidade. Com efeito, apesar da empáfia dos terroristas israelenses, eles teriam dificuldades atualmente para realizar um ataque nuclear surpresa de baixo impacto. É claro que a divulgação da existência do arsenal nuclear israelense não pode proteger de um bombardeio aberto e sistemático, mas esse tipo de ação teria um preço político mais alto.




O Movimento Internacional de Solidariedade


O Movimento Internacional de Solidariedade (International Solidarity Movement, ISM) foi fundado em 2001 por cinco pessoas entre as quais há palestinos e judeus, com o objetivo de luta contra o terrorismo israelense por meio da pressão pacífica. Estas pessoas são:


1.       Ghassan Andoni (n. 1956), um ativista palestino cristão e professor de física, indicado para o prêmio Nobel da Paz em 2006.


2.       Neta Golan, uma ativista israelense, que mora em Ramallah e tem dois filhos pequenos com um palestino.


3.       Huwaida Arraf, militante pró-palestina, filha de mãe palestina católica, nascida em Detroit (EEUU). É formada em estudos Árabes e Judaicos, e jurista especializada em crimes de guerra.. Está casada com Adam Shapiro. Ela estava no Challenger 1, o maior navio da frota de solidariedade a Gaza.


4.       George N. Rishmawi, ativista palestinos, fundador de vários movimentos pacifistas e de integração entre os povos..


5.       Adam Shapiro, nascido numa família judia de New York em 1972, formado em ciência política e mestre em estudos árabes. Ele disse que não se considera judeu, porque o judaísmo é mais próximo de ser religião que de ser etnia. E acrescenta: “Eu não tenho religião nenhuma”. Ficou célebre por sua incrível coragem ao visitar Yasser Arafat em seu edifício (2002), quando estava cercando pelas tropas israelenses. É o marido de Huwaida.


O ISM convoca civis de todo o planeta, para participar de atos não violentos de protestas contra agressão militar israelense na Faixa de gaza e na Cisjordânia, e tem publicitado sua ação nos países ocidentais, especialmente nos Estados Unidos, ganhando o apoio de setores progressistas ou independentes da comunidade judia. O grupo é um caso relevante de militância dinâmica em DH, uma variedade menos comum que a denúncia e o trabalho jurídico.. Entretanto, nunca utiliza a violência, se limitando a repelir ataques com resistência ativa ou passiva, sem uso de armas, o que coloca em risco permanente a integridade física e as vidas dos ativistas.


O ISM foi um dos movimentos organizadores da Frotilha da Liberdade, agredida em 31 de maio pelo ato de assalto, agressão e sequestro marítimo israelense em águas internacionais. [Não se apresse: a palavra frotilha não está em portunhol; é um termo técnico marítimo tomado do espanhol “flotilla”, porém legitimamente incorporado ao português.]


A metodologia do ISM combina tácticas de resistência pacífica (ativa e passiva), apoio pessoal e fornecimento de bens aos palestinos, desacato às leis terroristas, incluído o desafio aos uniformados, e propaganda, agitação e vigilância. Por exemplo:


1.       Proteção Corporal. Alguns dos membros do ISM preferem não utilizar o termo mais comum “uso de escudos humanos”, porque esta expressão foi cunhada para se referir aos palestinos que os israelenses capturam como proteção e obrigam a marchar na frente quando atacam bairros de Gaza e Cisjordânia.


2.       Acompanhamento de Palestinos. O objetivo é dividir com eles as agressões dos colonos, militares e policiais israelenses; ajudá-los a ordenar-se de maneira eficiente para evitar maltrato e humilhações nas filas de controle; arrumar testemunhas e colaboradores nos casos de ataque violento de colonos contra camponeses que realizam a safra, e atividades do gênero.


3.       Remoção de obstáculos. As tropas israelenses e seus colaboradores obstruem ao máximo as passagens pela Cisjordânia, para transformar vilas e pequenas cidades em núcleos isolados, que possam ser atacados facilmente. O ISM trabalha constantemente removendo esses obstáculos à medida que os israelenses os colocam.


4.       Bloqueios Defensivos. O ISM coloca obstáculos que impeçam ou dificultem a passagem de tanques, carriers e máquinas de terraplanagem.


5.       Desobediência Sistemática de Regras Repressivas. Os ativistas do ISM ignoram o toque de recolher nas áreas palestinas. Movendo-se através dessas áreas, podem tomar conhecimento das ações militares dos israelenses, que durante a duração do toque extrema a repressão contra cidadãos palestinos. Também, aproveitam esse período para levar ajuda humanitária aos lares palestinos, e oferecem custódia ao pessoal sanitário que é frequentemente interceptado por israelenses.


6.       Interferência nas Atividades Repressivas. O ISM cria empecilhos, quando possível, às tarefas de construção do muro da Cisjordânia. Também executam atos de vulneração das obras realizadas, tentando tornar menos eficientes o sistema de “apartheid” israelense.


7.       Violação da “Sacralidade” de Zonas Militares. Uma prática típica de militares (não apenas de governos terroristas, mas em geral) é a de transformar zonas civis pacíficas em zonas militarizadas, submetendo seus habitantes a tratamento discricionário, bem no estilo militar. De fato, esta “dessacralização” não é um fim em si mesmo do ISM, mas um processo prévio que permite executar todas as tarefas. De fato, todas as zonas ocupadas podem ser militarizadas a qualquer momento, e fazer ativismo humanitário nessas regiões exige confronto com os militares.


As ações do ISM supõem riscos, mas as tropas israelenses evitam aplicar-lhes os métodos sumários usados com os Palestinos. Vários dos militantes (não conheço a proporção exata) são judeus, e a ideia de matar outros judeus é sempre constrangedora para as tropas israelenses. Isto é uma peculiaridade do estado de Israel, e tem a ver com a unidade étnica que, supostamente, mantém a integridade do estado. Outro motivo é que os membros do ISM, embora ignorados pela mídia, são bem conhecidos na comunidade humanitária e uma “faxina” contra eles poderia produzir uma reação.


Apesar disso, houve uma exceção: uma jovem americana de 23 anos, Rachel Corrie, em cuja homenagem foi dado seu nome ao MV irlandês da Frota da Liberdade.



O Assassinato de Rachel Corrie


Rachel Corrie (1979 –2003) foi uma estudante americana, filiada ao ISM que, no ano 2003, durante a Segunda Onda de Resistência da Faixa de Gaza (Intifada), utilizou defesa corporal contra uma esquadra de operários israelenses comandados por militares, para deter a demolição da moradia de palestinos.


Rachel se interpôs entre a casa e uma máquina de terraplanagem que não deteve sua marcha e acabou a matando por esmagamento. Apesar do desprezo e mal-estar contra o ISM, os israelenses fizeram uma rápida perícia, com o resultado imaginável: atribuíram a morte a um acidente.. Por sua vez, várias testemunhas afirmaram que o motorista percebeu claramente a presença de Rachel, e até gritou ela para sair de seu caminho. Afirmam, também, que quando a menina se recusou, o motorista reiniciou a marcha acelerando o motor, e não parou até atravessar o corpo.


A seção dos EEUU de Anistia Internacional, junto com a família, numerosos amigos, e a opinião pública progressista, exigiu de Israel uma investigação rápida, objetiva e independente, mas houve apenas uma repetição dos resultados da “investigação” oficial.


AIUSA, através de Christine Bustany, diretora jurídica de nossa ONG para Oriente Médio, exigiu também que as máquinas de terraplanagem [bulldozers] sejam consideradas armas de guerra, pois, de fato, estão sendo usadas como tais, e que os EEUU suspendam sua transferência ao Estado de Israel.


Por sinal, um dos navios da Flotilha da Liberdade foi batizado MV Rachel Corrie, (V) e, no momento de escrever este texto, avança a uma velocidade entre 8 e 9 nós, com uma pequena passagem de malaios e irlandeses na rota de Gaza, decidido a furar o bloqueio. Sua desaceleração foi calculada para não chegar ao local de abordagem israelense durante a noite “Estamos mais firmes em nossos esforços, em homenagem aos nossos amigos assassinados e feridos” -dizem os tripulantes.


A Marinha Israelense promete atacar este navio, mas os ativistas se propõem não apresentar resistência ativa, e confrontar as tropas invasoras, se houver, ficando sentados no convés. Mairead Maguire, vencedora do Nobel da Paz, em 1976, e Denis Halliday, um ex-funcionário graduado da ONU, um dos diretores mais influentes no passado, também viajam no navio.


Um vídeo sobre Rachel Corrie e o cargo que leva seu nome pode ser visto em meu site.




Conclusões


Depois do assalta e chacina do dia 31 de maio, o bloqueio de Gaza deverá sofrer alguma modificação. Até os falcões do governo racista e militarista estão considerando alguns subterfúgios para tornar o lento genocídio palestino menos visível. Obviamente, isso deverá conduzir também a uma menor crueldade no tratamento dos habitantes de Gaza..


Entretanto, novas iniciativas como esta devem ser adotadas. Os ativistas humanitários não querem ser heróis nem mártires, mas apenas pessoas solidárias que sabem que morrer é um risco de qualquer forma de vida animal, e que, já que a morte é inevitável, devemos ser sensatos no momento de avaliar quando é o momento de se arriscar a vida. E este momento é um desses, como o foi a luta dos pacifistas indianos, a resistência antinazista e a colaboração das Brigadas Internacionais contra o criminoso levantamento espanhol de 1936.


Não temos a mentalidade militar de que as vidas humanas são como munição ou vitualha: não importa perder 20 vidas se ganhamos uma batalha política. Isso é repulsivo e arrepia nossa condição, não apenas humana, mas também biológica. Os membros de missões humanitárias não querem morrer nem matar. Repudiam os valores infames do militarismo, o nacionalismo, o racismo e o providencialismo. Querem viver o mais possível, mas que nossas vida sejam preservadas não depende apenas de nós.


Era esperável a reação tímida dos governos, salvo o da Turquia, porque as relações internacionais nada têm a ver com os proclamados valores de paz, justiça e Direitos Humanos, mas têm tudo a ver com negócios e trocas de favores. Entretanto, o pouco que está sendo feito é melhor que nada.


O governo brasileiro, segundo pude inferir de informações ainda não muito claras, chamou seu embaixador em Tel Aviv. Mas essa atitude deveria ser completada pela quebra definitiva de relações com Israel.. Países pequenos e com maiores problemas que o Brasil, como Venezuela e Bolívia, já fizeram isso durante o massacre aéreo de 2008-2009.


Essa medida, pacífica e moralizante, será melhor que ajudar a desenvolver sua energia nuclear ao governo dos Aiatolás, cujo fundamentalismo antisemita está alicerçado na mesma crença na superioridade nacional que o fundamentalismo cristão ou judeu. Aliás, o projeto de destruição do Estado de Israel é absurdo, porque, após várias décadas, existe uma identidade israelense em gerações que não tem nenhuma responsabilidade na partilha dos anos 40. Acreditar isso é aplicar punição coletiva, na mesma forma em que o partido Likud a aplica contra os palestinos.


Nosso MRE tem as boas (e proveitosas) intenções de sermos “amigos de todos”, como diz o ministro Amorim, com sua habitual elegância. Mas nem sempre isso é possível.


*Carlos Alberto Lungarzo é graduado em matemática e doutor em filosofia. É professor aposentado e escritor, autor do livro "Os Cenários Invisíveis do Caso Battisti". Para fazer o download de um resumo do livro clique aqui. Ex-exilado político, residente atualmente em São Paulo, é membro da Anistia Internacional (registro: 2152711) e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

A nova hipocrisia contra Israel



A nova hipocrisia contra Israel


Por Urariano Mota (*)


Por Urariano MotaRecife (PE) - O primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, que fugiu de um hospício e ninguém viu, encheu o peito há pouco e mandou bala, agora em palavras: a frota de ajuda humanitária que seguia para Gaza fazia parte de "uma operação terrorista". Isso mesmo, terrorista, com as perigosas e avançadas armas de remédios e alimentos. Mas antes que o mundo perguntasse, terroristas, quem, cara-pálida?, ele foi mais longe, impune e convicto de sua impunidade, ao descobrir que "Israel está sendo vitima de um ataque de hipocrisia internacional".


O primeiro impulso de toda a gente, que se opõe ao tratamento de cães raivosos a um povo cercado, é achar que o Estado de Israel, além de assassinar civis, quer também assassinar o sentido original das palavras. Esse impulso chega a ser fortalecido pelas análises mais cínicas e brutais, como a do analista internacional da BBC News, que pergunta sobre o assalto, execuções e seqüestro de pacifistas: “então, o que deu errado?”. Uma pergunta que pressupõe a legitimidade do abuso de força de Israel, a naturalidade do isolamento de populações civis em Gaza, e o indisfarçável desconforto de que no mundo ainda existam palestinos. “Afinal, onde erramos?”.


Quando refletimos melhor, no entanto, notamos que pode haver um sentido, digamos, legítimo na declaração do primeiro-ministro, que vê o seu Estado vítima de uma hipocrisia internacional. Benjamin Netanyahu pode apenas querer dizer, se nós sempre matamos civis, por que esse clamor agora? Soldados de Israel já passaram com tanque sobre uma pacifista desarmada, já fuzilaram Somaeah Hassan, de 6 anos, a Rosa da Palestina, na faixa de Gaza, já atacaram famílias com bombas proibidas em tratados internacionais, e agora, vaidade das vaidades, hipocrisia das hipocrisias, por que o furor de tamanha virtude e indignação?


Se for reparar direito, a chamada “opinião internacional” nunca se ergueu contra o escândalo de que na Faixa de Gaza não entrem armas que todo o mundo conhece como lâmpadas, velas, fósforos, livros, instrumentos musicais, giz de cera, roupas, sapatos, colchões, lençóis, cobertores, massa para cozinhar, chá, café, chocolate, nozes, xampu e condicionador. Os civilizados governantes europeus tratam isso, há muito, como uma lista de produtos em falta em supermercados. Algo como uma pequena crise de abastecimento. Nas tevês brasileiras, os “correspondentes internacionais”(bela gente, que belo caráter), quando ouvem o outro lado dos conflitos, entrevistam um muçulmano ladino, como novos escravos aculturados, de cidadania israelense. Então, por que essa grita?


Nada mais natural, contra esses hipócritas, que a magnífica Hillary Clinton defenda uma investigação internacional dos últimos crimes, mas (esse “mas” é tudo) sob a liderança de Israel. Claro, uma investigação conduzida de forma imparcial e transparente, sob comando israelense. Mais imparcial e transparente impossível. Viva. Como uma antecipação aos desejos de madame Clinton, os militares israelenses viram alguns erros na operação pirata. A saber, de inteligência, equipamentos e táticas erradas. E para piorar, houve pacifistas que não se jogaram ao chão diante do céu iluminado com os soldados israelenses que desciam. À tábua dos mandamentos de Israel se negaram. Ô raça...


Nos jornais de hoje, o escritor Amós Oz, com o seu costumeiro ar de homem ponderado e sábio, reconhece que existem os palestinos, admite que esses inacreditáveis humanos devem ser melhor tratados, porque afinal o governo de Israel não pode desconhecer que “o problema é que não estamos sós nesta terra, e os palestinos não estão sós nesta terra”. O que é uma pena, para o Estado de Israel, para a sua segurança e fascismo. O problema é a solução: os palestinos têm hoje a opinião pública de todo o mundo a seu lado.


*Urariano Mota é jornalista e escritor. Autor do livro "Soledad no Recife", recriação dos últimos dias de Soledad Barret, mulher do Cabo Anselmo, executada pela equipe de Fleury com o auxílio de Anselmo. Urariano é pernambucano, nascido em Água Fria e residente em Recife. É colunista do site "Direto da redação" e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"


Charge: Carlos Latuff

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