A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”
CINEMA - 63ª edição do FESTIVAL DE LOCARNO - Rui Martins* para a nossa Agência Assaz Atroz:
Todo ano, vou ao Festival de Locarno, que me convida, é o que me restou da época em que cobria festivais diversos. E vejo o cinema independente, do mundo todo, Existem coisas excelentes, mas que nunca passarão no Brasil, talvez um ou outro na Mostra do Cakoff. Aprendo muito, é como se viajasse por esses países. Foi assim que descobri o cinema iraniano, africano e asiático. Bom, vou te mandar todos os dias coisas novas, vou ver uns 3 filmes por dia, escrever, dormir às 2 e levantar às 7! Este ano tem cinema brasileiro e destaque para o Rogério Sganzerla e seu Bandido da Luz Vermelha, abração, Rui.
O Bandido da Luz Vermelha, filme antológico brasileiro do chamado Cinema da Boca do Lixo, será uma das atrações do Festival Internacional de Cinema de Locarno, que começa amanhã (4) (hoje) na Suíça, devendo exibir na competição internacional o filme Luz nas Trevas ainda inédito no Brasil.
Luz nas Trevas é uma continuação, mas também remake da obra máxima do cineasta brasileiro Rogério Sganzerla, estreado em São Paulo, em 1968, e baseado nas aventuras do Bandido da Luz Vermelha, que assaltava casas de ricos paulistanos, transformado em ícone pelo jornal paulistano sensacionalista da época, o Notícias Populares.
Olivier Père, ex-diretor da Quinzena de Realizadores e novo diretor do Festival de Locarno, é admirador de Rogério Sganzerla, assim como Marco Muller, diretor do Festival de Veneza. Graças a uma indicação de Rachel Monteiro, do Programa Cinema do Brasil, Olivier Père programou também o filme original, de 68, para ser visto pelos que assistirem Luz nas Trevas.
Luz nas Trevas tem como co-diretora a viúva de Sganzerla Helena Ignez, que é também atriz, e duas filhas do cineasta participam, uma na produção e música, Sinai Sganzerla, e outra como atriz, Djin Sganzerla. Todas elas estarão em Locarno para a exibição do filme e encontro com a imprensa.
Locarno terá também sete filmes brasileiros em filmagem ou montagem, de cuja finalização poderão participar produtores estrangeiros. Serão exibidos numa sala especial, para profissionais, com a presença dos seis mais importantes produtores brasileiros. Sarah Silveira estará ausente, pois tem um filme em rodagem em São Paulo.
E haverá ainda dois curtametragens em exibição em Locarno – um na competição da mostra Leopardos de Amanhã, é Ensolarado, de Ricardo Targino, e num programa especial, Nem Marcha nem Chouta, de Helvécio Marins Jr.
O Festival de Locarno tem filmes do cinema independente de todo mundo, um telão de 300 m2 para projeções noturnas ao ar livre, e a presença da atriz Chiara Mastroianni, filha de Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni. Haverá um Leopardo de Honra para o cineasta suíço Alain Tanner, autor do filme Charles Morto ou Vivo e mais uma dezena de filmes de autor, respeitados pelos cinéfilos europeus.
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*Ex-correspondentedo Estadão e da CBN, após exílio na França. Autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criou os Brasileirinhos Apátridas e propõe o Estado dos Emigrantes. Vive na Suíça, colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, é colunista do siteDireto da Redação. Colabora com a Agência Assaz Atroz e com este "Quem tem medo do Lula?".
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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons
O sargento norte-americano Mike Kellems, da Polícia de Indiana, EUA, recebeu um comunicado em sua delegacia ou distrito, que o foragido Robert Aubin estava na Feira de La Porte. Fora reconhecido por John Boyd, um policial de folga.
Kellems dirigiu-se ao local da Feira para efetuar a prisão e só conseguiu seu intento depois de pagar cinco dólares, preço do ingresso para entrada na Feira. A alegação do caixa é que o evento era propriedade privada, fora do alcance da Polícia sem o pagamento do valor cobrado a qualquer visitante.
O fato ocorreu no dia 23 de julho e a decisão de exigir o pagamento do ingresso ao sargento foi de um dos funcionários da empresa de segurança privada encarregada de zelar pela ordem durante a Feira.
Ramin Mehmanparast, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã disse na segunda-feira, dia 2 de agosto, que o presidente do Brasil Luís Inácio Lula da Silva fez a proposta de dar asilo à iraniana Sakineh Mahammadi Ashtiani, condenada a morte por apedrejamento por “crime” de adultério. Lula, segundo o porta-voz tem “uma personalidade emotiva e por ser muito humano”.
Segundo o porta-voz, Lula desconhece outros crimes praticados pela mulher. O pedido de Lula foi considerado uma “interferência nos negócios internos do Irã”. A campanha internacional em defesa de Ashtiani acabou por suspender a execução por apedrejamento, mas mantém a pena de morte. Com 43 anos de idade ela pode ser enforcada ou morta por outro meio qualquer utilizado para os condenados a morte naquele país.
Ashtiani cometeu o crime de ter relações sexuais, que o governo do Irã considera ilícita, com dois homens e está presa desde 2006. Registre que a acusada é viúva.
O bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza mata palestinos todos os dias, seja pela falta de alimentos, de atendimento médico a doentes, ou pela barbárie costumeira dos militares israelenses. Centenas de mulheres palestinas são estupradas por sionistas.
A queda do muro de Berlim não significou, como se disse à época, o fim do tempo dos muros segregacionistas, ou limitadores de liberdade. Dois muros mantêm mexicanos distantes dos EUA e palestinos longe de suas terras ocupadas por Israel.
Os documentos secretos da guerra do Afeganistão liberados por um site mostram o caráter brutal, de saque e de interesses econômicos dos EUA e revelam o outro lado da invasão e ocupação. Primeiro uma guerra onde a vitória é impossível, segundo os “mercados” paralelos desenvolvidos em torno do conflito, tráfico de drogas e mulheres por militares norte-americanos. O preço de uma virgem para um soldado dos EUA anda em torno de 20 dólares.
A decisão de aceitar a tortura de prisioneiros como fato corriqueiro, os assassinatos seletivos, o espírito boçal dos norte-americanos ao comemorar a morte de civis iraquianos – guerra do Iraque – a prática constante de estupros contra mulheres afegãs, como aconteceu no Iraque, toda a sorte de crimes contra o ser humano, no que Hans Blinx chamou de embriaguez pelo poder militar.
Cobrar ingressos de um policial para entrar numa feira e prender um foragido da justiça é um fato menor diante de toda essa barbárie. Mas é revelador da natureza perversa da sociedade norte-americana, do culto à propriedade privada.
Segundo Millôr Fernandes, “o primeiro humano a cercar a sombra inventou a propriedade privada”.
Condenar uma mulher por “adultério” a ser apedrejada e em seguida suspender a pena para transformá-la em enforcamento ou qualquer outra forma estúpida de matar, é o resultado de um fundamentalismo religioso equivocado e criminoso que não tem nada a ver com o Islã, como não tem nada a ver com Bíblia as práticas fanáticas de seitas neopentecostais no Brasil e em vários países do mundo. Ou as lições históricas do judaísmo e o sionismo fascista do governo de Israel.
São características da barbárie que vai transformando o mundo num palco de violência e estupidez em todos os cantos.
Seja no sargento que pagou para prender um criminoso, ou no latifundiário brasileiro que contrata pistoleiros para matar camponeses submetidos a trabalho escravo. Tanto faz que seja a guerra do Afeganistão ou do Iraque, o cerco a Gaza.
É o mundo capitalista, da chamada nova ordem econômica, da realidade neoliberal.
Uma Europa que venceu o nazismo e perdeu para os EUA (A Europa é um continente em sua quase totalidade cercado de bases militares norte-americanas e em passo acelerado para a falência total), mas que não muda a bandeira, a suástica está implícita nas estrelas dos estados federados.
Ou a América Latina debaixo da ameaça de golpes e bases militares, sob o mesmo tacão, na tentativa de fazê-la de novo América Latrina. A Ásia e o Paquistão com seus generais assentados em bombas nucleares e transformando-as em dólares, bilhões, capazes de eliminar a fome no continente africano. A China transformando-se em segunda economia do mundo, bilhões em fome e trabalho escravo.
Prender um foragido, executar um ser humano por adultério, espocar em gritos de alegria por matar inimigos que chamam de bastardos, construir muros para cercar zoológicos de animais humanos. Tudo isso é conseqüência de uma só matriz e não é na natureza humana. Mas, em nossos tempos, o imperialismo montado em arsenais de boçalidade e travestido de barbárie democrática, cristã e ocidental.
Ou vindas do Islã na interpretação fanática e cega que o fundamentalismo proporciona. Qualquer fundamentalismo.
Um templo umbandista em Santa Catarina foi invadido por policiais militares (esses que liberam atropeladores à custa de propina, matam camponeses a mando do latifúndio, crianças em salas de aula) sem razão alguma, mas insuflados pelos interesses políticos de pastores corruptos, vendedores de tijolos para mansões fictícias num céu irreal.
Essa, aliás, tem sido prática constante nos últimos tempos com a ascensão do neopentecostalismo como forma e caminho usado pelo lumpém do capitalismo em sua sanha de fazer triunfar e tremular o fascismo.
Nesse meio tempo, independente de avaliação disso ou daquilo, o presidente do Brasil ganha o rótulo de “emotivo e humano”, por se propor a abrigar a mulher que exerceu o direito de ser dona de si, num mundo que a despeito dos muitos avanços, ainda tem seus quartos escuros e as penumbras sombrias que não diferem em nada do fascismo que combatem em Israel.
“Oh, cansativa condição da humanidade!
Nascida sob uma lei, ligada à outra,
Vaidosamente gerada, e todavia proibida à vaidade,
Criada enferma, obrigada a ser perfeita.
(Fukle Greville, determinando a relação correta entre o mundo da realidade e o mundo temporal humano)
“Como um gorila raivoso
Promove embates tão fantásticos diante do paraíso
Que faz os anjos chorarem”.
(William Shakespeare, refletindo sobre o mesmo que Malraux refletiu séculos depois, A CONDIÇÃO HUMANA).
Esses gorilas matam um por dia, pelo menos, em Honduras, na construção do processo “democrático” e na preservação da “liberdade”.
Têm a bênção do cardeal. Sua Eminência reza a missa matinal, no palácio e cercado de ouro por todos os lados. O Vaticano é só uma empresa. Gere um dos muitos bancos que saqueiam seres humanos nos juros de cada dia.
Que o governo do Irã reflita sobre a importância de sobrepor-se ao atraso, afinal o país vive um processo revolucionário e principalmente, sobre a importância de ser “emotivo” e “humano”.
A liberdade e a justiça não podem custar cinco dólares. E muito menos apedrejamentos.
*Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no “Estado de Minas” e no “Diário Mercantil”. É colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?
Para quem já era petista antes de existir o PT, não poderia ser mais catastrófico.
Para quem anulou voto durante toda a ditadura porque não acreditava na disputa entre os tolerados e os acobertados pela intolerância do poder, esse link de vídeo (abaixo exposto) é muito desastroso.
Se impossível suportar a prepotência dos que se achavam superiores a todas as realidades e qualquer bom senso: técnico, científico, ou social... Se inadmissível a arrogância dos inquisidores a balouçar o pêndulo sobre os pescoços de quem ousasse interpor a evidência dos fatos às suas vontades; o que dizer quando provinda de quem se espera, ao menos, a percepção da razoabilidade?
Como aceitar, de quem se esperava evolução, a expressão do retrocesso? A regressão ao que se combateu e por combater sempre se optou e acreditou no caminho apontado pelo Partido dos Trabalhadores?
Nunca acreditei em total perfeccionismo de qualquer agremiação humana, mas jamais imaginei que um único integrante da instituição política na qual acredito como transformadora social, reproduziria exatamente o que motivou o desejo de transformação em todos os que militaram e militam pelo PT.
Como se aceitar, agora, depois de oito anos de governo de um homem elegante e libertário como Luís Ignácio Lula da Silva, que se volte aos tempos do bater o pau na mesa, do “prendo e arrebento”, daquele que tinha “aquilo roxo” ou à petulância do outro que classificou aos que deveria representar como caipiras e vagabundos?
Abandona-se a proficiência e a previdência cada vez mais necessária às realidades futuras, e retornasse às magias de velhos embaçados espelhos apenas para indagar: quem mais poderoso do que eu?
E ceifam-se cabeças!
De quem? Giordano Bruno ou Galileu?
Retornamos ao tempo em que políticos propunham revogação da lei da gravidade?
Impossível acreditar! Não acreditei. Acusei de mentira e tentativa de rebaixar as proposituras de candidatos do PT aos anacrônicos coronéis que ainda ontem ameaçavam acabar com raças e pisar cabeças. Anacronismo sobrevivente entre os que confirmam a própria decadência com ordens de demissões aos que questionam suas imposturas, como recente ocorreu com o apresentador do programa Roda Viva e o diretor de jornalismo da TV Cultura. Mas, para mim, inadmissível dentro do partido pelo qual milito desde que se o criou na união e compreensão entre trabalhadores e homens de ciência, pois entendo que se o criou exatamente como contraposição a intolerância e incompreensão à sociedade e à ciência. À realidade e ao fato.
Como, para o político de elite, compreender a realidade do trabalhador? De que forma poderia o cientista traduzir seus conhecimentos sobre os fatos, para políticos indispostos às contrariedades de suas veladas intenções?
Contrassenso! Ridículo até previsível entre velhos hipócritas e neófitos apadrinhados por antigos caciques políticos, sempre incapazes de reconhecer as instâncias, limitações de poder e funções, ou a e lógica dos procedimentos e comportamentos democráticos. Mas, no PT, improvável!
Retornamos ao tempo em que o conhecimento, o saber, a ciência só era admissível por decreto?! Pede-se cabeças como antes se pedia o exílio?
Não! Não acreditei e continuo não acreditando. Entendo que no Brasil de hoje isso apenas se repita por anacronismo de hábitos coronelistas que, pela própria decadência, não são capazes de enxergar o fim dos tempos em que nada se sobrepunha aos interesses de poderes regionais alheios a determinações constitucionais ou regulações de orientação nacional.
Compreensível a sobrevivência dos que ainda não possam assimilar que o Brasil não se aliene aos esforços da comunidade das nações por um maior equilíbrio e responsabilidade ambiental, ao desenvolvimento da civilização mundial e aos aprimoramentos de organização social. Mas totalmente incompreensível que possam integrar projetos e propostas progressistas!
Aqui, ou em qualquer lugar do mundo!
Por mais lamentável e catastrófico para o estado de Santa Catarina, o que se vê através do link abaixo não indica que o país esteja voltando no tempo.. Temos de manter esperança nas forças sociais de nosso estado e em sua capacidade transformadora, por mais que comportamentos como os expostos neste vídeo retomem típicas reações de nosso recente e sombrio passado.
Também é necessário esclarecer que embora nunca tenha me filiado a qualquer partido, sempre militei pelo que acredito. E continuarei acreditando, pois não aceito que apenas um represente o todo.
Espero que se possa reconhecer neste vídeo aqueles que condizem com as instituições que representam, e quem não.
Continuarei acreditando no Partido dos Trabalhadores e em todos os candidatos que identifico aos ideais pelos quais milito, mas, por responsabilidade a mim mesmo, tenho de expor o documentado que classifico como catastrófico, pois me é imprescindível reconhecer meu erro perante aqueles dos quais duvidei quando me relataram o que neste vídeo se documenta. Peço desculpas por ter desconfiado das intenções de seus relatos.
Não tentarei justificar porque errei. Dos erros, há os injustificáveis, ainda que todos sejam assumíveis e, por esta possibilidade, releváveis. Não é o que pretendo aqui, tampouco divulgo esse vídeo numa tentativa de contemporização ou qualquer intenção de exemplificação moral. Isso de lições de moral me seriam tão inviáveis e improfícuas quanto a um político discutir questões científicas com especialistas.
A propósito, lembro a sabedoria popular lusitana imortalizada por Fernando Pessoa, considerando que não se refere à “necessidade” o emprego em “Navegar é preciso, viver não é preciso.” Refere-se à precisão, exatidão. Navegar é uma ciência exata, precisa e indiscutível. Inexplicável a quem não possua rudimentos necessários à sua compreensão. Viver, não. Ou, viveres, sim, podem e devem ser discutidos por todos, sobretudo por políticos que tão pouco conhecem dos meios e das condições do viver de seus eleitores.
Não sou nem nunca serei candidato a nenhum cargo político, mas como cidadão considero-me pessoa pública, mesmo sabendo que por quantas vezes se multipliquem minhas regulares msgs de militância eletrônica, jamais terei o poder de influência de um vereador de pequena cidade de interior. Ainda assim não posso me negar à responsabilidade de reconhecer meu erro ao maior número de pessoas possível.
E não o faço pelas pessoas, por meus correspondentes, por aqueles aos quais repassam meus textos ou pelos leitores de onde estes textos sejam publicados. Faço-o por mim mesmo, porque se não o fizer me será impossível continuar escrevendo ou militando minha crença, meu ideais e minha confiança no PT e nos seus candidatos.
Inclusive porque, se não o fizer, serei calado e envergonhado por cada um que me repasse o link desse vídeo, da mesma forma que o recebo agora.
Repetindo, para total compreensão: ser relevável é tão da natureza dos erros quanto se os reconhecer e assumir em tempo para que as razões de se os praticar sejam compreendidas, se compreensíveis. Ou simplesmente esquecidas como um equívoco retratado.
Se não retratado, será mais que um equívoco a cada vez que circule esse vídeo pela internet, seja qual for a intenção porque se o faça. Ou para sugerir a oportunidade de relevância, no sentido de se conceder desculpas e compreensão pelos motivos de um erro; ou para que opositores e concorrentes deem relevância em outro sentido da mesma palavra, destacando o erro cometido e não assumido nem explicado. Ainda que mesmo inexplicável, quando se o assume um erro sempre será compreensível pelas naturais imprecisões do viver.
1 – O primeiro Parecer Técnico contrário à instalação de um estaleiro para plataformas e cargueiros de petróleo no canal da Ilha de Santa Catarina, não foi o do Instituto Chico Mendes, órgão do Ministério do Meio Ambiente.. Foi o emitido por Paulo César Simões Lopes, Biólogo, Ph.D., contratado pela própria empreendedora OSX. Algumas conclusões finais negritadas e sublinhadas pelo próprio autor:
“- O empreendimento fará sentir seus efeitos nocivos numa grande área de influência, estando localizado numa zona extremamente crítica...”
“- a magnitude dos impactos são, em boa parte, permanentes e irreversíveis... Sugere-se, fortemente, a relocação do empreendimento... de maneira que os efeitos nocivos não sejam potencializados...”
E, finalizando a última linha do documento: “... considerando assim a proposta da obra na área referente ao Estaleiro BN5 como ambientalmente inviável”
2 – O Promotor de Justiça Arno Richter, do Estado de Santa Catarina, recomendou publicamente aos empreendedores que estudem outras regiões do estado onde já existem complexos portuários e situam-se fora de áreas de baías e enseadas, sem necessidade de dragagem de canal como aqui se pretende. O Promotor sugeriu também que o governo do estado documente impedimento a atividades portuárias de embarcações de grande porte.
3 – Até as declarações documentadas neste vídeo, nenhuma das comunidades cujas atividades profissionais serão afetadas pelo empreendimento, ou suas entidades representativas, assim como nenhum dos proprietários a terem seus patrimônios depreciados ou qual seja a entidades que os represente, como associações de moradores, foi alguma vez consultada pelas autoridades que aí se pronunciam, ou quaisquer outras. Tampouco depois.
4 - Apenas um vereador pelo PCdoB e um candidato à deputado estadual pelo PT têm comparecido às manifestações e reuniões de populares ameaçados pelo projeto. São os únicos que podem identificar quais organizações ou lideranças se compõe, ou não, aos protestos das comunidades de Florianópolis, Biguaçu e Governador Celso Ramos. Nem um nem outro se pronuncia nesse vídeo.
5 – Apesar das referências às cabeças de servidores do Ministério do Meio Ambiente, a maior preocupação sobre o que ai se pronuncia não é a incapacidade de compreensão de quais sejam as funções de cientistas e servidores federais. A grande preocupação é com 9 mil pessoas direta e indiretamente relacionadas à pesca, maricultura, gastronomia, comércio e turismo, irremediavelmente desempregadas caso se consiga impor, através da associação de grupos políticos regionais e interesses econômicos alheios ao âmbito do estado, a instalação desse estaleiro no canal da Ilha de Sta. Catarina.
Assim como nas apresentações do projeto da OSX, este vídeo também não trata de previsões sobre presumíveis futuros desastres sociais e ambientais, mas expõe uma evidente tragédia já em curso e contra a qual se espera uma providência do Partido dos Trabalhadores:
Vejam o Video dos Caçadores de Cabeça:
*Raul Longo é jornalista, escritor e poeta. Mora em Florianópolis (SC), onde mantém a pousada “Pouso da Poesia“. É colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.
Obs: O companheiro Raul está engajado nesta luta e estou com ele. Ele tem escrito uma série de artigos sobre o tema. Leia o anterior:
O Ministério das Cidades não está à altura do governo Lula
Por Kais Ismail (*)
A política praticada pelo grupo que coordena o projeto Bicicleta Brasil (clique aqui para conhecer o site), do Ministério das Cidades, não condiz com a política do governo Lula.
Que é uma política voltada a combater as desigualdades sociais, transformando as cidades em espaços mais humanizados, ampliando o acesso da população à moradia, ao saneamento e ao transporte.
Esta é a missão do Ministério das Cidades, criado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1º de janeiro de 2003, contemplando uma antiga reivindicação dos movimentos sociais de luta pela reforma urbana.
O projeto Bicicleta Brasil, conforme o Secretário Nacional Luiz Carlos Bueno de Lima, contará com a verba de quinhentos milhões de reais. É um valor que ,se bem aplicado, poderá de fato revolucionar e tornar mais humano o nosso trânsito brasileiro.
Entretanto, para surpresa minha, que sou o único no grupo que está trabalhando sem qualquer tipo de remuneração, estou constatando através da Oficina Ampliada realizada em Brasília no dia 11/06/2010 e pelas várias trocas de emails entre os componentes do grupo, que o projeto está sendo conduzido a favorecer somente os “ciclistas de boutique” (aqueles que só pedalam por prazer aos fins de semana) que são a minoria entre os milhões de ciclistas trabalhadores estimada em mais de 40 milhões de pessoas.
Só se fala e se projeta ciclovias e ciclofaixas dentro do grupo, sem considerar que é impossível contemplar todas as cidades e bairros com estas obras. E todas em regiões nobres!
A única ação que poderá contemplar a todos os ciclistas brasileiros sem exceção é o cumprimento das leis do trânsito. Tolerância zero para o descumprimento do CTB – Código de Trânsito Brasileiro.
Durante a oficina em Brasília, escutei de um representante do DETRAN, que a justificativa da falta de respeito às leis de trânsito que ocorrem no Brasil, é devido aos poucos fiscais que existem no departamento e falta de campanhas educativas.
Ora, como se quinhentos milhões de reais não fosse o suficiente para se fazer uma maciça campanha educativa e contratação de fiscais que a demanda exige.
Lamentavelmente, a maioria do grupo só tem demonstrado interesse em fazer obras milionárias que atenderão a muito poucos.
Também parecem se recusar a observar detalhadamente o que vem ocorrendo com os nossos ciclistas em nosso cruel trânsito. Preferem viajar para Holanda, Dinamarca e outros países onde há grande quantidade de ciclistas. Mas, grande também são as diferenças sociais, culturais e territoriais que há entre nosso país e estes países europeus. Por isso, considero como desperdício de dinheiro público estas viagens pagas pelo governo e ONGs.
E o mais lamentável é que, quando aponto problemas bem brasileiros, estes apontamentos não são considerados pela maioria e muitas vezes são recebidos com desprezo.
Já há um tempo que venho divergindo da grande maioria do grupo. Pois me parece que estão agindo de forma irresponsável. E isto fica claro quando foi mencionado que quinze milhões de reais, doados ao projeto pelo Banco Mundial, sumiram e ninguém fez nada para encontrá-lo. Como se fosse coisa mais comum do mundo sumir com quinze milhões de reais!
Já solicitei diversas vezes para a coordenação do projeto rever tudo o que já foi planejado e considerar minhas observações que só vêm para beneficiar os trabalhadores e a população em geral. Assim como a preservação do meio ambiente. No entanto, minhas solicitações estão sendo desconsideradas.
A gota d'água da minha indignação - e por isso levo ao conhecimento de nosso presidente (através de carta) e de todos os brasileiros este assunto - é o cooperativismo demonstrado em todos os debates virtuais. Cooperativismo de engenheiros de tráfego, que está sendo colocado acima dos interesses dos brasileiros e do Brasil.
E uso como exemplo o que está sendo discutido neste momento dentro do grupo, quando um cidadão indignado publicou este vídeo:
Não tenho conhecimento de qual partido que esteja frente à administração de Taboão da Serra. Ainda que seja do PT, é inaceitável o que lá está acontecendo.
As pessoas representativas do grupo que estão desenvolvendo o projeto (engenheiros), em vez de reconhecerem os direitos deste cidadão e entenderam sua indignação e atenderem suas necessidades (que é a mesma de toda a população local), estão tentando desqualificar seus apontamentos e em momento algum consideram a única solução para Taboão da Serra, que também é a solução para qualquer município brasileiro: o respeito às leis do trânsito.
Eu entrei recentemente no projeto Bicicleta Brasil, mas há pessoas que já estão nisso há muitos anos, décadas, prestando serviços ao governo.
Talvez por isso estamos nesta situação:
É humanamente impossível ao nosso presidente Lula, tomar conhecimento de tudo o que ocorre em sua administração. Por isso mesmo, muitas vezes se encontra em situação constrangedora ao ser acusado de irresponsável ou corrupto por determinadas ações do seu governo. Como eu sou petista e lulista, estou encaminhando esta mensagem ao secretariado da presidência e também para alguns amigos jornalistas.
Talvez assim, o projeto seja conduzido com mais seriedade.
Kais Ismail é produtor cinematográfico e publicitário. Apaixonado por bicicletas. Gaúcho, filho de pai palestino, mora em Porto Alegre e é colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".
Berna (Suiça) - Era junho 2006 e recebi um e-mail do Eliakim, que não conhecia, só de ter visto na tevê Manchete quando ia ao Brasil, me convidando para integrar o grupo de jornalistas do Direto da Redação.
Até hoje não sei como lhe veio essa idéia, pois vivo numa espécie de periferia das grandes capitais européias e já fazia quatro anos que recebera meu bilhete azul da CBN, certamente, como disse o paraibano, escritor e colega, Carlos Aranha, por ter incomodado o pessoal com minhas provas de processo penal contra o então candidato a governador Paulo Maluf. Coincidentemente, minha entrada na CBN como correspondente tinha o título de Direto da Europa.
Cria do Estadão da Major Quedinho, já não era mais seu correspondente, sabe-se lá porquê, mesmo se o jornal, na minha época, convivia com gente de esquerda e mesmo comunista, pois lá fui contemporâneo de Vladinir Herzog e Miguel Urbano Rodrigues e foi lá que Arrudão me levou à Fulgor, editora do PC, para publicar meu livro A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, explicando sociologicamente o surgimento do ídolo Roberto Carlos, pelo vazio criado no Brasil gerado pela ditadura militar.
Sem CBN e Estadão, sentia que logo seria esquecido pelos ex-leitores e ouvintes. Nossa profissão é tão efêmera quanto os jornais, que envelhecem em um dia, e quanto os boletins de rádio, lançados ao vento. De minha passagem pelo Pasquim, logo no começo de meu exílio, nada restou. Foi com certa surpresa que, numa livraria de São Paulo, constatei não haver nenhum de meus textos, de 69/70, na antologia do Pasquim.
Despedido do Estadão, em 68, depois de ter organizado o Encontro com a Liberdade, com antigos companheiros como Narciso Kalili, David de Moraes, Ivan de Barros Bela, Audálio Dantas, no Teatro Paramount, em São Paulo, tinha ao meu lado na mesa, Mario Martins, pai do atual ministro Franklin (não somos parentes, descendemos todos de portugueses e galegos).
Nada também restou da Última Hora – Rio, de Samuel Wainer, cuja sucursal dirigi, dois anos, na avenida São Luiz, ao lado da sucursal do JB. A UH-Rio, jornal popular de esquerda, que hoje nos faz tanta falta, morreu há décadas e, ironia do destino, seu vizinho em Sâo Paulo, também acaba de morrer.
Ressuscitei para o Estadão, graças ao Luiz Fernando Emediato, em 86, numa viagem que fiz ao Brasil para ficar com meu pai, que pouco vira durante o exílio, já doente, e que morreu à minha frente. De Santos, onde estava, telefonei ao Emediato, e passei a escrever cartas de Genebra, para depois fazer parte da equipe do Caderno 2, cobrir festivais de cinema e de dança, falar de livros e fazer entrevistas. Com a saída do Evaldo Mocarzel, sucessor de Emediato, me foi encerrado esse capítulo.
Como dizia, recebi o convite do colega Eliakim, quando só escrevia para o Expresso, depois de alguns anos no Público, ambos de Lisboa. E estava nas livrarias, com certo sucesso, o livro sobre segredo bancário suíço, as contas do Maluf e minha demissão da CBN – O Dinheiro Sujo da Corrupção, pela Geração Editorial, criada e dirigida pelo Emediato.
Teria sido o livro, a causa do convite ? Não sei, nunca perguntei e nem vou perguntar ao Eliakim. Mas, minha entrada no Direto coincidiu com uma atividade benévola que iria se desenvolver e me levar a assumir uma bandeira antes nunca imaginada – a de dar visibilidade na mídia aos emigrantes, praticamente ignorados no Brasil.
Minhas duas primeiras colunas, em junho e julho 2006, no Direto da Redação foram sobre a injustiça criada pela reforma da Constituição de 88, num parágrafo aprovado pela Constituinte em 1994 – tinham retirado a nacionalidade brasileira nata dos filhos dos brasileiros nascidos no Exterior. Clique aqui
Com isso, cerca de 300 mil crianças filhas de brasileiros se tornariam apátridas em 2012 (cerca 18 a 20 mil por ano) em países como Alemanha, Suíça e Japão, enquanto as nascidas nos EUA perderiam os laços com o Brasil pois seriam só americanas.
Da denúncia na mídia, a campanha pelos brasileirinhos apátridas virou movimento social de cidadania com lideranças em diversos países de emigração e graças ao ex-senador cearense, Lúcio Alcântara, ao ex-deputado Carlito Merss, hoje prefeito de Joinvile, e Rita Camata, ex-deputada e provável futura senadora, surgiu a proposta de emenda constitucional 272/00, vitoriosa e hoje Emenda 54/07, que restituiu à nacionalidade brasileira aos filhos dos nosso emigrantes.
O Direto teve ação de ponta-de-lança nessa fase final da campanha, da qual participaram colegas jornalistas de tendências diversas e de diversos órgãos de imprensa, porque a causa era consensual. De um lado Cláudio Humberto assustava o MRE em suas colunas, por sua vez Caros Amigos denunciava a falha que iria favorecer advogados e despachants. E a vitória dos brasileirinhos acabou por nos levar a outra trincheira – em favor dos pais dos brasileirinhos.
Foi o surgimento do projeto pelo que poderia ser um Estado dos Emigrantes, pois 4 milhões de emigrantes brasileiros dispersos pelo mundo, já constituíam um verdadeiro Estado. Seria preciso, porém, parlamentares emigrantes em Brasília, possibilidade que nos deu o senador Cristovam Buarque, com sua proposta de emenda constitucional criando deputados emigrantes.
O projeto, hoje amadurecido com o formato de uma Secretaria de Estado da Emigração ou dentro de um super-Ministério das Migrações, incluindo migração, imigração e emigração, não é consensual como foi a causa dos Brasileirinhos. Houve um primeiro choque quando se exigiu laicidade do parte do governo, na I Conferência de Emigrantes no Itamaraty, para se evitar o controle religioso sobre a emigração.
A seguir, as associações e grupos formados em torno dos emigrantes, muitas das quais disso vivem, assim como doleiros, despachantes, advogados e recém-chegados em busca de prestígio, rejeitam um órgão institucional emigrante autônomo e independente do Itamaraty. Por sua vez, o MRE, criou uma alternativa híbrida para o órgão institucional e não abre mão da tutela sobre os emigrantes, frustrando os que esperavam, nesse setor do governo Lula, o advento de alguma coisa concreta, como as Secretarias da Mulher, da Igualdade Racial, dos Direitos Humanos.
Em lugar de um Conselho de transição para um órgão institucional, surgiu um conselho consultivo, inútil mas com função de vitrina, destinado a dar assessoria ao Itamaraty em matéria de emigração, e uma Conferência anual de emigrantes, que, por vergonha de usar a palavra emigrantes, o Itamaraty chama pomposamente de Brasileiros no Mundo, destinada a coletar um rosário de reivindicações sem o compromisso de serem atendidas.
Além de sua função de mídia livre, o Direto populariza, assim, para os brasileiros do continente, a questão emigrante, enquanto nem Comunique-se e nem o Observatório da Imprensa encontraram uma fórmula para divulgar o que vai pela mídia emigrante, engatinhando em alguns países mas viva e atuante nos EUA.
Quando aceitei o convite de Eliakim, lá se vão quatro anos, longe estaria de imaginar que o Direto teria tanta influência na transformação do jornalista observador em militante pela causa da emigração. E isso vem a calhar, pois o Direto da Redação, editado em Miami, é também um emigrante.
E a grande vantagem desta tribuna eletrônica é que me sinto livre o suficiente para denunciar, provocar e desferir socos diretos no queixo, sem compromisso religioso ou partidário.
*Rui Martins é jornalista. Foi correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. É autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. É colunista do site "Direto da Redação" e vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, e com o blog "Quem tem medo do Lula?"
Não é preciso ser nenhum especialista em questões midiáticas para constatar que os grandes proprietários de veículos de comunicação estão colocando as asas de fora, cada vez mais na base da ampliação do esquema do pensamento único. Os debates em torno da democratização dos meios de comunicação se ampliam com a participação de mais brasileiros e isso contraria interesses dos barões da mídia.
O tema ainda não se faz presente nos debates dos candidatos à Presidência da República, Sabem o motivo? Os editores dos veículos de comunicação procuram a todo custo evitar que o tema aflore. Testem se o que está sendo dito aqui procede ou não, fazendo perguntas onde haja debates com os candidatos. Aguardem para ver o que acontece, ou seja, de um modo geral as perguntas não aparecem. Mas se os interessados insistirem com as perguntas é possível que em algum momento acabem tornando-se visíveis. Vale o teste.
Nas últimas semanas a questão da mídia foi objeto de pronunciamento do presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Alejandro Aguirre, que chegou ao cúmulo de afirmar que no Brasil há restrições à liberdade de imprensa e acusou o Presidente Lula de não ser “democrata”, o que valeu uma moção de repúdio da Comissão de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa. Para a Comissão, Aguirre na prática “estimula setores conservadores a promover denúncias sem fundamento e que no fundo tentam encobrir debates sobre a questão da mídia e a disposição para que o setor seja democratizado”.
Fazendo coro com a SIP, O Globo e outros órgãos de imprensa da mesma linha volta e meia se posicionam demonstrando preocupação com um suposto “chavismo” por parte do atual governo brasileiro e mesmo da candidata apoiada por Lula, Dilma Roussef.
O Globo, O Estado de S. Paulo, a Folha de S. Paulo, as revistas Veja e Época, entre outros órgãos de imprensa integrantes da SIP, simplesmente colocam as mangas de fora na defesa dos seus interesses, pois sabem perfeitamente que com a ampliação das discussões sobre o tema mídia, mais possibilidades acontecem no sentido da redução do poder absoluto que mantêm sobre os corações e mentes dos brasileiros.
Querendo ou não os barões da mídia, o tema terá que ser discutido por amplos setores da sociedade brasileira que almejam o aprofundamento da democracia no país.
Nesse sentido vale assinalar que a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação e a Cultura) avalia que o Estado, ou seja, o Poder Público deve impedir a concentração indevida no setor de mídia e assegurar a pluralidade. E para que isso aconteça, segundo ainda a Unesco, os governos podem adotar regras para limitar a influência que um único grupo pode ter em um ou mais setores.
E tem mais, a Unesco entende que “os responsáveis pelas leis antimonopólio precisam atuar livres de pressões políticas” e que "as autoridades devem ter, por exemplo, o poder de desfazer operações de mídia em que a pluralidade está ameaçada”.
É isso aí, o tema está na ordem do dia, para desespero dos ”democratas” da mídia de mercado, que nos últimos tempos ficaram ainda mais ousados na defesa com argumentos frágeis e que não resistem a um maior aprofundamento, como, por exemplo, a defesa incondicional da liberdade de empresa com o argumento de liberdade de imprensa.
Por estas e muitas outras está na hora do mundo político ter a coragem de se posicionar, ou seja, dizer o lado em que estão. Pode ser até incômodo para certos setores mostrar a cara, porque a linguagem da hora do vamos ver exige definições. Mas para que isso aconteça é preciso que maiores contingentes de brasileiros cobrem posicionamentos dos seus representantes nos poderes Executivo e Legislativo.
Podem crer numa coisa: a hora da verdade midiática está mais próxima do que imaginam os senhores barões da mídia. E por isso, estejam certos os leitores, os jornalões e as emissoras de televisão aumentarão o tom da cantilena segundo a qual no Brasil há “perigo” de restrições à liberdade de imprensa, uma balela que a SIP, a pedido de seus integrantes brasileiros, já encampou.
No mais, ao apagar das luzes do governo Álvaro Uribe, a pedido provavelmente do Departamento de Estado, fabricou-se uma crise com a Venezuela em função da insistência da mentira segundo a qual as Farcs montaram acampamentos em território venezuelano. Uribe, com o sinal verde de Hillary Clinton, quer porque quer o aumento do estado de tensão na região, o que poderá resultar no descontrole da situação e derivar numa crise ainda maior do que a atual. Podem crer que a orquestração do conservadorismo vai se ampliar.
E o Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas denunciou que na Colômbia os paramilitares gozam de total impunidade. Mas O Globo prefere ignorar o fato e apoiar Uribe, da mesma forma que apoiou historicamente outros presidentes de direita em várias partes do mundo, bem como ditaduras na América Latina.
*Mário Augusto Jakobskind é jornalista, mora no Rio de Janeiro e é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de S. Paulo e editor de Internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, dentre outros livros, de “América que não está na mídia” e “Dossiê Tim Lopes – Fantástico / Ibope”. É colunista do site “Direto da Redação” e colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.
A charge é de Carlos Latuff, da época em que a PM de São Paulo ocupou truculentamente a USP.
A morte de cinco soldados israelenses num acidente de helicóptero na Romênia, essa semana, praticamente nem foi noticiada.
Estava em curso um exercício militar conjunto OTAN-Israel. Ah, sim, então está entendido. Sim, mas... imaginem o que aconteceria se morressem cinco militantes do Hamás num acidente de helicóptero na Romênia, essa semana. Todos ainda estaríamos investigando tão extraordinário evento. Atenção! Não estou comparando Israel e Hamás. Israel é o exército que, muito justificadamente, massacrou mais de 1.300 palestinos em Gaza há 19 meses – mais de 300 dos quais, crianças. Enquanto os sanguinários terroristas do Hamás mataram 13 israelenses (três dos quais soldados que, já se sabe, atiraram uns nos outros, por engano).
Mas, num detalhe, podem ser comparados. O juiz Richard Goldstone, eminente juiz judeu sul-africano, decidiu, em inquérito de 575 páginas sobre o massacre de Gaza, que os dois lados cometeram crimes de guerra. E, sim, claro, foi corretamente declarado “do mal” por todos os tipos de muito justos e justificados ofendidos apoiadores de Israel nos EUA. E seu excelente trabalho foi rejeitado por sete governos de países da União Europeia – e, assim sendo, a pergunta impõe-se.
O que a OTAN está fazendo, brincando de guerra, ao lado de um exército acusado de ter cometido crimes de guerra?
Ou, mais diretamente ao ponto, o que, diabos, a União Europeia faz, exibindo-se em termos tão amigáveis com os israelenses?
Em livro notável, detalhado – embora um pouco furioso demais – que será publicado em novembro, o infatigável David Cronin oferecerá análise microscópica de “nossas” relações com Israel. Acabo de ler o manuscrito. Estou sem ar.
Como Cronin diz no prefácio, “Israel desenvolveu laços políticos e econômicos tão poderosos com a União Europeia, na última década, que se tornou estado-membro de fato, da União Europeia, em todos os sentidos, exceto formalmente.”
A verdade é que Javier Solana, o imundo cão líder da matilha da política externa da União Europeia (ex-secretário geral da OTAN), disse, de fato, ano passado, que “Israel, permitam-me que diga, é membro da União Europeia, embora sem ser membro da instituição".
Com licença, mas... ele já sabia? Já sabíamos? Votamos e aprovamos a inclusão de Israel? Quem permitiu que acontecesse? David Cameron – hoje tão empenhado em ‘marketar’ a entrada da Turquia na União Europeia – concorda com isso? É possível que sim, dado que continuou a apresentar-se como “amigo de Israel” depois de Israel ter sido apanhado com os bolsos cheios de excelentes passaportes britânicos adulterados para permitir que assassinos israelenses entrassem sem ser importunados em Dubai.
Como escreve Cronin, “a covardia da União Europeia ante Israel faz espantoso contraste com a firme posição que a instituição adotou quando ocorreram grandes atrocidades em outros conflitos”. Depois da guerra Rússia-Geórgia em 2008, por exemplo, a União Europeia criou missão independente para determinar quando houver a infração a leis internacionais; e exigiu investigação detalhada de suspeita de crimes contra os direitos humanos depois da guerra do Sri Lanka contra os Tigres do Tamil. Cronin não evita a questão da responsabilidade da Europa no Holocausto de judeus, e concorda com que os governos europeus tenham “um dever moral” de assegurar que não se repita (mas observei que Cameron esqueceu-se de mencionar o Holocausto de armênios, essa semana, quando bajulava os turcos).
Mas não se trata disso, agora. Em 1999, as vendas de armas a Israel – que ocupa a Cisjordânia (e também Gaza) e está construindo colônias ilegais exclusivas para judeus em terra que pertence a árabes – chegaram a 11,5 milhões de libras; em dois anos, as vendas já praticamente duplicaram, e chegam a 22,5 milhões de libras. Foram vendidas armas leves, kits para fabricação de granadas e equipamentos para jatos bombardeiros e tanques. Houve alguns empecilhos depois que Israel usou tanques Centurion modificados contra os palestinos em 2002, mas em 2006, no ano em que Israel massacrou outros 1.300 libaneses, quase todos civis, em outra cruzada contra o chamado “mundo do terror” do Hizbollah, a Grã-Bretanha licenciou mais de 200 armas e equipamento bélico.
Algumas das armas fabricadas na Grã-Bretanha, é claro, chegam a Israel via os EUA. Em 2002, a Grã-Bretanha forneceu “head-up displays”[1] fabricados pela BAE Systems para a Lockheed Martin, que prontamente os instalou nos caça-bombardeiros F-16 destinados a Israel. A União Europeia não fez objeção alguma. No mesmo ano, é bom que se diga, os britânicos admitiram para treinamento 13 militares israelenses. Os aviões norte-americanos de transporte de armas para Israel, quando da Guerra do Líbano em 2006, eram reabastecidos em aeroportos britânicos (e, infelizmente, parece que também em aeroportos irlandeses). Nos três primeiros meses de 2008, os britânicos licenciamos mais 20 milhões de libras em armas para Israel – bem a tempo de serem usadas no massacre de palestinos em Gaza. Os helicópteros Apache usados contra os palestinos, diz Cronin, incluíam partes fabricadas pela SPS Aerostructures em Nottinghamshire, Smiths Industries em Cheltenham, Page Aerospace em Middlesex e Meggit Avionics em Hampshire.
Preciso explicar mais? Israel, aliás, foi elogiada pelo apoio “logístico” que deu à OTAN no Afeganistão – onde os britânicos matamos anualmente mais afegãos que os israelenses matam palestinos – o que não deve surpreender ninguém, porque o chefão militar israelense Gabi Ashkenazi visitou o quartel-general da OTAN em Bruxelas, para construir laços mais íntimos com a OTAN.
Cronin também expõe, com bons argumentos, um extraordinário – quase obscenamente belo – arranjo financeiro vigente na “Palestina”. A União Europeia financia projetos de milhões de libras em Gaza. Imediatamente, tudo o que é construído é regularmente destruído pelas armas israelenses-norte-americanas. E assim vão. Os contribuintes europeus pagam pelos projetos. Os contribuintes norte-americanos pagam pelas armas que Israel usa para destruir os projetos. Então, os contribuintes europeus pagam outra vez para reconstruir tudo. Então, os contribuintes norte-americanos... Ok. Vocês já entenderam.
Israel, além do mais, já tem também um “programa de cooperação individual” diretamente com a OTAN, que serve para manter Israel nas redes de computadores da OTAN.
Em resumo, parece ser bom ter ao nosso lado aliado tão valente quanto Israel, por mais que o exército israelense seja um bando desorganizado e alguns daqueles homens sejam criminosos de guerra. Aliás, falando nisso, por que não convidam o Hizbollah a trabalhar com a OTAN? As táticas de guerrilha do Hizbollah seriam utilíssimas aos nossos camaradinhas britânicos em Helmand. E, dado que os helicópteros Apache seguidamente matam civis libaneses – como, em 1996, mataram uma ambulância cheia de mulheres e crianças, que voaram aos pedaços pelos ares, atingidas por um míssil ar-terra Boeing Hellfire AGM 114C – tomara que os libaneses lembrem-se de mandar um cartão de agradecimento ao pessoal de Nottinghamshire, Middlesex, Hampshire e, claro, de Cheltenham.
Agora, não há mais dúvida. O candidato Serra é um filhote de Bush. Tem a mesma ideologia e a estratégia de criar “eixos do mal”. Usa a linguagem da Guerra Fria para satanizar Chávez e outros líderes da América Latina. Vê-os como expressões da maldição, ervas daninhas que devem ser extirpadas. Como Bush, acha que o caso Irã não deve ser resolvido por meios diplomáticos, mas sim pela simples condenação do governo iraniano. Na verdade, defende que o Brasil se subordine à orientação norte-americana ao tratar de conflitos ou crises políticas internacionais. Assim, na prática, ainda que não confesse, defende o ato criminoso de Uribe de ter invadido militarmente o Equador, em nome do combate às FARCs. E tem a insolência de dizer-se de esquerda, querendo, de fato, passar a idéia de que ser de esquerda é ser de direita.
Serra usa o terrorismo ideológico para confundir, partindo da visão de que há uma grande despolitização. Por isso, o povo brasileiro tende a cair na sua armadilha.
Serra, não se tenha dúvida, quer ser uma nova referência da ultradireita na América do Sul, devendo, portanto, ser visto como membro dos grupos direitistas do nosso continente, em constante ameaça aos avanços democráticos dos povos latino-americanos. Com certeza, para ele a derrota do golpe de estado contra Hugo Chávez deve ser lamentada, e a vitória golpista contra o governo eleito da Honduras deve ser comemorada. Apenas, não tem coragem política de confessar tal preferência. Prefere incubar suas opções. Contudo, sua adesão ao bushismo o desmascara, conseguindo enganar somente os ingênuos.
O novo filhote de Bush, ao atacar o MST, deixa claro como pretende tratar as lutas dos trabalhadores em geral. Para ele, está claro que manifestações de lutas, por melhores condições de vida e pelo avanço político e democrático do país, são casos de polícia, como agiu quando era governador.
Destarte, derrotar Serra e seu grupo passou a ser um ato de patriotismo e de defesa da democracia, buscando evitar o retrocesso, evitando que o Brasil se torne subalterno à política externa dos EUA, afeita a agressões militares, como se deu com o Iraque e o Afeganistão. Derrotar Serra é derrotar o que existe de mais retrógrado no Brasil e na América do Sul, expressão de forças golpistas, de ontem e de hoje, que tantos danos nos têm causado, política, social e economicamente. É derrotar os herdeiros de todas as ditaduras militares, dos filhinhos de Pinochet, de Carmona, chefe golpista da Venezuela, e de tantos genocidas que destruíram milhares de vidas em nossa América Latina.
Os jornais do sábado informam uma mudança na posição do governo brasileiro sobre a condenação a lapidação de Sakineh Ashtiani, no Irã. Após ter manifestado à mídia a conveniência de respeitar “regras” e “leis” de outros países, o Presidente informou que intercederia pela vítima e ofereceria asilo a Sakineh. (Vide)
O Contexto dos Fatos Sakineh foi condenada pela justiça islâmica a morrer por lapidação, sob a alegação de ter “traído” o marido. Desde meados de julho, por causa do repúdio internacional, as autoridades teológicas e jurídicas iranianas suspenderam o apedrejamento sem estabelecer se ele poderia ser retomado, ou se Sakineh seria morta por enforcamento.
Muito antes disso, em 2006, ela recebeu 99 chibatadas que lhe foram aplicadas na presença de seu filho. Isso foi por causa de um princípio da lei islâmica: “ninguém pode ser apedrejado sem confissão e/ou testemunhas!”. Isto pode parecer um problema, mas o próprio Al-Qu’ran dá uma receita para que o sábio julgador encontre as provas: Aplicar 100 chicotadas n@ indiciad@.
Muito antes do número final de “caricias”, feitas por homens muito fortes que usam um látego de couro de camelo, qualquer um confessa. A pessoa que está sendo torturada não pode preocupar-se pelos fatos futuros, e quer que o tormento acabe logo. No entanto, mesmo se o réu ou a ré confessam, as chibatadas devem ser continuadas até contar 100, com cuidado para não matar a vítima.
Na Sharia [Lei] se legaliza o açoitamento da pessoa adúltera:
O homem e a mulher culpável de adultério ou fornicação serão punidos com 100 chibatadas. Você (o carrasco) não deve ser movido a compaixão, porque este é um assunto prescrito por Deus, e você deve provar que acredita em Ele. [Quran. 24-2]
De acordo com Al-Hadīth (=palavras sagradas, leis orais atribuídas ao profeta complementárias do Quram), o apedrejamento deve ser aplicado a homens e mulheres infiéis. Na prática, porém, a maior parte das vítimas são mulheres.
Contrariamente ao que usualmente se pensa, o costume ordena que as pedras não sejam muito grandes, porque o réu (ou a ré) deve sofrer o suficiente para purgar parte de sua ofensa a Allah. Uma pedra enorme poderia afundar o crânio e matar a pessoa em alguns minutos. Mas tampouco pode ser muito pequena porque os lapidadores demorariam muito.
Sakineh confessou sob o chicote em 2006, quando foi presa, mas por especial senso humanitário do juiz, foi poupada da última chicotada: recebeu apenas 99. Desde essa data está presa no cárcere de Evin, uma das masmorras mais desumanas do planeta. O presídio é também chamado de “universidade de Evin”, por causa do enorme número de professores, escritores, cientistas e outros intelectuais que foram enfiados em seus porões por diversos “delitos de opinião” ou por presunção de tê-los cometido.
Apesar de Internet e da TV digital, algumas pessoas se recusam a acreditar que isto está acontecendo, pois, nos estados ocidentais, as torturas sistemáticas, aprovadas pelos tribunais religiosos e pelo estado, foram eliminadas totalmente, salvo na Espanha e suas colônias, no século 17. A lapidação propriamente dita extinguiu-se muito antes. Ela foi aplicada por última vez pelas tribos hebraicas na Mesopotâmia. O Cristianismo primitivo manifestou repúdio pela lapidação, expresso na frase: “Quem esteja livre de culpa, que atire a primeira pedra”.
Após a conquista romana, os judeus se tornaram cada vez mais urbanos, e a lapidação nunca mais foi mencionada. No atual estado de Israel existe pena de morte por enforcamento, mas desde sua fundação só foi aplicada uma vez, em junho de 1962, contra Karl Adolf Eichmann, o coordenador do holocausto. Em alguns países muçulmanos, porém, esta prática foi renovada pelo Profeta por volta de 630, numa síntese das antigas tradições judaicas e as praxes tribais subjacentes ao Islã.
As fontes sobre estes assuntos são tão diversificadas e abundantes, que ninguém poderia falsificar todas as notícias. Além disso, as próprias agências oficiais iranianas comunicam às vezes alguns apedrejamentos, pois eles não são motivo de vergonha para o país. (V)
O interesse de alguns governos em formar blocos estratégicos com Irã estimulou a divulgação e notícias ridículas. A mais bizarra é que o responsável pelas mortes não seria o estado iraniano, mas os chefes tribais. Outros argumentam que a Constituição Iraniana não prescreve a lapidação em seu texto. Isso não tem nada a ver: uma constituição não é um código penal.
Note que, o Artigo 83 do Código Penal do Irã (Lei de Hodoud) prescreve a lapidação por adultério. Os homens devem ser enterrados até a cintura, mas a mulher até o pescoço, o que, segundo dizem alguns assistentes, torna mais angustiosa a morte.
Um ponto importante, que é mal conhecido por causa de preconceitos racistas de Ocidente, é que as pessoas normais, inclusos religiosos devotos, tem horror e repugnância a esta infame prática, e os lapidadores voluntários são poucos. A sociedade é tolerante com esta truculência porque qualquer oposição é reprimida sangrentamente. Muitas pessoas se recusam a comparecer às execuções, e até os próprios jornalistas iranianos preferem não assistir o monstruoso ritual. Recentemente, comprovou-se que uma estatística da Indonésia (onde não existe lapidação) estava feita com dados forjados. Nela, um 30% de pessoas aprovava essa tortura.
Não existe pedra de misericórdia, como nos fuzilamentos. Quando a pessoa lapidada entra em agonia, o chefe pode suspender o processo e deixar a vítima morrer lentamente.
Mas, Sakineh não é um caso isolado. Esta atroz prática faz parte de crimes de estado de extrema barbárie, que incluem os assessinatos de mulheres e homens, a tortura e execução de crianças, e a fratura dos braços de meninos que cometem roubos, mesmo famélicos, tudo isso em nome de desvairadas mitologias. Essas ações tinham sido desterradas há vários séculos, mas foram restauradas pela Revolução Islâmica de fevereiro de 1979, que implantou a velha forma de execução em 1983. (V)
Um detalhe interessante para as novas “ondas” que se autoconsideram de esquerda e acham Irã um paladino contra o imperialismo: o Sharia atual também condena a morte os marxistas. É verdade que não são apedrejados, mas apenas enforcados. Talvez isto não seja problema, porque essa “esquerda” está a infinita distância do marxismo.
Aliás, Irã não é o único país a aplicar a lapidação, embora seja o recordista. Elas acontecem com muita frequência na Somália, Arábia Saudita, Sudão e de maneira mais isolada, nos Emiratos Árabes, e alguns outros estados muçulmanos. Há 6 repúblicas com maioria absoluta islâmica onde não se aplica nenhuma pena de morte, e alguns outros estados onde se usam meios menos cruéis.
Como o Irã entrou na moda e é bajulado por pessoas que se beneficiam dos acordos econômicos do governo brasileiro, alguns afirmam que a lapidação não se aplica atualmente e que o establishment iraniano é caluniado pela mídia americano-israelense. Cabe perguntar se os vários sites em farsi que levam o carimbo do governo iraniano são editados por espiões tão eficientes que as autoridades persas não conseguem identificar.
É verdade, porém, que este diagnóstico de Irã não pode aplicar-se a todos os estados islâmicos. Em alguns países, como no Iraque, os executores da lapidação são os patriarcas de tribos, e não possuem o apoio do estado. A culpa do estado radica em sua incapacidade ou falta de interesse em punir estes assassinatos. Já Paquistão é um caso misto, pois a realização de crimes cruéis (como lapidação ou deformação do rosto com ácidos) é defendida por setores parestatais, embora o governo central não as estimule.
No Irã atual e no Afeganistão do Talibã, a pratica não é apenas tribal, mas está autorizada pelo Supremo Tribunal Islâmico. O Conselho Islâmico aprovou a lapidação em Irã recentemente, e a considerou compatível com a Constituição.
É irrealista a versão de que existem conflitos entre os poderes de estado sobre a lapidação, pois Irã não é uma república no sentido europeu: o presidente, os comandantes da guarda islâmica e os quadee (desembargadores) podem ser removidos ou vetados pelo chefe dos aiatolás, mesmo que alguns cargos sejam eletivos. Além disso, se a lapidação for apenas iniciativa de chefes tribais primitivos, poderia o caso ganhar tanta notoriedade internacional? Se o estado iraniano não apoiasse estes crimes, será que as tribos poderiam continuar os aplicando a despeito da repulsa internacional? Por que, se o estado não é responsável, a comunidade internacional se dirige pedindo a anulação ao Aiatolá e não aos chefes de tribo?
Lapidação: Desaparecendo Pessoas interessadas nos novos negócios que oferece a sociedade iraniana (petróleo e tecnologia nuclear), muito úteis para um país como Brasil, insistem em propagar a absurda versão de que a lapidação “foi abandonada no Irã”. É possível que sua taxa tenha caído na última década, mas os casos que as cortes iranianas informam (sem falar das não reveladas) são significativos:
1. Uma mulher conhecida apenas pelo 1º nome, Masoumeh, de 33 anos, foi condenada a lapidação e a 15 anos de prisão por adultério. (Jornal Qods)
2. No dia 13/07/1997, Changiz Rahimi foi condenada a lapidação e pagamento de multa(!) (Jornal Kayhan.)
3. Seis pessoas: Fatemeh Danesh, Masoumeh Eini, Marzieh Fallah, Ali Mokhtarpour, Parviz Hasanzadeh and Kheirollah Javanmard, idades desconhecidas, foram lapidados em Sari (região norte), em 26/10/1997. (Jornal Salaam)
4. Em 08/06/1996, uma mulher e um homem foram lapidados por adultério na cidade de Oroumieh. (Hamshahri > AFP)
5. Em 04/07/, duas Mulheres, Saba Abdali, 30, e Zeinab Heidary, 38, foram apedrejadas em Ilam Gharb. (Amnesty International)
6. No 11/11/1995, um homem foi apedrejado em Hamedan. (Jomhouri Islami > AFP)
7. Em julho de 1994, um homem e uma mulher foram lapidados em Ramhormouz acusados de adultério.. (Hamshahri > AFP)
8. Em 16/11/1994, 3 mulheres e um homem foram lapidados em Sari, por adultério, em sentença passada pelo Tribunal Islâmico Local (Abrar > AFP)
9. 10/08/1994, em Arak, uma mulher foi sentenciada a apedrejamento.
10. 7/12/1994, uma mulher casada lapidada até morrer em Ramhormouz. (Hamshahri > Reuters)
11. 01/03/1994. Mulher apedrejada em Qom. (Jornal Ressalat)
12. 01/02/1994, Mina Kolvat foi apedrejada a morte em Teerã por transar com o primo (consensualmente). Kayhan.
13. 01/11/1992, Fatima Bani foi lapidada a morte em Isfahan. (Alto Comissionado da ONU para os DH)
14. 05/11/1991. Uma mulher acusada de relações sexuais sem estar casada, foi lapidada a morte em Qom.. (Abrar)
15. 21/08/1991, uma mulher de nome Kobra foi sentenciada a 70 chicotadas e apedrejamento. O Julgamento foi público. (Kayhan)
16. 11/03/1991, na cidade de Rasht (Norte), Bamani Fekri, acusada de cumplicidade com seu pai, Mohammad-Issa, em atos de adultério, foi sentenciada a lapidação, esvaziamento de ambos os olhos, e pagamento de multa de 100 dinares. Dentro do terrível quadro, Bamani teve a sorte de poder suicidar-se na prisão. ( Jomhouri Islami)
17. 16/01/1990, mulher lapidada a morte em Bandar Anzali (Norte) (Ressalat)
18. 05/01/1990. Duas Mulheres publicamente apedrejadas em Lahijan, Norte. (Ettela'at)
19. 02/01/1990: Duas Mulheres apedrejadas em Langrood (Norte). (Jomhouri Islami)
20. 31/07/1989: 6 mulheres apedrejadas a morte publicamente in Kermanshah por adultério e luxúria. (Kayhan)
21. 17/04/1989, DEZ Mulheres sentenciadas a lapidação a morte, pelo juiz religioso Farsi, por prostituição (Kayhan)
22. 10/1989. Uma mulher lapidada a morte em Qom.
23. 06/03/1989. Mulher lapidada por adultério em Karaj (Rádio Teerã)
24. 04/10/1986, Mulher, de nome Nosrat, 25, lapidada a morte em Qom. (Morreu após uma hora) (Kayhan)
25. 17/04/1986. Mulher chicotada em público e lapidada em Qom.
26. 07/1980. QUATRO Mulheres simultaneamente lapidadas a morte na cidade de Kerman.
A Reação Internacional Os interesses comerciais dos países influentes (petróleo, energia atômica, vantagens econômicas e estratégicas) têm conduzido aos seus governos a uma profunda indiferença em relação com a morte aberrante e sádica de milhares de pessoas em Irão, Sudão, e outros lugares do planeta.
Em particular, a reação contra os crimes dos aiatolás tem sido mínima, e provocou apenas a condena de alguns governos. Aliás, os Estados Unidos manifestam preocupação por um arsenal atômico que ainda não foi construído (e que deve demorar muito em se tornar uma ameaça mundial), mas os crimes contra a humanidade da ditadura dos aiatolás parece não ter nenhum peso na política internacional dos países desenvolvidos.
A Posição do Brasil É uma velha tradição do estado brasileiro, e não apenas da atual administração, a absoluta indiferença e até animosidade contra os DH. Os padrões internacionais, que são os mais evidentes, impressionam: o país está no lugar 132, em ordem descendente de países que oferecem asilo político. Aliás, os programas de refúgio estão totalmente controlados pela Igreja.
O país tem sido generoso em acolher ditadores da região, e criminosos de Guerra como o fracassado homicida de Charles De Gaulle, mas nega acesso a seu enorme território à população famélica da África, que deve enfrentar graves problemas para se amontoar na Europa. Embora não seja responsabilidade do governo, as autoridades não fizeram nenhum esforço para evitar que o STF anulasse o asilo de Cesare Battisti, o que cria um precedente gravíssimo: fica ao arbítrio do judiciário decidir sobre o direito dos perseguidos que chegam ao país. O governo poderia ter apresentado queixa á Corte de Costa Rica contra o STF, mas os interesses corporativos e a cumplicidade entre poderes foram mais fortes.
Inversamente, o estado brasileiro demonstrou sua “energia” ao negar-se a entregar militares autores de crimes de lesa humanidade, que a própria Itália reclamou por causa da desaparição de vários cidadãos dessa nacionalidade.
Várias vezes, o chanceler brasileiro se irritou com a mídia, quando foi interrogado sobre as contradições em matéria de DH: estes aparecem como fundamentais na Constituição, e os governos assinam desde há 15 anos, todos os compromissos e convenções internacionais, mas quase nenhuma se cumpre. Em 2005, o Brasil objetou o que chama “parcialidade do Conselho de Direitos Humanos da ONU” e, por essa razão, votou pela abstenção no caso da condenação de Cuba, o que é uma atitude coerente. Entretanto, ao mesmo tempo, votou contra a condenação a China, cujas violações aos DH são muito mais cruéis, frequentes e estendidas que as de Cuba.
O governo mostrou apenas “preocupação” pela liberação dos assassinos da irmã Dorothy Stang no Pará, quando poderia ter entrado como acusador junto a tribunais nacionais ou internacionais. No ano passado, o pitoresco empresário que atua como vice-presidente, declarou abertamente, com a cumplicidade dos militares, seu apoio à construção de uma bomba nuclear.
Tanto no caso de dissidentes em diversos países, como nos genocídios truculentos do Sudão, como agora, no caso dos criminais métodos do estado iraniano, o Brasil tem aduzido o direito a autonomia dos governos (chamada, erradamente, “autonomia dos povos”). No entanto, essa autodeterminação foi pisada quando o governo de Equador decidiu punir as empresas brasileiras que espoliaram a ecologia, a mão de obra e a economia durante décadas. Aí teve que se enfrentar a reações desproporcionais de Itamaraty (como convocar seu embaixador). Também, em menor medida, Evo Morales foi sutilmente ameaçado quando denunciou os atropelos da Petrobrás, e até se argumentou, desde Brasil, algo que parecia ser a “extraterritorialidade” de empresas brasileiras, um privilégio que só têm as embaixadas. (Nem os consulados possuem.)
No caso do Irã, o governo foi mais longe. Não aduziu apenas o direito de Irã para apedrejar quem quiser, com base na teoria da autodeterminação. Seu argumento foi mais explícito. Simplificando: desobedecer ordens e regras poderia conduzir a uma avacalhação.
Ou seja, leis criminosas e sádicas devem ser respeitadas. Isso valeria, então, com maior razão, para a antiga ditadura Brasileira. Afinal, uma análise objetiva mostra que o número de vítimas de tratamentos cruéis que a ditadura produziu em 21 anos, o estado iraniano produz em alguns meses (já há mais de 150 executados horrivelmente durante 2010). Deve ser por isso que não se cogita punir os algozes da ditadura.
O principal objetivo agora é salvar a vida de Sakineh, mas, em seguida, deve intensificar-se a luta contra as brutais práticas daquele estado homicida. Neste sentido, foi afortunada a mudança de ponto de vista do Presidente do Brasil, com independência dos motivos que possam ter conduzido a essa nova atitude.
Petições Há um mês abrimos uma página no site Petition OnLine para colher petições em favor de Sakineh. Entretanto, penso que neste momento é melhor que os leitores assinem nos sites mais representativos, para multiplicar esforços. Passo os URLs dos principais lugares onde assinar essas petições:
*Carlos Alberto Lungarzo é graduado em matemática e doutor em filosofia. É professor aposentado e escritor, autor do livro “Os Cenários Invisíveis do Caso Battisti”. Para fazer o download de um resumo do livro clique aqui. Ex-exilado político, residente atualmente em São Paulo, é membro da Anistia Internacional (registro: 2152711) e colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.