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A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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domingo, 1 de agosto de 2010

Espiritualidade, Economia e o mundo dos negócios

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O português Paulo Vieira de Castro, consultor de empresas e diretor do Centro de Estudos Aplicados em Marketing do Instituto Superior de Administração e Gestão (Porto) e o economista brasileiro, Marcus Eduardo de Oliveira, professor e especialista em Política Internacional, dialogam sobre espiritualidade, economia social e humana e o mundo dos negócios.

Paulo Vieira de Castro (*)

Marcus Eduardo de Oliveira (**)

O português Paulo Vieira de Castro, consultor de empresas e diretor do Centro de Estudos Aplicados em Marketing do Instituto Superior de Administração e Gestão (Porto) e o economista brasileiro, Marcus Eduardo de Oliveira, professor e especialista em Política Internacional, dialogam sobre espiritualidade, economia social e humana e o mundo dos negócios.

Na essência, ambos os especialistas conversam sobre a necessidade de integrar o ser humano numa visão mais abrangente, tanto no contexto da economia, quanto dos negócios, envolvendo desde a busca da felicidade à realização plena de cada um, comungando, nesse aspecto, a vida humana e a espiritualidade.

MEO – Eu creio que a mais desafiadora tarefa que cabe ao mundo da economia nos dias de hoje é romper, sistematicamente, com a visão que predomina na teoria econômica tradicional que insiste em ignorar o ser humano e centralizar ações apenas nos mercados e, por conseguinte, nas mercadorias. A economia (enquanto ciência) é muito mais que meros gráficos e índices, taxas e projeções matemáticas. Sendo as ciências econômicas uma ciência puramente social, nada mais justo que priorizar e colocar as pessoas em primeiro lugar. Para tanto, é necessário afirmar algo mais: faz-se imprescindível, nesse intento, despertar nos economistas modernos, que são vistos, em geral, como sendo de natureza estreita e egoísta, um sentimento de sensibilidade às dimensões éticas e sociais da economia.

PVC – Aqui na Europa existe a idéia que esta crise vai durar mais um ou dois anos.. A questão é: enquanto não mudarmos o sistema econômico esta crise vai durar! Como poderá a crise ser datada se ela é estrutural.

A lógica dos mercados terá deixar de se basear na expectativa, ela terá de ter como outrora lastro.. a economia baseada na especulação chegou ao seu término, afinal não é correto vender aquilo que não se tem.

Acredito numa economia que, enquanto disciplina intelectual, possa ser diferente da estudada nas universidades portuguesas, onde falta uma concepção de justiça económica baseada em algo mais elevado que o dinheiro , longe da especulação de um mercado que tantas vezes vai por si mesmo , colocando-se, por isso mesmo, longe de compromissos profissionais, morais, éticos, espirituais.

Teremos de abandonar a perspectiva que atribui um poder sobrenatural ao dinheiro . O dinheiro não é o “Deus do Mundo”. O dinheiro, assim como a felicidade, o sucesso.., não é uma estação de partida, ou mesmo de chegada.. Ele poderá ser uma ponte para algo maior..

O enfoque terá de ser na empresa humana! Certo é que a empresa humana chegou a um ponto em que terá de abandonar o ideal de crescimento para amadurecer, encontrando – finalmente - um sentido mais amplo para tudo o que faz ou diz. Esta idéia aplica-se ao que é realização humana, pelo que também a economia, a política, a religião, os negócios,.., terão de amadurecer.

Este é um esforço que não depende de estratégias de guerra, muito menos de um qualquer enigma, nem tão pouco dos mercados financeiros,.., apenas do recentrar em torno desta idéia de o mundo muda se eu mudar.

Lembro que a crise presente, em especial a econômica é, mais que qualquer outra, resultado do nosso desamor. Aliás, cuidar tornou-se a palavra mais esquecida do competitivo mundo das empresas e, talvez por isso, das nossas vidas.

Também nas empresas, cuidar é poder existir, ter novamente esperança, promovendo condições de reciprocidade, cooperação e aceitação plena. Esta transformação será um elemento de distinção na construção de uma nova forma de ver o mundo com base em novos questionamentos. Para isso teremos de deixar de nos ver a nós próprios desde o exterior, voltando à espiritualidade como centro de vida. Para que isso aconteça no ambiente empresarial talvez seja necessária uma nova transparência de propósitos, novos valores e expectativas, um novo enfoque relacional.., refiro-me à criação de verdadeiras comunidades de proximidade real.

Relembro que será necessário voltar à verdadeira dimensão da transformação interior, deixando partir o que tem de partir. Para simplesmente – ser humano, porque não começar por aí?!


MEO – Há certa pobreza de raciocínio dentro das ciências econômicas em torno da questão social. Mesmo a questão da ética e do discurso sobre a liberdade do homem. Muitas coisas relevantes, nesses aspectos, não são discutidas a fundo. É impossível aceitarmos, por exemplo, de forma pacifica, sem uma reflexão mais calorosa que, num país como o Brasil, com todas as potencialidades para ser uma das maiores economias do mundo, com mais de 600 milhões de hectares agricultáveis, com clima bom o ano inteiro e com muita gente disposta a trabalhar na terra, ainda tenhamos mais de 30 milhões de pessoas passando fome diuturnamente e uma produção agrícola de menos de 160 milhões de toneladas de grãos ao ano. Isso nada mais é que uma verdadeira patologia econômica. O que falta é justamente incutirmos nas políticas públicas, e na cabeça de quem as faz, esse “compromisso” com o social.

PVC – As revoluções não acontecem pela fome nem pela miséria, elas são sempre fruto de uma nova consciência. O medo e o sofrimento de uns, o ego de outros,.., são forças que – tantas vezes - contaminam a nossa realidade, impedindo-nos de expressar a consciência de nós próprios em tudo o que realizamos. E, esta é, sem margem para dúvidas, a maior de todas as crises! E como o mundo se cria a partir das nossas próprias razões, alguns entre nós iremos até onde os pensamentos os deixarem, outros até onde os pensamentos os levaram. . Acredito que o retorno a nós próprios, assumindo definitivamente a espiritualidade como o mais alto patamar ético, poderá ser a solução para quase tudo. Freqüentemente encontro pessoas que me dizem estar à espera de um sinal do lado espiritual,.., algo que lhes diga onde ou como mudar.. Perante esta inquietação, geralmente respondo: estás enganado! O mundo espiritual é que está à espera de um sinal teu, por isso te deixou livre, por isso te deu total liberdade para escolheres o teu próprio caminho.

Preocupa-me pensar que há quem gaste uma vida inteira nesta expectativa de ser tocado pela espiritualidade. Pela minha parte acredito que o mundo só muda se eu mudar, não tenho por que ou por quem esperar.. É, pois nessa escolha de caminho que reside a honra de ser humano e, conseqüentemente, a atitude de cuidar, não havendo nada que melhor defina uma pessoa que aquilo que ela faz quando tem total liberdade de escolha..

E porque aquilo que faço e o que me acontece são uma e a mesma coisa, a espiritualidade não poderá ser um mero momento de contemplação; a espiritualidade é ação! A transformação, a mudança, a verdadeira revolução começará por esta tomada de consciência.

MEO – No entanto, me parece clara a idéia de que a mudança reside em nós mesmos. Concordo contigo Paulo Vieira quando afirma, em um de seus textos, que “ninguém é vítima do mundo, mas sim da forma como o percebe”. E mais ainda: que é necessário, primeiro, procurar um caminho e deixar, a seguir, surgir a solução.

PVC – Feliz o nômade que, sem questionar a sua sorte, sem hesitar perante o seu destino, percebe o caminho em tudo o que faz, em todas as coisas, pois só assim se tornará caminho. Esta é a mais antiga de todas as leis.

Na realidade é neste confundir entre o futuro e o caminho que nos perdemos vulgarmente. É que todos queremos ir para o céu, mas nem todos queremos ir por onde se vai para o céu. Tantas vezes estamos unidos quanto ao destino, mas não quanto ao método que nos leva até ele..

O problema do Homem contemporâneo é que parte – quase sempre – de meio do caminho.. Há que despertar a certeza ética da conquista de resultados com sentido para todos, permitindo elevar o nível de auto-realização de cada um através d o desenvolvimento de afetos verdadeiros, propiciando deste modo o vôo espiritual, facilitador de uma comunidade de valores centrais à responsabilidade de ser humano.

Ao contrário da idéia avançada pela sociedade da informação e do conhecimento, onde se mostrava central conhecer, a proposta será a de auto-realizar integralmente o que se diz saber. Não é suficiente conhecer a responsabilidade como caminho para um mundo mais justo, é necessário cumpri-la, experimentando-a diretamente.

Lembro que conhecer o caminho não é a mesma coisa que trilhá-lo até ao seu termo. Garanto-lhe que no final da caminhada estará alguém, muito importante, à sua espera: você! Sinto que, a todos os níveis, existe uma emergente necessidade de assumir novos vínculos relacionais, assim será o seu mais elevado desígnio, expressão maior da intencionalidade e propósito da existência humana.

Certo é que a perda de um centro de valores robusto colocou, muitos entre nós, á espera de “algo”, perdendo-se neste emaranhado de coisa nenhuma.. Esta é uma postura que condiciona, irremediavelmente, a nossa atitude em todos os projetos, afetando vida profissional, afetiva, familiar..


MEO – Escrevi recentemente que a Economia e a Teologia precisam se “conhecer” melhor uma a outra, afinal, há um discurso de ambas as formas de pensar na mesma linha: qual seja, a valorização da vida humana (pelo lado da economia social e humana, e não da economia tradicional) e, pelo lado da teologia, quando resgata seu preceito mais importante: promover a libertação do homem. Nesse pormenor, urge entendermos que a qualidade de vida, que a ciência econômica tradicional estuda com certo desdém, é medida no eixo da liberdade.

PVC – Existe uma prece védica, samatwa, que nos fala do que fazer para trazer de volta a liberdade de ser humano. Para que tal seja possível a muito ajudará a leitura deste pequeno trecho:

Senhor, dá-me serenidade para aceitar o que não pode ser mudado, dá-me coragem para mudar aquilo que pode ser mudado. E principalmente, dá-me sabedoria para discernir aquilo que pode ser mudado daquilo que não pode ser mudado.

Concordo que necessitamos de devolver ao Homem o seu verdadeiro lugar, e esse não se compadesse com o fazer o papel de Deus. Nem tão pouco nenhum de nós será a mensagem; apenas o mensageiro.

Claro que se faz habitualmente alguma confusão entre religião e espiritualidade. De uma forma muito simplista diria que religiões há muitas, enquanto espiritualidade há só uma, aquela que reside em todos nós, sendo muitas às vezes em que ambas andam de mãos dadas.

A teologia e a economia só se poderão encontrar através dos Homens. Na prática, antes de poder alinhar as minhas crenças pessoais com os valores de uma equipa, deverei refletir em torno dos vários níveis de consciência que estão a ser jogados, só depois disto poderei assumir um compromisso para algo maior. Por exemplo, nenhum de nós poderá almejar desenvolver a sua espiritualidade sem antes ter ultrapassado a responsabilidade de ser íntegro, ético, responsável perante os outros. A religião, a espiritualidade são compromissos consigo mesmo, em nada dependente da vontade dos outros..


MEO – O “Dharma Marketing”, cujo princípio essencial é o de criar a auto-liderança tem alguma relação com a economia quando se pensa especificamente nos atores econômicos que interagem na atividade produtiva?

PVC – Certo é que a competência organizacional, não depende exclusivamente de um conjunto de formalidades, de motivações externas ou materiais, existindo um grupo alargado de padrões não convencionais/inconscientes que constantemente interferem nas decisões empresariais, tornando-se, também por isso, necessário agir a um nível mais íntimo, muito especialmente quando pretendemos fundar-nos em valores tão profundos quanto os espirituais.

Assim, também nas empresas encontramos o potencial do princípio animador ou vital do ser humano (a espiritualidade), afirmando-se, deste modo, a existência de uma identidade supra-humana, através de uma imperceptível teia organizacional, pelo que o mundo das empresas deverá ser visto como um todo, em constante relacionamento, e conseqüentemente, em transformação.

Costumo explicar esta idéia dando como exemplo o momento em que nos deparamos com alguém. Deste encontro nasce uma terceira entidade que é a alma da relação; porque seria diferente nas relações empresariais? Por estranho que pareça, esta é a única dimensão que perdura para além do tempo e do espaço, sendo a este nível - mais subtil - que se funda o inconsciente organizacional. E, se a espiritualidade tem a ver com ação logo é produção, então porque não administrar este capital relacional? A liderança para o terceiro milênio vai nessa direção.

Para que tal seja possível será necessário assumir um novo regime de serviço e de transparência, só concebível pela abertura dos canais intuitivo-anímicos da relação: o inconsciente organizacional.

Ao imaginarmos o Dharma Marketing propomos um conceito que se inscreve dentro da linha de entendimento do marketing relacional, não esquecendo que as organizações deverão estar focadas em valores, em estratégias,.., dependentes de hábeis negociadores, criativos, empreendedores, que saibam trabalhar sob pressão. Mas, ser-lhes-á isso possível na ausência da consciência e si mesmo?! Partindo desta questão surge um novo conceito de marketing que se propõe chegar a mais inconsciente dimensão do psiquismo humano, antecipando o caminho para um marketing de proximidade real.

Se a consciência da oferta e da procura se altera, porque não mudaria o marketing?! Este tem vindo a evoluir na sua orientação, indo para além do produto, da venda, do mercado, do cliente,.., assim, depois do marketing massificado, do marketing de segmentação, do marketing one to one,.., surge igualmente o marketing orientado para a perspectiva holística da relação: o inconsciente organizacional.

Habitualmente explico a mudança de focus estratégico proporcionado pelo Dharma Marketing utilizando a parábola da terceira margem do rio. Do rio que tudo arrasta, dizemos que é violento, esquecendo-nos o quão arrebatadoras são as margens que o comprimem. A violência do rio enquanto questão estratégica não está nele próprio, mas sim nas suas margens, ou seja, no constrangimento imperceptível que tudo condiciona. Ao transportamos este modelo para as relações humanas em contexto empresarial surgem novos desafios e, com estes, um renovado marketing: a quarta vaga do marketing relacional.

MEO – Talvez seja necessário, ademais, reforçarmos a idéia de que a vida humana e a espiritualidade jamais poderão ser separadas. Há que enfatizar-se, no entanto, que a espiritualidade – e não as diversas formas de religiões – têm muito a ajudar na construção de uma nova sociedade, à medida que faz também surgir um “novo homem”, despido de velhos vícios. Afinal, a espiritualidade está dentro de cada um de nós. O Reino de Deus não está no mercado e nem nas prateleiras de algum shopping center, mas sim dentro de nós.

PVC – Tem uma história - que conheço como sendo brasileira - onde um homem por ser tão apaixonado pelas estrelas inventou a luneta para vê-las melhor. Certo dia formou-se uma escola para estudar a s ua luneta. Desmontaram a luneta, a nalisaram-na por dentro e por fora, o bservaram os seus encaixes mediram as suas lentes e estudaram a suas características ópticas. Sobre a luneta de ver as estrelas escreveram -se muitas teses de doutoramento , assim como muitos congressos aconteceram para investigar a luneta. Toda a gente estava encantada,.., tão fascinados ficaram pela luneta que nunca mais olharam para as estrelas. Do mesmo modo, os humanos especializaram-se no acessório esquecendo o essencial, o estruturante à vida.. Infelizmente, há muito que deixamos de nos encantar com as estrelas..

Pretendendo explicar esta afirmação coloco uma simples questão: porque é que a vaca está feliz no pasto? A resposta é simples; porque lhe pedem - simplesmente - para ser vaca..O ser humano distraiu-se do devir de viver a sua verdadeira natureza, a sua realidade primeira. E aqui o problema não está na economia.. Acontece que no mundo dos conceitos, muitos são os que andam enredados numa vida que não é a deles.. O despertar espiritual ajuda ao entendimento que todos os caminhos vêm do centro e voltam para o centro.

Nós somos os únicos seres da natureza capazes de nos imaginarmos fora dela, vivendo num mundo fora do mundo onde tudo são conceitos. Para isso em muito tem contribuído o marketing, e em especial a publicidade ao passar de um registo lingüístico de denotação, para outro de conotação. Esta mesma lógica foi-se estendendo à felicidade, ao sofrimento, ao sucesso ou à falta dele..

Por exemplo, se perguntarmos a um operário fabril, há 30 anos funcionário da mais famosa marca de roupa intima feminina: o que é que você faz? Ele vai responder soutiens, slips,.. Se colocarmos essa mesma pergunta ao responsável pelo marketing, a resposta será: SONHOS! Ou, dependendo do posicionamento estratégico da empresa: EROTISMO!

Então, parece que o grande pecado das empresas terá sido querer dar às pessoas o que elas tanto desejavam, colocando-se novamente a responsabilidade do lado dos consumidores. Por exemplo, muitas vezes ouvimos comentários pouco elogiosos á programação televisiva e eu pergunto, porque é que à noite só passam telenovelas? A resposta é simples: porque as pessoas só querem ver telenovelas.. Eu sei que isto é cruel, mas é real!

Para, além disso, o Homem tornou-se um ser de convicções, animado pelo desejo de convencer. Aliás, persuadir é uma experiência específica do gênero humano. Os restantes seres da natureza informam e exprimem, nunca assumindo a postura do convencer, pelo que só o ser humano pode fantasiar a respeito de si mesmo e dos outros. É aqui que um novo Homem terá de aprender mais com a Natureza, e menos com a Civilização.

Para o desnorte dos consumidores muito terá contribuído o ideal neoliberal, associado à concepção de “um mundo que vai por si mesmo”. O mercado torna-se, deste modo, uma entidade não controlável, afetando irremediavelmente o comportamento do homem moderno, transformando-se a exaltação do consumo de tal modo presente no indivíduo que a Organização Mundial da Saúde se viu forçada a atribuir à Oniomania (febre das compras) a referência IM-10 da classificação internacional das doenças, sendo-lhe, ainda, atribuída a menção DSM-IV na Statistical Manual of Mental Disorder. A minha apreensão a este respeito tem sido, essencialmente, ao nível da responsabilidade e da ética nas empresas. Aqui nenhuma organização poderá ser maior que o horizonte espiritual dos seus lideres. O mesmo se aplicará aos países, mas também às famílias, logo a todos nós.

MEO – Certo é que não dá mais para negar a natureza social da economia. Assim como não se pode ocultar – ainda que os tradicionais queiram - que há mecanismos econômicos que “geram” e perpetuam a pobreza.

PVC – A noção de interdependência econômica tem de ser ajustada a outros vínculos. Certo é que o ser humano sai altamente prejudicado pela forma redutora como tem entendido o mundo como algo que pode ser só de alguns, em especial no contexto da economia e dos negócios. Mas de que mundo falo eu?

Marcus, imagine a sua vida representada por uma velha cabana construída em madeira. As dificuldades que vão surgindo ao longo da sua existência deixam vestígios, estes são aqui representados por fendas que a marcam, mais ou menos, violentamente.

Agora que está lá dentro olhe o enegrecido telhado. Se eu lhe der a escolher um dos buracos e lhe pedir para o descrever, como é que o referiria? Preto? Castanho? Azul..? Ou limitar-se-ia a ver o contorno, isto é a parte do telhado à volta do buraco?

Sem que nos apercebamos disso, esta é uma escolha que temos de fazer todos os dias, cometendo, invariavelmente, o mesmo erro. Não é possível separar o buraco do telhado e vice-versa. Afinal, a sua vida e a dos outros são uma mesma tela; inseparáveis.

Pela mesma ordem de razões vida humana e a espiritualidade jamais poderão ser separadas, assim como o conhecimento não poderá ser separado de quem conhece, acontecendo o mesmo na relação professor aluno, ou entre o dançarino e a dança.. É isto que se passa com a nossa vida, não sendo, por isso mesmo, possível separar nenhum momento de uma existência, onde problemas e soluções são duas faces de uma mesma moeda. Este entendimento traz-nos outro horizonte sempre que tomamos decisões, pelo que para além de partirmos das questões certas, teremos de seguir o caminho menos trilhado: a via interior dos negócios. A economia terá de estar – definitivamente - ao serviço de uma visão integral do ser humano.

MEO - Pergunto-lhe se, no mundo dos negócios, é possível estabelecer laços de sociabilidade repletos de comunhão e solidariedade? E que tipo de sucesso se deve perseguir nas empresas? Afinal, os economistas, em geral, confundem sucesso e prosperidade com aquisição e acúmulo de bens materiais.

PVC – A palavra central na resposta à sua pergunta é: felicidade! Tenho para mim que a felicidade não repousa em grandes posses, mas sim em grandes anseios. Esta é, afinal, a única grande riqueza da vida humana; ser lembrado pela nossa generosidade, pela nossa gentileza,..Como acontece com o bem, a felicidade é pré-existente à natureza do mundo, pelo que é algo que está desde sempre em nós, isto ao contrário da infelicidade. Esta última é uma criação exclusiva dos Homens. Isto acontece porque existe uma resistência inconsciente que nos obriga a procurar sempre fora de nós, levando-nos a seguir pensamentos dos outros, o sucesso dos outros ,. . , a felicidade dos outros..

Aquilo que não custa dinheiro será o que mais nos poderá inspirar. Veja; para si qual é o valor real de um sorriso, ou de um abraço sincero? Refiro-me, ainda, a outros recursos infinitos de sentido, patrimônio de todos os homens e mulheres, valores como a bondade, a compaixão, o desapego, etc..

Certo é que todos viemos ao mundo de mãos vazias, regressando de mãos vazias; sem exceção..

Tendo como intenção gerar felicidade aos outros e a si mesmo, dar é a mais profunda das formas de purificação. Só o que você der será eternamente seu; o que não der tiram-lhe; acredite!

Mas, porque será que quando falamos em dar tendemos a pensar em dinheiro? Essa é uma resposta que facilmente encontramos em cada um de nós..

No futuro teremos de valorizar essencialmente o dar responsável, relegando para um segundo plano a solidariedade meramente material.

Aceitar a importância de tais dimensões da existência humana, obriga a que cada um de nós seja um cientista interior, cuja maior valência será a de experimentar a (sua) própria realidade interdependente.

Tratando-se de uma terra sem caminho, viver nesta convicção será assumir a maior responsabilidade das nossas vidas: ter como missão o confiar que é possível um mundo melhor para todos. Para que isso aconteça já hoje faça o que é necessário, amanhã o que é possível, e de repente estará a realizar o impossível.. Lembre-se que os milagres não acontecem em contradição com a natureza, mas sim com o que dela conhecemos. Certo é que nas organizações, como em tudo na vida, existem unicamente duas escolhas para todos os problemas. A primeira é aceitar as condições que existem, a outra é aceitar a responsabilidade de as mudar.

(*) Consultor de empresas português, professor e diretor do Centro de Estudos Aplicados em Marketing (Porto).

Contato: geral@paulovieiradecastro.com

(**) Economista brasileiro, professor de Teoria Econômica e especialista em Política Internacional.

Contato: prof.marcuseduardo@bol.com.br




PRAVDA
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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

Copiado de Breve História Ilustrada da Humanidade, revista digital NovaE

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PressAA

Agência Assaz Atroz

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O Serra que assumiu as vozes das trevas e da intolerância

Nessa, ele tem muito mais a perder, porque a direita sentimental já é anti-Dilma

"Todo mundo sabe, até as árvores da floresta amazônica. Elas são as principais testemunhas de que as Farc se abrigam na Venezuela."


José Serra (foto), em almoço com empresários do Grupo de Líderes Empresariais: a fina flor da plutocracia multinacional paulista.


Meu Deus! Onde fui amarrar meu cavalo?

Por Pedro Porfirio*

Sinceramente, esse Serra desses últimos dias me faz lembrar os torturadores que me submeteram a sevícias por 16 dias seguidos nos porões do Cenimar, na Ilha das Flores.



É um Serra ao avesso do nosso tempo, alguém saído do sarcófago da intolerância, do atraso e da guerra fratricida que tanto prejuízo nos causou.



Sua insistência em atacar governantes que desagradam o império não vai lhe render um único voto a mais. Em compensação reacende os piores sentimentos obscurantistas que a aragem já varreu, reduzindo a ditadura paranóica a uma péssima lembrança, evitada até pelos que delas se serviram ou graças a ela aumentaram suas fortunas.



Esse discurso soa como filho temporão daqueles idos em que se matava, prendia e arrebentava pessoas que eram apontadas como "agentes de Moscou" forjados na guerra santa que precisava fabricar inimigos externos para justificar sua barbárie.



Primeiro, Serra cometeu o desatino de culpar o governo boliviano pelo consumo de drogas no Brasil. Ao querer atingir Evo Morales, o mais legítimo representante do povo boliviano, cuja integridade moral é reconhecida no mundo inteiro, o candidato do PSDB imaginou alcançar o Sr. Luiz Inácio e sua adversária por tabela.



Existem traficante porque existem compradores



Demonstrou, ao mesmo tempo, que subestima a inteligência do cidadão brasileiro. Nessa questão das drogas, ele preferiu um caminho diferente do seu líder, Fernando Henrique Cardoso, que abriu os olhos e hoje tem uma compreensão mais lúcida a respeito.



E vai mais além: desconhece a lógica mais cristalina: há traficantes porque há consumidores. E muitos desses compradores de cocaína vivem lá, em Ipanema e nos jardins da elite paulista, onde as festas mais badaladas não dispensam a "branquinha".



Tenta tapar o sol com a peneira. Desconhece a própria crise da família e todos os fatores que incrementam a proliferação das drogas.



Tenho quatro filhos - os mais novos de 22 e 18 anos - e nunca eles se deixaram seduzir por amigos cujos pais não lhes dedicam a atenção devida. Estes, então, nem cigarro põem na boca.

Todo mundo sabe que esse vício macabro atinge a muitas famílias. Pais desesperados correm atrás de bodes expiatórios e clamam por mais intervenção policial para resolver o que eles não conseguiram resolver. Esse é um grande drama que o Sr. José Serra, numa precipitada irresponsabilidade, debita ao presidente Evo Moraes - um delírio, que só pode ser entendido como uma agressão gratuita e insana.



Chávez como alvo para agradar ao império



Agora, resolveu alvejar o presidente Hugo Chávez, a quem apontou levianamente como uma "ameaça à paz na América Latina". E ofereceu a cobertura do seu manto aos belicistas da Colômbia, esta, sim, uma cabeça de ponte dos interesses norte-americanos, totalmente minada por três grandes bases instaladas em Malambo, Palanquero e Apiay (esta a 400 km de nossa fronteira) para assegurar a obediência vil dos países da América do Sul ao império decadente.



Serra decidiu seguir as pegadas do milionário Sebastián Piñera, que chegou à presidência do Chile numa aliança de direita (que agora, por pragmatismo, começa a renegar, negando-se a conceder indulto aos assassinos da ditadura de Pinochet, pedido pela Igreja católica de lá).



Ao invés de oferecer um projeto de avanço, uma alternativa para frente, o candidato oposicionista embarcou na parola da plutocracia paulista. Com vasta experiência, José Serra não pode alegar que desconhece a articulação dos norte-americanos para derrubar Chávez (como já tentaram em 2002) e que a Colômbia é peça chave nesse projeto, no qual o sistema internacional não quer passar pelos mesmos vexames sofridos ao longo dos últimos 50 anos, em suas quase 400 tentativas de assassinar Fidel Castro, invadir Cuba e acabar com a revolução.



Como nos velhos tempos



Essa história sobre o acolhimento de guerrilheiros das FARC pelo governo venezuelano não é nem um pouco diferente dos "informes" sobre a existência de armas químicas no Iraque, pretexto para a invasão do país árabe, amplamente desmascarado pelos fatos.,



Não é diferente também de outras montagens, como o incêndio do Reichstag, forjado por Hitler, em 1933, para assumir o poder na Alemanha e iniciar uma brutal perseguição política.



Contra uma política externa correta



Assessorado por algum primata, Serra ataca a política externa do sr. Luiz Inácio, reconheçamos, a forma mais lúcída de fortalecer o Brasil como nação soberana e assegurar ganhos excepcionais para o país. Sob esse aspecto, só sendo um grande mau caráter, um asno ou um cego, ou as três coisas juntas, para negar o que significou a presença de Lula em todo o mundo: ele deve ter feito mais visitas a outros países do que todos os presidentes que o antecederam. E isso foi altamente positivo, refletindo-se na afirmação do prestígio internacional do Brasil.



Serra está vestindo a carapuça da volta ao passado mais traumático, mais primário, ao reino da intolerância e da indústria da guerra fria, no que revela mais do que interesse eleitoral. É lícito imaginar que ele esteja agindo assim por por insegurança ou, o que é mais lamentável, por querer ganhar o apoio e a ajuda dos trilionários internacionais, que se consideram os donos do mundo.



Com esses pronunciamentos ao gosto da pior direita, ele vai acabar jogando nas mãos de sua adversária as pessoas de opinião, as que não querem ver o país alinhado incondicionalmente ao sistema internacional e curtem uma política externa com identidade própria.



Nessa, ele vai ficar perdido no espaço da história, festejado somente pela meia dúzia de nostálgicos da ditadura. E não arrumará um voto sequer: a direita sentimental já está contra Dilma pelos seus arroubos juvenis.



E vai acabar alimentando o discurso amplamente difundido de que ele seria dos males o pior.



*FONTE: http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=d41d8cd98f00b204e9800998ecf8427e&cod=5931

Serra e Índio: qual o apito?

Ao afirmar que “o PT é chavista, que mantém relação com as Farc, e prima por desrespeitar direitos humanos”, Serra incorporou a visão de mundo da nova direita. Um estrato que, ameaçado pela abrangente emergência social promovida nos últimos oito anos, destila raiva e ressentimento.

Por Gilson Caroni Filho (*)

E finalmente descortinou-se – sob os estarrecidos olhares dos eternos ingênuos – a verdade que todos, há muito tempo, já conheciam. A fluidez do processo político brasileiro, suas clivagens e crises que podem decorrer da percepção de resultados eleitorais adversos, levaram o candidato José Serra a revelar sua verdadeira natureza de classe. Reativando um surrado discurso udenista, o ex-presidente da UNE passou a endossar o protofascismo de sua base de sustentação. Mais que assegurar a adesão de eleitores da direita, pôs por terra uma tese que ganhava espaço na grande mídia e em conhecidos círculos acadêmicos.

A caracterização simplória do cenário político definia as próximas eleições mais como uma disputa por espaço eleitoral do que como polarização ideológica de projeto de país. Ressurgia, com endosso de algumas lideranças esquerdistas, a visão dos dois partidos hegemônicos (PT e PSDB) como agrupamentos politicamente inautênticos, sem verdadeiras raízes na estrutura social e sem diferenciação ideológicas nítida. A distinção se daria apenas na maior ou menor capacidade de conseguir recursos, ganhos incrementais que ignoram modificações substantivas nos programas públicos. Nada mais falacioso. Nada mais revelador da fragilidade analítica dos que vêem no governo Lula uma continuidade pura e simples da gestão FHC. As sobejas dificuldades do candidato da direita, sua necessidade de marcar posição, desmentiram os estudos de encomenda.

Ao afirmar que “o PT é chavista, que mantém relação com as Farc, e prima por desrespeitar direitos humanos”, Serra incorporou a visão de mundo da nova direita. Um estrato que, ameaçado pela abrangente emergência social promovida nos últimos oito anos, destila raiva e ressentimento; típicos da intolerância retórica que o distingue. Impossibilitada de construir sua identidade pela inserção no processo produtivo, essa parcela da classe média forja a auto-imagem por diferenciação das classes fundamentais. Sabe que não é o que mira, mas não sobrevive sem o sentimento subjetivo de pertencer a uma elite idealizada. É nesse aspecto da nossa estrutura social que Índio e Serra passam a querer o mesmo apito. E a falar o mesmo dialeto.

As diatribes recentes do candidato tucano têm uma imensa serventia para os setores progressistas. Ao criticar as relações do governo petista com países sul-americanos e com a China, assegurando que “estamos fazendo filantropia com Paraguai e Uruguai e concessões excessivas ao país asiático”, Serra sinaliza que, no caso de uma eventual vitória em outubro, retomaria a política externa de subalternidade aos interesses estadunidenses. A volta da "diplomacia de pé de meia” não é uma questão menor nem uma mudança de rota desprezível.

A própria capacidade de o país de decidir soberanamente sobre seus destinos estará novamente em jogo. A orientação tendente a beneficiar o diálogo com os países vizinhos, superando assimetrias e promovendo uma autêntica integração, para ter continuidade e ser aprofundada, não pode conviver com a submissão vergonhosa ao imperialismo. O que está em jogo, neste momento, é a verdadeira segurança nacional.

Os inimigos dos reais interesses do país, ao contrário do que pretende a oposição e seu braço midiático, não são os governos de Evo Morales e de Hugo Chávez, a quem Serra, repetindo Uribe, acusa de "abrigar as Farc". O que ameaça a nação brasileira é a humilhante prostração aos ditames de Washington. Em um país com instituições minimamente democráticas, Serra e seu vice têm como lugar certo a lata de lixo da história.

Quanto mais nos aproximamos de outubro, aumenta a urgência de ampla mobilização dos trabalhadores e demais setores populares em defesa das suas conquistas sociais e econômicas, alcançadas nos dois mandatos do presidente Lula. É bom lembrar que não se deve esperar da nova direita, que sustenta Serra, uma análise serena de um governo popular. Para ela é imperdoável que tenha havido um período tão rico em cidadania, tão pródigo em participação nos debates sobre problemas nacionais.

Jonathan Swift escreveu, certa vez, que se pode identificar um gênio pelo número de imbecis que lhe atravancam o caminho. Se o criador de Gulliver tiver razão, Lula e sua candidata, a ex-ministra Dilma Roussef, têm excelentes títulos para exigir que lhes reconheçam a genialidade. Com inveja, com rancor, com incompreensão, mobiliza-se contra eles o que há de pior na sociedade brasileira. E ainda há quem não veja diferença entre os atores.

*Gilson Caroni Filho é sociólogo e mestre em ciências políticas. Nascido e residente no Rio de Janeiro, onde é professor titular de sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha). É colunista da Carta Maior, colaborador do Jornal do Brasil e do blog "Quem tem medo do Lula?".

As charges são uma cortesia do cartunista Bira Dantas, também colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

sábado, 31 de julho de 2010

Se tudo fosse igual

Por Emir Sader*

Há uma tese que corre em setores políticos distintos que, pelos equívocos que contém e pelas conseqüências desastrosas que gera, deve ser analisada com precisão. É a tese de que o PT e o PSDB seriam a mesma coisa, assim como os governos do FHC e do Lula.

A tese leva a uma espécie de “terceirismo” entre a direita e a esquerda, buscando definir uma eqüidistância em relação às candidaturas da Dilma e do Serra. Em 2006 essa posição levou a que alguns setores da esquerda propusessem o voto branco ou nulo diante da alternativa de Lula ou Alckmin, como se fosse igual para o Brasil qualquer um deles que fosse eleito.

Se os governos de FHC e Lula fossem iguais, a desigualdade teria diminuído e não aumentado durante o governo de FHC. Se fossem iguais, o extraordinário apoio popular que tem Lula teria sido dado também ao governo FHC que, ao contrário, terminou seu mandato com uma imensa rejeição da população brasileira.

Se fossem iguais, a reação do Brasil diante da mais grave crise econômica internacional desde 1929 teria sido a mesma de FHC em 1999: elevar a taxa de juros a 48%, pedir novo empréstimo ao FMI, assinar a corresponde Carta de Intenções (deles), cortar recursos das políticas sociais, aumentando a recessão e o desemprego, que levou o Brasil à uma profunda e prolongada recessão, de que só saímos no governo Lula.

Enquanto que o Lula reagiu diante da crise incentivando a retomada do crescimento da economia, baixando as taxas de juros, mantendo o poder aquisitivo dos salários, intensificando as políticas sociais, e fazendo assim que superássemos rapidamente a crise.

Se fossem iguais, não teria sentido a luta contra a ALCA – Área de Livre Comércio das Américas -, que FHC propugnava e que o governo Lula inviabilizou, para fortalecer os processos de integração regional. Dizer que são governos iguais ou similares é dizer que tanto faz privilegiar alianças subordinadas com os EUA ou aliar-se prioritariamente com os países do Sul do mundo, com os Brics entre eles.

Se fossem iguais os governos FHC e Lula, o Estado mínimo a que tinha sido reduzido o Estado brasileiro seria o mesmo que o Estado indutor do crescimento e a garantia da extensão dos direitos sociais da maioria pobre da população. O desenvolvimento, suprimido do discurso de FHC, foi resgatado como objetivo estratégico pelo governo Lula, articulado intrinsecamente a políticas sociais e de distribuição de renda.

Se fossem iguais, a maioria dos trabalhadores continuaria a não ter carteira de trabalho assinado, predominando o emprego informal sobre o formal. O poder aquisitivo dos salário teria continuado a cair, ao invés de ser elevado acima da inflação.

É grave que haja setores na esquerda que não consigam distinguir essas diferenças, entre a direita e a esquerda. Perdem a capacidade de identificar onde está a direita – o inimigo fundamental do campo popular -, correndo o grave risco de fazer o jogo dela, em detrimento da força e da unidade da esquerda.

A filosofia do pão francês (ou as generalizações horrorizantes de Índio da Costa)


A filosofia do pão francês

Por José Ribamar Bessa Freire (*)


Nos anos 1980, quando cursava eu a pós-graduação na França, por lá passou, turistando, uma amiga brasileira, cujo nome aqui omito com a devida permissão do leitor, porque a personagem ainda vive e não convém expô-la. Conto o milagre, mas não dou o nome da santa que antes mesmo de completar 48 horas em Paris, em companhia do maridão, já havia fotografado a alma dos franceses e emitido um juízo inapelável, contundente e definitivo sobre eles:

- Grossos! Os franceses são grossos! Grossos e boçais!

De onde tirou tal conclusão? De um laboratório de observação - uma padaria situada na esquina da Rue Falguière com o Boulevard Pasteur - onde, um dia após seu desembarque, tentou comprar – acreditem! – um pão francês. Descobriu, então, perplexa, que “não tem pão francês na França, só no Brasil”. Ou dito de outra forma: “na França, todo pão é francês”. O padeiro – segundo narrou - só faltou cuspir nela e por pouco não lhe chuta a canela. Havia testemunhas: o marido, que confirmou tudo e reforçou a generalização: - Os franceses são todos uns cavalos.

Contemporizei, sugerindo que talvez o casal não tivesse entendido direito as palavras do padeiro. Mas minha amiga Norinês (ih, meu Deus, sem querer revelei seu nome; agora é tarde, Norinês é morta!) reagiu, indignada, exibindo seu diploma da Aliança Francesa no Rio de Janeiro, onde durante oito anos aprendera a pedir informações, fazer compras, comer, conversar sobre família e trabalho, falar abobrinhas. Ofendida, dizia: - “A língua, eu domino. Entendo tudo. Não! Nada de problema lingüístico! Foi grosseria mesmo”.

Os salamaleques
Convém analisar o livro em que nossa heroína estudou francês. Havia dois personagens - Monsieur e Madame Thibault – que visitavam um jardim zoológico, explicando que “le lion est le roi des animaux”, ou um circo cheio de anões e gigantes: - “Le géant est un homme três grand qui a souvent plus de deux mètres de hauteur”. O livro dava até dicas para enfrentar o frio parisiense. Madame Thibault manda sua filha vestir o casaco: - Cathèrine, prends ton manteau! A menina resiste: - Mon manteau? Pourquoi? A mãe justifica: - Parce qu´il fait froid aujourd´hui.

Acontece que naquele forte calor de julho, aquelas frases pré-fabricadas sobre circo, zoológico e meteorologia eram inúteis. O casal não precisava de circo, mas de pão. Parece, no entanto, que Monsieur e Madame Thibault se esqueceram de ensinar a Norinês como devia se comportar numa padaria. “Não precisa – dizia ela - uma padaria é uma padaria em qualquer lugar do mundo. Não tem mistério. Você entra e pede uma bisnaga ou um pão francês, paga e se manda”.

Foi ai, então, que entendi. O problema não era de tradução da língua, mas de tradução da cultura. Monsieur Thibault não dera a Norinês o arsenal de salamaleques necessário para comprar uma simples baguete. O brasileiro é mais informal, entra na padaria e diz sem problemas: - “Seu menino, me dê uma bisnaga”. Já o francês não, é cheio de trique-trique. O cara entra e – primeiro salamaleque – cumprimenta todos os fregueses presentes:

- Bonjour messieurs et dames!

Antes de pedir o pão, investe no segundo salamaleque, saudando, dessa vez, o balconista. Na terceira mesura, pede a ele, por favor – s´il vous plaît - aquilo que quer comprar. O quarto salamaleque, ao receber o pão, é um agradecimento. Um merci beaucoup não faz mal a ninguém. O cidadão já cumprimentou, já comprou, já agradeceu, agora pode sair? Negativo. Ninguém sai impunemente sem se despedir do vendedor e ai vem o quinto rapapé: - Au revoir, monsieur! Ah, agora sim, o consumidor pode se pirulitar? Necas de pitibiribas! É preciso também se despedir dos fregueses ali presentes. Sexto salamaleque.

Norinês ignorou que devia fazer um enorme investimento em salamaleques. Já chegou ordenando. O padeiro viu aquilo e achou que ela é que era muito grossa e indelicada. Por isso, lhe disse: “Madame, nous n´avons pas gardé les cochons ensemble”, que é uma forma de questionar:Ei, minha senhora, que intimidades são essas? Nós nunca trabalhamos juntos num chiqueiro”. Ela fez um escândalo: “Ele me chamou de porca”.

Índio da Costa
É muito comum, mas deplorável, a construção de imagens estereotipadas sobre um povo, a partir de uma observação apressada e unilateral do comportamento de um indivíduo, relacionado a um pequeno conflito cotidiano. Nossos “hermanos” argentinos que o digam! Freqüentemente são vítimas (e ao mesmo tempo algozes) dessa postura etnocêntrica.

Supondo que o padeiro tenha sido efetivamente um cavalo – o que não foi o caso – a única conclusão que ela podia chegar era a de que o padeiro do Boulevard Pasteur era bruto. Seria incorreto concluir que “os padeiros do bairro de Montparnasse são grossos” ou que “os padeiros franceses são estúpidos” e muito mais ainda generalizar para 60 milhões de franceses.
Para desfazer a má impressão, convidei o casal 20 a conhecer uns amigos franceses, que são afáveis e gentis. Se os dois conhecessem Pascal Foucher, Juliette Moulin, Jean-Claude Frébourg e Daniel Patridgeon, que são umas flores de pessoas, se dariam conta do engano. Mas Norinês foi irredutível, recusou, não queria mudar aquela primeira impressão construída a partir de generalizações incorretas e inapropriadas realizadas por caminhos tortuosos.

Eis o que queria dizer... o que é mesmo que eu queria dizer? Meu amigo Thiago de Mello tem razão em avaliar que quando narro, em vez de descer pelo tronco, me perco pelos galhos. Ah, lembrei! Eis o que queria dizer: nessa campanha eleitoral, a filosofia do pão francês está correndo solta.

Juro que até tenho uma simpatia pelo José Serra, que foi um bom ministro da saúde, quero ver minha mãe mortinha no inferno, quero que santa Luzia me cegue se estiver mentindo. Mas ele sujou sua biografia, caindo no colo da direitona cavernária.

Confesso que estou horrorizado com a generalização feita pelo vice do Serra, Índio da Costa (DEM, vixe, vixe!) que em tom de denúncia “descobriu” que o PT mantém relações intimas com o narco-tráfico e as FARC da Colômbia, colocando tudo no mesmo saco. Serra assinou embaixo. É a filosofia do pão francês da Norinês Cabral (ih, me escapou o sobrenome, agora todo mundo sabe que a heroína é neta do velho Oder). Imaginem se Serra ganha e morre – toc, toc! - vamos ser governados por esse paspalhão. Não era com esse Indio da Costa que Serra tinha de se aliar.

*José Ribamar Bessa Freire é antropólogo, natural de Manaus e assina no “Diário do Amazonas” coluna semanal tida como uma das mais lidas da região norte. Reside no Rio de Janeiro há mais de 20 anos e é professor da UERJ, onde coordena o programa “Pró-Índio”. Mantém o blogTaqui pra tie é colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”

Lula e a direita golpista

Foto: Ricardo Stuckert
"A direita tentou dar um golpe a cada 24 horas para não permitir que as forças democráticas pudessem continuar neste país. Foram oito anos de ataques e infâmias. Eu mandei dizer a essa elite: vocês mataram Getúlio, obrigaram Jango a renunciar e o Jânio Quadros durou seis meses. Se quiserem me enfrentar, não vou estar no meu gabinete lendo o jornal de vocês. Estarei nas ruas conversando com o povo brasileiro" (Luís Inácio Lula da Silva)

José Serra tece loas à Globo e esconde suas irregularidades

Agência Assaz Atroz PODE MAIS que o presidente Lula

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“Não posso dizer tudo [que pensa sobre a revista Veja] porque eu sou presidente da República, sabe?”

Mas nós aqui não somos presidentes nem mesmo de escola de samba, portanto podemos mais que Lula.

Assim sendo...

(in)Vejam bem: VÃO SE ROÇAR NAS OSTRAS, BABACAS!

Editor-Assaz-Atroz-Chefe

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Lula manda Veja às favas: "Eu não preciso deles para nada"

Numa de suas mais sinceras entrevistas desde que chegou ao Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que não apenas ignora as opiniões da Veja como também dispensa qualquer tipo de relação com a decadente revista da Editora Brasil. O depoimento foi dado na semana passada à repórter Adriana Araújo, do Jornal da Record.

Lula deixou claro que prefere a aprovação popular ao reconhecimento da grande mídia. “Se dependesse de alguns jornais, se dependesse de algumas televisões e se dependesse de algumas rádios — eu estou falando ‘algumas’, para não generalizar —, eu teria zero na pesquisa (sobre seu governo).”

Adriana perguntou, em seguida, qual é a resposta de Lula diante de uma caricatura grosseira que a Veja fez dele — “um rei com a coroa na cabeça e acima de todas as leis, que passa um mau exemplo para o cidadão brasileiro, desrespeitando as leis”. Foi o estopim para o desabafo do presidente — e uma quase promessa de expor, ao sair do governo, o que realmente pensa da Veja.

“Primeiro, eu não vejo essa revista — portanto, para mim não quer dizer nada isso. Como eu não preciso deles para nada — para nada, sabe? —, eles têm a liberdade de dizer o que eles quiserem a meu respeito. E eu quero ter a liberdade de dizer o que eu penso deles, do jeito que eu quiser”, declarou Lula. “Não posso dizer tudo porque eu sou presidente da República, sabe?”, explicou na entrevista.

Segundo ele, é possível que, ao fim de seu segundo mandato presidencial, todas as suas opiniões sobre a Veja venham à tona. “Um dia? Quem sabe?!”

Da Redação,
André Cintra

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http://www.youtube.com/watch?v=g20hobir9R4&feature=player_embedded

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Temendo ser preso, Diogo Mainardi foge

Por Altamiro Borges

Em sua coluna na Veja desta semana, Diogo Mainardi, o pitbul da direita nativa, deu uma notícia que alegrou muita gente. Anunciou que deixará o Brasil. Num texto empolado, ele não explica os motivos da decisão. A única pista surge na frase “tenho medo de ser preso” – será uma confissão de culpa? “Oito anos depois de desembarcar no Rio de Janeiro, de passagem, estou indo embora. Um vagabundo empurrado pela vagabundagem”. Concordo totalmente com a primeira descrição!

O enigmático anúncio levantou muitas suspeitas. Para o blogueiro Paulo Henrique Amorim, uma das vítimas das difamações e grosserias deste pseudojornalista, ele está fugindo para não pagar o que deve. “O Mainardi me deve dinheiro. Ele perdeu no Supremo Tribunal Federal, por decisão do Ministro Toffoli, recurso em uma causa que movo contra ele. Contra ele e o patrão, o Robert (o) Civita... Interessante é que o próprio Mainardi foi quem disse que só escrevia por dinheiro”.

Leia artigo completo no Blog do Miro...


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Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons

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PressAA

Agência Assaz Atroz

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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Estaleiro OSX: É hora de o PT virar o jogo ou mofar com a pomba na balaia

O estaleiro de Eike Batista
30 de Julho de 2010 - Véspera de o PT virar o jogo político em Santa Catarina ou mofar com a bomba na balaia

Por Raul Longo (*)

Um dos tantos casos do Mercado Público, onde se gerou a maioria das expressões populares de Florianópolis. No decorrer dos contares as versões se diferem, mas, em suma, o vendedor de pombas, ao lado de seu balaio, confessava desejos por alguma morena ou galega que o desiludiu numa frase: “- Mofas com a pomba na balaia”.

Se a insistência do candidato aos favores da moça algum dia o elegeu aos prazeres almejados, não se conta. Mas no amor como no jogo, a insistência não vale nada se não se souber blefar e aproveitar o momento da jogada certa.

Em Santa Catarina o jogo político continuou de cartas marcadas mesmo depois da ditadura militar, com os potenciais naturais do estado repassados como fichas de cassino para apostadores de toda parte.

E ainda há muito a ser arriscado, pelos próximos crupiês, na mesa do jogo de interesses por patrimônios públicos. Pois isso de transgressões a determinações e códigos ambientais, é como qualquer outra aposta: o sujeito jura que vai só fazer uma fezinha e ao fim da noite já está arriscando todo o futuro da família.

Vez por outra acontece a denúncia de algum promotor público indignado com a jogatina. Dá em investigação federal, escândalo a ser abafado pelos parceiros da mídia monopolizada pelo grupo RBS, e alguma aporrinhação. Mas nada que não se resolva realocando alguns assessores pra buscar apostas por fora, e se vai levando até a próxima rodada de uma nova eleição ao governo, câmara ou senado. O importante é jogar o jogo!

Mas pra jogar sem perder, há que sempre se estar ao lado do dono da banca. E aqui continua o mesmo, mantendo a promessa em pé. Se não pôde cumpri-la no resto do país, no seu cassino ainda vai acabar com essa raça por mais de 30 anos.

Mas amanhã o PT pode virar o jogo no estado. Se souber usar as cartas certas, vira!.

Até agora teve de manter o blefe sustentando a aposta para não acontecer como no Rio Grande do Sul, com o Olívio Dutra.

Ali, o Olívio não quis pagar pra ver o jogo das montadoras de automóveis e o ACM cacifou. Lá se foi a Ford pra Bahia e o PT já está fora da rodada gaúcha há duas gestões.

Agora as pesquisas indicam probabilidade de voltar ao governo já em primeiro turno, pelo Tarso Genro. Mas é preciso reconhecer que mesmo indignados pela perda dos empregos da Ford, os gaúchos têm muito a lembrar do governo do Olívio. Em Santa Catarina, vamos nos lembrar de quem?

Se o Espiridião não emplacou nem pra prefeito e o Bornhausen pra governar teve de usar Luís Henrique e agora Leonel Pavan, enquanto prepara a cria para continuar a dinastia iniciada lá no Ireneu, a opção talvez seja Ângela Amin que se hoje não convence mais com a demagogia do “letinho” pra mamar votos; em compensação pode contar com o esquecimento das falcatruas e bagunça dos terminais de transportes desintegrados.

Da mesma forma que o eleitorado esqueceu a Moeda Verde e reelegeu a árvore de natal superfaturada do Dário Berger e o Andrea Bocelli de presente para a filha do Luís Henrique, e que o Ministério Público embargou.

Mas será que o eleitor de Santa Catarina é esquecido, ou falta melhores histórias pra lembrar?

Difícil manter memória do que jamais aconteceu. Mas há acontecimentos que se tornam inesquecíveis! E imperdoáveis também.

Há 4 anos atrás fui à Bahia para verificar em que se deu aquilo sem o Bornhausen de lá, tentando entender como é que o Jacques Wagner conseguiu virar o jogo e levar o PT ao governo baiano no ninho do velho dragão da maldade. Seria Wagner o santo guerreiro?

Não foi nada de esotérico, nem por castigos de santos e orixás. Foi a farroncaria do ACM carteando aqueles mesmos empregos da Ford que os gaúchos lamentaram copiosamente, imprecando contra Olívio e o PT.

A explicação se encontra nas palavras do Prof. Iberê L. Nodari da Faculdade de Engenharia Mecânica da UFBa: “Para os baianos restaram as vagas de emprego primário muito mal remuneradas, média de 500,00 reais quando as mesmas funções, em São Paulo, valem de 1.200,00 a 1500,00. Esta e outras afirmações do Prof Nodari em www2.uol.com.br/aregiao/art/fordba demonstram porque, depois de 4 décadas, o carlismo veio a bancarrota com o velho e poderoso crupiê ainda distribuindo as cartas sobre o feltro da mesa do jogo político nacional. Deixou heranças do que arrematou das profícuas riquezas daquele estado, mas para o eleitorado nenhuma saudade que levasse o neto ao segundo turno na disputa à prefeitura de Salvador.

Por essas de lá e acolá, entre muitas outras daqui mesmo, amanhã o PT tem grandes chances de virar o jogo da história política de Santa Catarina, mas também pode quebrar a cara e a própria banca se não escolher o momento certo de parar com o blefe e abaixar as cartas.

Quem na quinta-feira passada (22/07) esteve no cassino armado pela OSX no Jurerê Sport Center Club, e testemunhou aquele arremedo de audiência pública em apoio à aposta de 4 mil empregos rateados entre técnicos e operários trazidos de outras baixadas, e mal pagos catarinenses para serviços de chão de fábrica; contra mais de 9 mil desempregos nas atividades tradicionais da região: pesca, maricultura, gastronomia, comércio e turismo; percebeu a evidência de que o jogo mudou de mão.

Até ali quem bancava era o Eike Batista, blefando mero interesse no duvidoso prêmio de um estaleiro a dragar o leito do canal da Ilha de Santa Catarina, para montagem de algumas plataformas e passagem de 6 cargueiros/ano durante apenas uma década e meia. Mas, nos narizes e óculos de palhaço, nas faixas e cartazes, no Jaguará e na Maricota, nos apitos, pedaços de canoas e redes de pesca trazidas pelos Ilhéus de sul a norte da Ilha, ficou evidente que a mão do jogo virou.

Todo bom jogador, antes de tudo é um ótimo observador. E quem não tiver sensibilidade para interpretar as contundentes manifestações orais dos moradores, pescadores, maricultores, comerciantes e até turistas, daquela noite no Jurerê Sports Center; vai perder o melhor parceiro para este final, ou início, de rodada.

Claro que na interpretação do absoluto monopólio da mídia em Santa Catarina, a RBS, tudo não passou de manifestações de algumas ONGs oportunistas instigadas pelo eco-xiitas do ICMBio, sem sensibilidade para as emoções de um bom carteado.

Mas ali também ficou claro que as cartas não estão mais nas mãos do ICMBio que apenas confirmou, em maior amplitude e profundidade, o parecer do biólogo Paulo César Simões Lopes, contratado pela própria OSX: “.... a magnitude dos impactos são, em boa parte, permanentes e irreversíveis... Sugere-se, fortemente, a relocação do empreendimento para outra área, onde já existam complexos fora de baías ou enseadas, de maneira que os efeitos nocivos não sejam potencializados...” (os negritos são da cópia do parecer técnico do Ph. D. Paulo Simões Lopes)

Tampouco as cartas estão nas mãos do Promotor de Justiça Rui Arno Richter que recomendou ao governo de Santa Catarina um compromisso de não permissão de atividades portuárias no canal. O diretor da FATMA, a corretora das reservas ambientais do estado, sempre elegante e distante como todo bom crupiê; ouviu calado.

Provavelmente nem o Promotor Arno Richter duvida de que o que disse entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Mas se neste sábado, 31 de julho, às 9 horas da manhã no Miramar, durante o lançamento em Florianópolis da campanha de Dilma Rousseff à Presidência da República; o eleitorado não ouvir o PT descartar o blefe do Ministro da Pesca e da candidata ao governo do estado, e, por ela mesma, abrir o jogo; vão quebrar a banca até do Presidente Lula que já é apontado, nas ruas e telefonemas, como sócio do Eike Batista.

Eis uma grande oportunidade do PT virar a história política de Santa Catarina. Ou mofar com a pomba na balaia como tanto deseja Bornhausen.

Atenção: se o seu candidato é o José Serra, não precisa abrir o link abaixo. Em Santa Catarina, todos os eleitores do Serra são favoráveis ao Estaleiro do Eike Batista.

*Raul Longo é jornalista, escritor e poeta. Mora em Florianópolis (SC), onde mantém a pousada “Pouso da Poesia“. É colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.

=> Saiba mais sobre o assunto aqui mesmo neste blog clicando em um dos links abaixo:

REPASTO DE ILHA PARADISÍACA AO ÓLEO EM MOLHO DE CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL À MODA DA FLÓRIDA (Raul Longo)

O CATARINA EIKE BATISTA, O GOVERNO DO ESTADO E NÓS, OS ESTRANGEIROS, NO FAROL DE SANTA MARTA (Raul Longo)

"Espelho": Ameaças ao farol de Santa Marta (SC) (Raul Longo)

O estaleiro e a insânia - Crime sócio/ambiental em Santa Catarina (Edison Jardim)

Serra está sendo cristianizado?

Serra está sendo cristianizado?

Por Altamiro Borges, em seu blog

Em 1950, Christiano Machado, candidato do PSD ao governo de Minas Gerais, simplesmente foi rifado pelo seu partido em plena campanha eleitoral e sofreu uma fragorosa derrota. Daí surgiu o termo “cristianizado”. Agora, no pleito de 2010, parece que o tucano José Serra corre o mesmo risco. Há fortes indícios de que ele está sendo traído por vários candidatos que temem perder votos se aparecerem como oposiçao ao presidente Lula, que goza de recordes de popularidade.

Os casos de traição explícita seriam trágicos, se não fossem cômicos. O tucano Tasso Jerreisatti, que teme por sua reeleição no Ceará, simplesmente não colocou a foto do presidenciável no seu comitê. Já Yeda Crusius, que está mais suja do que pau de galinheiro, preferiu não citar o nome de José Serra no lançamento da sua campanha à reeleição ao governo do Rio Grande do Sul. “Foi um lapso”, justificou. Outro traíra é o senador Agripino Maia, do Rio Grande do Norte, que não se cansa de elogiar Lula, que tanto combateu, e nem cita o ex-governador paulista nos palanques.

Levantamento do Correio Braziliense

O Correio Braziliense fez nesta semana um levantamento detalhado sobre os casos de trairagem. A reportagem confirma que em doze estados pesquisados, o nome e a foto de José Serra não têm qualquer destaque nos santinhos, faixas e baners dos candidatos aos governos estaduais do PSDB e DEM. Em Alagoas, segundo o jornal, o tucano Teotônio Vilela, que tenta à reeleição, esforça-se para mostrar intimidade com o presidente Lula e sua candidata, Dilma Rousseff. No Espírito Santo, todas as imagens de campanha do tucano Luiz Paulo reforçam apenas sua candidatura. O jingle, inclusive, abusa do nome Luiz. “Esse é o homem. Esse sabe fazer. Luiz, Luiz, Luiz”.

José Serra está sendo cristianizado até em palanques mais fortes da oposição de direita, como no Paraná. A campanha de Beto Richa (PSDB-PR) estampou no sítio na internet apenas material do candidato ao governo. Segundo a sua assessoria, o material casado “está sendo providenciado.” Em São Paulo, Serra aparece ao lado de Geraldo Alckmin apenas na imagem do comitê central de campanha, no Edifício Joelma. Na internet, a sua candidatura ocupa um cantinho da página. O sítio privilegia apenas as imagens de Alckmin e do seu vice.

Guinada para a extrema-direita

Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, a situação ainda é mais dramática. A vingança de Aécio Neves, humilhado pelo grão-tucano paulista, é maligna. O quartel-general do seu candidato ao governo estadual, Antônio Anastasia, não tem nenhuma foto ou folheto de José Serra. O nome do presidenciável só aparece, bem minúsculo, num santinho de Itamar Franco, candidato ao Senado. O mesmo ocorre na Bahia e Ceará, dois importantes colégios do Nordeste, onde Lula tem elevado prestígio, e no Acre e Pará. Todos os “amiguinhos” rifaram o tucano.

Talvez essa trairagem explique o péssimo humor de José Serra nas últimas semanas. O notívago está com as olheiras mais fundas. A sua cristianização pode representar o fim das suas ambições. Derrotado na disputa sucessória, ele ficará sem mandato. Ele terá dificuldade até para ser vigia noturno do Palácio dos Bandeirantes, caso Geraldo Alckmin, que já foi traído por Serra no pleito para a prefeitura da capital paulista, vença a disputa para o governo do estado. “Cristianizado”, o tucano tende a ficar cada vez mais feroz, reforçando a sua guinada à extrema-direita.

= A charge é do nosso colaborador Bira Dantas.

Jaburu, Escurinho e a touca de Varginha

Jaburu, Escurinho e a touca de Varginha

Por Laerte Braga (*)

À falta de programa, argumentos e qualquer vestígio de compromisso com o Brasil e os brasileiros a coligação PSDB/DEM/PPS parece que vai investir no medo. Receita de Regina Duarte. A ofensiva começa com a propaganda gratuita a partir do dia 17 de agosto.



José Arruda Serra interpretando o caçador que vai salvar Chapeuzinho Vermelho do Lobo Mau.. Foi o que restou aos tucanos. Perdido por um, perdido por mil, afinal, estão investindo num “negócio” assim como um Paulo Maluf com alguma sofisticação.



Contam que Zezé Moreira, técnico da seleção brasileira na copa do mundo de 1954 e várias vezes do Botafogo e do Fluminense, chamou o excelente ponta esquerda do tricolor Escurinho (fez oitenta anos outro dia) e disse a ele que mirasse na bandeira de corner quando fosse chutar para acertar o gol. A expressão usada à época por Zezé é que Escurinho fazia tudo certo, mas tinha o pé torto. Lenda ou não, num sei, mas Escurinho deu um chute certeiro dentro da pequena área e Marcial goleiro do Flamengo fez uma defesa garantindo que a lei da gravidade pode ser desafiada. Assegurou o título ao Flamengo, naquele ano. O chute de Escurinho foi preciso.



O mesmo Zezé Moreira teria mandado colocar um barril num determinado ponto atrás do gol, num plano elevado e dito a Jaburu, centro-avante contratado ao Olaria, que quando fosse chutar tentasse alvejar o barril para acertar no gol.



Num Fla Flu disputado num campeonato carioca, Fleitas Solich (um paraguaio) era o técnico do Flamengo e Zezé o do Fluminense. Naquele dia o tricolor estreava Humberto Tozzi, recém chegado da Itália, veterano e centro-avante estilo rompedor. O primeiro tempo terminou com a vitória do Fluminense por quatro a um.



Incomodado com a goleada o compositor Ari Barroso, que narrava o jogo para a antiga TV TUPI, chamou o comentarista José Maria Scassa, ambos rubro-negros e disparou a pergunta – “Scassa, pelo amor de Deus, será que o Solich não percebeu que o Zezé escalou o Humberto para chutar para fora enquanto o Telê faz os gols?” Scassa concordou e ainda explicou as razões que levaram a Zezé Moreira escalar um centro-avante para chutar para fora e despistar a defesa do Flamengo. O jogo acabou quatro a três.



Em Varginha, terra visitada por ETs, um técnico de nome Baroninho resolveu que seu time, o Varginha Esporte Clube vai treinar com toucas, ao invés de coletes para diferenciar os titulares do reserva. Segundo o técnico, com apoio da diretoria, jogador de touca tem que olhar para cima, de colete distrai e olha para baixo e no “no meu time quem não olha para cima não joga”.



Tucano não dorme de touca e muito menos joga de touca. Inventaram agora um texto atribuído à apresentadora Marília Gabriela, já desmentido pela assessoria de imprensa da moça, descendo o sarrafo em Dilma Roussef. Assim, as declarações da veneranda senhora Regina Duarte reproduzidas com outra signatária. Invenção.



Deveriam ter tentado Ana Maria Braga. Em meio a uma receita de bolo ou coisa que o valha, dispararia seus medos. Com o cuidado, evidente, de não ter entre os convidados o jogador Petkovick. O moço disse a Ana que ao contrário do que havia sido afirmado pela apresentadora, não nasceu num país pobre, pois o “socialismo dava educação, saúde e emprego às pessoas, ao contrário de hoje, drogas, prostituição, etc”.



A verdade é que José Arruda Serra nem chuta no barril, tampouco mira a bandeira de corner, muito menos treina de touca. É um escárnio que num país como o Brasil uma figura dessas possa pretender ser presidente da República. Causa engulhos a possibilidade de imaginar que isso possa vir a acontecer, pois cada vez é mais remota essa possibilidade.



Mas é preciso não dormir de touca. São trapaceiros lato senso, não vão medir esforços e nem trapaças para tentar alcançar o objetivo.



Existe ainda uma boa parte do patrimônio público para ser vendido (a PETROBRAS e o BANCO DO BRASIL, por exemplo), rende uma bela propina e o Brasil é vital para a política de recolonização da América Latina pelos EUA. Arruda Serra é “funcionário” de Washington.



Jaburu e Escurinho foram profissionais dignos e honrados no exercício de suas profissões. O técnico Baroninho pode até ter razão. Mas a quadrilha tucano/DEM, com Roberto Freire capitaneando o PPS não dorme de touca.



Leva a sério o parecer de Roberto Campos a Paulo Maluf sobre investir cem milhões para ser presidente. O rendimento em cima do capital em quatro anos proporciona ganhos de dez vezes sobre esse capital.



E isso na década de 80, hoje o ganho é maior. E por trás de José Arruda Serra o golpe de 1964 com todo o seu aparato repressor e corrupto, comandado de fora, em nova roupagem.



Quem dorme de touca é quem acredita nisso, nessa gente.



E tem outra, a disputa eleitoral não tem só para contrapor-se a José Arruda Será a candidata Dilma Roussef. Pelo menos, além de Marina da Silva (a verde que está vermelha com os seus financiadores), tem Ivan Pinheiro, Plínio de Arruda Sampaio e José Maria. Todos esses três, em seus programas e em suas condutas, passado, são figuras dignas e brasileiros maiores que qualquer bandido tucano, exatamente por serem brasileiros e não “brazileiros”.

*Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no “Estado de Minas” e no “Diário Mercantil”. É colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?

CONVIVENDO COM FANTASMAS

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"Avancem para águas mais profundas" (Lucas 5,4)

Lúcia Nobre

Estava preparando o almoço, exatamente às 11 horas da manhã, em meu apartamento na praia de Pajuçara. Prédio antigo, já devem ter passado por ele, habitado ali, muitas pessoas que já se foram.

De repente, ouvi, vindo dos quartos ou banheiros, um sussurro de alguém como se estivesse muito cansado. Estremeci de medo, estava sozinha. E logo eu, que tenho medo dessas coisas, acredito nelas. Sou brasileira e mística. Podia ser alguém de casa, pensei. Não, não havia ninguém em casa, tinha certeza. Todos saíram. Todos? Estava mesmo sozinha? Parece que agora não mais estava. Para disfarçar, continuei o meu trabalho e pensei: ficarei só na cozinha. Não podia ficar só na cozinha, os banheiros teriam de ser lavados. Fortifiquei-me de coragem e fui. Entreguei-me à sorte. Nada aconteceu, só o medo. Que coisa feia, uma mulher adulta, mãe de filhas jovens, ficar com medo de fantasmas! Pensei mais uma vez, vou escrever sobre isso, será interessante. Peguei a caneta e o papel, comecei a escrever.

Ouvi os passarinhos espantarem-se. Eles estavam na área de serviço. Então, o barulho antes ouvido seria dos passarinhos? Claro que não. Estavam em outro ambiente. Continuei a escrever. Agora não estava com muito medo, queria mesmo que o fantasma desse sinal de vida. De vida? Sim, para que minha história se tornasse mais real. Eis que surge em minha frente... estava eu sentada no sofá da sala. Vi-me frente a frente com uma mulher bem alta, elegante, e dizia:

-Não deseje isso. Não é bom para nós, pessoas não mais terrenas.

- Não desejei nada, quem é você? Quis mentir diante do seu olhar instigador.

- Não minta, você quis a minha presença para tornar real sua história.

- Desculpe, achei impossível, por isso pensei.

Diante dessa situação, estava tremendo de pavor e pedi:

- Vá embora, não a chamei, perdoe-me.

- Agora é tarde, não poderei mais partir. Eu já morava aqui, só que ninguém antes havia desejado minha presença.

Eu não sabia o que fazer, não adiantava gritar, seria ridículo, ninguém acreditaria, poderia passar por uma louca gritando sem motivos. Esforcei-me e levantei-me. Ali, ela continuava a encarar-me, peguei uma panela de água quente no fogão e conjeturei: não adianta jogar porque é um espírito. Com o coração na mão, levei a água para matar os germes dos banheiros. Olhava só para frente, evitava olhá-la. Não sabia mais o que fazer diante daquela situação inusitada. Talvez pudesse sair de mansinho pela porta da frente.

Parecendo ler meu pensamento falou:

- Não adianta fugir, já lhe falei. Estarei sempre aqui, serei sua companheira quando estiver sozinha.

- Não acredito mais nisso. Acho que estou apenas imaginando tudo isso.

- Acredita agora? Disse a mulher, jogando ao chão um jarro de flores que estava sobre o centro da sala.

- Então diga o que quer. Reza? Diga o que posso fazer por você.

- Não pode fazer nada. Sou uma escrava de mim mesma. Vivi pouco nesta terra. Fui antes do tempo. Morei aqui logo que o edifício foi construído, talvez, uma das primeiras moradoras. Fiquei amarrada nestas quatro paredes por algo que não precisa saber. Não sairei jamais a não ser que ...

- Não acredito em nada que está falando, desapareça da minha frente.

- Só desaparecerei com uma condição.

- Uma condição? Fale que tenho muito que fazer.

- Troco minha vida por alguém de sua casa.

- Que história é essa? Não estou entendendo.

- Está sim.

- Pelo amor de Deus vá embora, deixe-me em paz.

- Deixe Deus fora disso. Ele não tem nada com isso, nem sei se ele existe.

- Claro que existe.

- Então, eu saio e levo uma pessoa sua.

- Vá embora que irei procurar algo que lhe devolva a paz.

- Não adianta. Sempre vou estar aqui enquanto não levar alguém. Este é o meu castigo ou o seu.

Apesar de insistir que vai ficar, a mulher como um relance, desaparece. E eu, como se tivesse despertado de um pesadelo, corri para atender à porta, pois a minha filha chegara do colégio. Não sei como nem porque esqueci o episódio vivido e não dei mais importância ao fato.

Passaram-se alguns dias até que eu ficasse sozinha novamente. Dessa vez, estava no computador retocando uns trabalhos. Senti um frio fora de comum. Pegando no meu pescoço, uma criança que nem sorria tal qual a mulher do outro dia. Dirigia-me a palavra com voz imperativa.

- Já resolveu? - Vai atender ao meu pedido?

Quis correr, quis gritar, aquela presença causava-me uma sensação horrível de medo, quase pânico.

- Não sei do que está falando. Quem é você ?

- Você já me conhece. Já lhe falei outro dia.

- Nunca o vi, por favor, vá embora.

- Estou como criança. O espírito não possui forma. Posso aparecer como mulher, como homem, como criança e até como animal.

- Quer reza. Vou mandar benzer este apartamento.

- Já falei o que quero e se não me entregar alguém da família, quero você mesma. Resolva, a decisão é sua. Não tenho muito tempo a perder.

Sai de relance, desta vez deixando um insuportável calor. Procurei ajuda de pessoas religiosas e, mesmo com rezas, não deixei de receber visitas inesperadas e indesejáveis. Desta vez, como da primeira, ouvi os pássaros movimentarem-se na área de serviço, onde eles ficam em suas gaiolas. Estremeci, porque, como das outras vezes, estava só. Até então não contei nada a ninguém. Fiquei com o pensamento que poderia estar imaginando. Fiz um esforço enorme e olhei em direção às gaiolas dos passarinhos. No lugar do passarinho preferido do meu marido, havia apenas um som que não era do passarinho.

- Não avisei? Este é apenas um aviso. Levei o passarinho, ele não voltará mais.

- Por quê? O que tem o passarinho com sua vida?

- Nada. É um aviso, já lhe falei. O próximo pode ser alguém de sua família.

Some a voz e também o passarinho, que não está mais na gaiola. Quando meu marido chegou, pediu explicação e eu apenas falei que não sabia de nada. Ele, inconformado, não entendia como o passarinho desaparecera da gaiola se esta permanecia com a porta fechada. Eu, para disfarçar, brincava: são mistérios...

- Filha, tem certeza que não abriu a gaiola? Perguntou quase sem prestar atenção na resposta, pois eu nunca havia chegado perto das gaiolas. Só ele cuidava dos passarinhos e com muito amor. Quantas vezes o surpreendi conversando com passarinhos ou mesmo colocando remédio em seu bico.

Imediatamente, sem nada comentar sobre o ocorrido, convenci a todos de casa a procurarmos outro apartamento, não dava mais para morar ali. O passarinho sumiu, não era minha imaginação, poderia acontecer coisa pior. Todos concordaram em procurar outro apartamento.

Quando estávamos nos preparando para nos mudar, estava eu sozinha quando a voz surgiu novamente. A mesma voz sem um corpo. Foi aterrorizante. Parecia um filme de terror.

- O passarinho sumiu, foi substituído por alguém da casa, mas vocês vão ter uma surpresa bastante desagradável. Aguardem.

A voz cala-se e, como se o filme de terror chegasse ao auge, entram por baixo da porta da frente diversas baratinhas que, imediatamente, invadem todo o apartamento, deixando-me atordoada, até angustiada. Dessa vez não pude esconder porque, como uma praga, elas invadiram e não houve veneno que as destruísse. A família, toda apavorada, sem demora, abandonou o apartamento. Ali não dava mais para continuar. Não contamos nada a ninguém, fomos embora e nos livramos dos fantasmas.

Alagoas na Net

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Maria Lúcia Nobre dos Santos, professora da Rede Estadual de Ensino do Estado de Alagoas e Rede Municipal de Ensino de Maceió. Autora do livro “Do índio a Collor”. Sergasa, 1992: resumo dos principais acontecimentos políticos, econômicos e sociais do Brasil. Especialização e Mestrado em Letras. Área de Concentração: Literatura Brasileira/UFAL. Dissertação do Mestrado: “A recriação do sertão no verso e na prosa - A harmonia da arte popular e erudita: uma incursão na tradição cultural brasileira na contística de Guimarães Rosa”, UFAL, 1999. Redação que se transformou no livro: A Arte Rosa do Popular ao Erudito. Edufal, 2000. Articulista, colabora com revistas e jornais impressos e internéticos. Perfil mais amplo de Lúcia Nobre pode ser lido no Portal Maltanet

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Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons

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