O MEDO QUE A ELITE TEM DO POVO É MOSTRADO AQUI

A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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Peço que, quem queira continuar acompanhando o meu trabalho, siga o novo blog.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Mais de 5,5 mil cartórios ficarão sem donos

Fim da farra nos cartórios

Após irregularidades, CNJ declara aberta a titularidade de 5.561 repartições no país. Rendimentos de R$ 5 milhões mensais farão da seleção a mais concorrida da história

Por Victor Martins, no Correio Braziliense - 13/07/2010

"Houve uma cultura cartorialista de
transmissão de pai para filho, de
acobertamento e de omissão", diz Dipp
Acabou a farra de tabeliães que atuavam como donos de cartórios, tinham faturamento milionário e deixavam a própria função como herança para os filhos. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) declarou como aberta a titularidade de 5.561 dessas repartições e mais mil casos estão sob a lupa do corregedor nacional da instituição, o ministro Gilson Dipp. A investigação que levou a esse desfecho revelou ainda a existência de 153 cartórios fantasmas — eles não tinham autorização do Judiciário para funcionar ou emitir documentação, mas rendiam milhões para os notários dessas praças. Com a decisão, os tribunais de Justiça estaduais têm seis meses para realizar concurso e preencher as vagas.

Quando esses processos seletivos forem abertos, serão os certames mais concorridos e desejados da história do país. Considerado um dos melhores empregos do mundo, dependendo da região, o titular de um cartório chega a ter rendimentos mensais superiores a R$ 5 milhões. A quantidade de oportunidades para os que têm interesse em ser um tabelião-chefe era, no início do ano, de 7 mil vagas — número de cartórios considerados sem titular. Mas o CNJ precisou abrir prazo para que essas pessoas tentassem comprovar que estavam dentro da legislação e cerca de 1,5 mil escaparam da degola.

Limitação
Paraná, Pernambuco, Acre e Amazonas são os campeões de irregularidades. No Distrito Federal, nenhuma repartição entrou para a lista do conselho de Justiça. “Enquanto os concursos não forem realizados, os interinos permanecem na vaga”, explicou o ministro Dipp. “Mas eles vão ter que ficar limitados ao teto constitucional quanto aos rendimentos. Para os estados, o valor é de R$ 24.117,62”, disse. De acordo com a legislação, os concursados que estão no cargo atualmente e os que venham a realizar o certame não terão limite para ganhos. Os tribunais que não promoverem provas e análise de títulos, segundo Dipp, estarão cometendo infração e serão acusados de improbidade administrativa.

Entre as irregularidades encontradas, o corregedor do CNJ destaca a permuta entre cartórios. O filho de um tabelião-chefe, por exemplo, realizava concurso para uma repartição do interior de alguma unidade da Federação e tomava posse no cargo. Depois, era transferido para o cartório do pai e assumia a titularidade do lugar. Pelo esquema, o antecessor passava o trono para o herdeiro e se aposentava depois de anos de lucros exorbitantes no serviço público.

Fantasmas
No caso das repartições fantasmas, elas surgiam, na maioria dos casos, quando um município era emancipado ou o cartório, desmembrado. O titular abria uma espécie de filial e a titularidade do lugar ficava para um parente ou um amigo. Nos tribunais de Justiça, responsáveis pela fiscalização e pela autorização desses cartórios, não existia um único papel que certificasse o nascimento da repartição. Os documentos eram emitidos por um local sem poder para tal. O CNJ garante que os cidadãos que usufruíram de serviços dos fantasmas não precisam se preocupar. Nenhum documento será invalidado, a não ser os que forem considerados fraudulentos.

“Houve uma cultura cartorialista de transmissão de pai para filho, de acobertamento e de omissão por parte da administração do Judiciário”, criticou Dipp. Para ele, os legislativos e executivos estaduais também tiveram sua parcela de culpa na farra dos notários. “Algumas pessoas se acham donas de um serviço público que foi delegado a elas e isso tornou a situação caótica”, ponderou. O Correio procurou a Associação dos Notários e Registradores do Brasil (Anoreg), mas a entidade preferiu não se pronunciar sobre o caso.

SEM CHORO
» Notários de diversos cartórios que perderam a titularidade a partir da decisão do CNJ afirmam que a situação é arbitrária. Eles alegam ter direito adquirido sobre o cartório por estarem na função há muitos anos. O corregedor do conselho de Justiça, o ministro Gilson Dipp, discorda. Para ele, a legislação é clara e diz que para exercer a titularidade de um cartório isso só poderá ocorrer por meio de concurso público. “Essas pessoas podem discutir isso em termos jurídicos. Mas na minha opinião, não há direito adquirido frente o que manda a Constituição”, afirmou. Ainda segundo o corregedor, as eleições não devem atrapalhar a realização do concurso. No máximo, poderá atrasá-lo em alguns dias. (VM)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

"Utopia e barbárie"

"Utopia e barbárie"

Por Laerte Braga (*)


O diretor Sílvio Tendler não imaginava que o goleiro Bruno do Flamengo pudesse vir a ser o personagem principal do FANTÁSTICO da REDE GLOBO. Uma espécie de revista eletrônica, com direito a todo o aparato tecnológico que os dias de hoje permitem que se transforme da vida um mero espetáculo de vulgaridade.



Ao conceber e dar vida a UTOPIA E BARBÁRIE traçou em paralelo entre o que é humano e o que é inumano. Trouxe de volta a História.



Não sei se Kierkegaard se referia ao dizer que “vivemos para a frente, mas só podemos compreender para trás” ao fogo, por exemplo. Ou ao sonho, na tentativa de mostrar o caráter unidirecional do tempo. Um certo desânimo na escuridão de janelas fechadas e pregadas, no receio de se poder enxergar uma réstia de luz.



Um amigo me disse que existe uma certa ingenuidade em acreditar na UTOPIA. Em tom de brincadeira acrescentou que era mais fácil transformar essa “ingenuidade” numa loura siliconada e exuberante em cada ponto e canto e pronto, o problema do vazio estaria resolvido.



Só que a BARBÁRIE é real. Não é loura, não usa silicone e tampouco conhece botox.



E nem a UTOPIA é uma ingenuidade. É o ser humano e olhar o mundo com olhos de gente.



O resgate histórico do filme é compreender para trás e tentar viver para a frente. Nisso não há ingenuidade alguma. Nem desânimo.



“Pão para o corpo e pão para o espírito. Nossa escolha é entre o pão e a estopa. E a estopa não é preciso acrescentar, que nós quase unanimemente escolhemos”. Huxley em O MACACO E A ESSÊNCIA.



A compreensão para trás se delineia mostrada, exposta, exibida.



O sonho, a UTOPIA, “e os ecos dos trovões e dos tiros têm o som de desmoronamento de montanhas. O exército de Zapata, abaixo fazendas, viva povos, abre caminho rumo à cidade do México”. Galeano.



Não enxerguei em UTOPIA E BARBÁRIE só os contrastes. Prefiro o olhar que “é tempo de andar e lutar”. O mesmo Galeano, O SÉCULO DO VENTO.



A linguagem de Tendler é a do desnudar indignado a realidade BARBÁRIE do espetáculo que “constitui o modelo atual da vida dominante na sociedade. É a afirmação onipresente da escolha já feita na produção e o consumo que decorre dessa escolha”. Débord.



A afirmação da História.



O mesmo cineasta, Tendler, dá conta que no jornal EL MERCURIO, chileno, as forças armadas daquele país se desculparam publicamente pelo assassinato do general Carlos Pratts e sua esposa, por militares da BARBÁRIE de Pinochet. A nota fala em vergonha diante de tal procedimento. Por aqui continua o silêncio mortal da BARBÁRIE guardada em arquivos.



Pratts tinha a integridade da UTOPIA. Não se trata de almoçar enquanto se aguarda o juízo final. Não há tempo.



“É tempo de andar e lutar”.



É evidente que existe uma pedagogia da indignação que se mistura a outra do sonho e que não se cala atemorizada no grito estúpido dos fuzis.



Essas pedagogias estão no filme de Tendler. Não é necessariamente didatismo, longe disso.



O didatismo nessa forma seria como que entrar na fila e esperar a hora da execução.



Os camelôs de Contagem, município mineiro que forma a Grande Belo Horizonte, estão tendo lucros elevados com um filme estrelado por Eliza Samudio. Na capa o retrato do goleiro Bruno, cópia pirata, batendo recordes de encomendas em bancas de jornais.



O filme de Tendler são os olhos firmes e o dedo em riste apontando a História.



Não há diferença alguma entre o FANTÁSTICO, que chamam de “show da vida” e os jornaleiros que vendem os exercícios sexuais de Eliza Samudio.



E daí, solta Bruno por que a moça era assim?



Em cena a UTOPIA. A capacidade de abrir a janela enxergar a roseira e olhar o caminho sentindo a dor de cada pedra, ou grão de areia. Proclamar-se humano e vivo diante da BARBÁRIE.



Resistir.



Uma denúncia, falo do filme? Nem tanto, uma constatação histórica que a UTOPIA não é tanto utópica se nos voltarmos para o caráter humano do ser, mas a BARBÁRIE é a realidade que nos massacra.



Hiroshima ou Nagazaki. O Vietnã, ou o Iraque. Os campos de concentração recheados de judeus, negros, ciganos, hoje os palestinos.



Sílvio Tendler foi além de Kulbrick em DOUTOR FANTÁSTICO. Não importa que os gêneros sejam diferentes. As essências são idênticas. As genialidades também.



Kulbrick sugeriu num dos seus personagens a volta às cavernas. Um general preocupado com a segurança nacional.



Tendler mostrou as cavernas repletas de BARBÁRIES.



E um extraordinários espaços de luzes.



Se percorrido terminamos na UTOPIA, campos floridos e plenos de amor e vida.



Olhar o outro. Compreender todo o complexo montado para sustentar o show da BARBÁRIE.



Bruno é só uma conseqüência num determinado plano e um desvio noutro. Mas, ambos, têm a mesma raiz.



UTOPIA E BARBÁRIE resta sendo o tempo de uma geração que teima em resistir, porque é preciso resistir.



Deveria fazer parte do currículo das escolas de todos os cantos. Com direito a uma hora de meditação depois.



E a opção. Ou UTOPIA, ou a BARBÁRIE. Aí sim, pausa para o almoço.



Ao molho pardo nos palácios sombrios da BARBÁRIE, ou nos escombros do seu entorno. Ou a vida em seu sentido e sua razão de ser na UTOPIA.



Se a felicidade é impossível por ser a soma de todas as pulsões como imaginava Freud, a um só tempo, e assim a morte, a UTOPIA certamente tem espinhos, mas tem também todas as cores e matizes do ser.



E aí, a meu juízo, o segredo do filme. A chance do saber e a perspectiva real da escolha. A herança de uma geração repartida em forma de imagens e servida à mesa num extraordinário trabalho de afirmação da crença na UTOPIA.




*Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no “Estado de Minas” e no “Diário Mercantil”. É colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”

Vida e obra (lato sensu) de Roberto Freire, presidente nacional do PPS, facção do PSDB-DEM

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Texto do jornalista Sebastião Nery sobre a vida e obra de Roberto Freire. O PCB segue na luta pelo socialismo no Brasil e no Mundo. Em 2009 realizamos o XIV Congresso Nacional que marcou a reconstrução revolucionária do Partidão. Agora, em 2010, lançamos chapa própria para as eleições gerais.

Vida e obra de Roberto Freire - A estranha história de Roberto Freire

Sebastião Nery
(Data incerta e não sabida)


O único político brasileiro da oposição (que se diz da oposição) que aplaudiu José Serra, o Elias Maluco eleitoral, por ter anunciado que agora é hora de destruir Lula, foi o senador Roberto Freire, presidente do Partido Popular Socialista (PPS, a sigla que sobrou do assassinato do saudoso Partido Comunista, melhor escola política brasileira do século passado). Disse: "Serra presta um serviço à democracia".

Para Roberto Freire, "desconstruir", destruir, eliminar o principal candidato da oposição e das esquerdas (com 42% nas pesquisas) é um "serviço à democracia". Gama e Silva nunca teve coragem de dizer isso. Armando Falcão também não. Nem mesmo Newton Cruz. Só o delegado Fleury. Ninguém entendeu. Porque não conhecem a história de Roberto Freire.

Aprovado pelo SNI

Em 1970, no horror do AI-5, quando tantos de nós mal havíamos saído da cadeia ou ainda lá estavam, muitos sendo torturados e assassinados, o general Médici, o mais feroz dos ditadores de 64, nomeou procurador (sic) do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) o jovem advogado pernambucano Roberto João Pereira Freire, de 28 anos.

Não era um cargozinho qualquer, nem ele um qualquer. "Militante do Partido Comunista desde o tempo de estudante, formado em Direito em 66 pela Universidade Federal de Pernambuco, participou da organização das primeiras Ligas Camponesas na Zona da Mata" (segundo o "Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro", da Fundação Getulio Vargas-Cpdoc).

Será que os comandantes do IV Exército e os generais Golbery (governo Castelo), Médici (governo Costa e Silva) e Fontoura (governo Médici), que chefiaram o SNI de 64 a 74, eram tão debilóides a ponto de nomearem procurador do Incra, o órgão nacional encarregado de impedir a reforma agrária, exatamente um conhecido dirigente universitário comunista e aliado do heróico Francisco Julião nas revolucionárias Ligas Camponesas?

Os mesmos que, em 64, na primeira hora, cassaram Celso Furtado por haver criado a Sudene, cataram e prenderam Julião, e desfilaram pelas ruas de Recife com o valente Gregório Bezerra puxado por uma corda no pescoço, puseram, em 70, o jovem líder comunista para "fazer" a reforma agrária.

Não estou insinuando nada, afirmando nada. Só perguntando. E, como ensina o humor de meu amigo Agildo Ribeiro, perguntar não ofende.

Sempre governista

Em 72, sempre no PCB (e no Incra do SNI!) foi candidato a prefeito de Olinda, pelo MDB. Perdeu. Em 74, deputado estadual (22.483 votos). Em 78, deputado federal, reeleito em 82. Em 85, candidato a prefeito de Recife, pelo PCB, derrotado por Jarbas Vasconcellos (PSB). Em 86, constituinte (pelo PCB, aliado ao PMDB e ao governo Sarney). Em 89, candidato a presidente pelo PCB (1,06% dos votos).

Reeleito em 90, fechou o PCB em 92, abriu o PPS e foi líder, na Câmara, de Itamar, com cujo apoio se elegeu senador em 94 e logo aderiu ao governo de Fernando Henrique. Em 96, candidato a prefeito de Recife, perdeu pela segunda vez (para Roberto Magalhães).

Agora, sem condições de voltar ao Senado, aliou-se ao PMDB e PFL de Pernambuco, para tentar ser deputado. Uma política nanica, sempre governista, fingindo oposição.

Agente de FHC

Em 98, para Fernando Henrique comprar a reeleição, havia uma condição sine qua non: impedir que o PMDB lançasse Itamar candidato a presidente. Sem o PMDB, a reeleição não seria aprovada. Mas o PMDB só sairia para a candidatura própria se houvesse alianças. E surgiram negociações para uma aliança PMDB-PPS, uma chapa Itamar-Ciro.

Fernando Henrique ficou apavorado. E Roberto Freire, agente de FHC, o salvou, lançando Ciro a presidente. Isolado, o PMDB viu sua convenção explodida pelo dinheiro do DNER, Itamar sem legenda e a reeleição aprovada.

Durante quatro anos, Roberto Freire saracoteou nos palácios do Planalto e da Alvorada, sempre fingindo independência, mas líder da "bancada da madrugada" (de dia se diz oposição, de noite negocia no escurinho do governo).

Quinta-coluna

No ano passado, na hora de articular as candidaturas a presidente, o PT (sobretudo o talento e a competência política de José Dirceu) começou a pensar numa aliança PT-PPS, para a chapa Lula-Ciro. Itamar disse que apoiava. O PSB de Arraes também. Fernando Henrique, o PSDB e Serra se apavoraram. Mas Roberto Freire estava lá para isso. Novamente lançou Ciro, para impedir uma aliança das oposições com Ciro vice de Lula.

Fora dos cálculos de FHC e Roberto Freire, Ciro começou a crescer. Mas, quando o PFL, sem Roseana, quis apoiar Ciro, dando espaços nos estados e na TV, Roberto Freire, aliado em Pernambuco de Marco Maciel, o líder da direita do PFL, vetou o PFL com Ciro. Como se chama isso? Uns, "agente". Stalin chamava "quinta-coluna".

PCB – Juiz de Fora (MG)

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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PressAA

Agência Assaz Atroz

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Blogosfera progressista e independente merece ser considerada patrimônio imaterial da democracia!

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Dias atrás, coloquei a frase-título acima no twitter e a difundi em outras redes sociais, mas sem explicar exatamente o que quero dizer com isso.

Hoje, a atuação da mídia independente, cuja maior força e origem está nos blogs, que, especialmente após 2005 e o aprofundamento da tentativa de golpe branco da grande mídia naquele ano, tornaram-se verdadeiros guardiões da democracia, ao clamar pela verdade e atuar inicialmente fiscalizando os erros da Imprensa, disseminando a "outra opinião" oculta pela grande mídia, para depois tornarem-se paulatinamente geradores de conteúdo também.

Hoje, a expressão da mídia independente e progressista já é consolidada e reconhecida por boa parte da sociedade. Muitas pessoas circulam nos seus e-mails reportagens e postagens surgidas na mídia independente, muitos nomes que atuam por aqui possuem credibilidade muito superior à mídia tradicional.

Porém, há ainda grande preconceito que pode ser notado especialmente no bloqueio de acesso na maioria das empresas: é possível se ler reportagens nos portais da grande mídia, mas não no seu blog preferido. Os RSS quebram um galho, permitem a você dar uma volta e acessar o twitter (caso seja liberado) faz você ficar minimamente inteirado, mas, enfim, os blogs são tratados como algo "nocivo" pelas empresas.

Esse hábito que milhares de pessoas Brasil afora, a maioria não sendo jornalistas, de criar conteúdo alternativo, criticar a grande mídia e fiscalizar não apenas a grande imprensa como várias outras funções, uma imensa variedade de expressões e opiniões, sobre todos os tema é, de fato, uma expressão cultural de grande valia para nossa sociedade. Precisa ser reconhecida como tal, e valorizada, incentivada.

A circulação de conhecimento e conteúdo que ocorre por milhares e milhares de pessoas que voluntariamente dedicam parte de seu tempo e capacidade intelectual para compartilhar informação, idéias e opiniões deve sim ter seu reconhecimento e espaço garantido.

Sobretudo, essa enxurrada de conteúdo que voluntariamente circula pela rede diariamente deve ter seu devido reconhecimento proposto ao Ministério da Cultura, inclusive na formulação de novas iniciativas (já ocorreram premiações para blogs tanto de iniciativa de dentro da internet e até um edital do próprio Ministério da Cultura, mas, acredito, que há um grande hiato no incentivo na participação de empresas na geração desse conteúdo) e na estruturação de boas iniciativas que já se consolidaram de maneira voluntária. O próprio Ministério da Cultura deveria disseminar incentivos para geração de conteúdo independente em multimídia, com a promoção de editais os mais variados, incentivando a participação de internautas e premiando as melhores e mais qualificadas idéias.

Ter o reconhecimento como patrimônio cultural e pilar da democracia no Brasil (e claro, da defesa da democracia mundo afora) significa que, além de deixar de ser tratado como um "gueto", gerará conteúdos com perfil cada vez mais profissionalizado e de credibilidade mais consolidada, além da própria profissionalização de geradores de conteúdo, e a entrada definitiva do apoio de empresas (não diretamente, o que pode gerar conflito de interesses, mas também através de prêmios de qualidade, injetando recursos para quem merece ter o esforço premiado e transformado em algo mais profissional e competitivo), através das leis de incentivo cultural existentes.

Acredito que no Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas, que ocorrerá de 20 a 22 de agosto próximo em Brasília, este seja um dos temas em pauta, a importância do reconhecimento oficial, das empresas e da sociedade da importância da atuação independente e da "outra opinião" no Brasil, que é fundamental para a radicalização da democracia e da transparência, da aceleração da descentralização do poder dos grandes grupos de comunicação.

Sérgio Telles

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Ilustração:AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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PressAA

Agência Assaz Atroz

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Lula em quadrinhos - Cap. 22 - Álbum de família

Clique para ampliar.
Estas fotos são parte integrante do gibi "Lula: a história de um vencedor", lançado em 2002. A liberação dos direitos autorais é uma cortesia de seu autor, o cartunista Bira Dantas, colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.

domingo, 11 de julho de 2010

Democracia de araque

Democracia de araque

Por Mario Augusto Jakobskind (*)

Enquanto a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) se manifesta quase diariamente contra supostas restrições à liberdade de imprensa na Venezuela, Bolívia, agora Equador e a legislação midiática aprovada na Argentina, o mesmo tom não é adotado em países como o México, onde o panorama nesse campo é bastante desabonador. A grande mídia conservadora prefere seguir os passos da SIP e não proclama editoriais para denunciar o que está ocorrendo no país governado por Felipe Calderón.

E o que está acontecendo nas plagas astecas? Um das questões diz respeito às verbas publicitárias do Estado. As publicações que não rezam pela cartilha de Calderón não recebem publicidade estatal. Mais de cem cerraram suas portas e outras são obrigadas a despedir jornalistas por não terem como arcar com as despesas de contratação dos trabalhadores.

A Revista Mexicana de Comunicação, com 26 anos de existência, é um dos exemplos concretos da ação do caldeirismo, ou seja, por ter uma linha editorial crítica e de análise sobre o bom comportamento de certos órgãos de imprensa em relação ao Presidente Calderón, o governo mexicano ordenou a suspensão da publicidade para o órgão de imprensa agora ameaçado de fechamento.

Também no México, que vive uma guerra de máfias, dezenas de jornalistas foram assassinados nos últimos tempos e dificilmente os responsáveis pela violência são punidos. Na época da hegemonia do Partido Revolucionário Institucional, o PRI, que governou o México seguidamente por mais de meio século, jornalistas que cobriam as esferas do poder recebiam a cada fim de ano um envelope com dinheiro. Quem não seguisse a rotina se via ameaçado de perder o emprego e se fosse mais ousado, a própria vida. Pode-se imaginar o tipo de cobertura que ocorria nos referidos espaços.

Com Calderón, cujo Partido Ação Nacional, desde o anterior Presidente Vicente Fox, se apresentava como alternativa “moralizadora” e tudo mais, praticamente nada mudou, quem não reza pela cartilha do PAN corre o risco de perder publicidade necessária para a continuidade da publicação.

Mas a SIP não está nem aí, muito menos em relação ao que ocorreu na semana que passou na CNN, onde a editora sênior para assuntos do Oriente Médio, Octavia Nasr, foi sumariamente demitida por ter elogiado o guia espiritual do Hezbollah, Mohammed Hussein Fadlallah, morto há poucos dias. Nasr desagradou o lobby judaico e o governo Obama, que consideravam o clérigo um “terrorista”.

Por falar em Oriente Médio, a rádio do Exército de Israel, segundo divulgou o jornal Ha’aretz, o Estado hebreu enviou documentos secretos aos Estados Unidos confirmando a assinatura de um acordo de cooperação nuclear entre os dois países. Pelo acordo, os EUA se comprometem a vender a Israel materiais para produzir energia, tecnologia nuclear e outros suprimentos. E isso apesar de Israel não ter assinado o Tratado de não Proliferação Nuclear. Vários países se recusaram a fazer acordo com Israel exatamente por isso, mas Washington ignorou o fato.

Especialistas asseguram que Israel agora fica no mesmo patamar da Índia e do Paquistão, que não assinaram o Tratado e têm a bomba atômica.

Ao mesmo tempo em que isso acontece, Madame Hillary Clinton correndo o mundo continua a demonizar o Irã por causa da energia nuclear. Clinton removeu montanhas para que o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovasse as sanções contra Teerã, já o aliadíssimo Israel...

Enquanto a Justiça argentina julga o ditador Rafael Videla por mais assassinatos durante os anos de chumbo na Província de Córdoba foi divulgada a informação segundo a qual entre militares e civis 779 são acusados de cometerem crimes de lesa humanidade na ditadura militar entre 1976 e 1983. Entre eles 464 estão detidos, sendo que mais da metade se encontram em unidade penitenciárias e 39% em prisão domiciliar. Mais de 300 ainda estão para ser indiciados.

No Chile, o general da reserva Manuel Contreras, ex-chefe da polícia políitica do ditador Augusto Pinochet foi condenado a cumprir 20 anos de prisão pelo assassinato em Buenos Aires do general Carlos Prats e senhora Sofia Kuthbert. O assassino Contreras, responsável por outras mortes, tem 81 anos e vai morrer na prisão.

Já no Brasil, entretanto, o papo é outro, pois os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram que a anistia decretada em 1979, em plena ditadura, contempla a quem cometeu crimes contra a humanidade.


Em tempo: Lula fez um gol de placa ao sugerir que a CBF promovesse eleição pelo menos de oito em oito anos para a presidência da entidade. Pois é, que história é essa de a Era Ricardo Teixeira se eternizar? E agora Teixeira está fazendo lobby dos grupos que querem privatizar os aeroportos. A Argentina fez isso com Carlos Menem e os serviços pioraram. Por aqui, as privatizações em setores vitais só fizeram também piorar os serviços. Mas a grana é alta e contempla os lobistas


*Mário Augusto Jakobskind é jornalista, mora no Rio de Janeiro e é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de S. Paulo e editor de Internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, dentre outros livros, de “América que não está na mídia” e “Dossiê Tim Lopes – Fantástico / Ibope”. É colunista do site “Direto da Redação” e colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.

Charges: Carlos Latuff e Bira Dantas, respectivamente.

Jornal Online ganha na França

Jornal Online ganha na França

Por Rui Martins (*)

Berna (Suiça) - Muita coisa se tem escrito sobre a transição da mídia papel para a eletrônica e as indagações mais comuns são se o jornal virtual ou portal eletrônico na Internet consegue ter assinantes e se poderá provocar o mesmo impacto do jornal impresso.

A atualidade francesa nos permite uma resposta clara e precisa – o portal ou jornal eletrônico online Mediapart provocou com suas revelações uma séria crise no governo do presidente francês Sarkozy e, em apenas dois anos de existência, reúne 30 mil assinaturas pagas. Toda atualidade política francesa destes últimos dias – rádios, tevês e jornais impressos – se baseia, cita ou se refere ao portal Mediapart.

Mediapart não tem versão impressa, emprega 25 jornalistas de investigação e se destina, como afirma na primeira página, a uma clientela insatisfeita com os jornais impressos e as informações na telinha, geralmente as versões online da mídia impressa francesa, dominada pelo presidente Sarkozy.

Um fato a destacar – o governo francês tenta minimizar a importância das acusações por terem como origem um site eletrônico, mas não consegue êxito nesse objetivo. Mediapart goza do mesmo peso e influência da mídia impressa e mostra a verdadeira dimensão da mídia do futuro, sem um suporte material e tátil porém com a mesma credibilidade.

Se, nos próximos dias, cair o ministro do Trabalho da França, Eric Woerth, responsável pelo projeto de reforma das aposentadorias não haverá nenhuma dúvida – será o resultado do fogo cerrado do jornal online Mediapart. Paralelamente ao lado político, constituirá a prova concreta de que a mídia eletrônica assumiu sua maioridade.

Talvez mal comparando, o Eu Acuso, de Émile Zola, foi o reconhecimento da força e importância na imprensa política escrita, enquanto a cobertura e denúncias da Mediapart no Caso Bettencourt, sobre fraude fiscal e financiamento do partido governamental na França, confirma o surgimento da informação política online paga pelo leitor e do portal eletrônico ou informação imediata online como a nova manifestação da imprensa de combate e de investigação.

Os esforços da China para controlar Google já têm mostrado que a Internet é um terreno difícil de censurar ou grampear. O advento do celular com chip pré-pago já havia posto em polvorosa os países totalitários e os serviços de inteligência, por permitir a circulação anônima do material contestatório e tornar quase impossível a identificação dos opositores e o controle total da população.

No Brasil, por exemplo, todos sabem da enorme influência das mensagens e-mail na desmoralização do governo FHC pelo PT, assegurando a primeira vitória de Lula. Nos dias de hoje, embora o uso das mensagens desmoralizantes tenham a mesma penetração e uso, entre lulistas e anti-lulistas, é a mídia convencional que se vê ultrapassada pelos blogs e pelos sites alternativos.

Não existe ainda um Mediapart do jornalismo investigativo brasileiro, pago por assinantes, porém será a próxima etapa. O alto custo de manutenção de um jornal impresso com circulação assegurada tem impedido a criação de um grande órgão diário de atualidades e informações independente pela esquerda, mas a Internet poderá permitir se superar essa lacuna.

Um exemplo atual de jornal híbrido com a parte mais forte eletrônica e uma parte impressa, é o Correio do Brasil, que acaba de passar por uma reforma em sua diagramação online, e cuja política é de investir mais no eletrônico que no papel. Porém, é um jornal gratuito vivendo de publicidade, mesmo porque no Brasil não são todos que podem acessar a Internet.

Edwy Plenel, criador e dirigente de Mediapart tem um currículum vitae de prestígio, pois foi chefe da Redação do Le Monde, tendo se destacado por reportagens investigativas durante o governo Mitterrand, que lhe valeram telefone e vida grampeados pelo serviço secreto francês.

Provocador, acha que a missão do jornalismo é a de permanecer alerta e de exercer um contra-poder em relação ao governo. Citando a Corte Internacional de Estrasburgo, Plenel afirma que o jornalista é o cão de guarda da democracia. Se o jornalismo é feito de maneira independente, sem compromissos com o governo ou com o poder econômico, o público se interessa, porém, hoje, na França (mas achamos que no Brasil também por razão diversa) o jornalismo está em crise, os jornais perdem leitores por não observarem mais essa independência.

Mediapart conseguiu sacudir a França - um verdadeiro eletrochoque provocado por um pioneiro jornal online eletrônico num país onde toda a imprensa está praticamente controlada pelo presidente Sarkozy. No Brasil, acontece praticamente a mesma coisa embora de maneira oposta – toda a grande imprensa convencional se desprestigia diante do povo por se submeter aos interesses de grupos econômicos, alguns estrangeiros, contra o presidente Lula, enquanto a mídia alternativa se afirma como informação de referência.

*Rui Martins é jornalista. Foi correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. É autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. É colunista do site "Direto da Redação" e vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, e com o blog "Quem tem medo do Lula?"

Serra em Bangu I

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Deu no Tijolaço do Brizola Neto

Povo grita Lula com estranha visão de Serra em Bangu

Desde ontem eu estava curioso para saber como tinha sido a incursão de Serra a Bangu, tradicional bairro operário do Rio de Janeiro, onde fica o Estádio Proletário de Moça Bonita, campo do Bangu Atlético Clube, time de meu avô aqui no Rio.

Como Serra se aventurou a andar de trem até Bangu, tinha minhas dúvidas de que passaria incólume pela população do bairro, politizada e sempre comprometida com as lutas populares. Procurei no Globo e nada. Olhei a Folha e também nada. As matérias davam a entender que a visita foi insossa, mas nada de extraordinário tinha acontecido. Os jornais apenas reproduziam uma declaração de Serra com críticas à atuação do governo Lula na educação, usando seu profundo argumento de que o que vem sendo feito é “trololó”. Olha só quem estava falando de educação!

Cheguei a pensar que a população talvez nem quisesse mesmo gastar esforço com Serra, mas um amigo me ligou perguntado se eu tinha lido o Valor. Embora preponderantemente um jornal de economia, O Valor tinha feito a melhor cobertura política da passagem de Serra pelo Rio. E lá estava registrado logo no título: “Em Bangu, Serra é lembrado por Saúde e ouve salvas a Lula”. (Como a edição online do Valor é exclusiva para assinantes, coloco aqui a reprodução da matéria extraída da Fecomércio).

E foi justamente na hora em que falava do trololó a jornalistas que “populares não o pouparam e gritos de Lula foram ouvidos diversas vezes”, conta o jornal. Acho que essa vai ser a sina de Serra por onde andar nesse país. Logo na sua primeira atividade de campanha, em Curitiba, ele ouviu gritos de “Dilma, Dilma”, daquela vez registrados por O Globo.

Serra em Bangu II



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ALDO E A MALDIÇÃO DO CURUPIRA

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Por José Ribamar Bessa Freire (*)

- Co-mu-nis-ta! Esse menino fala como um comunista – vociferou tio Esmeraldo, me censurando na varanda da casa da vovó Marelisa, na Rua Monsenhor Coutinho, 380, em Manaus. Vovó, alarmada, empalideceu. Naquela época, 1960, era um pecado mortal, um sacrilégio, ser ou parecer comunista, ainda mais numa família católica, apostólica e romana como a nossa, cheia de padres e freiras.

Foi um comunista, o Luiz Barbeiro, que convenceu o Leno, da Vila Rezende, a esconder no bolso uma hóstia consagrada, de onde jorrou sangue – dizem, eu não vi – manchando sua calça, antes de sair gotejando sobre os trilhos de bonde da Rua Alexandre Amorim. A prima do Leno, Rosilene Cabral, ex-professora do SESC, que está aí mesmo e não me deixa mentir, foi quem lavou a roupa e jura que a mancha só saiu com água benta.

Afinal, como é que eu, um menino de 12 anos, temente a Deus, podia concordar com os comunistas, cuja doutrina ignorava, e que ainda por cima tinham fama de profanadores de hóstia? Tudo começou no dia em que presenciei um parente extremamente pobre, Raimundo Cyrino, contar pra vovó, aos prantos, como os jagunços destruíram sua roça e o expulsaram de um terreno lá no Tarumã, onde vivia com mulher e filhos. Ele não tinha onde cair morto. Foi a primeira vez que vi um homem adulto chorar. E seu choro era tão sentido, tão doído, que hoje, cinquenta anos depois, ainda ecoa em minha lembrança.

Tio Dantas me explicou, então, que toda aquela imensidão de terra vazia e improdutiva tinha dono, e não podia ser usada nem mesmo por quem estivesse morrendo de fome. Revoltado, fiz um discurso ingênuo que, segundo tio Esmeraldo, era uma defesa da reforma agrária – “bandeira dos comunistas”, que ele combatia como candidato a vereador pela UDN (vixe-vixe!). Por via das dúvidas, vovó me aconselhou que rezasse mil vezes a jaculatória ‘Jesus, Maria, José, minh´alma vossa é’. Obedeci. Mas foi aí que minh’alma apostrofada, assim entregue, compreendeu que os comunistas lutavam por justiça social.

Fantasma do comunismo

O que aconteceu com o fantasma que rondava a Europa em meados do século XIX, anunciado pelo Manifesto Comunista de 1848? Faz meio século, ele ainda circulava pelo Brasil defendendo os oprimidos. E agora? Eis o que eu queria dizer: hoje, se a referência fosse o deputado Aldo Rebelo, filiado ao glorioso Partido Comunista do Brasil (PCdoB-SP), a vovó me dispensaria das jaculatórias, e tio Esmeraldo aplaudiria, imitando os ruralistas que, na última terça-feira, em sessão tumultuada numa comissão da Câmara dos Deputados, aprovaram o relatório que modifica o Código Florestal.

Eles aplaudiram o projeto do Aldo, porque ele anistia todos aqueles que, entre 1994 e 2008, cometeram crimes ambientais e desmataram mais do que o permitido por lei. A soma das multas aplicadas nesse período ultrapassa R$ 10 bilhões – segundo cálculos oficiais do IBAMA – que deixam de ser recolhidos aos cofres públicos, beneficiando grandes proprietários e exportadores. Os anistiados sequer são obrigados a replantar o que foi destruído. Aqueles que respeitaram a lei estão se sentido uns babacas.

O projeto do Aldo reduz ainda a faixa obrigatória de preservação das matas que ocupam as margens dos rios, incentivando o desmatamento, recebendo por isso críticas do secretário do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Luiz Pinguelli Rosa. Para Aldo, a floresta é um obstáculo ao progresso e uma inimiga da civilização. Ele ignora o rico patrimônio florestal brasileiro e não reconhece “o inegável papel que a saúde florestal exerce para a saúde climática e para o bem-estar das populações”.

Por isso, foi duramente criticado pela comunidade científica, pelos pequenos agricultores e pelos povos da floresta. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) diz que o parecer não tem qualquer fundamentação científica. E a Confederação Nacional dos Trabalhos na Agricultura (Contag) avalia que ele favorece os grandes desmatadores. Mas Aldo foi ovacionado pela presidente da Confederação Nacional da Agricultura, senadora Kátia Abreu (DEM-TO – vixe, vixe) que, em declaração estarrecedora ao Jornal Nacional, disse como se sentia:

– “Um alívio! Essa suspensão é uma respirada. Nada hoje prejudica mais o agronegócio, a agropecuária, do que essa insegurança jurídica, essa questão das multas, essa truculência que tem sido praticada dia a dia no campo”. O que esse discurso diz e o que ele esconde?


Dito e não-dito

O não-dito é fundamental para apreender o significado do que foi dito. O discurso da senadora não diz que toda propriedade de terra no Brasil foi, originalmente, tomada dos índios à força. Que as terras assim usurpadas foram concedidas como sesmarias pela Coroa Portuguesa aos nobres, navegadores, militares e colonos. Que a economia se baseava no latifúndio, na monocultura e na escravidão. Que o sistema de capitania hereditária isentava o donatário de taxas, fazia dele a autoridade máxima dentro daquelas terras, permitindo até que decretasse a pena de morte para escravos e índios.

Esse sistema de violência institucionalizada foi formalmente extinto no final do período colonial, mas continuou operando até os nossos dias na conduta de muitos proprietários. Segundo a Comissão Pastoral da Terra cresce a violência contra camponeses pobres, com a omissão do Poder Judiciário. Foram assassinados 1546 trabalhadores rurais nos últimos 25 anos, mas foram abertos apenas 85 processos judiciais e somente 19 mandantes de crimes foram condenados. Em 2009, o Brasil viu 25 assassinatos, 71 pessoas torturadas, 1884 famílias expulsas e um aumento de 163% de casas destruídas.

Para a senadora, porta-voz dos donatários do século XXI, a violência não é essa. O agronegócio - coitado! – é que passa a ser vítima da violência no campo. As leis que protegem a floresta e, com ela, a saúde do conjunto da população constituem uma “truculência”. As multas que punem os transgressores da lei sufocam o agronegócio, enfim a ordem jurídica causa insegurança entre os proprietários. Para ela, violência no campo é isso. Dessa forma, ela corrompe a linguagem.

Há alguns meses, o filho da senadora, Irajá Silvestre Filho, 27 anos, que é candidato a deputado federal, estacionou o carro em local privativo dos táxis no Terminal Rodoviário de Palmas (TO). Quando foi abordado pelos policiais militares, ele se recusou a entregar seus documentos, questionou a multa e a remoção do veículo e desacatou a autoridade. Seguindo o exemplo materno, ele se sentiu sufocado pela truculência das leis do trânsito.

O signo lingüístico – a gente sabe – é o signo ideológico por excelência porque carrega valores que disputam a representação do mundo e refletem as relações sociais, os conhecimentos, as crenças, as atitudes. O discurso da senadora pretende expropriar os discursos dos movimentos sociais e usurpar os significados das lutas camponesas, tentando transformar uma representação de uma categoria – a do agronegócio – em crença coletiva – do Brasil.

A senadora cumpre seu papel, em defesa de sua categoria. Faz parte do jogo da democracia burguesa. O doloroso, o imperdoável nisso tudo, é ver Aldo Rebelo, um parlamentar eleito pelo voto comunista, colocar seu trabalho, sua energia, seu verbo e sua biografia a serviço dessas forças, na defesa de um modelo de progresso que contraria a história dos movimentos populares. Dessa forma, ele mancha a trajetória histórica do partido e trai as lágrimas e os anseios de tantos Raimundos injustiçados nesse Brasil. Essa mancha, não tem água benta que dê jeito. Que o voto do Curupira se manifeste nas próximas eleições.

P.S – No Amazonas, para deputado estadual, estou fazendo a campanha do candidato 13013. No próximo domingo, o nome do candidato e as razões do apoio.

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José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (Uerj), reside no Rio há mais de 20 anos, assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti

Colabora com a Agência Assaz Atroz e com este "Quem tem medo do Lula?"

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Os financiamentos de campanha

Por Edson Joanni

Começa a corrida atrás dos milhõesSucessão. Coordenadores das campanhas presidenciais elegeram os setores em que vão buscar fundos: os petistas darão preferência à indústria naval e às empresas de construção; os tucanos pretendem procurar exportadores insatisfeitos com a política cambial

João Domingos / BRASÍLIA

A coordenação da campanha da petista Dilma Rousseff trabalha para arrecadar R$ 157 milhões - R$ 30 milhões deverão vir do caixa do PMDB - baseada em um raciocínio bem simples: assim como os pobres, que as pesquisas indicam estar satisfeitos com o governo Lula, os ricos também estão.

Os arrecadadores de Dilma avaliam ter vantagem em relação a José Serra e preveem receber, em doações, até três vezes mais do que o adversário, embora o tucano tenha estimado gastos maiores - R$ 180 milhões. Um dos coordenadores da campanha de Dilma arriscou-se a dizer que "para cada R$ 0,1 para Serra, Dilma terá R$ 0,3".


cordo com os petistas, os empresários têm dito que não há motivos para queixas. Como para eles Dilma é a continuidade do atual governo, não haveria motivos para os empresários negarem as contribuições eleitorais quando forem procurados.

A indústria naval, por exemplo, que estava quebrada antes do início do governo de Luiz Inácio da Silva, foi reativada graças, principalmente, às encomendas da Petrobrás. A estatal do petróleo já anunciou que investirá R$ 52 bilhões na próxima década.

A descoberta do petróleo na camada pré-sal vai movimentar ainda mais o setor. Já há 424 encomendas até 2020, sendo 146 de apoio para alto mar, 47 plataformas, 164 navios, 46 navios-tanques e 28 sondas que devem começar a operar a partir de 2013. Quatro estaleiros já estão aptos para construir plataformas.

Lucros recordes. Os petistas dizem que o setor financeiro não teve dificuldades nem durante a crise econômica internacional deflagrada em 2008. Isso graças a programas incentivados pelo governo, que blindaram os bancos com uma forte movimentação de dinheiro no mercado interno e possibilitaram a alguns deles, como o Bradesco, terem em 2010 o maior lucro da história.

Soma-se a isso o crescimento da indústria da construção pesada no Brasil e exterior, com abertura de mercados em países da América Latina, como Bolívia, Peru, Argentina, Equador e Venezuela, por conta de financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aos vizinhos. A exigência feita para os empréstimos é que os governos dos países contratem empresas brasileiras.

Segundo o raciocínio dos coordenadores da campanha do PT, o mercado da construção civil está superaquecido graças ao programa Minha Casa, Minha Vida, que no governo de Lula promete construir 1 milhão de casas. Dilma já anunciou que, se eleita, tocará a segunda fase do projeto, agora com 2 milhões de casas - os números são citados em discursos, mas não aparecem nos documentos oficiais do programa.

Os petistas também incluem entre os setores que tiveram expansão no governo de Lula a indústria da carne, de automóveis, petroquímica, eletroeletrônicos e de informática, além da recuperação do setor calçadista.

Palocci. Para correr atrás do dinheiro dos ricos, o comitê de Dilma destacou o deputado Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda com trânsito entre todos os empresários. Palocci até desistiu de concorrer à reeleição. Vai dedicar-se integralmente à campanha, missão que já começou.

Palocci delegou a outros três petistas a incumbência de passar o chapéu junto ao setor empresarial para arrecadar o dinheiro necessário: José Eduardo Dutra, presidente do PT e coordenador da campanha, José Eduardo Cardozo, secretário-geral do PT, e José de Filippi Júnior, que foi o tesoureiro da campanha para reeleição de Lula, em 2006.

Candidato a uma cadeira de deputado federal por São Paulo, Filippi terá de fazer jornada dupla para conseguir o dinheiro e ainda cuidar de sua campanha. Ele foi três vezes prefeito de Diadema e, nos últimos meses, estava morando nos Estados Unidos, para temporada de estudos.

Filippi foi chamado às pressas para assumir a missão de tesoureiro da campanha de Dilma após o nome de João Vaccari Neto, escolhido para a função, ser envolvido no escândalo da Bancoop - fraudes que teriam sido cometidas pela diretoria da cooperativa, sob o comando de Vaccari, destinadas a beneficiar candidatos do PT. O caso está sendo investigado por uma CPI da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Tucanos apostam em exportadores e empresas aéreas
Classe média rural e setor financeiro também estão na mira do PSDB, que ainda pretende captar doações pela internet

Christiane Samarco / BRASÍLIA

O tucanato aposta em duas "novidades" nesta eleição presidencial para driblar a dificuldade que a oposição geralmente enfrenta na hora de arrecadar recursos e financiar a campanha: o engajamento da classe média rural e a participação de pessoas físicas com doações de valores mais modestos, via internet. Mas, novidades e circunstâncias à parte, tudo será feito sem descuidar do setor financeiro.

Para fortalecer as finanças da campanha os tucanos listaram alguns setores da economia como alvos dos arrecadadores, a começar pelos exportadores sempre queixosos da política cambial que Serra promete mudar. Da mesma forma, estão na mira as empresas de transporte aéreo que integram a lista das mais prejudicadas por uma alta do dólar.

Estudos do banco JP Morgan revelam, por exemplo, que uma alta de 10% do dólar levaria a uma perda de R$ 70 milhões nas receitas da empresa aérea GOL - considerando o cenário em que as demais variáveis permaneçam constantes.

Bancos. Hoje, como nas últimas campanhas do PSDB à Presidência, a expectativa geral é de que as doações mais vultosas venham dos bancos.

Não por acaso, quem está à frente da estrutura de arrecadação é o engenheiro e economista Sérgio Silva de Freitas, de 67 anos, que foi vice-presidente do Banco Itaú e secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão do banqueiro Olavo Setúbal.

A amizade com Serra vem desde 1984, um ano antes da morte de Tancredo Neves, quando Freitas foi escalado para tranquilizar o empresariado quanto ao risco de guinadas na economia. Há mais de dois meses ele vem participando de reuniões com o time das finanças da campanha tucana e tem sido apresentado a empresários como o responsável pela arrecadação.

Sérgio de Freitas não está sozinho na ofensiva do tucanato para engordar o caixa da campanha. O ex-deputado e ex-banqueiro Ronaldo Cezar Coelho, outro amigo de Serra há mais de 20 anos, trabalha desde o início do ano para demover qualquer resistência do setor ao eventual governo tucano, diante das críticas de Serra à política dos juros altos e à atuação do BC.

Com a experiência de quem já coordenou as finanças da campanha presidencial de Geraldo Alckmin em 2006, o presidente da João Fortes Engenharia e ex-deputado Márcio Fortes só não está à frente do comitê arrecadador de Serra porque tem de se dedicar à campanha no Rio de Janeiro, onde é o candidato a vice-governador na chapa de Fernando Gabeira (PV). Ainda assim, ele também é peça-chave na conquista de doadores de vulto pelo perfil eclético.

Fortes já passou pela Secretaria-Geral do Ministério da Fazenda, pela presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela direção de vários órgãos de classe, como a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e o Clube de Engenharia.

'Poder de fogo'. A presidente da Confederação Nacional da Agricultura, senadora Kátia Abreu (DEM-TO), diz que não fará campanha em nome da CNA e lembra que, por lei, a entidade não pode fazer doações para nenhuma campanha. "Mas poder de fogo para arrecadar nós temos", avisa, destacando que os produtores rurais, na condição de pessoas físicas, têm o "direito de trabalhar" pelo candidato que fizer as melhores propostas para o setor.

Na contabilidade tucana, a classe média rural brasileira, que reúne 2,3 milhões de produtores, pode fazer a diferença na eleição. Afinal, bastaria cada um deles contribuir com R$ 100 para que a campanha colocasse R$ 230 milhões no cofre. "O Serra não tem muita proximidade com o agronegócio, mas tem quem tenha", adverte a senadora, lembrando que o setor representa um terço do Produto Interno Bruto (PIB) e 42% das exportações brasileiras.

O candidato a vice na chapa tucana, deputado Índio da Costa (DEM), é um dos que vão usar a internet como instrumento de arrecadação. "Hoje eu falo para 300 mil pessoas diretamente no meu site e tenho 40 mil seguidores no Twitter", ressalta.

Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-financiamentos-de-campanha?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

sábado, 10 de julho de 2010

Serra, um press release perigoso


Serra, um press release perigoso

José Serra, o acaciano retórico, produto híbrido do latifúndio com a banca, é um personagem de press release. Não deve ser levado a sério quando fala em modernidade. Seu projeto autoritário precisa da mídia com poder de Estado e do mercado como única instância de legitimação.

Por Gilson Caroni Filho (*)

Sem fortuna nem virtù, a candidatura Serra deve ser encarada como de fato se apresenta: uma irresponsabilidade política que busca construir sua persona a partir de clichês oratórios de desqualificação da principal oponente, a ex-ministra Dilma Rousseff. O teatro político que pretende montar, tentando se valorizar no jogo da sucessão, pode vir a se revelar o fracasso da temporada, não só pela fragilidade pessoal do ator como pela biografia do elenco de apoio. Mais dia menos dia, terá que descer a cortina, encerrando a apresentação.

Quando diz não ser “ventríloquo de marqueteiro nem de partido, nem de comitês, nem de frações, nem de todas aquelas organizações antigas de natureza bolchevique, que do bolchevismo só ficaram com a curtição pelo poder, porque utopia não ficou nenhuma", importantes perguntas se impõem. Afinal, por quem fala José Serra? Ou, melhor: quem, dissimulando o timbre natural da própria voz, fala por ele? Quem é o boneco nesse jogo mal-ajambrado?

A coligação oposicionista é uma gigantesca operação de engodo promovida pela mesma dupla (PSDB/DEM) que, entre 1994 e 2002, se superava, dia após dia, em matéria de socialização de prejuízos privados e entrega do patrimônio público. Em oito anos o país quebrou duas vezes, as dívidas, interna e externa, cresceram descontroladamente. O grau de dependência se precipitou e a desigualdade alastrou-se.

O descaso com a questão social – vista até hoje pelos tucanos como um estorvo para as contas do governo – fez com que a miséria e o aviltamento dos salários se expandissem. Dados do Banco Mundial, em 1997, apontavam 36 milhões de brasileiros com renda inferior a US$30, o que explica o número assustador de crianças que trocavam a infância e a escola pelo trabalho precoce. Enquanto isso, o governo FHC excluía o imposto sobre as grandes fortunas do seu pacote fiscal. Quebra-se o país, jamais um banco, ensinava o príncipe dos sociólogos.

Em 2001, a mudança no fluxo de capitais agravaria o desequilíbrio externo brasileiro, com a entrada de recursos estrangeiros caindo US$ 10 bilhões em relação ao ano anterior. Para piorar a situação, cresceria a remessa de lucros e dividendos, devido à crescente internacionalização da economia ocorrida na segunda metade da década de 1990. Tudo isso levava a uma valorização excessiva do dólar.

E o que fazia FHC e seu séquito diante da crise do modelo? Segundo o Sindicato da Micro e Pequena Indústria de São Paulo (Simpi), enquanto 80% das microempresas estavam inadimplentes, o governo arquitetava, via BNDES, o socorro das grandes corporações endividadas em dólar. De fato, uma garantia ao mercado que “aquelas velhas organizações bolcheviques" jamais ousariam dar.

É o retorno de catástrofes dessa natureza que a candidatura Serra promete. O neoliberalismo, expressão recente da direita, não hesitará em fazer uso de conhecidas "reengenharias" para destruir o Estado, deixando sobreviver somente os órgãos que garantam os interesses mercantis. Serra é o ventríloquo de um grupo que está convencido de que é necessário reciclar o manual de terra arrasada. O pequeno remanejamento da aliança partidária que deu apoio ao governo de FHC não traz novidades substantivas. O que é o PPS senão o adorno de conhecidos arrivistas?

O DEM (antigo PFL) tem um histórico de hipocrisia, cinismo e empulhação. A mudança de nome, apontada por suas lideranças como primeiro passo de ajustamento necessário, não resistiu a duas primaveras. A operação “Caixa de Pandora", apontando o governador de Brasília, José Roberto Arruda, como principal articulador de um esquema de corrupção envolvendo integrantes do seu governo, empresa com contratos públicos e deputados distritais, revelou o DNA da “novidade”.

Das minúcias, futricas, esperneios, conselhos e advertências desse espectro político, a grande imprensa recolhe a matéria-prima para fazer seus boletins de campanha. José Serra, o acaciano retórico, produto híbrido do latifúndio com a banca, é um personagem de press release. Não deve ser levado a sério quando fala em modernidade. Seu projeto autoritário precisa da mídia com poder de Estado e do mercado como única instância de legitimação.

*Gilson Caroni Filho é sociólogo e mestre em ciências políticas. Nascido e residente no Rio de Janeiro, onde é professor titular de sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha). É colunista da Carta Maior, colaborador do Jornal do Brasil e do blog "Quem tem medo do Lula?".

As charges são uma cortesia do cartunista Bira Dantas, também colaborador do Blog "Que tem medo do Lula?".

O Marechal Lott, Jânio Quadros e as eleições de 2010

Na foto, Lott, em campanha,
corta com a espada, seu símbolo,
a vassoura, símbolo de Jânio.


O Marechal Lott, Jânio Quadros e as eleições de 2010

Por Laerte Braga (*)

Henrique Dufles Baptista Teixeira Lott foi um dos grandes vultos das forças armadas brasileiras. Entre outras coisas não se subordinava a Washington como boa parte dos nossos militares e tampouco tinha aversão ao processo democrático, pelo contrário. Impediu em 11 de novembro de 1955 um golpe dos “patriotas” contra a legalidade.



Ministro da Guerra, era como se chamava o Ministério do Exército, hoje abrigado como Secretaria dentro do Ministério da Defesa, evitou duas tentativas de golpe contra o governo de JK e acabou candidato da coligação PSD/PTB à presidência da República em 1960.



Disputou as eleições contra Jânio Quadros, ex-governador de São Paulo e um terceiro candidato, Ademar de Barros, uma espécie de Paulo Maluf da pré-história, também ex-governador de São Paulo.



Perdeu-as. Jânio foi eleito presidente até por larga maioria de votos.



Lott não tinha boa oratória, as campanhas àquela época se sustentavam principalmente em comícios e aliado a esse fato, boa oratória, Lott tinha a mania da franqueza. Da honestidade em suas palavras. Em suas propostas.



Jânio era um produto da demagogia, mero projeto pessoal de ditador (renunciou numa manobra tragicômica esperando que o povo o reconduzisse ao governo com plenos poderes, tudo sob efeito da “mardita pinga). Candidato da UDN sem nunca ter sido udenista e de Carlos Lacerda, a quem usou até espremer e terminar espremido, não era necessariamente louco como diziam. Demagogo, de interromper comícios para tomar uma injeção de glicose (vivia bêbado) alegando que o cansaço na “luta pelo povo” o obrigava a “sacrifícios” que prejudicavam sua saúde.



Tinha o hábito de assistir filmes de western ao contrário, ou seja, do fim para o princípio. Achava interessante o bandido levantar-se e tomar um soco de John Wayne do que a ordem natural da cena, tomar o soco e cair.



O marechal Lott passou a campanha inteira advertindo aos brasileiros que Jânio levaria o País ao caos. Num dado momento, talvez consciente das dificuldades para sua eleição (tradicionalmente militares foram sempre derrotados em eleições livres para presidente, a exceção de Dutra, mesmo assim porque disputou com outro militar, o brigadeiro Eduardo Gomes), chegou a propor um pacto de unidade nacional em torno de uma candidatura única, no caso o general Juracy Magalhães, governador da Bahia e que havia sido derrotado por Jânio na convenção da UDN.



Para que se possa ter uma idéia da personalidade do marechal Lott, em visita a uma cidade no interior de Minas, descia num automóvel para o centro da cidade, saindo do aeroporto, quando um eleitor de Jânio enfiou uma vassoura dentro do carro, pela janela e tentou atingi-lo. Mandou o carro parar e em meio a lotistas de um lado e janistas de outro, foi até o cidadão, tomou-lhe a vassoura, jogou-a no chão e disse com o dedo em riste –“o senhor pode votar em quem quiser, é um direito que eu assegurei quando garanti a posse do presidente Juscelino, mas o senhor respeite a mim e a democracia, proceda como homem de caráter” -.



Voltou ao automóvel sob aplausos de seus correligionários e silêncio dos janistas que, por sinal, perdeu, Jânio, as eleições nessa cidade.



Em muitas cidades que visitava, pouco antes de subir ao palanque, Jânio dirigia-se a um botequim estrategicamente escolhido, pedia um sanduíche de pão com mortadela, alegava falta de tempo para jantar, uma pinga e uma cerveja quente, assentava-se à mesa com alguém que lá estivesse, chegou a assentar-se no meio fio e com gestos teatrais ia comendo, bebendo e conversando com as pessoas.



Já ex-presidente, escreveu com Afonso Arinos (que redimiu-se depois, era um homem inteligente e um político íntegro) uma enciclopédia da língua portuguesa. No lançamento no Rio de Janeiro, em 1967, almoçava no Clube Ginástico, no centro da cidade, presentes o próprio Arinos (fora seu ministro das Relações Exteriores), outras figuras do antigo udenismo, quando surpreendeu a todos, inclusive jornalistas, com seu pedido. Uma omelete simples, uma pinga especial e uma cerveja quente.



A surpresa maior veio depois. Foi recortando a omelete até dar-lhe a forma de uma suástica e sequer engoliu uma garfada. O que sobrou amassou com as mãos, formou um bolo e colocou fora do prato. Bebeu a pinga, duas ou três cervejas quentes e foi-se.



Segundo Foucault, “não há exclusão entre loucura e crime, mas sim uma implicação que os une. O indivíduo pode ser um pouco mais insano, ou um pouco mais criminoso, mas até o fim a loucura mais extremada será assombrada pela maldade”.



Referia-se, embora seja um conceito amplo, a Doucelin, conde D’Albuterree, que avocava a si a condição de herdeiro da coroa de Castela e que dizia falar com Deus todos os dias, além de receber a visita de Maria algumas vezes por semana.



O problema é que Jânio não rasgava nota de cem, pelo contrário, cultivou a fama de honesto e implacável na defesa do dinheiro público, enquanto ia guardando o “seu” em bancos suíços.



As advertências do marechal Lott se confirmaram e foram além. Com a renúncia de Jânio, em 25 de agosto de 1961, depois de ter proibido desfile de miss com biquíni, briga de galo e imposto o slack como uniforme para os servidores públicos, militares brasileiros comandados por Washington se levantaram contra a posse do vice, João Goulart que se encontrava em missão na China, a pedido de Jânio. Queria-o longe à hora do “golpe” e uma das primeiras prisões feitas foi a do marechal Lott que logo se pronunciou pela legalidade. Jânio mandara Jango à China exatamente por ser aquele país governado pelo Partido Comunista, Mao Tse Tung e Chou em Lai e assim criar um complicador maior para uma eventual posse de Jango tornando mais fácil seu retorno triunfal.



Jango acabou tomando posse, foi decisiva a reação de Brizola, mas os mesmos militares golpistas, complementando o que Lott dissera em 1960, deram um golpe em 1964 e impuseram ao Brasil uma sombria e cruel ditadura sob controle dos EUA. Inclusive comando militar de general norte-americano.



Outra vez, um ano após o golpe, impediram a candidatura do marechal ao governo do antigo estado da Guanabara, temerosos que sua liderança acabasse por despertar a reação popular e de militares íntegros e brasileiros à quartelada. Como Lott fosse eleitor em Teresópolis, criaram a figura do domicílio eleitoral.



José Arruda Serra é uma versão abstêmia de Jânio Quadros. O que às vezes costuma ser pior. Quando secretário de Franco Montoro tinha mania de dar batida nos órgãos públicos do governo do estado de São Paulo para verificar se estava havendo desperdício de clips, elásticos e aparas de papel.



Jânio, quando candidato a prefeito de São Paulo pela primeira vez chegou a colocar um boné de motorneiro e tentar dirigir um bonde. Nesse dia estava numa água só. E dava incertas (mas avisava a imprensa) em repartições públicas.



O curioso é que morto politicamente Jânio foi ressuscitado por FHC, em 1985, derrotando-o numa eleição para a mesma prefeitura de São Paulo. No dia da posse pendurou um par de chuteiras à entrada de seu gabinete para comunicar que estava encerrando sua vida pública.



A insistência com que setores das forças armadas brasileiras tentam a todo custo impedir que os documentos da ditadura venham à tona é simples. Não pode passar pela cabeça de um torturador como o coronel Brilhante Ulstra, que os brasileiros tomem conhecimento de tortura, assassinatos, estupros praticados em prisões da ditadura por “bravos patriotas”. Uma laia de canalhas sintetizada na frase de Samuel Johnson sobre patriotismo.



E tampouco de velhos generais que encobriram esses crimes, tanto quanto promoveram um expurgo nas forças armadas, afastando militares do porte de Rui Moreira Lima, Ladário Pereira Teles, major Cerveira e outros. Foram milhares.



Voltando à vaca fria José Arruda Serra é só uma versão abstêmia de Jânio Quadros. Demagogo, corrupto, sem qualquer escrúpulo ou respeito pelo que quer que seja. É evidente que sendo abstêmio, ou seja o oposto, tenha manias do tipo desinfetar as mãos com álcool ao fim de uma sessão de cumprimento a eleitores, como não se assenta ao meio fio e nem come sanduíche de mortadela. Mas usa o tal desinfetante bucal que protege por doze horas já que em campanha tem que beijar crianças.



Vale-se da sofisticação que as campanhas políticas ganharam nos dias atuais e que permite a demagogos, corruptos e trapaceiros como ele Arruda Serra vender um peixe que não existe.



É a velha alma udenista/golpista assombrando o Brasil (e olha que na UDN, creio que por equívoco, havia figuras como Afonso Arinos, Adauto Lúcio Cardoso, Milton Campos e outros, de caráter e integridade indiscutíveis).



A simples hipótese de um sujeito como Arruda Serra presidente da República (está cada dia mais difícil, mas todo cuidado é pouco) aterroriza.



É só olhar o governo de FHC e multiplicar por um fator que podemos chamar de muitas vezes pior e teremos o resultado.



Pior ainda que um bêbado como Jânio, projeto mambembe de ditador, é um abstêmio doentio e sem escrúpulos como Arruda Serra.



Tucanos são a UDN repetida como farsa e por isso mesmo, revestidos de cinismo, amoralidade, se tornam muito mais nocivos e perigosos que a de outrora, se é que isso é possível.



No fundo seria um passo gigantesco atrás. Um retrocesso sem tamanho.



Lott continua tendo razão absoluta sobre os “jânios” que volta e meia aparecem.



Reside aí a grandeza do velho marechal. O ser brasileiro, ter tido em toda a sua vida compromisso com a democracia sem adjetivos.



Ao contrário de seu antigo adversário Jânio Quadros, que levou o País ao caos e da versão seca, José Arruda Serra, que intenta o mesmo, o caos.



A solução é simples. Ou percebemos isso, ou nos lascamos.



E não adianta a GLOBO, VEJA, ou FOLHA DE SÃO PAULO culpar o Irã, Chávez, fabricar pesquisas o que seja. José Arruda Serra não é um candidato a presidente do Brasil. É uma ameaça ao Brasil e aos brasileiros.



E para não dizer que não falei de flores, nas eleições de 1960 as organizações GLOBO se limitavam ao jornal THE GLOBE, editado em português como O GLOBO, algumas emissoras de rádio e a família Marinho, dona do complexo da mentira, apoiou Jânio Quadros. Roberto Marinho ainda era o “comandante”.



Quem disse que o marechal Lott não tem a ver com as eleições de 2010?



A História não morreu não, está mais que viva.



E a propósito de bêbados, nem todos são Jânio, ou como dizia o poeta Sílvio Machado, “nunca vi uma boa idéia nascer em leiteria”. Por isso mesmo Arruda Serra é uma versão Drácula da barbárie patriótica udenista.


*Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no “Estado de Minas” e no “Diário Mercantil”. É colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”

Censura e truculência contra jornalistas. Onde está a ANJ?

As demissões de jornalistas na TV Cultura de São Paulo e o silêncio dos grandes meios de comunicação sobre as causas destas demissões evidenciam mais uma vez um preocupante comportamento cínico, submisso e hipócrita. Mais uma vez, são blogs e sites de jornalistas independentes que cumprem o dever de informar ao público o que é de interesse público. Entidades como a Associação Nacional de Jornais, supostamente comprometidas com a defesa da liberdade de expressão, exibem um silêncio ensurdecedor.

Editorial - Carta Maior

O comportamento cínico e hipócrita da maioria das grandes empresas de comunicação do Brasil ficou mais uma vez evidenciado esta semana, e de um modo extremamente preocupante. Não se trata apenas de valores ou sentimentos, mas sim de fatos objetivos e de silêncios não menos objetivos. O relato sobre demissões na TV Cultura de São Paulo, causadas pelo interesse de jornalistas no tema dos pedágios, justifica plenamente essa preocupação. Um desses relatos, feito nesta sexta-feira pelo jornalista Luis Nassif, chega a ser assustador. Em apenas uma semana, dois jornalistas perderam o emprego, escreve Nassif, em função de uma matéria sobre pedágios. Ele relata:

Há uma semana, Gabriel Priolli foi indicado diretor de jornalismo da TV Cultura. Ontem (7), planejou uma matéria sobre os pedágios paulistas. Foram ouvidos Geraldo Alckmin e Aloízio Mercadante, candidatos ao governo do estado. Tentou-se ouvir a Secretaria dos Transportes, que não quis dar entrevistas. O jornalismo pediu ao menos uma nota oficial. Acabaram não se pronunciando.

Sete horas da noite, o novo vice-presidente de conteúdo da TV Cultura, Fernando Vieira de Mello, chamou Priolli em sua sala. Na volta, Priolli informou que a matéria teria que ser derrubada. Tiveram que improvisar uma matéria anódina sobre as viagens dos candidatos.

Hoje (8) , Priolli foi demitido do cargo. Não durou uma semana.

Semana passada foi Heródoto Barbeiro, demitido do cargo de apresentador do Roda Viva devido às perguntas sobre pedágio feitas ao candidato José Serra (ver vídeo abaixo). Para quem ainda têm dúvidas: a maior ameaça à liberdade de imprensa que esse país jamais enfrentou, nas últimas décadas, seria se, por desgraça, Serra juntasse ao poder de mídia, que já tem, o poder de Estado.




Não é o primeiro relato sobre a truculência do ex-governador de São Paulo com jornalistas. Nos últimos meses, há pelo menos dois outros episódios, um deles envolvendo a jornalista Miriam Leitão, na Globonews, e outros envolvendo jornalistas da RBS TV, em Porto Alegre. A passagem da truculência à ameaça ao trabalho dos jornalistas é algo que deveria receber veemente manifestação da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), sempre prontas a denunciar tais ameaças. No entanto, ao invés disso, o que se houve é um silêncio ensurdecedor.

Mais uma vez, são blogs e sites de jornalistas independentes que cumprem o dever de informar ao público o que é de interesse público. E, mais uma vez também, os chamados jornalões e seus braços no rádio e na TV, calam-se, aliando submissão e cumplicidade com a truculência e o desrespeito ao trabalho de experientes profissionais. O mesmo silêncio, a mesma submissão e a mesma cumplicidade manifestadas nos recentes casos de assassinatos de jornalistas em Honduras, em função de sua posição crítica ao golpe de Estado ocorrido naquele país.

Esse triângulo perverso que une cinismo, hipocrisia e silêncio não é um privilégio da imprensa brasileira. Um outro caso, esta semana, envolveu uma das maiores cadeias de televisão do mundo. A CNN demitiu a jornalista Octavia Nasr, editora de noticiário do Oriente Médio, por causa de uma mensagem publicada por ela em sua página no Twitter onde manifestou “respeito” pelo ex-dirigente do Hezbollah, Sayyed Mohammed, que morreu no final de semana passado. Octavia tinha 20 anos de trabalho CNN. O que ela escreveu no twitter e causou sua demissão foi: “(Fiquei) triste por saber do falecimento do Sayyed Mohammed Hussein Fadlallah…Um dos gigantes do Hezzbollah que eu respeito muito”. Parisa Khosravi, vice-presidente-sênior da CNN International Newsgathering, afirmou em um memorando interno que “teve uma conversa” com a editora e “decidimos que ela irá deixar a companhia”.

Essa mesma CNN não hesita em denunciar agressões à liberdade de imprensa em outros países quando isso é do interesse de sua linha editorial e dos interesses geopolíticos da empresa. Crime de opinião? Segundo as versões oficiais, isso só existe em países do chamado eixo do mal.

Esse mesmo triângulo perverso ajuda a entender por que essas grandes corporações midiáticas não querem debater com a sociedade a sua própria atuação. Colocam-se acima do bem e do mal como se fossem portadores de legitimidade pública. Não são. Ao cultivarem esse tipo de comportamento e prática, o que estão fazendo, na verdade, é auto-atribuir-se, de modo fraudulento, uma suposta representação pública. Representam, na verdade, os interesses dos donos das empresas e, cada vez menos, o interesse público.

Neste exato momento, o planeta vive aquele que pode vir a se confirmar como o maior desastre ecológico de sua história. O acidente com a plataforma da British Petroleum no Golfo do México e o vazamento diário de milhões de litros de óleo no mar tem proporções ainda incalculáveis. No entanto, a cobertura midiática sobre o caso nem de longe é proporcional, em quantidade e qualidade, à gravidade e importância do caso. Organizações ambientalistas já denunciaram que a BP vem operando pesadamente nos bastidores para bloquear e filtrar informações.

É preciso ter clareza que são os dirigentes e porta-vozes dessas corporações midiáticas e seus braços políticos e empresariais que não hesitam em denunciar qualquer proposta de tornar transparente à sociedade o seu trabalho, supostamente de interesse público. O bloqueio e seleção de informações, a demissão de jornalistas incômodos e a truculência com aqueles que ousam fazer alguma pergunta fora do script são diferentes faces de um mesmo cenário: o cenário da privatização da informação, da deformação da verdade e da destruição do espaço público.

Berlusconi roda a baiana, como um duce de buffonata


















Berlusconi roda a baiana, como um duce de buffonata

Por Celso Lungaretti (*)


escrevi sobre como os anos Berlusconi deixaram em cacos a imagem que eu tinha da Itália: a de um país amadurecido, pleno de humanidade, compaixão e sabedoria.

Cinéfilo inveterado, queria crer que cada italiano tivesse um pouco de Marcello Mastroianni; e cada italiana, de Sofia Loren.

De repente, fiquei sabendo que a figura realmente emblemática da pátria do meu avô é outra, uma versão piorada de Benito Mussolini (a História se repetindo como farsa grotesca, buffonata de mafuá...).

E cada vez mais escândalos e delinquências foram vindo à tona: ligações perigosas com a Máfia, antecedentes neofascistas, fraudes, subornos, arbitrariedades, deboches.

Um rosário de ilegalidades, irregularidades e impropriedades, mais do que suficientes para derrubar o premiê de qualquer nação que se respeitasse.

A Itália, infelizmente, não se respeita.

Então, nela nada mais me surpreende.

Nem mesmo que esteja em gestação uma lei com o objetivo gritante de manietar a Justiça e censurar a imprensa, apenas para que não seja mostrada ao povo a nudez do rei.

É o que informa a notícia Itália para contra a "lei da mordaça", publicada neste sábado (10) pela Folha de S. Paulo, cujos principais trechos reproduzo em seguida:
"Os principais jornais italianos decidiram não circular ontem nem atualizar seus sites na internet. A maioria dos canais não exibiu telejornais, e foram poucas as notícias nas rádios. Também houve greve de transportes em cidades como Roma e Milão.

"Foi um protesto contra a 'lei da mordaça', como é conhecido o projeto que o premiê Silvio Berlusconi tenta aprovar no Congresso.

"O projeto já passou no Senado e deve ir à votação na Câmara no dia 29. Se virar lei, irá restringir o uso de grampos telefônicos em investigações e punir com multa os meios de comunicação que publicarem as transcrições.

"Aos jornalistas, estão previstas penas de prisão de até dois meses.

"Há também grande descontentamento entre juízes. A associação dos magistrados afirmou em nota que a nova lei irá tornar muito mais difícil o trabalho investigativo de policiais e juízes.

"...os críticos afirmam que ele [Berlusconi] tenta se proteger, evitando investigações sobre sua vida e sobre membros do governo. Em 2009, o vazamento de partes de investigações sobre corrupção atingiram o premiê.

"Foram divulgados pelos meios de comunicação fotos e detalhes de festas que o premiê dava em sua casa, para as quais eram contratadas garotas de programa.

"Há dois meses, Berlusconi foi obrigado a aceitar a renúncia de Claudio Scajola, seu então ministro da Indústria, após a mídia divulgar operações fraudulentas na compra de um apartamento".
O primeiro-ministro reagiu pedindo a ajuda de seus simpatizantes para dar fim à "mordaça imposta à verdade", por parte de uma mídia que "pisoteia sistematicamente no sagrado direito à privacidade dos cidadãos invocando a liberdade de imprensa como se fosse um direito absoluto".

Segundo o herdeiro espiritual do Duce, "na democracia não existem direitos absolutos".

Parece um papa discorrendo sobre sexo: fala sobre o que desconhece e nunca praticou. Não passa de figura tosca de um autoritarismo rançoso e odioso.

Enfim, serve como consolo a constatação de que, com enorme atraso, os italianos finalmente começam a despertar de sua letargia cúmplice.

Talvez nem tudo esteja perdido; aguardemos os próximos e emocionantes capítulos.
*Celso Lungaretti, jornalista e escritor.
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