O MEDO QUE A ELITE TEM DO POVO É MOSTRADO AQUI

A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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Peço que, quem queira continuar acompanhando o meu trabalho, siga o novo blog.

domingo, 11 de julho de 2010

Democracia de araque

Democracia de araque

Por Mario Augusto Jakobskind (*)

Enquanto a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) se manifesta quase diariamente contra supostas restrições à liberdade de imprensa na Venezuela, Bolívia, agora Equador e a legislação midiática aprovada na Argentina, o mesmo tom não é adotado em países como o México, onde o panorama nesse campo é bastante desabonador. A grande mídia conservadora prefere seguir os passos da SIP e não proclama editoriais para denunciar o que está ocorrendo no país governado por Felipe Calderón.

E o que está acontecendo nas plagas astecas? Um das questões diz respeito às verbas publicitárias do Estado. As publicações que não rezam pela cartilha de Calderón não recebem publicidade estatal. Mais de cem cerraram suas portas e outras são obrigadas a despedir jornalistas por não terem como arcar com as despesas de contratação dos trabalhadores.

A Revista Mexicana de Comunicação, com 26 anos de existência, é um dos exemplos concretos da ação do caldeirismo, ou seja, por ter uma linha editorial crítica e de análise sobre o bom comportamento de certos órgãos de imprensa em relação ao Presidente Calderón, o governo mexicano ordenou a suspensão da publicidade para o órgão de imprensa agora ameaçado de fechamento.

Também no México, que vive uma guerra de máfias, dezenas de jornalistas foram assassinados nos últimos tempos e dificilmente os responsáveis pela violência são punidos. Na época da hegemonia do Partido Revolucionário Institucional, o PRI, que governou o México seguidamente por mais de meio século, jornalistas que cobriam as esferas do poder recebiam a cada fim de ano um envelope com dinheiro. Quem não seguisse a rotina se via ameaçado de perder o emprego e se fosse mais ousado, a própria vida. Pode-se imaginar o tipo de cobertura que ocorria nos referidos espaços.

Com Calderón, cujo Partido Ação Nacional, desde o anterior Presidente Vicente Fox, se apresentava como alternativa “moralizadora” e tudo mais, praticamente nada mudou, quem não reza pela cartilha do PAN corre o risco de perder publicidade necessária para a continuidade da publicação.

Mas a SIP não está nem aí, muito menos em relação ao que ocorreu na semana que passou na CNN, onde a editora sênior para assuntos do Oriente Médio, Octavia Nasr, foi sumariamente demitida por ter elogiado o guia espiritual do Hezbollah, Mohammed Hussein Fadlallah, morto há poucos dias. Nasr desagradou o lobby judaico e o governo Obama, que consideravam o clérigo um “terrorista”.

Por falar em Oriente Médio, a rádio do Exército de Israel, segundo divulgou o jornal Ha’aretz, o Estado hebreu enviou documentos secretos aos Estados Unidos confirmando a assinatura de um acordo de cooperação nuclear entre os dois países. Pelo acordo, os EUA se comprometem a vender a Israel materiais para produzir energia, tecnologia nuclear e outros suprimentos. E isso apesar de Israel não ter assinado o Tratado de não Proliferação Nuclear. Vários países se recusaram a fazer acordo com Israel exatamente por isso, mas Washington ignorou o fato.

Especialistas asseguram que Israel agora fica no mesmo patamar da Índia e do Paquistão, que não assinaram o Tratado e têm a bomba atômica.

Ao mesmo tempo em que isso acontece, Madame Hillary Clinton correndo o mundo continua a demonizar o Irã por causa da energia nuclear. Clinton removeu montanhas para que o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovasse as sanções contra Teerã, já o aliadíssimo Israel...

Enquanto a Justiça argentina julga o ditador Rafael Videla por mais assassinatos durante os anos de chumbo na Província de Córdoba foi divulgada a informação segundo a qual entre militares e civis 779 são acusados de cometerem crimes de lesa humanidade na ditadura militar entre 1976 e 1983. Entre eles 464 estão detidos, sendo que mais da metade se encontram em unidade penitenciárias e 39% em prisão domiciliar. Mais de 300 ainda estão para ser indiciados.

No Chile, o general da reserva Manuel Contreras, ex-chefe da polícia políitica do ditador Augusto Pinochet foi condenado a cumprir 20 anos de prisão pelo assassinato em Buenos Aires do general Carlos Prats e senhora Sofia Kuthbert. O assassino Contreras, responsável por outras mortes, tem 81 anos e vai morrer na prisão.

Já no Brasil, entretanto, o papo é outro, pois os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram que a anistia decretada em 1979, em plena ditadura, contempla a quem cometeu crimes contra a humanidade.


Em tempo: Lula fez um gol de placa ao sugerir que a CBF promovesse eleição pelo menos de oito em oito anos para a presidência da entidade. Pois é, que história é essa de a Era Ricardo Teixeira se eternizar? E agora Teixeira está fazendo lobby dos grupos que querem privatizar os aeroportos. A Argentina fez isso com Carlos Menem e os serviços pioraram. Por aqui, as privatizações em setores vitais só fizeram também piorar os serviços. Mas a grana é alta e contempla os lobistas


*Mário Augusto Jakobskind é jornalista, mora no Rio de Janeiro e é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de S. Paulo e editor de Internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, dentre outros livros, de “América que não está na mídia” e “Dossiê Tim Lopes – Fantástico / Ibope”. É colunista do site “Direto da Redação” e colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.

Charges: Carlos Latuff e Bira Dantas, respectivamente.

Jornal Online ganha na França

Jornal Online ganha na França

Por Rui Martins (*)

Berna (Suiça) - Muita coisa se tem escrito sobre a transição da mídia papel para a eletrônica e as indagações mais comuns são se o jornal virtual ou portal eletrônico na Internet consegue ter assinantes e se poderá provocar o mesmo impacto do jornal impresso.

A atualidade francesa nos permite uma resposta clara e precisa – o portal ou jornal eletrônico online Mediapart provocou com suas revelações uma séria crise no governo do presidente francês Sarkozy e, em apenas dois anos de existência, reúne 30 mil assinaturas pagas. Toda atualidade política francesa destes últimos dias – rádios, tevês e jornais impressos – se baseia, cita ou se refere ao portal Mediapart.

Mediapart não tem versão impressa, emprega 25 jornalistas de investigação e se destina, como afirma na primeira página, a uma clientela insatisfeita com os jornais impressos e as informações na telinha, geralmente as versões online da mídia impressa francesa, dominada pelo presidente Sarkozy.

Um fato a destacar – o governo francês tenta minimizar a importância das acusações por terem como origem um site eletrônico, mas não consegue êxito nesse objetivo. Mediapart goza do mesmo peso e influência da mídia impressa e mostra a verdadeira dimensão da mídia do futuro, sem um suporte material e tátil porém com a mesma credibilidade.

Se, nos próximos dias, cair o ministro do Trabalho da França, Eric Woerth, responsável pelo projeto de reforma das aposentadorias não haverá nenhuma dúvida – será o resultado do fogo cerrado do jornal online Mediapart. Paralelamente ao lado político, constituirá a prova concreta de que a mídia eletrônica assumiu sua maioridade.

Talvez mal comparando, o Eu Acuso, de Émile Zola, foi o reconhecimento da força e importância na imprensa política escrita, enquanto a cobertura e denúncias da Mediapart no Caso Bettencourt, sobre fraude fiscal e financiamento do partido governamental na França, confirma o surgimento da informação política online paga pelo leitor e do portal eletrônico ou informação imediata online como a nova manifestação da imprensa de combate e de investigação.

Os esforços da China para controlar Google já têm mostrado que a Internet é um terreno difícil de censurar ou grampear. O advento do celular com chip pré-pago já havia posto em polvorosa os países totalitários e os serviços de inteligência, por permitir a circulação anônima do material contestatório e tornar quase impossível a identificação dos opositores e o controle total da população.

No Brasil, por exemplo, todos sabem da enorme influência das mensagens e-mail na desmoralização do governo FHC pelo PT, assegurando a primeira vitória de Lula. Nos dias de hoje, embora o uso das mensagens desmoralizantes tenham a mesma penetração e uso, entre lulistas e anti-lulistas, é a mídia convencional que se vê ultrapassada pelos blogs e pelos sites alternativos.

Não existe ainda um Mediapart do jornalismo investigativo brasileiro, pago por assinantes, porém será a próxima etapa. O alto custo de manutenção de um jornal impresso com circulação assegurada tem impedido a criação de um grande órgão diário de atualidades e informações independente pela esquerda, mas a Internet poderá permitir se superar essa lacuna.

Um exemplo atual de jornal híbrido com a parte mais forte eletrônica e uma parte impressa, é o Correio do Brasil, que acaba de passar por uma reforma em sua diagramação online, e cuja política é de investir mais no eletrônico que no papel. Porém, é um jornal gratuito vivendo de publicidade, mesmo porque no Brasil não são todos que podem acessar a Internet.

Edwy Plenel, criador e dirigente de Mediapart tem um currículum vitae de prestígio, pois foi chefe da Redação do Le Monde, tendo se destacado por reportagens investigativas durante o governo Mitterrand, que lhe valeram telefone e vida grampeados pelo serviço secreto francês.

Provocador, acha que a missão do jornalismo é a de permanecer alerta e de exercer um contra-poder em relação ao governo. Citando a Corte Internacional de Estrasburgo, Plenel afirma que o jornalista é o cão de guarda da democracia. Se o jornalismo é feito de maneira independente, sem compromissos com o governo ou com o poder econômico, o público se interessa, porém, hoje, na França (mas achamos que no Brasil também por razão diversa) o jornalismo está em crise, os jornais perdem leitores por não observarem mais essa independência.

Mediapart conseguiu sacudir a França - um verdadeiro eletrochoque provocado por um pioneiro jornal online eletrônico num país onde toda a imprensa está praticamente controlada pelo presidente Sarkozy. No Brasil, acontece praticamente a mesma coisa embora de maneira oposta – toda a grande imprensa convencional se desprestigia diante do povo por se submeter aos interesses de grupos econômicos, alguns estrangeiros, contra o presidente Lula, enquanto a mídia alternativa se afirma como informação de referência.

*Rui Martins é jornalista. Foi correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. É autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. É colunista do site "Direto da Redação" e vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, e com o blog "Quem tem medo do Lula?"

Serra em Bangu I

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Deu no Tijolaço do Brizola Neto

Povo grita Lula com estranha visão de Serra em Bangu

Desde ontem eu estava curioso para saber como tinha sido a incursão de Serra a Bangu, tradicional bairro operário do Rio de Janeiro, onde fica o Estádio Proletário de Moça Bonita, campo do Bangu Atlético Clube, time de meu avô aqui no Rio.

Como Serra se aventurou a andar de trem até Bangu, tinha minhas dúvidas de que passaria incólume pela população do bairro, politizada e sempre comprometida com as lutas populares. Procurei no Globo e nada. Olhei a Folha e também nada. As matérias davam a entender que a visita foi insossa, mas nada de extraordinário tinha acontecido. Os jornais apenas reproduziam uma declaração de Serra com críticas à atuação do governo Lula na educação, usando seu profundo argumento de que o que vem sendo feito é “trololó”. Olha só quem estava falando de educação!

Cheguei a pensar que a população talvez nem quisesse mesmo gastar esforço com Serra, mas um amigo me ligou perguntado se eu tinha lido o Valor. Embora preponderantemente um jornal de economia, O Valor tinha feito a melhor cobertura política da passagem de Serra pelo Rio. E lá estava registrado logo no título: “Em Bangu, Serra é lembrado por Saúde e ouve salvas a Lula”. (Como a edição online do Valor é exclusiva para assinantes, coloco aqui a reprodução da matéria extraída da Fecomércio).

E foi justamente na hora em que falava do trololó a jornalistas que “populares não o pouparam e gritos de Lula foram ouvidos diversas vezes”, conta o jornal. Acho que essa vai ser a sina de Serra por onde andar nesse país. Logo na sua primeira atividade de campanha, em Curitiba, ele ouviu gritos de “Dilma, Dilma”, daquela vez registrados por O Globo.

Serra em Bangu II



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ALDO E A MALDIÇÃO DO CURUPIRA

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Por José Ribamar Bessa Freire (*)

- Co-mu-nis-ta! Esse menino fala como um comunista – vociferou tio Esmeraldo, me censurando na varanda da casa da vovó Marelisa, na Rua Monsenhor Coutinho, 380, em Manaus. Vovó, alarmada, empalideceu. Naquela época, 1960, era um pecado mortal, um sacrilégio, ser ou parecer comunista, ainda mais numa família católica, apostólica e romana como a nossa, cheia de padres e freiras.

Foi um comunista, o Luiz Barbeiro, que convenceu o Leno, da Vila Rezende, a esconder no bolso uma hóstia consagrada, de onde jorrou sangue – dizem, eu não vi – manchando sua calça, antes de sair gotejando sobre os trilhos de bonde da Rua Alexandre Amorim. A prima do Leno, Rosilene Cabral, ex-professora do SESC, que está aí mesmo e não me deixa mentir, foi quem lavou a roupa e jura que a mancha só saiu com água benta.

Afinal, como é que eu, um menino de 12 anos, temente a Deus, podia concordar com os comunistas, cuja doutrina ignorava, e que ainda por cima tinham fama de profanadores de hóstia? Tudo começou no dia em que presenciei um parente extremamente pobre, Raimundo Cyrino, contar pra vovó, aos prantos, como os jagunços destruíram sua roça e o expulsaram de um terreno lá no Tarumã, onde vivia com mulher e filhos. Ele não tinha onde cair morto. Foi a primeira vez que vi um homem adulto chorar. E seu choro era tão sentido, tão doído, que hoje, cinquenta anos depois, ainda ecoa em minha lembrança.

Tio Dantas me explicou, então, que toda aquela imensidão de terra vazia e improdutiva tinha dono, e não podia ser usada nem mesmo por quem estivesse morrendo de fome. Revoltado, fiz um discurso ingênuo que, segundo tio Esmeraldo, era uma defesa da reforma agrária – “bandeira dos comunistas”, que ele combatia como candidato a vereador pela UDN (vixe-vixe!). Por via das dúvidas, vovó me aconselhou que rezasse mil vezes a jaculatória ‘Jesus, Maria, José, minh´alma vossa é’. Obedeci. Mas foi aí que minh’alma apostrofada, assim entregue, compreendeu que os comunistas lutavam por justiça social.

Fantasma do comunismo

O que aconteceu com o fantasma que rondava a Europa em meados do século XIX, anunciado pelo Manifesto Comunista de 1848? Faz meio século, ele ainda circulava pelo Brasil defendendo os oprimidos. E agora? Eis o que eu queria dizer: hoje, se a referência fosse o deputado Aldo Rebelo, filiado ao glorioso Partido Comunista do Brasil (PCdoB-SP), a vovó me dispensaria das jaculatórias, e tio Esmeraldo aplaudiria, imitando os ruralistas que, na última terça-feira, em sessão tumultuada numa comissão da Câmara dos Deputados, aprovaram o relatório que modifica o Código Florestal.

Eles aplaudiram o projeto do Aldo, porque ele anistia todos aqueles que, entre 1994 e 2008, cometeram crimes ambientais e desmataram mais do que o permitido por lei. A soma das multas aplicadas nesse período ultrapassa R$ 10 bilhões – segundo cálculos oficiais do IBAMA – que deixam de ser recolhidos aos cofres públicos, beneficiando grandes proprietários e exportadores. Os anistiados sequer são obrigados a replantar o que foi destruído. Aqueles que respeitaram a lei estão se sentido uns babacas.

O projeto do Aldo reduz ainda a faixa obrigatória de preservação das matas que ocupam as margens dos rios, incentivando o desmatamento, recebendo por isso críticas do secretário do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Luiz Pinguelli Rosa. Para Aldo, a floresta é um obstáculo ao progresso e uma inimiga da civilização. Ele ignora o rico patrimônio florestal brasileiro e não reconhece “o inegável papel que a saúde florestal exerce para a saúde climática e para o bem-estar das populações”.

Por isso, foi duramente criticado pela comunidade científica, pelos pequenos agricultores e pelos povos da floresta. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) diz que o parecer não tem qualquer fundamentação científica. E a Confederação Nacional dos Trabalhos na Agricultura (Contag) avalia que ele favorece os grandes desmatadores. Mas Aldo foi ovacionado pela presidente da Confederação Nacional da Agricultura, senadora Kátia Abreu (DEM-TO – vixe, vixe) que, em declaração estarrecedora ao Jornal Nacional, disse como se sentia:

– “Um alívio! Essa suspensão é uma respirada. Nada hoje prejudica mais o agronegócio, a agropecuária, do que essa insegurança jurídica, essa questão das multas, essa truculência que tem sido praticada dia a dia no campo”. O que esse discurso diz e o que ele esconde?


Dito e não-dito

O não-dito é fundamental para apreender o significado do que foi dito. O discurso da senadora não diz que toda propriedade de terra no Brasil foi, originalmente, tomada dos índios à força. Que as terras assim usurpadas foram concedidas como sesmarias pela Coroa Portuguesa aos nobres, navegadores, militares e colonos. Que a economia se baseava no latifúndio, na monocultura e na escravidão. Que o sistema de capitania hereditária isentava o donatário de taxas, fazia dele a autoridade máxima dentro daquelas terras, permitindo até que decretasse a pena de morte para escravos e índios.

Esse sistema de violência institucionalizada foi formalmente extinto no final do período colonial, mas continuou operando até os nossos dias na conduta de muitos proprietários. Segundo a Comissão Pastoral da Terra cresce a violência contra camponeses pobres, com a omissão do Poder Judiciário. Foram assassinados 1546 trabalhadores rurais nos últimos 25 anos, mas foram abertos apenas 85 processos judiciais e somente 19 mandantes de crimes foram condenados. Em 2009, o Brasil viu 25 assassinatos, 71 pessoas torturadas, 1884 famílias expulsas e um aumento de 163% de casas destruídas.

Para a senadora, porta-voz dos donatários do século XXI, a violência não é essa. O agronegócio - coitado! – é que passa a ser vítima da violência no campo. As leis que protegem a floresta e, com ela, a saúde do conjunto da população constituem uma “truculência”. As multas que punem os transgressores da lei sufocam o agronegócio, enfim a ordem jurídica causa insegurança entre os proprietários. Para ela, violência no campo é isso. Dessa forma, ela corrompe a linguagem.

Há alguns meses, o filho da senadora, Irajá Silvestre Filho, 27 anos, que é candidato a deputado federal, estacionou o carro em local privativo dos táxis no Terminal Rodoviário de Palmas (TO). Quando foi abordado pelos policiais militares, ele se recusou a entregar seus documentos, questionou a multa e a remoção do veículo e desacatou a autoridade. Seguindo o exemplo materno, ele se sentiu sufocado pela truculência das leis do trânsito.

O signo lingüístico – a gente sabe – é o signo ideológico por excelência porque carrega valores que disputam a representação do mundo e refletem as relações sociais, os conhecimentos, as crenças, as atitudes. O discurso da senadora pretende expropriar os discursos dos movimentos sociais e usurpar os significados das lutas camponesas, tentando transformar uma representação de uma categoria – a do agronegócio – em crença coletiva – do Brasil.

A senadora cumpre seu papel, em defesa de sua categoria. Faz parte do jogo da democracia burguesa. O doloroso, o imperdoável nisso tudo, é ver Aldo Rebelo, um parlamentar eleito pelo voto comunista, colocar seu trabalho, sua energia, seu verbo e sua biografia a serviço dessas forças, na defesa de um modelo de progresso que contraria a história dos movimentos populares. Dessa forma, ele mancha a trajetória histórica do partido e trai as lágrimas e os anseios de tantos Raimundos injustiçados nesse Brasil. Essa mancha, não tem água benta que dê jeito. Que o voto do Curupira se manifeste nas próximas eleições.

P.S – No Amazonas, para deputado estadual, estou fazendo a campanha do candidato 13013. No próximo domingo, o nome do candidato e as razões do apoio.

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José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (Uerj), reside no Rio há mais de 20 anos, assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti

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Os financiamentos de campanha

Por Edson Joanni

Começa a corrida atrás dos milhõesSucessão. Coordenadores das campanhas presidenciais elegeram os setores em que vão buscar fundos: os petistas darão preferência à indústria naval e às empresas de construção; os tucanos pretendem procurar exportadores insatisfeitos com a política cambial

João Domingos / BRASÍLIA

A coordenação da campanha da petista Dilma Rousseff trabalha para arrecadar R$ 157 milhões - R$ 30 milhões deverão vir do caixa do PMDB - baseada em um raciocínio bem simples: assim como os pobres, que as pesquisas indicam estar satisfeitos com o governo Lula, os ricos também estão.

Os arrecadadores de Dilma avaliam ter vantagem em relação a José Serra e preveem receber, em doações, até três vezes mais do que o adversário, embora o tucano tenha estimado gastos maiores - R$ 180 milhões. Um dos coordenadores da campanha de Dilma arriscou-se a dizer que "para cada R$ 0,1 para Serra, Dilma terá R$ 0,3".


cordo com os petistas, os empresários têm dito que não há motivos para queixas. Como para eles Dilma é a continuidade do atual governo, não haveria motivos para os empresários negarem as contribuições eleitorais quando forem procurados.

A indústria naval, por exemplo, que estava quebrada antes do início do governo de Luiz Inácio da Silva, foi reativada graças, principalmente, às encomendas da Petrobrás. A estatal do petróleo já anunciou que investirá R$ 52 bilhões na próxima década.

A descoberta do petróleo na camada pré-sal vai movimentar ainda mais o setor. Já há 424 encomendas até 2020, sendo 146 de apoio para alto mar, 47 plataformas, 164 navios, 46 navios-tanques e 28 sondas que devem começar a operar a partir de 2013. Quatro estaleiros já estão aptos para construir plataformas.

Lucros recordes. Os petistas dizem que o setor financeiro não teve dificuldades nem durante a crise econômica internacional deflagrada em 2008. Isso graças a programas incentivados pelo governo, que blindaram os bancos com uma forte movimentação de dinheiro no mercado interno e possibilitaram a alguns deles, como o Bradesco, terem em 2010 o maior lucro da história.

Soma-se a isso o crescimento da indústria da construção pesada no Brasil e exterior, com abertura de mercados em países da América Latina, como Bolívia, Peru, Argentina, Equador e Venezuela, por conta de financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aos vizinhos. A exigência feita para os empréstimos é que os governos dos países contratem empresas brasileiras.

Segundo o raciocínio dos coordenadores da campanha do PT, o mercado da construção civil está superaquecido graças ao programa Minha Casa, Minha Vida, que no governo de Lula promete construir 1 milhão de casas. Dilma já anunciou que, se eleita, tocará a segunda fase do projeto, agora com 2 milhões de casas - os números são citados em discursos, mas não aparecem nos documentos oficiais do programa.

Os petistas também incluem entre os setores que tiveram expansão no governo de Lula a indústria da carne, de automóveis, petroquímica, eletroeletrônicos e de informática, além da recuperação do setor calçadista.

Palocci. Para correr atrás do dinheiro dos ricos, o comitê de Dilma destacou o deputado Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda com trânsito entre todos os empresários. Palocci até desistiu de concorrer à reeleição. Vai dedicar-se integralmente à campanha, missão que já começou.

Palocci delegou a outros três petistas a incumbência de passar o chapéu junto ao setor empresarial para arrecadar o dinheiro necessário: José Eduardo Dutra, presidente do PT e coordenador da campanha, José Eduardo Cardozo, secretário-geral do PT, e José de Filippi Júnior, que foi o tesoureiro da campanha para reeleição de Lula, em 2006.

Candidato a uma cadeira de deputado federal por São Paulo, Filippi terá de fazer jornada dupla para conseguir o dinheiro e ainda cuidar de sua campanha. Ele foi três vezes prefeito de Diadema e, nos últimos meses, estava morando nos Estados Unidos, para temporada de estudos.

Filippi foi chamado às pressas para assumir a missão de tesoureiro da campanha de Dilma após o nome de João Vaccari Neto, escolhido para a função, ser envolvido no escândalo da Bancoop - fraudes que teriam sido cometidas pela diretoria da cooperativa, sob o comando de Vaccari, destinadas a beneficiar candidatos do PT. O caso está sendo investigado por uma CPI da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Tucanos apostam em exportadores e empresas aéreas
Classe média rural e setor financeiro também estão na mira do PSDB, que ainda pretende captar doações pela internet

Christiane Samarco / BRASÍLIA

O tucanato aposta em duas "novidades" nesta eleição presidencial para driblar a dificuldade que a oposição geralmente enfrenta na hora de arrecadar recursos e financiar a campanha: o engajamento da classe média rural e a participação de pessoas físicas com doações de valores mais modestos, via internet. Mas, novidades e circunstâncias à parte, tudo será feito sem descuidar do setor financeiro.

Para fortalecer as finanças da campanha os tucanos listaram alguns setores da economia como alvos dos arrecadadores, a começar pelos exportadores sempre queixosos da política cambial que Serra promete mudar. Da mesma forma, estão na mira as empresas de transporte aéreo que integram a lista das mais prejudicadas por uma alta do dólar.

Estudos do banco JP Morgan revelam, por exemplo, que uma alta de 10% do dólar levaria a uma perda de R$ 70 milhões nas receitas da empresa aérea GOL - considerando o cenário em que as demais variáveis permaneçam constantes.

Bancos. Hoje, como nas últimas campanhas do PSDB à Presidência, a expectativa geral é de que as doações mais vultosas venham dos bancos.

Não por acaso, quem está à frente da estrutura de arrecadação é o engenheiro e economista Sérgio Silva de Freitas, de 67 anos, que foi vice-presidente do Banco Itaú e secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão do banqueiro Olavo Setúbal.

A amizade com Serra vem desde 1984, um ano antes da morte de Tancredo Neves, quando Freitas foi escalado para tranquilizar o empresariado quanto ao risco de guinadas na economia. Há mais de dois meses ele vem participando de reuniões com o time das finanças da campanha tucana e tem sido apresentado a empresários como o responsável pela arrecadação.

Sérgio de Freitas não está sozinho na ofensiva do tucanato para engordar o caixa da campanha. O ex-deputado e ex-banqueiro Ronaldo Cezar Coelho, outro amigo de Serra há mais de 20 anos, trabalha desde o início do ano para demover qualquer resistência do setor ao eventual governo tucano, diante das críticas de Serra à política dos juros altos e à atuação do BC.

Com a experiência de quem já coordenou as finanças da campanha presidencial de Geraldo Alckmin em 2006, o presidente da João Fortes Engenharia e ex-deputado Márcio Fortes só não está à frente do comitê arrecadador de Serra porque tem de se dedicar à campanha no Rio de Janeiro, onde é o candidato a vice-governador na chapa de Fernando Gabeira (PV). Ainda assim, ele também é peça-chave na conquista de doadores de vulto pelo perfil eclético.

Fortes já passou pela Secretaria-Geral do Ministério da Fazenda, pela presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela direção de vários órgãos de classe, como a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e o Clube de Engenharia.

'Poder de fogo'. A presidente da Confederação Nacional da Agricultura, senadora Kátia Abreu (DEM-TO), diz que não fará campanha em nome da CNA e lembra que, por lei, a entidade não pode fazer doações para nenhuma campanha. "Mas poder de fogo para arrecadar nós temos", avisa, destacando que os produtores rurais, na condição de pessoas físicas, têm o "direito de trabalhar" pelo candidato que fizer as melhores propostas para o setor.

Na contabilidade tucana, a classe média rural brasileira, que reúne 2,3 milhões de produtores, pode fazer a diferença na eleição. Afinal, bastaria cada um deles contribuir com R$ 100 para que a campanha colocasse R$ 230 milhões no cofre. "O Serra não tem muita proximidade com o agronegócio, mas tem quem tenha", adverte a senadora, lembrando que o setor representa um terço do Produto Interno Bruto (PIB) e 42% das exportações brasileiras.

O candidato a vice na chapa tucana, deputado Índio da Costa (DEM), é um dos que vão usar a internet como instrumento de arrecadação. "Hoje eu falo para 300 mil pessoas diretamente no meu site e tenho 40 mil seguidores no Twitter", ressalta.

Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-financiamentos-de-campanha?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

sábado, 10 de julho de 2010

Serra, um press release perigoso


Serra, um press release perigoso

José Serra, o acaciano retórico, produto híbrido do latifúndio com a banca, é um personagem de press release. Não deve ser levado a sério quando fala em modernidade. Seu projeto autoritário precisa da mídia com poder de Estado e do mercado como única instância de legitimação.

Por Gilson Caroni Filho (*)

Sem fortuna nem virtù, a candidatura Serra deve ser encarada como de fato se apresenta: uma irresponsabilidade política que busca construir sua persona a partir de clichês oratórios de desqualificação da principal oponente, a ex-ministra Dilma Rousseff. O teatro político que pretende montar, tentando se valorizar no jogo da sucessão, pode vir a se revelar o fracasso da temporada, não só pela fragilidade pessoal do ator como pela biografia do elenco de apoio. Mais dia menos dia, terá que descer a cortina, encerrando a apresentação.

Quando diz não ser “ventríloquo de marqueteiro nem de partido, nem de comitês, nem de frações, nem de todas aquelas organizações antigas de natureza bolchevique, que do bolchevismo só ficaram com a curtição pelo poder, porque utopia não ficou nenhuma", importantes perguntas se impõem. Afinal, por quem fala José Serra? Ou, melhor: quem, dissimulando o timbre natural da própria voz, fala por ele? Quem é o boneco nesse jogo mal-ajambrado?

A coligação oposicionista é uma gigantesca operação de engodo promovida pela mesma dupla (PSDB/DEM) que, entre 1994 e 2002, se superava, dia após dia, em matéria de socialização de prejuízos privados e entrega do patrimônio público. Em oito anos o país quebrou duas vezes, as dívidas, interna e externa, cresceram descontroladamente. O grau de dependência se precipitou e a desigualdade alastrou-se.

O descaso com a questão social – vista até hoje pelos tucanos como um estorvo para as contas do governo – fez com que a miséria e o aviltamento dos salários se expandissem. Dados do Banco Mundial, em 1997, apontavam 36 milhões de brasileiros com renda inferior a US$30, o que explica o número assustador de crianças que trocavam a infância e a escola pelo trabalho precoce. Enquanto isso, o governo FHC excluía o imposto sobre as grandes fortunas do seu pacote fiscal. Quebra-se o país, jamais um banco, ensinava o príncipe dos sociólogos.

Em 2001, a mudança no fluxo de capitais agravaria o desequilíbrio externo brasileiro, com a entrada de recursos estrangeiros caindo US$ 10 bilhões em relação ao ano anterior. Para piorar a situação, cresceria a remessa de lucros e dividendos, devido à crescente internacionalização da economia ocorrida na segunda metade da década de 1990. Tudo isso levava a uma valorização excessiva do dólar.

E o que fazia FHC e seu séquito diante da crise do modelo? Segundo o Sindicato da Micro e Pequena Indústria de São Paulo (Simpi), enquanto 80% das microempresas estavam inadimplentes, o governo arquitetava, via BNDES, o socorro das grandes corporações endividadas em dólar. De fato, uma garantia ao mercado que “aquelas velhas organizações bolcheviques" jamais ousariam dar.

É o retorno de catástrofes dessa natureza que a candidatura Serra promete. O neoliberalismo, expressão recente da direita, não hesitará em fazer uso de conhecidas "reengenharias" para destruir o Estado, deixando sobreviver somente os órgãos que garantam os interesses mercantis. Serra é o ventríloquo de um grupo que está convencido de que é necessário reciclar o manual de terra arrasada. O pequeno remanejamento da aliança partidária que deu apoio ao governo de FHC não traz novidades substantivas. O que é o PPS senão o adorno de conhecidos arrivistas?

O DEM (antigo PFL) tem um histórico de hipocrisia, cinismo e empulhação. A mudança de nome, apontada por suas lideranças como primeiro passo de ajustamento necessário, não resistiu a duas primaveras. A operação “Caixa de Pandora", apontando o governador de Brasília, José Roberto Arruda, como principal articulador de um esquema de corrupção envolvendo integrantes do seu governo, empresa com contratos públicos e deputados distritais, revelou o DNA da “novidade”.

Das minúcias, futricas, esperneios, conselhos e advertências desse espectro político, a grande imprensa recolhe a matéria-prima para fazer seus boletins de campanha. José Serra, o acaciano retórico, produto híbrido do latifúndio com a banca, é um personagem de press release. Não deve ser levado a sério quando fala em modernidade. Seu projeto autoritário precisa da mídia com poder de Estado e do mercado como única instância de legitimação.

*Gilson Caroni Filho é sociólogo e mestre em ciências políticas. Nascido e residente no Rio de Janeiro, onde é professor titular de sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha). É colunista da Carta Maior, colaborador do Jornal do Brasil e do blog "Quem tem medo do Lula?".

As charges são uma cortesia do cartunista Bira Dantas, também colaborador do Blog "Que tem medo do Lula?".

O Marechal Lott, Jânio Quadros e as eleições de 2010

Na foto, Lott, em campanha,
corta com a espada, seu símbolo,
a vassoura, símbolo de Jânio.


O Marechal Lott, Jânio Quadros e as eleições de 2010

Por Laerte Braga (*)

Henrique Dufles Baptista Teixeira Lott foi um dos grandes vultos das forças armadas brasileiras. Entre outras coisas não se subordinava a Washington como boa parte dos nossos militares e tampouco tinha aversão ao processo democrático, pelo contrário. Impediu em 11 de novembro de 1955 um golpe dos “patriotas” contra a legalidade.



Ministro da Guerra, era como se chamava o Ministério do Exército, hoje abrigado como Secretaria dentro do Ministério da Defesa, evitou duas tentativas de golpe contra o governo de JK e acabou candidato da coligação PSD/PTB à presidência da República em 1960.



Disputou as eleições contra Jânio Quadros, ex-governador de São Paulo e um terceiro candidato, Ademar de Barros, uma espécie de Paulo Maluf da pré-história, também ex-governador de São Paulo.



Perdeu-as. Jânio foi eleito presidente até por larga maioria de votos.



Lott não tinha boa oratória, as campanhas àquela época se sustentavam principalmente em comícios e aliado a esse fato, boa oratória, Lott tinha a mania da franqueza. Da honestidade em suas palavras. Em suas propostas.



Jânio era um produto da demagogia, mero projeto pessoal de ditador (renunciou numa manobra tragicômica esperando que o povo o reconduzisse ao governo com plenos poderes, tudo sob efeito da “mardita pinga). Candidato da UDN sem nunca ter sido udenista e de Carlos Lacerda, a quem usou até espremer e terminar espremido, não era necessariamente louco como diziam. Demagogo, de interromper comícios para tomar uma injeção de glicose (vivia bêbado) alegando que o cansaço na “luta pelo povo” o obrigava a “sacrifícios” que prejudicavam sua saúde.



Tinha o hábito de assistir filmes de western ao contrário, ou seja, do fim para o princípio. Achava interessante o bandido levantar-se e tomar um soco de John Wayne do que a ordem natural da cena, tomar o soco e cair.



O marechal Lott passou a campanha inteira advertindo aos brasileiros que Jânio levaria o País ao caos. Num dado momento, talvez consciente das dificuldades para sua eleição (tradicionalmente militares foram sempre derrotados em eleições livres para presidente, a exceção de Dutra, mesmo assim porque disputou com outro militar, o brigadeiro Eduardo Gomes), chegou a propor um pacto de unidade nacional em torno de uma candidatura única, no caso o general Juracy Magalhães, governador da Bahia e que havia sido derrotado por Jânio na convenção da UDN.



Para que se possa ter uma idéia da personalidade do marechal Lott, em visita a uma cidade no interior de Minas, descia num automóvel para o centro da cidade, saindo do aeroporto, quando um eleitor de Jânio enfiou uma vassoura dentro do carro, pela janela e tentou atingi-lo. Mandou o carro parar e em meio a lotistas de um lado e janistas de outro, foi até o cidadão, tomou-lhe a vassoura, jogou-a no chão e disse com o dedo em riste –“o senhor pode votar em quem quiser, é um direito que eu assegurei quando garanti a posse do presidente Juscelino, mas o senhor respeite a mim e a democracia, proceda como homem de caráter” -.



Voltou ao automóvel sob aplausos de seus correligionários e silêncio dos janistas que, por sinal, perdeu, Jânio, as eleições nessa cidade.



Em muitas cidades que visitava, pouco antes de subir ao palanque, Jânio dirigia-se a um botequim estrategicamente escolhido, pedia um sanduíche de pão com mortadela, alegava falta de tempo para jantar, uma pinga e uma cerveja quente, assentava-se à mesa com alguém que lá estivesse, chegou a assentar-se no meio fio e com gestos teatrais ia comendo, bebendo e conversando com as pessoas.



Já ex-presidente, escreveu com Afonso Arinos (que redimiu-se depois, era um homem inteligente e um político íntegro) uma enciclopédia da língua portuguesa. No lançamento no Rio de Janeiro, em 1967, almoçava no Clube Ginástico, no centro da cidade, presentes o próprio Arinos (fora seu ministro das Relações Exteriores), outras figuras do antigo udenismo, quando surpreendeu a todos, inclusive jornalistas, com seu pedido. Uma omelete simples, uma pinga especial e uma cerveja quente.



A surpresa maior veio depois. Foi recortando a omelete até dar-lhe a forma de uma suástica e sequer engoliu uma garfada. O que sobrou amassou com as mãos, formou um bolo e colocou fora do prato. Bebeu a pinga, duas ou três cervejas quentes e foi-se.



Segundo Foucault, “não há exclusão entre loucura e crime, mas sim uma implicação que os une. O indivíduo pode ser um pouco mais insano, ou um pouco mais criminoso, mas até o fim a loucura mais extremada será assombrada pela maldade”.



Referia-se, embora seja um conceito amplo, a Doucelin, conde D’Albuterree, que avocava a si a condição de herdeiro da coroa de Castela e que dizia falar com Deus todos os dias, além de receber a visita de Maria algumas vezes por semana.



O problema é que Jânio não rasgava nota de cem, pelo contrário, cultivou a fama de honesto e implacável na defesa do dinheiro público, enquanto ia guardando o “seu” em bancos suíços.



As advertências do marechal Lott se confirmaram e foram além. Com a renúncia de Jânio, em 25 de agosto de 1961, depois de ter proibido desfile de miss com biquíni, briga de galo e imposto o slack como uniforme para os servidores públicos, militares brasileiros comandados por Washington se levantaram contra a posse do vice, João Goulart que se encontrava em missão na China, a pedido de Jânio. Queria-o longe à hora do “golpe” e uma das primeiras prisões feitas foi a do marechal Lott que logo se pronunciou pela legalidade. Jânio mandara Jango à China exatamente por ser aquele país governado pelo Partido Comunista, Mao Tse Tung e Chou em Lai e assim criar um complicador maior para uma eventual posse de Jango tornando mais fácil seu retorno triunfal.



Jango acabou tomando posse, foi decisiva a reação de Brizola, mas os mesmos militares golpistas, complementando o que Lott dissera em 1960, deram um golpe em 1964 e impuseram ao Brasil uma sombria e cruel ditadura sob controle dos EUA. Inclusive comando militar de general norte-americano.



Outra vez, um ano após o golpe, impediram a candidatura do marechal ao governo do antigo estado da Guanabara, temerosos que sua liderança acabasse por despertar a reação popular e de militares íntegros e brasileiros à quartelada. Como Lott fosse eleitor em Teresópolis, criaram a figura do domicílio eleitoral.



José Arruda Serra é uma versão abstêmia de Jânio Quadros. O que às vezes costuma ser pior. Quando secretário de Franco Montoro tinha mania de dar batida nos órgãos públicos do governo do estado de São Paulo para verificar se estava havendo desperdício de clips, elásticos e aparas de papel.



Jânio, quando candidato a prefeito de São Paulo pela primeira vez chegou a colocar um boné de motorneiro e tentar dirigir um bonde. Nesse dia estava numa água só. E dava incertas (mas avisava a imprensa) em repartições públicas.



O curioso é que morto politicamente Jânio foi ressuscitado por FHC, em 1985, derrotando-o numa eleição para a mesma prefeitura de São Paulo. No dia da posse pendurou um par de chuteiras à entrada de seu gabinete para comunicar que estava encerrando sua vida pública.



A insistência com que setores das forças armadas brasileiras tentam a todo custo impedir que os documentos da ditadura venham à tona é simples. Não pode passar pela cabeça de um torturador como o coronel Brilhante Ulstra, que os brasileiros tomem conhecimento de tortura, assassinatos, estupros praticados em prisões da ditadura por “bravos patriotas”. Uma laia de canalhas sintetizada na frase de Samuel Johnson sobre patriotismo.



E tampouco de velhos generais que encobriram esses crimes, tanto quanto promoveram um expurgo nas forças armadas, afastando militares do porte de Rui Moreira Lima, Ladário Pereira Teles, major Cerveira e outros. Foram milhares.



Voltando à vaca fria José Arruda Serra é só uma versão abstêmia de Jânio Quadros. Demagogo, corrupto, sem qualquer escrúpulo ou respeito pelo que quer que seja. É evidente que sendo abstêmio, ou seja o oposto, tenha manias do tipo desinfetar as mãos com álcool ao fim de uma sessão de cumprimento a eleitores, como não se assenta ao meio fio e nem come sanduíche de mortadela. Mas usa o tal desinfetante bucal que protege por doze horas já que em campanha tem que beijar crianças.



Vale-se da sofisticação que as campanhas políticas ganharam nos dias atuais e que permite a demagogos, corruptos e trapaceiros como ele Arruda Serra vender um peixe que não existe.



É a velha alma udenista/golpista assombrando o Brasil (e olha que na UDN, creio que por equívoco, havia figuras como Afonso Arinos, Adauto Lúcio Cardoso, Milton Campos e outros, de caráter e integridade indiscutíveis).



A simples hipótese de um sujeito como Arruda Serra presidente da República (está cada dia mais difícil, mas todo cuidado é pouco) aterroriza.



É só olhar o governo de FHC e multiplicar por um fator que podemos chamar de muitas vezes pior e teremos o resultado.



Pior ainda que um bêbado como Jânio, projeto mambembe de ditador, é um abstêmio doentio e sem escrúpulos como Arruda Serra.



Tucanos são a UDN repetida como farsa e por isso mesmo, revestidos de cinismo, amoralidade, se tornam muito mais nocivos e perigosos que a de outrora, se é que isso é possível.



No fundo seria um passo gigantesco atrás. Um retrocesso sem tamanho.



Lott continua tendo razão absoluta sobre os “jânios” que volta e meia aparecem.



Reside aí a grandeza do velho marechal. O ser brasileiro, ter tido em toda a sua vida compromisso com a democracia sem adjetivos.



Ao contrário de seu antigo adversário Jânio Quadros, que levou o País ao caos e da versão seca, José Arruda Serra, que intenta o mesmo, o caos.



A solução é simples. Ou percebemos isso, ou nos lascamos.



E não adianta a GLOBO, VEJA, ou FOLHA DE SÃO PAULO culpar o Irã, Chávez, fabricar pesquisas o que seja. José Arruda Serra não é um candidato a presidente do Brasil. É uma ameaça ao Brasil e aos brasileiros.



E para não dizer que não falei de flores, nas eleições de 1960 as organizações GLOBO se limitavam ao jornal THE GLOBE, editado em português como O GLOBO, algumas emissoras de rádio e a família Marinho, dona do complexo da mentira, apoiou Jânio Quadros. Roberto Marinho ainda era o “comandante”.



Quem disse que o marechal Lott não tem a ver com as eleições de 2010?



A História não morreu não, está mais que viva.



E a propósito de bêbados, nem todos são Jânio, ou como dizia o poeta Sílvio Machado, “nunca vi uma boa idéia nascer em leiteria”. Por isso mesmo Arruda Serra é uma versão Drácula da barbárie patriótica udenista.


*Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no “Estado de Minas” e no “Diário Mercantil”. É colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”

Censura e truculência contra jornalistas. Onde está a ANJ?

As demissões de jornalistas na TV Cultura de São Paulo e o silêncio dos grandes meios de comunicação sobre as causas destas demissões evidenciam mais uma vez um preocupante comportamento cínico, submisso e hipócrita. Mais uma vez, são blogs e sites de jornalistas independentes que cumprem o dever de informar ao público o que é de interesse público. Entidades como a Associação Nacional de Jornais, supostamente comprometidas com a defesa da liberdade de expressão, exibem um silêncio ensurdecedor.

Editorial - Carta Maior

O comportamento cínico e hipócrita da maioria das grandes empresas de comunicação do Brasil ficou mais uma vez evidenciado esta semana, e de um modo extremamente preocupante. Não se trata apenas de valores ou sentimentos, mas sim de fatos objetivos e de silêncios não menos objetivos. O relato sobre demissões na TV Cultura de São Paulo, causadas pelo interesse de jornalistas no tema dos pedágios, justifica plenamente essa preocupação. Um desses relatos, feito nesta sexta-feira pelo jornalista Luis Nassif, chega a ser assustador. Em apenas uma semana, dois jornalistas perderam o emprego, escreve Nassif, em função de uma matéria sobre pedágios. Ele relata:

Há uma semana, Gabriel Priolli foi indicado diretor de jornalismo da TV Cultura. Ontem (7), planejou uma matéria sobre os pedágios paulistas. Foram ouvidos Geraldo Alckmin e Aloízio Mercadante, candidatos ao governo do estado. Tentou-se ouvir a Secretaria dos Transportes, que não quis dar entrevistas. O jornalismo pediu ao menos uma nota oficial. Acabaram não se pronunciando.

Sete horas da noite, o novo vice-presidente de conteúdo da TV Cultura, Fernando Vieira de Mello, chamou Priolli em sua sala. Na volta, Priolli informou que a matéria teria que ser derrubada. Tiveram que improvisar uma matéria anódina sobre as viagens dos candidatos.

Hoje (8) , Priolli foi demitido do cargo. Não durou uma semana.

Semana passada foi Heródoto Barbeiro, demitido do cargo de apresentador do Roda Viva devido às perguntas sobre pedágio feitas ao candidato José Serra (ver vídeo abaixo). Para quem ainda têm dúvidas: a maior ameaça à liberdade de imprensa que esse país jamais enfrentou, nas últimas décadas, seria se, por desgraça, Serra juntasse ao poder de mídia, que já tem, o poder de Estado.




Não é o primeiro relato sobre a truculência do ex-governador de São Paulo com jornalistas. Nos últimos meses, há pelo menos dois outros episódios, um deles envolvendo a jornalista Miriam Leitão, na Globonews, e outros envolvendo jornalistas da RBS TV, em Porto Alegre. A passagem da truculência à ameaça ao trabalho dos jornalistas é algo que deveria receber veemente manifestação da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), sempre prontas a denunciar tais ameaças. No entanto, ao invés disso, o que se houve é um silêncio ensurdecedor.

Mais uma vez, são blogs e sites de jornalistas independentes que cumprem o dever de informar ao público o que é de interesse público. E, mais uma vez também, os chamados jornalões e seus braços no rádio e na TV, calam-se, aliando submissão e cumplicidade com a truculência e o desrespeito ao trabalho de experientes profissionais. O mesmo silêncio, a mesma submissão e a mesma cumplicidade manifestadas nos recentes casos de assassinatos de jornalistas em Honduras, em função de sua posição crítica ao golpe de Estado ocorrido naquele país.

Esse triângulo perverso que une cinismo, hipocrisia e silêncio não é um privilégio da imprensa brasileira. Um outro caso, esta semana, envolveu uma das maiores cadeias de televisão do mundo. A CNN demitiu a jornalista Octavia Nasr, editora de noticiário do Oriente Médio, por causa de uma mensagem publicada por ela em sua página no Twitter onde manifestou “respeito” pelo ex-dirigente do Hezbollah, Sayyed Mohammed, que morreu no final de semana passado. Octavia tinha 20 anos de trabalho CNN. O que ela escreveu no twitter e causou sua demissão foi: “(Fiquei) triste por saber do falecimento do Sayyed Mohammed Hussein Fadlallah…Um dos gigantes do Hezzbollah que eu respeito muito”. Parisa Khosravi, vice-presidente-sênior da CNN International Newsgathering, afirmou em um memorando interno que “teve uma conversa” com a editora e “decidimos que ela irá deixar a companhia”.

Essa mesma CNN não hesita em denunciar agressões à liberdade de imprensa em outros países quando isso é do interesse de sua linha editorial e dos interesses geopolíticos da empresa. Crime de opinião? Segundo as versões oficiais, isso só existe em países do chamado eixo do mal.

Esse mesmo triângulo perverso ajuda a entender por que essas grandes corporações midiáticas não querem debater com a sociedade a sua própria atuação. Colocam-se acima do bem e do mal como se fossem portadores de legitimidade pública. Não são. Ao cultivarem esse tipo de comportamento e prática, o que estão fazendo, na verdade, é auto-atribuir-se, de modo fraudulento, uma suposta representação pública. Representam, na verdade, os interesses dos donos das empresas e, cada vez menos, o interesse público.

Neste exato momento, o planeta vive aquele que pode vir a se confirmar como o maior desastre ecológico de sua história. O acidente com a plataforma da British Petroleum no Golfo do México e o vazamento diário de milhões de litros de óleo no mar tem proporções ainda incalculáveis. No entanto, a cobertura midiática sobre o caso nem de longe é proporcional, em quantidade e qualidade, à gravidade e importância do caso. Organizações ambientalistas já denunciaram que a BP vem operando pesadamente nos bastidores para bloquear e filtrar informações.

É preciso ter clareza que são os dirigentes e porta-vozes dessas corporações midiáticas e seus braços políticos e empresariais que não hesitam em denunciar qualquer proposta de tornar transparente à sociedade o seu trabalho, supostamente de interesse público. O bloqueio e seleção de informações, a demissão de jornalistas incômodos e a truculência com aqueles que ousam fazer alguma pergunta fora do script são diferentes faces de um mesmo cenário: o cenário da privatização da informação, da deformação da verdade e da destruição do espaço público.

Berlusconi roda a baiana, como um duce de buffonata


















Berlusconi roda a baiana, como um duce de buffonata

Por Celso Lungaretti (*)


escrevi sobre como os anos Berlusconi deixaram em cacos a imagem que eu tinha da Itália: a de um país amadurecido, pleno de humanidade, compaixão e sabedoria.

Cinéfilo inveterado, queria crer que cada italiano tivesse um pouco de Marcello Mastroianni; e cada italiana, de Sofia Loren.

De repente, fiquei sabendo que a figura realmente emblemática da pátria do meu avô é outra, uma versão piorada de Benito Mussolini (a História se repetindo como farsa grotesca, buffonata de mafuá...).

E cada vez mais escândalos e delinquências foram vindo à tona: ligações perigosas com a Máfia, antecedentes neofascistas, fraudes, subornos, arbitrariedades, deboches.

Um rosário de ilegalidades, irregularidades e impropriedades, mais do que suficientes para derrubar o premiê de qualquer nação que se respeitasse.

A Itália, infelizmente, não se respeita.

Então, nela nada mais me surpreende.

Nem mesmo que esteja em gestação uma lei com o objetivo gritante de manietar a Justiça e censurar a imprensa, apenas para que não seja mostrada ao povo a nudez do rei.

É o que informa a notícia Itália para contra a "lei da mordaça", publicada neste sábado (10) pela Folha de S. Paulo, cujos principais trechos reproduzo em seguida:
"Os principais jornais italianos decidiram não circular ontem nem atualizar seus sites na internet. A maioria dos canais não exibiu telejornais, e foram poucas as notícias nas rádios. Também houve greve de transportes em cidades como Roma e Milão.

"Foi um protesto contra a 'lei da mordaça', como é conhecido o projeto que o premiê Silvio Berlusconi tenta aprovar no Congresso.

"O projeto já passou no Senado e deve ir à votação na Câmara no dia 29. Se virar lei, irá restringir o uso de grampos telefônicos em investigações e punir com multa os meios de comunicação que publicarem as transcrições.

"Aos jornalistas, estão previstas penas de prisão de até dois meses.

"Há também grande descontentamento entre juízes. A associação dos magistrados afirmou em nota que a nova lei irá tornar muito mais difícil o trabalho investigativo de policiais e juízes.

"...os críticos afirmam que ele [Berlusconi] tenta se proteger, evitando investigações sobre sua vida e sobre membros do governo. Em 2009, o vazamento de partes de investigações sobre corrupção atingiram o premiê.

"Foram divulgados pelos meios de comunicação fotos e detalhes de festas que o premiê dava em sua casa, para as quais eram contratadas garotas de programa.

"Há dois meses, Berlusconi foi obrigado a aceitar a renúncia de Claudio Scajola, seu então ministro da Indústria, após a mídia divulgar operações fraudulentas na compra de um apartamento".
O primeiro-ministro reagiu pedindo a ajuda de seus simpatizantes para dar fim à "mordaça imposta à verdade", por parte de uma mídia que "pisoteia sistematicamente no sagrado direito à privacidade dos cidadãos invocando a liberdade de imprensa como se fosse um direito absoluto".

Segundo o herdeiro espiritual do Duce, "na democracia não existem direitos absolutos".

Parece um papa discorrendo sobre sexo: fala sobre o que desconhece e nunca praticou. Não passa de figura tosca de um autoritarismo rançoso e odioso.

Enfim, serve como consolo a constatação de que, com enorme atraso, os italianos finalmente começam a despertar de sua letargia cúmplice.

Talvez nem tudo esteja perdido; aguardemos os próximos e emocionantes capítulos.
*Celso Lungaretti, jornalista e escritor.
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Uma fábula quase fabulosa

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A raposa canhota e o veadão predador

Fernando Soares Campos

Era uma vez uma raposa que vivia se gabando de ser muito habilidosa no uso da mão esquerda. Dona Canhota, como ficou conhecida entre os animais da reserva florestal onde ela fazia campanha contra a ação predadora dos veados gigolôs de vaca, que estavam dispostos a abrir clareiras, ou até mesmo destruir o que restou da floresta, a fim de criar um ambiente espaçoso, acolhedor, ecoerótico, em que pudessem receber a visita de suas companheiras bovinas.

– Essa aqui, não! – gritou Dona Canhota ao ver o veadão predador se aproximar de uma castanheira empunhando um tenebroso machado.

– Isso aí não passa de um inútil obstáculo para recebermos nossas mais queridas amigas, as Vacas Selvagens do Capitalismo Sagrado. Por que poupar uma reles Bertholletia excelsa, que, de sublime, só tem o nome? – questionou o veadão.

– Por que esta aqui agrega valor afetivo inegociável. Foi debaixo dela que desenvolvi minhas habilidades canhoteiras.

O veadão sentiu que Dona Canhota estava disposta a defender aquela castanheira a qualquer custo, então, tratou de intimidá-la pressionando com todos os sofismas que encontrou entranhados nos pelos do seu caudaloso rabo, para que ela se embaraçasse e não pudesse argumentar de maneira coerente.

O veadão deu um salto acrobático e se posicionou por detrás da raposa, aplicando-lhe uma gravada e interrogando a fulana de acordo com o método ditabranda.

– Como assim?! Dá pra explicar melhor?

Dona Canhota perdeu o fôlego e, num esforço descomunal, grasnou:

– Conheço... seus... métodos... de... copular... [groooo...!] Comer... assim... é estupro... [ruuum...!] Além disso, posso explicar sem dar.

O veadão soltou a raposa e, ainda fechando o zíper da calça, bramiu:

– Então, desembucha, sua velha canhestra!

A raposa se refez do susto, sentou-se recostada ao tronco da castanheira e pôs-se a chorar resmungando:

– Foi aqui, debaixo dessa castanheira, que desenvolvi um dos meus mais preciosos talentos...

– Como assim? – quis saber o veadão, desta vez empregando “como” como advérbio – Pode me explicar com maiores detalhes?

A raposa abraçou-se à excelsa Bertholletia, beijou-a ternamente, como Judas a Cristo, e falou emocionada:

– Nos períodos da entressafra, quando todas as castanheiras param pra manutenção de suas estruturas reprodutivas, somente esta aqui permanece nos fornecendo a preciosa castanha de que precisamos para nos manter fortes e saudáveis.

– E daí?! Isso é apenas uma prova do caráter subversivo dessa indisciplinada e aberrante criatura que contraria os princípios da Mãe Natureza, portanto deve ser ceifada com requintes de crueldade, e seus restos mortais jogados ao forno-carvoeiro, para que possa se transformar em alguma coisa útil, capaz de alegrar as churrascadas de cotia que vamos dar quando da chegada de nossas amigas vacas com seus taurinos maridos e amantes equinos.

– Tudo bem, não discordo do senhor, mas, apesar desse ecoparadoxo, foi aqui, sob essa copa frondosa, que aprendi a usar, com muita habilidade, a minha esquerda.

– Dá pra... quer dizer, pode me explicar melhor?!

– Todos os animais, inclusive a cotia, que costuma espalhar sementes de castanheira por todos os recantos da floresta, a fim de preservar a produção de alimentos, usavam a mão direita para quebrar a casca da castanha, enquanto somente eu batia com a esquerda...

– Quer dizer que foi daí que surgiu seu apelido, Dona Canhota, é isso?

– Sacou de primeira! Tá ficando esperto que nem uma raposa, seu viadão!

Naquele exato momento, eis que surge na clareira um bando de vacas lideradas por uma cotia. Todas gritavam palavras de ordem no mais-que-perfeito estilo da militância político-esquerdista de memoráveis épocas: “Vacas! unidas! serão sempre comidas!”

Embasbacada, Dona Canhota grunhiu:

– Como pode uma cotia liderar uma manada de vacas-piranha?

O veadão relaxou seu aspecto agressivo, apoiou as munhecas na cintura e, encantado com a imagem da líder do movimento, respondeu:

– Aquela lá é a Kátia, a cotia catimbeira. Dizem que em outra encarnação ela foi vaca. Agora tá encabeçando o movimento GLSA, Gado Leiteiro e Sacanagens Afins, e também tá organizando uma parada sinistra no centro de uma megalópole desvairada.

Ato contínuo, o viadão disparou em direção ao numeroso grupo de ecomilitantes em causa própria, saltitando como um veado urbano e cantarolando eufórico: “Eu vou, eu vou, com Kátia agora eu vou! Pararatibum!”

Dona Canhota, igualmente extasiada diante daquele agitado movimento de reivindicação animal, lembrou-se dos tempos em que os animais liam Eric Arthur Blair e diziam ter lido George Orwell.

Saudosa dos áureos tempos, Dona Canhota suspirou desolada e desabafou:

– Quem me dera poder liderar um movimento desse porte em defesa da minha castanheira solitária...

Quebrando a monotonia dos macabros uivos da floresta, um chiado contínuo e ondulante ecoou pelos céus da floresta:

(Contrarregra atualizado conforme o novo Acordo Ortográfico: “ShiiiIIIiiiiiiIIIiiiiiiiiiiiiiii...”)

Eram os ruídos de milhões de bagabagas, formigas-brancas, itapecuins, itapicuins, muchéns, punilhas, salalés, térmitas e térmites, que na verdade é tudo a mesma coisa: cupim.

Dona Canhota, que entendia e sabia decifrar todos os sons da floresta, pôde traduzir a onomatopaica mensagem que dizia: “Cupins! unidos! comem pau, mas não são comidos!”

– Eureka! – gritou a velha raposa (assim mesmo, com “k”, como convém aos mais espertos, aqueles que arremedam a cultura dos eruditos).

A partir daquele dia, Dona Canhota adotou a filosofia dos cupins cupinchas e viajou pelos vinte quatro cantos do país defendendo a preservação de sua castanheira solitária e comendo pau podre como quem saboreia madeira de lei fresquinha!

Ecomoral: Um veadão predador incomoda muita gente; uma raposa cupineira incomoda muito mais.

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Entidades do Recife realizam caminhada em defesa de um Código Florestal que atenda aos anseios da sociedade

Manifestação, que conta com o apoio da Fundação SOS Mata Atlântica, terá caixões e coroas de flores, para simbolizar a morte da legislação ambiental e do patrimônio nacional brasileiro

No próximo dia 10 de julho (sábado), das 9h às 12h, as entidades Sociedade Nordestina de Ecologia, SERTA, SURFGURU e MST realizarão uma camimhada para marcar a aprovação de mudanças catastróficas na legislação ambiental brasileira. A manifestação, que acontecerá na orla de Boa Viagem, contará com caixões e coroas de flores, simbolizando a morte do Código Florestal e também de bens fundamentais de nosso patrimônio natural, como a água, as florestas, a biodiversidade e a regulação do clima.

A Comissão Especial do Código Florestal na Câmara dos Deputados aprovou nesta semana diversas mudanças na legislação atual. As mudanças, defendidas pela bancada ruralista e pelo setor do agronegócio, haviam sido compiladas em um relatório apresentado pelo deputado Aldo Rebelo no início de junho. O texto aprovado pela Comissão segue agora para o plenário da Câmara dos Deputados, mas ainda não tem data definida para entrar em votação.

Entre as mudanças mais perigosas para o meio ambiente, estão a anistia para quem desmatou até 2008, o fim da reserva legal para propriedades de até quatro módulos, a diminuição das Áreas de Preservação Permanente e a autorização para que Estados e municípios legislem sobre o assunto.

A Fundação SOS Mata Atlântica vem acompanhando as discussões sobre o Código Florestal desde o início e em março deste ano lançou a campanha Exterminadores do Futuro, que tem por objetivo proteger a legislação ambiental brasileira, monitorando o andamento de leis e decretos e o comportamento dos parlamentares sobre temas que interfiram na proteção do bioma Mata Atlântica.

“Iniciativas como a das entidades pernambucanas são fundamentais para mostrar para a população o que está acontecendo em Brasília e como alguns deputados vem destruindo o meio ambiente e ameaçando nosso futuro”, disse Mario Mantovani, diretor de políticas públicas da Fundação. “Os brasileiros estão preocupados com seu patrimônio natural e não querem ver as leis ambientais destroçadas, mas muitas vezes nem ficam sabendo o que acontece no Congresso. Por isso essas mobilizações regionais são tão importantes”.


CAMINHADA PELO CÓDIGO FLORESTAL
DATA: 10 de julho, sábado, às 9h (concentração)
LOCAL: Orla de Boa Viagem, em frente ao Ed. Acaiaca (caminhando até a Praça de Boa Viagem)
Contato: SNE, Carlos André Cavalcanti, (81) 9211-2205

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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PressAA

Agência Assaz Atroz

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Centrais acusam tucano de impostura e golpe contra trabalhadores

Da redação do Portal Vermelho, com agências

As centrais sindicais lançaram manifesto conjunto na última quarta-feira (7) onde alertam a população para que não se deixe enganar pelas mentiras veiculadas na rádio e na televisão por José Serra, candidato de Fernando Henrique e do PSDB à Presidência da República, a respeito de pretensas medidas que teria proposto em prol da classe trabalhadora. Serra age como um verdadeiro lobo vestido em pele de cordeiro.

Sob o título “Serra: impostura e golpe contra os trabalhadores”, CUT, Força Sindical, CTB, CGTB e Nova Central denunciam que “o candidato José Serra (PSDB) tem se apresentado como um benemérito dos trabalhadores, divulgando inclusive que é o responsável pela criação do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e por tirar do papel o Seguro-Desemprego. Não fez nenhuma coisa nem outra. Aliás, tanto no Congresso Nacional quanto no governo sua marca registrada foi atuar contra os trabalhadores”. De acordo com as centrais, “a mentira tem perna curta e os fatos desmascaram o tucano”.

Falsificando a história

A nota assinada pelos presidentes das centrais (Wagner Gomes, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil; Artur Henrique, da Central Única dos Trabalhadores; Miguel Torres, em exercício, da Força Sindical; Antonio Neto, da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil e José Calixto Ramos, da Nova Central Sindical dos Trabalhadores) ressalta é fundamental que a população seja bem informada a respeito dos fatos para que dimensione o tamanho da falsidade que vem sendo divulgada pelo PSDB.

“A verdade”, esclareceram, é que “o seguro-desemprego foi criado pelo decreto presidencial nº 2.284, de 10 de março de 1986, assinado pelo então presidente José Sarney. Sua regulamentação ocorreu em 30 de abril daquele ano, através do decreto nº 92.608, passando a ser concedido imediatamente aos trabalhadores”. Da mesma forma, “o FAT foi criado pelo Projeto de Lei nº 991, de 1988, de autoria do deputado Jorge Uequed (PMDB-RS). Um ano depois Serra apresentou um projeto sobre o FAT (nº 2.250/1989), que foi considerado prejudicado pelo plenário da Câmara dos Deputados, na sessão de 13 de dezembro de 1989, uma vez que o projeto de Jorge Uequed já havia sido aprovado”.

Reprovado pelo Diap

Na Assembleia Nacional Constituinte (1987/1988), o candidato tucano votou reiteradamente contra os trabalhadores, assinala o manifesto: “Serra não votou pela redução da jornada de trabalho para 40 horas; não votou pela garantia de aumento real do salário mínimo; não votou pelo abono de férias de 1/3 do salário; não votou para garantir 30 dias de aviso prévio; não votou pelo aviso prévio proporcional; não votou pela estabilidade do dirigente sindical; não votou pelo direito de greve; não votou pela licença paternidade; não votou pela nacionalização das reservas minerais”.

Por isso, conforme recordam os sindicalistas, José Serra foi reprovado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que conferiu aos parlamentares uma nota entre zero a dez de acordo com a posição assumida na votação dos temas de interesse da classe trabalhadora, em particular o capítulo sobre direitos sociais.

Serra, que a esta altura já tinha se bandeado para o lado da direita, teve nota 3,75 pelo desempenho na Constituinte. Vale lembrar que no primeiro turno da Constituinte, o atual candidato tucano tirou nota 2,50 e, no segundo turno, por se ausentar em várias votações em que havia votado contra, levou nota 5,0 – o que lhe elevou a média para 3,75.

Homem do capital financeiro

Já em 1994, diante da proposta de Revisão Constitucional, lembram as centrais, “Serra apresentou a proposta nº 16.643, para permitir a proliferação de vários sindicatos por empresa, cabendo ao patrão decidir com qual sindicato pretendia negociar. Ainda por essa proposta, os sindicatos deixariam de ser das categorias, mas apenas dos seus representados. O objetivo era óbvio: dividir e enfraquecer os trabalhadores e propiciar o lucro fácil das empresas. Os trabalhadores enfrentaram e derrotaram os ataques de Serra contra a sua organização, garantindo a manutenção de seus direitos previstos no artigo 8º da Constituição”.

Conforme o manifesto, “é por essas e outras que Serra, enquanto governador de São Paulo, reprimiu a borrachadas e gás lacrimogêneo os professores que estavam reivindicando melhores salários; jogou a tropa de choque contra a manifestação de policiais civis que reivindicavam aumento de salário, o menor salário do Brasil na categoria; arrochou o salário de todos os servidores públicos do Estado de São Paulo”.

“As Centrais Sindicais brasileiras estão unidas em torno de programa de desenvolvimento nacional aprovado na Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, em 1º de junho, com mais de 25 mil lideranças sindicais, contra o retrocesso e para garantir a continuidade do projeto que possibilitou o aumento real de 54% do salário mínimo nos últimos sete anos, a geração de 12 milhões de novos empregos com carteira assinada, que acabou com as privatizações, que descobriu o pré-sal e tirou mais de 30 milhões de brasileiros da rua da amargura”, conclui o documento assinado pela CUT, Força Sindical, CTB, Nova Central e CGTB.

Enfim, Serra é um homem do capital financeiro e, como tal, já se revelou inimigo da classe trabalhadora. Definitivamente não merece a confiança das centrais sindicais.

Como se gesta uma catástrofe ecológica

Emir Sader: CARTA MAIOR

“Reston, no Estado de Virginia, periferia de Washington DC, está a milhares de quilômetros do Golfo do México, de suas costas cheias de óleo e do desastre ecológico. No entanto, foi lá que tudo começou, onde estão os escritórios da corporação International Resgistries (IRI).”

Quem conta é Khadua Sherife, jornalista, em artigo reproduzido na edição brasileira do Le Monde Diplomatique – uma das melhores, se não a melhor publicação escrita brasileira – deste mês. A empresa propõe a seus clientes – segue relatando ele – contornar a regulamentação marítima e instalar suas plataformas em um país com leis mais frouxas: a República das Ilhas Marshall, um arquipélago de 62 mil habitantes no meio do Oceano Índico. A British Petroleum é uma de suas clientes.

As Ilhas Marshall têm o maior índice de registros marítimos do mundo, com 221 plataformas de petróleo – 4 vezes mais do que os registros concedidos nos EUA, o país com as maiores empresas petroleiras. Como o Panamá e a Libéria, as Ilhas Marshall também propõem uma “jurisdição do sigilo”, funcionando como formas de paraísos fiscais e centros financeiros não continentais. Não é necessário sequer estar lá para obter essa forma de permissividade e criar uma empresa.

Sherife, fingindo ser um possível cliente, entrou em contato por internet com a IRI, apenas alguns dias da explosão do Golfo do México e recebeu como resposta que a criação de uma empresa registrada na Olha não tardaria mais do que um dia, com um custo total de USS 650 mil, mais 450 de renovação anual. Disseram que o status da nova empresa não seria publicado, podendo desfrutar da ausência completa de impostos e níveis de confidencialidade comercial inigualáveis.

Informa-se que a nova empresa deseja instalar uma plataforma do tamanho daquela da BP e a IRI propõe um parcelamento em cotas de 15 mil dólares, acrescidos de 15 centavos por barril e uma redução de 50% para uma frota de 10 ou mais plataformas com menos de 15 anos.

A BP valeu-se amplamente desses privilégios das Ilhas Marshall. Encabeçando 294 filiais registradas em países que garantem sigilo, aumentou sua produção, alugando a plataforma Deepwater Horizon. No dia 20 de abril deste ano a instalação da plataforma estava quase concluída, à exceção de um poço que ainda necessitava ser perfurado. Diante do curso diário da plataforma, os gerentes da BP decidiram ignorar os procedimentos de segurança. Embora estivessem conscientes dos problemas que o sistema de antiexplosão apresentava, buscaram um único objetivo: perfurar a qualquer custo.

Como uma das conseqüências disso 11 operários morreram, milhares de pessoas foram direta e indiretamente afetadas e o ecosistema de Nova Orleans pode levar centenas de anos para se restabelecer. Mas o diretor da BP, Tony Hayward, afirmou: “O impacto ambiental desse desastre será, provavelmente, bastante modesto”.

Assim se gestou a maior catástrofe ambiental contemporânea.

Decisão de distritais é desmoralização

Editorial do Correio Braziliense - 09/07/2010

O ruim pode piorar. Outra não é a conclusão a que os brasilienses chegam depois das notícias sobre a Câmara Legislativa. Por decisão unânime, a Mesa Diretora aprovou a proposta de redução do expediente dos parlamentares. Durante a campanha eleitoral, os deputados só trabalharão um dia na semana. Pior: manterão o subsídio integral. Significa que a diária paga aos representantes do povo se aproxima do salário mensal de médico ou professor da rede pública do Distrito Federal.

É lamentável que o Legislativo da capital, sonhado para ser modelo para o restante do país, inspirou-se nos piores vícios das piores casas legislativas nacionais. Nepotismo, empreguismo, tráfico de influência, projetos contrários ao interesse público, plenários vazios constituem regra, não exceção. Mais: com indesejável frequência, representantes dos eleitores de Brasília abandonam o noticiário político para frequentar o policial.

No escândalo Caixa de Pandora, mais da metade dos 24 integrantes da Casa se revelaram destinatários de favores imorais ou envolvidos na percepção de propinas. As imagens, divulgadas por jornais, revistas e tevês, mostram a desenvoltura com que deputados embolsavam somas de origem duvidosa. Dinheiro na meia e dinheiro na bolsa tornaram-se símbolo das falcatruas perpetradas contra o erário. Verbas que deveriam se destinar à educação, saúde, transporte ou segurança encontraram caminhos nada nobres — engordaram as contas de poucos em detrimento do bem de todos.

Antes, representantes do DF protagonizaram ultrajes que constrangem as consciências civilizadas. Desvio de recursos públicos, assassinato, turismo sexual servem de exemplo. Confiantes na impunidade e na lentidão da Justiça, parlamentares fichas sujas se lançam agora em nova aventura eleitoral. Sem constrangimento, usam o mandato para levar vantagem na corrida às urnas. Nenhum outro trabalhador goza do privilégio de comparecer ao trabalho uma vez por semana e, ao fim do mês, receber o salário integral.

É revoltante. No momento em que se impõe renovação maciça da Câmara Legislativa, os deputados zombam do eleitor. A expectativa é que o troco venha rápido. Em 3 de outubro, o brasiliense deve fazer as vezes de juiz. Justo, dizer não a todos os que não souberam honrar a confiança neles depositada.

Bancos precisam repassar os ganhos com a internet

Valor Econômico - 09/07/2010

Quinto país no mundo em conexões com a rede mundial de comunicação por computador e um dos maiores mercados das redes sociais Orkut e Facebook, era natural que o Brasil se tornasse também fervoroso adepto do banco pela internet.

Foi no ano passado que a internet assumiu a liderança das transações bancárias, superando o aparentemente imbatível caixa eletrônico, as tradicionais agências e o emergente correspondente bancário. A disparada ocorreu a partir da segunda metade da década, não por acaso o período em que o acesso à internet cresceu 75% no país, atingindo pouco mais de um terço da população e, curiosamente, de modo democrático, isto é, chegando inclusive à população de menor escolaridade, por meio das "lan houses".

Quase 50 milhões de brasileiros utilizaram a internet para realizar serviços bancários em 2009. Um ano antes eram 30 milhões, o dobro do registrado em 2004.

A internet passou a ser o canal de atendimento bancário preferido pelos clientes pessoas físicas e jurídicas, por meio do "home" e do "office banking", viabilizando 30,6% das transações bancárias em 2009. Assim, a internet superou, como canal de realização de operações bancárias, ainda que por ligeira margem, o caixa eletrônico, que respondeu por 29,7% dos negócios em 2009.

Na boca do caixa das agências, foram realizadas 23,8% das transações, pondo por terra a velha crença de que o cliente prefere o contato olho no olho. A experiência de longas esperas, desagradável apesar das senhas, cadeiras e ar-condicionado está mudando rapidamente os costumes. Não há filas no banco pela internet, e o horário de atendimento é totalmente flexível. Na verdade, a participação das agências nas transações bancárias em 2009 até declinou, 2%.

O desenvolvimento de mecanismos de segurança das operações também colaborou. Sinal disso é que a internet foi utilizada em 18% das operações em valor. Os clientes deixaram de usar a internet apenas para consultar saldos e extratos e passaram a realizar operações financeiras. Dos 8,4 bilhões de transações realizadas pela internet em 2009, 40% foram consultas e 17,5%, pagamentos e transferências.

Há apenas quatro anos, mais negócios bancários eram realizados nas agências (26%) do que pela internet (24,5%). O campeão de transações era o caixa eletrônico (34,6%).

Atualmente, todo os canais de atendimento remoto, incluindo internet, caixas automáticos, centrais de atendimento por telefone, representam nada menos do que 66,7% das transações bancárias. O percentual tem ficado estável nos últimos quatro anos, apenas mudando a preferência do cliente pelo canal.

Os bancos estimulam o crescente uso da internet pelos clientes e o motivo é simples: o custo da transação por computador é de cerca de 10% da operação feita na boca do caixa. Nos terminais de autoatendimento, o gasto do banco equivale a 35% ao de uma operação feita na agência; e, no atendimento telefônico, 60%.

Mas as tarifas cobradas dos clientes ainda são elevadas e não há um claro estímulo financeiro ao uso da internet. Desde que o Banco Central, pressionado pelos órgãos de defesa do consumidor, passou a legislar sobre a cobrança das tarifas bancárias, em 2007, instituindo um cardápio de serviços básicos gratuitos, a situação do cliente melhorou.

Levantamentos feito tanto pelos bancos, por meio da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), quanto pela Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon), de São Paulo, constataram a estabilidade ou queda de tarifas de produtos bancários importantes como folha de cheque ou transferências. Segundo a Febraban, do total de 30 serviços bancários cuja cobrança foi regulamentada, 23 registraram redução de tarifa depois que a nova regra foi criada.

Os bancos buscaram compensar a pressão usando a criatividade e criando novas cobranças, como a renovação semestral do cadastro. Em setembro do ano passado, o BC voltou a agir para coibir essa prática. Apenas o fim da cobrança da tarifa de renovação do cadastro possibilitou a queda de 52% em um menu básico de tarifas consideradas essenciais pelo Procon, composta principalmente por serviços gratuitos, pesquisados em dez bancos, entre abril de 2009 e maio de 2010.

A média, porém, sempre esconde os exageros como o fato de o Banco do Brasil ter aumentado em 20% o valor da tarifa de envio de talão de cheques e o HSBC ter passado a cobrar por esse serviço, segundo o levantamento do Procon. Outro sinal de que algo está errado é a diferença gritante entre o preço do pacote básico de serviços, conforme o banco. O preço varia de R$ 10,50 no Itaú e Unibanco até R$ 18,00 no Real e Santander e R$ 20,00 no Safra - diferença que chega a 90,5%. Fora do pacote básico, então, os preços são bem mais salgados e díspares.

Por isso, apesar dos esforços de se controlar a cobrança de tarifas bancárias, elas continuam crescendo no balanço dos bancos. Em 2009, a receita de serviços dos 50 maiores bancos aumentou 16,3% e somou R$ 25,7 bilhões, de acordo com o Banco Central. Especificamente a receita de tarifas avançou 8,7% para R$ 7,5 bilhões.
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