O MEDO QUE A ELITE TEM DO POVO É MOSTRADO AQUI

A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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Peço que, quem queira continuar acompanhando o meu trabalho, siga o novo blog.

domingo, 14 de março de 2010

Cavalos de Tróia

Cavalos de Tróia

Por Laerte Braga*

A cada dez pessoas às quais se pergunte se é de direita ou esquerda, mesmo que esse campo ideológico esteja “ultrapassado” segundo alguns ex-esquerdistas (para justificar o virar a casaca), todas dirão que ou estão à esquerda, ao centro-esquerda, nunca à direita. Para encontrar alguém disposto a assumir uma postura pública de direita será necessário que a pergunta seja feita a pelo menos cem pessoas, mesmo que a nona se declare de direita. Será a única em cem.

José Collor Arruda Serra (envolvido na Operação Satiagraha agora convalidada pela Justiça por favorecimento a doleiro, negócio de oitenta milhões) não aceita, por exemplo, o rótulo de direita. Ou diz que essa forma de situar as pessoas do ponto de vista ideológico é superada, incorreta, ou imprecisa, ou se afirma, já disse isso, à esquerda do presidente Lula “em muitas situações”.

É claro que não é assim matemática essa divisão, maniqueísta, mas é um ponto de partida para que se possa perceber, entre outras coisas, no caso do Brasil, se alguém é a favor de privatizar a PETROBRAS ou do monopólio estatal do petróleo.

Há um processo em fase aguda de luta pela integração dos países e povos latino-americanos, vale dizer, sem a presença de norte-americanos e canadenses.

Governos comprometidos com essa idéia, com esse propósito, movem-se num espetro à esquerda, conscientes que os interesses norte-americanos e canadenses (um grande estado dos EUA e ao norte dos EUA, com pretensão de súditos da rainha da Inglaterra, colônia européia desse mesmo EUA), não são interesses de nações e povos latino-americanos, pelo contrário, quando o são, tem o viés de colonizar, oprimir, intervir e acrescentar um “r” à palavra Latina. Vira Latrina, América Latrina. Que o digam mexicanos, colombianos, peruanos e hondurenhos para citar quatro. E todos os livros de História sobre aquela conversa de “a América para os americanos”.

O presidente dos Estados Unidos chegou à Indonésia, onde viveu por três anos de sua infância, debaixo de protestos generalizados da população muçulmana, a um ponto tal que o governo foi obrigado a retirar uma estátua de Obama posta no centro de Jacarta para simbolizar o tempo que ali viveu.

O presidente Lula do Brasil chegou a Israel e foi recebido como “profeta do diálogo”, sem necessidade de rever um único dos seus pontos de vista e reafirmando sua amizade com o presidente e o povo do Irã, além do direito do Irã ter seu projeto nuclear.

Em


está uma entrevista de Lula concedida a dois jornalistas israelenses e um jornalista árabe, em que até a ordem para saber se os de Israel fariam a primeira pergunta ou o árabe, foi tirada num par ou ímpar. Valeu a Lula a classificação de imparcial.

Israel é um estado terrorista. Uma anomalia criada por interesses de britânicos, franceses e norte-americanos logo após a segunda guerra, escorado na “reparação aos judeus vítima dos holocausto” e que se constitui hoje em ponto de operações terroristas como assassinatos, seqüestros, falsificações, além, lógico de grandes lucros nas terras e água palestinas. O petróleo de lá, como querem o daqui.

Lula ainda vai a própria Palestina, ao Irã e a Jordânia.

Obama está sendo escorraçado de um país onde passou três anos de sua infância e antes de sua eleição, durante a campanha eleitoral, acreditava que sua realidade pudesse vir a ser compreendida, ou seja, que Obama fosse de fato negro e diferente.

É branco e igual a qualquer Bush da vida.

Difere apenas no método, na forma de agir, carrega um tubo de vaselina no bolso, mas já não consegue enganar ninguém. Caiu a máscara no golpe militar de Honduras, todos os dias no Afeganistão.

A integração latino-americana se impõe para que países como o Brasil, o maior dessa parte do mundo, ao lado de venezuelanos, argentinos, uruguaios, paraguaios, bolivianos, cubanos, nicaragüenses e todos os outros, possam aspirar níveis de desenvolvimento, soberania e integridade de seus territórios capazes de se lhes garantir para além da independência em seu todo, uma existência, coexistência e convivência em bases dignas e humanas para seus nacionais.

Isso preocupa Washington.. Preocupa Wall Street e preocupa os vários “escritórios” dessa gente aqui em nosso país, por exemplo, entidades putrefatas de elites fétidas como a paulista (FIESP/DASLU), ou de um latifúndio alojado no DEM, versão contemporânea e dissimulada (mas nem tanto) dos partidos escravocratas do século XIX.

E dos ladrões também, caso de José Collor Arruda Serra e do próprio José Roberto Arruda, o tal do “vote num careca e leve dois”.

Fossem apenas esses os “escritórios”, teríamos os adversários descobertos à luz do dia. Mas não. Somam o quem em linguagem internética hoje chamam de vírus. Organizações como a ANISTIA INTERNACIONAL, uma capa e outro conteúdo. Human Wrighgts, a mesma coisa, uma vasta e quase incontável quantidade de ONGs “protetoras” de todo mundo, desde que os juros sejam pagos em dia a bancos sionistas em Wall Street.

Há uma discussão em toda a América Latina que não pode deixar de ser feita pelo conjunto de forças populares. A questão das FARCs-EP e do ELN, respectivamente FORÇAS ARMADAS REVOLUCIONÁRIAS COLOMBIANAS-EXÉRCITO POPULAR e EXÉRCITO DE LIBERTAÇÃO NACIONAL (a última guerrilha fundada por Guevara). Para a ONU são movimentos “insurgentes”, vale dizer rebeldes, para os EUA, organizações “terroristas”.

Já o MOSSAD, serviço secreto de Israel não. É legítima defesa, pode falsificar documentos, assassinar, seqüestrar, roubar, etc, que está defendendo a democracia.

Setores e organizações ditos ou ditas de esquerda restringem qualquer movimento de defesa do processo de integração latino-americana à presença das FARCs-EP e do ELN. Acreditam ser possível a negociação com o governo títere de Pepe Lobo em Honduras e vivem da crítica a Cuba, por conta de um preso “político” em prisão domiciliar e em greve de fome, dispondo de toda a assistência prevista e recomendada pelos Direitos Humanos, ao contrário, por exemplo, de quem está preso em Guantánamo, ou nas prisões do Iraque, ou de Israel.

Pior, se é que isso é possível, nas prisões do latifúndio CST/SAMARCO/ARACRUZ, antigo estado brasileiro do Espírito Santo. O criminoso que lá chamam de governador, está sendo intimado a explicar a organizações de direitos humanos da ONU, as condições abjetas dos presídios do latifúndio (no antigo Espírito Santo, desde a chegada do “progresso” com as empresas como a VALE/CST/SAMARCO/ARACRUZ, anularam a lei áurea e reintroduziram a escravidão, sem falar na predação ambiental).

A mídia, aquela que segundo Bial não precisa de credibilidade, pois quem busca credibilidade é o pastor, o padre (nem isso mais, pastores com mínimas exceções, são estelionatários a vender terrenos no céu e o papa atual, comandante da Igreja Católica, uma aberração saída das catacumbas do III Reich e que envergonha a maior parte do clero e dos fiéis), a mídia, repito, outro escritório dos EUA no Brasil e em muitos países, vende a idéia através de agentes nacionais a seu serviço (GLOBO, FOLHA DE SÃO PAULO, VEJA, ESTADO DE SÃO PAULO, etc, Bonner, Miriam Leitão, Alexandre Garcia, Lúcia Hipólito, ali não tem exceção), que os brilhos de Hollywood, mesmo que sejam só brilhos e por baixo deles estejam milhões de famintos, de desempregados, de sem teto, sem terra, professores tratados como lixo ao longo de suas carreiras, que esses brilhos são melhores e acima de tudo patrióticos.

E que todos ou tudo o que se voltem contra os que dirigem esse brilho ofendem a democracia cristã/sionista e ocidental.

Não existe integração dentro desse espectro de “esquerda” que exclua as FARCs-EP, ou o ELN do processo nessa direção. Os pruridos de organizações ditas de “esquerda” contra a presença da guerrilha nos fóruns de debates trazem o viés moralista e hipócrita, o mesmo que cerca Obama. São cavalos de Tróia..

Não creio que possa existir algo mais doloroso que ser rejeitado pelos seus, e Obama foi rejeitado pelos indonésios, onde viveu três anos de sua infância e despertou esperanças que se viram frustradas quando arrancou a pele de negro que lhe cobria a ideologia branca. Ariana.

Pelo peso e pela importância do Brasil qualquer retrocesso (o retorno Tucano/DEM) trará conseqüências desastrosas e significará abrir mão do que foi conquistado em 1822. A independência.

Quando de um acordo de paz entre um governo colombiano e as FARCs-EP, o movimento transformou-se em partido político, disputou as eleições e venceu em várias das regiões colombianas, elegendo mais de três mil representantes municipais, deputados regionais, ao Parlamento e viabilizou um caminho para mais à frente eleger o presidente da República. Os eleitos foram assassinados e as FARCs-EP voltaram á condição de guerrilha.

Que nem a paz firmada entre palestinos e israelenses. Rabin, primeiro-ministro de Israel assinou um acordo com Arafat e na comemoração foi assassinado por um fanático judeu.

Dois livros não desmentidos e com tradução para o inglês, vendidos nos EUA, mostram onde está o tráfico na Colômbia. “Amando Pablo, odiando Escobar”, da ex-amante de Pablo Escobar, onde são contadas as suas ligações com o atual presidente colombiano, inclusive no financiamento de suas campanhas eleitorais. “Biografia não autorizada”, do jornalista Joseph Contreras, do jornal NEWSWEEK, que traz toda a história das ligações de Uribe com o tráfico e com Escobar.

Vetar as FARCs-EP e o ELN na luta pela integração dos países e povos latino-americanos é ficar ao lado do narcotráfico e isso é coisa da direita, do latifúndio, de banqueiros (que guardam o dinheiro dos traficantes), das grandes empresas, que muitas vezes abrigam entre seus acionistas poderosos narcotraficantes.

Abadia não morava numa favela em São Paulo e no condomínio de luxo onde tinha sua faraônica mansão, as festas eram freqüentadas pelas elites FIESP/DASLU e noticiadas nas colunas de fuxicos ditas sociais de jornais “paladinos” da democracia como a FOLHA, o ESTADO DE SÃO PAULO, muitos jornalistas de VEJA buscavam uma graninha ali para reforçar o “leite das crianças”.

É o parece que é mas não é.

Também de Laerte Braga, leia:


*Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no "Estado de Minas" e no "Diário Mercantil". É colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

Charge: Carlos Latuff

sábado, 13 de março de 2010

Política se faz com diálogo



Política se faz com diálogo


Quando um jornal de Israel vem a público para dizer que o presidente do Brasil é um “profeta do diálogo”, isso não só arde os olhos dos viúvos do AI-5 como deve apontar que vivemos um processo que não merece ser calado.


Por Ana Helena Tavares

“Política não se faz com o fígado, conservando o rancor e ressentimentos na geladeira”. Começar um texto citando Ulysses Guimarães, confesso, é receita covarde. Fazia política como quem não precisa de receitas. Respirava o que sentia. E sentiu o Brasil. Um homem de diálogo que só teve sua voz calada pelo mar.


Mas não é do velho timoneiro que quero falar aqui. É do ano em que o mundo respirou política. Tantos sonhos sentidos, tantos sonhos calados.


1968 - um ano que, como poucos, soube dialogar com a história e, até hoje, parece conversar com aqueles que têm alma transformadora.


Transformação dentro das universidades; uma luta pela quebra do distanciamento aluno-professor. Transformação de todo o sistema educacional; uma luta contra o ensino pago. Transformação da vida; uma luta por mudá-la, não por tomar o poder.


Dentro de uma ditadura militar que estava no auge, o movimento estudantil fervilhava. A cavalaria militar na rua era alvejada por centenas de bolas de gude. Cada um lutava com as armas que tinha e, mesmo quem não as tinha, “fazia a hora, não esperava acontecer”. Foi com esse espírito que estudantes reuniram-se clandestinamente naquele que ficou conhecido como o “Congresso de Ibiúna”, no qual todas as lideranças estudantis presentes foram presas.


A realidade do Brasil de 1968 era um sistema bipartidário: o MDB, do Dr. Ulysses, conhecido como o “partido do sim”; e a Arena, o “partido do sim-senhor”. A censura do AI-5 calou vozes, cerrou cortinas de teatro, escureceu telas e escolheu as letras a serem ditas e impressas. Mas, muitas vezes, a proibição aguça a criação, e não se conseguia proibir tudo.


E nesse ano, tão marcado pelo paradoxo, é interessante observar que nunca houve no Brasil uma efervescência tão grande no mundo das artes. Havia um sentimento cultural no ar. Um vigor artístico sem precedentes.


As celebridades naquele momento eram os expoentes da cultura. Se muitos dizem que “hoje somos apenas ‘caras’”, naquela época as celebridades de fato tinham algo a dizer – não eram vazias. Tinham conteúdo e consistência.


Foi um tempo, enfim, de humanismo. O movimento feminista (inserção da mulher no mercado de trabalho), os direitos dos homossexuais, a militância pelo meio-ambiente, a luta pelos direitos civis e as muitas lutas de esquerda foram algumas das causas que ganharam força em 1968.


Um ano em que se fazia a hora sabendo-se o alto preço que isso poderia custar – a liberdade e talvez a vida. Em meio a um descontentamento geral com o mundo – e mesmo sem saber qual pôr no lugar – “comprava-se” esse preço.


O que importava era a utopia. Sonhava-se em chegar a “lugar nenhum” para a partir daí ser criada uma nova realidade.


Quarenta e dois anos depois, muito solicitado por um mundo que ainda clama pelo realismo dos que exigem – e concretizam – o impossível, recentemente, Lula foi parar aos cuidados de seu médico e ouviu Dilma, gaiatamente, lembrar Ulyssses: “Política não se faz com o fígado…”


Quando um jornal de Israel vem a público para dizer que o presidente do Brasil é um “profeta do diálogo”, isso não só arde os olhos dos viúvos do AI-5 como deve apontar que vivemos um processo que não merece ser calado.


13 de março de 2010,
Ana Helena Tavares, jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Glauco (1957/2010)


O cartunista Glauco Villas Boas, 53 anos, foi assassinado a tiros na madrugada de hoje, 12 de março de 2010, em Osasco (SP), junto com seu filho, Raoni Villas Boas, de 25 anos. O presidente Lula lamentou a perda, afirmando que "Glauco foi um grande cronista da sociedade brasileira".


Através do traço do nosso colaborador Bira Dantas, fica aqui nossa homenagem.

quinta-feira, 11 de março de 2010

O homem de vários tempos




O homem de vários tempos





A direita não esconde seu desconforto. Sonha com a implosão de tudo que foi conquistado e o retorno ao estatuto colonial preconizado pela diplomacia sem sapatos de FHC.



Pediatra de nomeada competência, o doutor Gilson Caroni também se destacou na vida pública. Quer na medicina, quer na política foi homem de olhos clínicos e diagnósticos precisos. Em Cachoeiro do Itapemirim, sul do Espírito Santo, tal como no famoso verso de Paul Valéry, viveu e morreu aquilo que viu. Mas só viu o que sonhou. E viu muito enquanto espreitava da sacada do Itabira Hotel, as águas turvas do rio Itapemirim.

Liderança regional expressiva do antigo MDB conheceu as desditas da política capixaba. A prefeitura de Cachoeiro, a Secretaria Estadual de Saúde e a chefia da Casa Civil foram momentos distintos de sua trajetória pública. Nas conversas que tivemos sobre política, uma coisa ficou clara: era uma pessoa dotada de sólida formação humanística e aguçado poder analítico. Animal político como poucos, enxergava muito além da conjuntura imediata. Velho quadro do Partido Comunista Brasileiro (ex-PCB) prenunciava o arrivismo de Roberto Freire e Alberto Goldman, então expoentes da sigla, numa simples sentença: “não compõem com a direita, pois dela já fazem parte há muito tempo”

Na mobilização política pelo impeachment do presidente Collor vislumbrou a expressão de recorrentes pactos intraelites. Alertava para o papel da imprensa na construção das representações do momento e afirmava que os “caras-pintadas” só ocupavam centralidade no noticiário para ocultar a real natureza da crise. Antevia, em meados de 92, que o saldo final do movimento seria favorável às forças conservadoras. O clamor pela ética, quando acompanhado de vazio político, produz um vaudeville burguês. Mais um prognóstico preciso do velho pediatra.

Fazia sérias restrições ao que se convencionou, à época, chamar de nova esquerda. Faltava a esta, segundo ele, concepções claras de socialismo, só possíveis, e pausava bem as palavras, “quando se estuda a fundo o capitalismo”. Nunca, e essa foi a nossa maior divergência, viu no PT uma alternativa à esquerda. Fitando o trem que passava com precisão suíça, perguntava qual era, afinal, o projeto do partido. E, de soslaio, observava irônico o embaraço do filho a esgrimir palavras de ordem em vez de argumentos sólidos.

Lembro-me de que, em janeiro de 95, no que seria a nossa última conversa, observou que a eleição de FHC traria o total sucateamento do país com aplausos de amplos segmentos da classe média. A hegemonia neoliberal estava consolidada e não seria batida em curto prazo. Não viveu para ver a correção do vaticínio, felizmente ultrapassamos seu último acerto.

Seria interessante vê-lo analisar o atual cenário político. Um ano que começou seis meses antes do seu primeiro dia solicita observadores de primeira grandeza. O pleito eleitoral de outubro é algo que vai muito além de um rito sucessório. A vaguear com conterrâneos ilustres, talvez esteja o bom médico debruçado sobre a complexidade do momento. Há de ter vislumbrado o que representa um provável retorno da coalizão demotucana.

Concordará, decerto, que numa eleição presidencial no Brasil, se decide muito do futuro da América Latina. A política externa brasileira colocou o país como eixo de uma ampla aliança, que vai de Cuba a Venezuela por um lado, até a Argentina e o Uruguai por outro. Estamos construindo o único espaço de integração regional possível, o pressuposto para a inserção altiva no mundo globalizado. Portanto, nas urnas de outubro, principalmente após a derrota da Concertación no Chile, repousa a sorte dos povos indígenas da Bolívia e Equador, da aguerrida população argentina, de nicaragüenses, venezuelanos, cubanos, mexicanos e paraguaios, entre outros.

A direita não esconde seu desconforto. Sonha com a implosão de tudo que foi conquistado e o retorno ao estatuto colonial preconizado pela diplomacia sem sapatos de FHC. Não é à toa que Celso Lafer e Rubens Barbosa reapareçam em telas e páginas como “abalizados especialistas”, condenando o governo Lula “ por ter partidarizado o Itamaraty.”

O que os jornalistas de programa, reunidos no Instituto Millenium, pensam a respeito de democracia e soberania nacional não é segredo. O velho fascismo oligárquico sempre dispôs dos préstimos dos praticantes do jornalismo de esgoto. Uma espécie que, hoje, com as novas tecnologias, se reproduz em blogs de corporações e redações de sinas conhecidas. Nesse quadro, qual seria a prescrição do doutor de Cachoeiro de Itapemirim? Reunificar a esquerda em sintonia com movimentos sociais, tendo como eixo central a intervenção decisiva no processo de difusão social de informações.

O inimigo de classe se move com desenvoltura, disposto, se necessário, a fazer tábua rasa do ordenamento institucional que permite incorporação de novos atores. Ao esquerdismo sectário, o pediatra diria que qualquer desencanto com o atual governo não autoriza suicídio político. Com um sorriso no olhar, o médico não hesitaria em dizer: “votar contra o tucanato é, como nos velhos tempos, no mínimo, voto útil”. Há que se ouvir quem, encantado, virou prefeito do mundo. E, nessa condição, sabe como é importante a eleição de Dilma Rousseff para o Brasil e seus vizinhos.
Gilson Caroni Filho é sociólogo e mestre em ciências políticas. Nascido em Cachoeiro do Itapemirim (ES), mora no Rio de Janeiro, onde é professor titular de sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha). É colunista da Carta Maior, colaborador do Jornal do Brasil e do blog "Quem tem medo do Lula?".

Caso Battisti


Passaporte Falso


Falsos, Apócrifos ou Adulterados?


Quando as pessoas ouvem falar de “documentos falsos”, o primeiro que aparece na mente é um conjunto de outros produtos também chamados de falsos ou falsificados. Pensamos em remédios falsos, perfumes falsos, programas de computação falsos (piratas), etc.. Senhores com mais de 45 anos se preocupam pela falsificação do Viagra. Neste caso, o remédio falsificado é aquele que não foi fabricado pela empresa que patenteou a marca, e que, por esse motivo, é suspeito de não ser tão eficiente como o “verdadeiro”. Por exemplo, um Viagra falsificado pode falhar na hora H, obrigando seu autor a usar a conhecida frase “Nunca aconteceu antes comigo”.


Mas, mesmo se o objeto “imitado” fosse idêntico ao original, a mídia continua chamando-o falso, embora, para um conhecedor do português (ou ainda do portunhol), deveria ser chamado “apócrifo”.


No caso da falsificação de documentos, as pessoas imaginam um complicado processo de escolha de papel, imitação de assinaturas, construção de carimbos “falsos”, preparação de tinta especial, e colocação hologramas, aqueles selos mágicos, onde cada pedaço da figura conserva a informação do total, como as vassouras cortadas a machado do Aprendiz de Feiticeiro.


Embora a oficina de um geek com algumas notas de 100 dólares seja suficiente para montar “falsificações” deste tipo, as pessoas imaginam em seguida grandes organizações criminosas com toneladas de equipamento.  Este efeito é aproveitado pela mídia, para sugerir que alguém que anda com um passaporte “falso” (apócrifo, irregular, etc.) é um perigoso terrorista equipado pelas poderosas oficinas que Al-Qaida mantém, com bilhões de euros, em cidades subterrâneas do Paquistão.


Esta ignorância, unida ao ódio nutrido pela classe média contra aqueles que perturbam sua aliança morganática com as elites (que lhes dão algumas migalhas), é alimentada para aumentar o terror e a sede de sangue contra aqueles que só fogem da perseguição, vingança e loucura assassina. Em geral, quase toda a mídia explora essa imagem, mas algumas calibram suas baterias para que a confusão seja total. Por exemplo:


http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u702876.shtml


O que é aqui “passaporte falso”:


1)      Um que foi desenhado por criminosos artistas, reproduzido em gráficas clandestinas, e que nada tem a ver com o governo da França???


2)      Ou um passaporte emitido pelo governo, mas que foi adulterado, por exemplo, alterando uma firma ou uma foto???


3)      Ou um passaporte integramente autêntico, mas que é utilizado por outra pessoa que não é o titular? Assim, João da Silva, de 17 anos, usa o RG de seu irmãozinho José, de 19 anos, para entrar num prostíbulo de luxo.


A imprensa confunde os três conceitos não apenas pela ignorância de seus colunistas (a que não deve ser subestimada... digo a ignorância, não os colunistas), mas também para exacerbar o temor ao perigoso foragido.


As pessoas têm este terror aos falsificadores a partir de sua idéia da falsificação do dinheiro. Todos ouviram falar que as infrequentes falsificações de dinheiro são feitas por organizações internacionais. Isto é verdade: o papel das notas é muito sofisticado e sua produção requer processadoras de celulose gigantescas que não qualquer gangue possui. Então, quando se diz que um perseguido político fugiu com um passaporte falso (que talvez seja o passaporte de um amigo com idade e aspecto similares), a população imagina que ele está vinculado com uma poderosa organização internacional. É a tática do terror mediático, usada milhares de vezes nos últimos 100 anos. O caso de Battisti foi um dos mais patologicamente exagerados. A intensidade do ódio investido pela mídia brasileira e italiana foi maior que a que investiu a americana contra Bin Laden, embora a extensão da propaganda anti Bin Laden tenha sido, obviamente, maior.


Refugiados Irregulares


A entrada de um perseguido num país com o objetivo de obter asilo sugere que a vítima não necessariamente possui os documentos que o estado exigiria de um turista, visitante ou imigrante normal. Geralmente, o refugiado não tem tempo, nem condições nem segurança, para obter um documento normal.


Pode acontecer que o perseguido possua entre seus documentos um passaporte válido, ou outros documentos que seus perseguidores não tenham ainda anulado. Isto é frequente em países cujos pontos de fronteira não estão totalmente informatizados. Foi meu caso, por exemplo, quando fugi da Argentina. Meu passaporte estava vencido, mas eu tinha uma cédula de identidade válida, que o Brasil reconhece para trânsito. Atravessei a fronteira por um deserto e remoto ponto, uns meses antes do golpe, quando a lista dos milhares de suspeitos (que o governo democrático tinha começado a fazer) ainda não estava completa. Entrei no Brasil, compareci à Polícia Federal e não despertei suspeitas até muito depois.


Mas, em outros casos, como o de Battisti, foi diferente: depois de 26 anos de perseguição era improvável que ele tivesse um passaporte perfeitamente próprio.


Entretanto, a Convenção de Genebra de 1951 sobre refugiados, em seu artigo 31, estabelece uma condição que foi incorporada depois a todos os tratados sobre refúgio..


OS ESTADOS NÃO PODEM IMPOR PENALIDADE POR CAUSA DA ENTRADA OU PRESENÇA ILEGAL DOS REFUGIADOS QUE ENTRAM NO PAÍS SAINDO DIREITAMENTE DE PAÍSES ONDE FORAM PERSEGUIDOS [...]


http://www2.ohchr.org/english/law/refugees.htm


Isto concorda perfeitamente como o caso de Battisti. Ele chegou ao Brasil diretamente da França, onde estava sendo perseguido naquele momento, mesmo que a punição final fosse reservada para a Itália.


Para quem não sabe, é necessário lembrar que ATÉ A DITADURA MILITAR BRASILEIRA (em sua segunda etapa, aberta com Geisel) respeitou o fato de não punir refugiados com documentos irregulares ou sem documentos.


Em 1977, eu ainda não pertencia a AI. Mas, mesmo assim, como era desde muito antes ativista de DH, idealizei em Campinas uma rede informal de proteção semiclandestina, para dar assistência aos refugiados do Cone Sul, os encaminhar para o ACNUR, e agitar o máximo possível quando alguém era reprimido.


Na época, existia uma dependência da polícia de São Paulo chamada DELEGACIA ESPECIALIZADA DE ESTRANGEIROS, que dependia do DEOPS. Uma noite fui informado por telefone de que dois garotos (um uruguaio e um chileno) tinham sido detidos pela PM nas ruas centrais de SP e entregues à Polícia Especializada.


Quando me identifiquei como professor da UNICAMP, um delegado me recebeu e me disse que ambos jovens estavam com “documentos falsos”. Esses documentos eram passaportes de outras pessoas, mas não tinham sido falsificados.  Depois de uma breve conversa, o delegado admitiu que eles tinham medo de perseguição e que estaria disposto a libertá-los sem abrir ocorrência, desde que o ACNUR se responsabilizasse por eles.


(PENSE QUE ESTAMOS FALANDO DE UMA DITADURA CONSIDERADA TERRÍVEL!)


Na época, o chefe do alto comissionado era o francês GUY PRIMM, uma figura única dentro da burocracia internacional. Guy era uma mistura de grande humanista, um herói de sua própria causa, e um amigo e irmão dos refugiados. Em seguida, o ACNUR pediu ao delegado que soltasse os garotos. O assunto dos passaportes foi esquecido. Tempo depois, soube que o rapaz uruguaio tinha sido refugiado na Suécia e estudava medicina. O chileno conseguiu ficar no Brasil e montou uma loja. Depois da mudança de representante de ACNUR, talvez as coisas não teriam sido tão fáceis. Quem sabe?!


O STF e os Juízes Federais: Descompasso


Voltando ao caso de Battisti, é interessante observar o descompasso entre a sanha do STF e as oscilações da justiça federal no Rio de Janeiro.


Para os padrões draconianos com que a justiça brasileira pune perseguidos políticos (embora premie grandes genocidas, como o finado Stroessner), dois anos de prisão em aberto, com uma tarefa de colaboração com a comunidade, é um castigo simbólico. Pensem que Battisti ganhou amigos (e amigos talentosos e importantes) em todos os lugares onde esteve. Sem dúvida, dois anos fazendo tarefas sociais (que ele já fez em muitos outros lados sem ordem judicial) reforçarão sua imagem de pessoa corajosa e humana, e contribuirá a desmentir as calúnias construídas por um bando de miseráveis.


Isto mostra que a justiça e a polícia federal do Rio foram hesitantes. Primeiro, aceitaram investigar denúncias mirabolantes da Itália sobre atividades terroristas de Battisti no Brasil, algo que deveria ter sido arquivado imediatamente por absurdo. Mas, depois tiveram a honestidade de reconhecer que era tudo uma bufonada. Agora, como tem enfatizado o advogado de Cesare, o lendário Luiz Eduardo Greenhalgh, a polícia federal brasileira chegou a reconhecer a participação da polícia francesa na detenção de Battisti, mostrando um caso típico de sequestro criminoso internacional (semelhante aos que a CIA faz com os islâmicos), que antes tinha sido negado.


Esta conduta é bem diferente da sistemática, coerente e calculada corrente de falsidades, truques e manobras que o relatório do STF utilizou para distorcer todas e cada uma das fases do processo para que o perseguido pudesse ser crucificado.


Um Exemplo Útil para as Excelências Togadas


Quero contribuir a esta caçada de bruxas da justiça com mais um caso, o meu: EU TAMBÉM USEI, EM 1979, UM PASSAPORTE ADULTERADO.


Não tenho o corpo do delito, porque, quando a ditadura argentina caiu, queimei esse passaporte e pedi outro ao consulado do novo governo. Mas, acredito que a justiça brasileira confia no que se chama “confissão de parte”. Ninguém declara falsamente contra si mesmo se não for torturado. Aliás, se passaram apenas 30 anos, e o exímio relator não terá problemas para fazer outra acrobacia numérica que mostre que meu caso não está prescrito. Como o crime foi cometido no Brasil, não precisa de pedido de extradição da Argentina.


Vou resumir alguns dados, mas a história completa se encontrará num futuro livro.


Desde que entrei na UNICAMP fui vigiado por alguns professores argentinos e chilenos que eram espiões vocacionais de seus governos. Os quatro mais próximos de mim (CSF, m. 2007; EdO, m. 1995; ARR, m. e RCK, m. 1995) não eram, naquele momento, informantes contratados. Sua afinidade com a ditadura era ideológica e estava reforçada por laços de amizade com os principais ditadores.  Eles tinham sido bem recebidos por nosso chefe, que achava promissora a colaboração científica com governos fascistas que não permitiam o “alvoroço” dos subversivos.


Em 1979, formou-se um acúmulo de denúncias contra mi (unido ao fato de que eu tinha publicado algumas notas no Estadão) e aumentou a pressão de meu chefe para deixar o país. Decidi acatar esse “conselho”, bem como uma ameaça telefônica anônima. Todos meus familiares tinham documentos em ordem, mas meu passaporte estava vencido.


No final de 1979, junto com amigos, fiz uma pequena “alteração” do passaporte. Modificamos o ano de vencimento, 1974, pela data “falsa”, 1981. Embora de apenas dois dígitos, essa modificação foi uma FALSIFICAÇÃO e poderia dar alguns anos de cadeia.


Se alguém se interessa, não estou clandestino, vivo normalmente, e sou fácil de ser encontrado. Além disso: não vou fugir nem resistir, mas não posso pagar advogado....



Últimos Retoques


O recente artigo de Celso Lungaretti sobre Berlusconi me fez acordar de novo para o caso Battisti, me lembrando que, embora praticamente resolvido, ainda há alguns retoques finais que devem ser feitos em nossa crônica. A matéria de Celso encontra-se em seu site Náufrago da Utopia, no link:


http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2010/03/do-que-berlusconi-fugiu-afinal.html


Já em meu artigo sobre Passaportes Falsos, eu tinha chamado a atenção sobre a discrepância entre a aleivosia do STF e a singela atitude do juizado federal do Rio de Janeiro, onde se aplicou a Battisti uma pena normal por porte de passaporte apócrifo, que nossos custódios da lei chamam “falso”. (Juridiquês e português diferem até nas palavras mais comuns.)


Como Celso faz notar, esta pena, que pode considerar-se justa se abstraímos que Cesare é, de fato e de direito (direito outro que aquele interpretado pelo STF), um refugiado político, coloca um obstáculo intransponível à extradição do escritor italiano. Isto prova, pelo menos sob uma observação fenomênica, que o juizado do Rio NÃO AGIU EM NENHUM MOMENTO sob a pressão da máfia jurídico-político-diplomática, que pretendia que Cesare não fosse obrigado a cumprir a condena no Brasil.



Problemas da Prescrição


Um problema que vem à tona depois desta decisão do juizado do Rio de Janeiro é aquela da prescrição da pena de Cesare. Como faz notar Celso, esta nova situação coloca um empecilho à curiosa aritmética do relator do caso. Por sinal, quero insistir num ponto que aparecia na parte final de minha carta ao Presidente do STF, quando lhe sugeri admitir o empate. Naquele momento, eu disse que a demonstração dada por Marco Aurélio de Mello, de que a pena de Battisti estava prescrita, era um verdadeiro teorema.


http://cesarelivre.org/node/185


Entretanto, na retomada do julgamento, na sessão seguinte, Marco Aurélio, mantendo seu voto contra a extradição, retificou, porém, sua contagem, que ficou igual à do relator.


Marco Aurélio é, sem dúvida, uma pessoa de talento, mas, no clima em que se desenvolveu o julgamento de Battisti, caracterizado pela sobredose de falácias e ameaças implícitas, até uma banca formada por Einstein, Feynman e Turing poderia se confundir. De fato, a contagem feita por Marco Aurélio na sessão anterior, na qual declarava prescrita a pena de Cesare, foi CORRETA, e ele errou quando se autocriticou.


Lamentavelmente, poucos dos muitos juristas que acompanham o caso (Silva Jardim, os advogados da defesa e alguns outros) perceberam que a tese inicial de que o caso estava prescrito era correta, e apresentaram esta verdade diafanamente. Não obstante, a mídia não deu a mínima relevância ao assunto. É verdade que em 1988, quando Cesare foi condenado a prisão perpétua, o processo não tinha transitado totalmente em julgado. Mas, se o processo prosseguiu e não ficou parado aí, foi por causa do recurso do réu. O direito a recurso ou a apelação é típico de qualquer sistema jurídico razoável, e tal recurso deve ser entendido como o uso de uma ferramenta legal que o réu possui para defender a sua liberdade. Vide:


http://cesarelivre.org/node/121


http://supremoemdebate.blogspot.com/2010/01/extradicao-eo-caso-battisti.html


Ou seja, se esse recurso tivesse a “virtude” de adiar a data de contagem da prescrição significaria que o réu que usa seu direito de apelar se estaria prejudicando por causa disso.


Isto é o que se chamaria, num portunhol decente, “reforma para pior” (existe um juridiquema em latim que nunca pude decorar). Este juridiquema expressa uma das maiores aberrações jurídicas e é ensinado nos cursos de direito como exemplo de barbárie (algo como seria dar ao réu dois promotores e nenhum advogado de defesa). Pelo jeito, o famoso fundador do integralismo, que foi professor do relator do processo de Battisti, não ensinou isso a seu discípulo.


Então, a prescrição já está vigorando. Quem poderia decidir isso é um tribunal internacional, mas me parece razoável a tendência da defesa de Battisti de não insistir na denúncia internacional, um processo que foi iniciado por mim em julho de 2009 junto à CIDH, e que está provisoriamente parado, dado que o problema terá uma solução pacífica. Concordo plenamente em que, num momento em que o Presidente Lula está mostrando boa vontade, não deve ser pressionado mais ainda.



A Ausência de Berlusconi


A conjetura de Lungaretti sobre o adiamento da viagem de Berlusconi parece razoável, tendo em conta como variável adicional que uma primeira visita, que fora informalmente planejada para fevereiro, também foi adiada sine die. A união de ambos os fatos parece sugerir que o Primeiro Ministro Italiano estava na expectativa sobre o destino de Battisti.


Embora tenha sido declarado que o caso de Cesare não estaria na pauta dos presidentes, também foi dito que o asilo definitivo do escritor italiano e sua confirmação pelo Estado Brasileiro deveriam ser protocolados numa data afastada da visita do premier, para lhe evitar a humilhação de que ambos os fatos fossem relacionados. Possivelmente, nas proximidades do dia 18, quando se supunha que se concretizaria a visita, já se conhecia a intenção do juizado do Rio de proferir sentença. Isto teria frustrado a intenção de manter o assunto “apagado”.


Por sinal, cabe perguntar-se QUANTO TEMPO MAIS vai demorar o STF para exarar o acórdão. Na lista de acórdãos publicados pelo Tribunal, já aparecem três que foram julgados em dezembro de 2009. Já o caso Battisti transitou em julgado em novembro, apesar de que houve uma abertura extemporânea no dia 16 de dezembro, por causa de uma ilegal tentativa de “virada de mesa” (como disse o ministro Mello) por parte dos advogados da Itália. Esses três já julgados são do dia 17, um dia após a “moção de ordem” que encerrou (por segunda vez) o caso. (Aliás, como se entende isso de encerrar algo mais de uma vez?)


Todos sabem que a complexidade que o relator atribui à decisão não existe. Numa parte, concede-se por 5 a 4 a extradição de Battisti. Na segunda, concede-se, por 5 a 4, o direito do Presidente de executar ou congelar a extradição, desde que se baseie no Tratado Brasil-Itália. Quanto tempo se demora em estender estas três linhas e botá-las no juridiquês de praxe???


Até fevereiro, cabia a possibilidade de que o STF estivesse adiando o acórdão até que se produzisse a mudança de governo em 2011. Mas isso teria sentido se o PT e seus aliados fossem substituídos pela aliança entre jagunços e Opus Dei. Eu não sou observador político, mas leio jornais, e vi que até os mais retrógrados colunistas da Folha admitem que o PSDB está em pânico. Se a vitória de Dilma for, como parece, a mais provável, esta procrastinação não terá grande serventia.


Salvo que a cúpula do STF pense investir cinco anos em acabar o acórdão, na expectativa de que ventos melhores soprem em 2014. Mas, essa é uma hipótese que não cabe nem na toca do coelho de Lewis Carroll.



Detalhes finais


Há alguns detalhes sobre o assunto Battisti que ainda não foram bem burilados. Todos devem lembrar as várias pessoas (entre elas, os advogados de defesa, vários juristas, e o infatigável senador Suplicy) que defenderam a tese da escritora e arqueóloga Fred Vargas:


Quando Battisti foi julgado na Itália, no processo que acabou em 1988 com sua condenação a prisão perpétua, este NÃO SABIA que esta sendo julgado. Portanto, NÃO TINHA contato com as pessoas que se apresentaram como advogados, embora os conhecesse de outros carnavais. Mais, ainda, as PROCURAÇÕES DE BATTISTI AOS ADVOGADOS eram apócrifas. Tinham sido falsificadas usando folhas assinadas em branco, adicionadas com técnicas de decalque de uma procuração anterior.


Fred Vargas fez notar isto ao STF em setembro de 2009, e pediu ao relator que obtivesse a versão italiana dos documentos e os submetesse a perícia. Obviamente, o relator se recusou. Nesse momento, alguns dos coordenadores do “paredão”, mas vários comunicadores e juristas do submundo da informação e a justiça levantaram suas mãos aos céus, indignados pela irreverência daquela intelectual terrorista: Como se podia dizer a um juiz que a justiça é algo público, quando todos sabem que é propriedade privada de uma corporação?


Bom, em novembro eu pedi a Fred Vargas todos os materiais relativos a aquela falsificação, que ele me forneceu muito generosamente com numerosas observações úteis e esclarecedoras. De qualquer maneira, uma leitura atenta permitia comprovar que aquilo era uma fraude cabeluda. Investi os meses seguintes até meados de fevereiro, e consegui preparar uma apresentação em PowerPoint, onde o processo de falsificação é detalhado em suas mais sutis minúcias. Além disso, reuni dados que permitem mostrar que os documentos usados são os mesmos que Itália entregou a França, quando pediu a extradição. Não quero que ninguém pense que estamos, por nossa parte, falsificando contraprovas!!.


O documento final, de 55 slides, será apresentado no momento oportuno. Estou esperando apenas que o Comitê de Apóio a Cesare decida o local e a data, de maneira de obter a maior repercussão possível. A imagem que abre esta matéria é uma amostra (atenuada fotograficamente) de um desses slides.


Carlos Alberto Lungarzo é professor e escritor, autor do livro "Os Cenários Invisíveis do Caso Battisti". Para fazer o download de um resumo do livro, disponibilizado pelo próprio autor, clique aqui. É membro da Anistia Internacional e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

A Petrobras versus Dilma


A Petrobras versus Dilma


Por Laerte BragaO jornal THE GLOBE, um dos departamentos de uma agência de comunicação norte-americana voltada para a América Latina e, neste momento, porta-voz da candidatura José Collor Arruda Serra, editado no Brasil sob o título O GLOBO, estampou em sua primeira página da edição de hoje, 10 de março, que a ministra chefe do Gabinete Civil inflou os números dos investimentos da PETROBRAS neste ano. Dilma falou em 85 bilhões e a empresa, em nota oficial posterior, “corrigiu” para baixo, 79 bilhões de reais.


Pedro Bial, apresentador do BBB, capa da revista ROLING STONE do mês de março, disse em entrevista àquela publicação que


“Esse papo de credibilidade...quem quer isso é pastor, padre. Não vou fundar igreja, não quero que acreditem em mim. Os jornalistas em geral se levam muito a sério”.



É um dos golden boys da organização norte-americana. Ao fazer uma declaração desse jaez assume publicamente que pouco importa a veracidade do que diz, ou deixa de dizer (isso é muito importante) a agência para a qual trabalha ou os próprios jornalistas desse enclave estrangeiro na comunicação no Brasil.


Empresas públicas, estatais (de economia mista, como a PETROBRAS) são empresas construídas a partir dos contribuintes brasileiros, tomando por contribuinte todos os cidadãos deste País. Têm deveres o obrigações com o Brasil e os brasileiros. Não são feudos de grupos corporativos, montados em privilégios que não se justificam e nem têm nada a ver com a luta popular, no caso específico, a luta pela volta do monopólio estatal do petróleo.


Muito menos a PETROBRAS, resultado de uma história de lutas que deixou sangue escorrendo nas páginas de nossa História e abrigou figuras do porte de Monteiro Lobato, a campanha do PETRÓLEO É NOSSO…


Uma das dificuldades do presidente da Venezuela foi a de obter de um sindicalismo comprometido com as elites, compromissos com políticas públicas da PDEVESA. No documentário “A REVOLUÇÃO NÃO SERÁ TELEVISIONADA” o principal desses líderes aparece ao lado dos golpistas.


Setores estratégicos da economia de um País como o Brasil devem ser dos brasileiros, logo, estatizados. O governo FHC levou a cabo um processo de privatizações que, ao largo da corrupção que o caracterizou, entregou vários desses setores a grupos estrangeiros, abrindo mão de parte da soberania nacional, do próprio território no caso da privatização da VALE e das perspectivas de avanços tecnológicos já visíveis à época, para além desse conjunto de empresas, na EMBRAER por exemplo.


Da mesma forma que o sucateamento da IMBEL e da ENGESA é um crime de lesa pátria.


Empresas estatais qualquer que seja a sua natureza diferem de empresas privadas exatamente por aí.


Se o monopólio do petróleo é fundamental, de ponta a ponta, como no decreto assinado por João Goulart pouco antes do golpe e uma das razões do golpe desfechado pelos EUA contra àquele governo (comandando e através da maioria das forças armadas brasileiras), é exigência mínima que esse monopólio sirva aos interesses nacionais e não a corporações de funcionários, sindicatos, ou conjunto de forças aos quais se agrega parte das elites políticas e econômicas.


O presidente Lula ou chama o diretor, ou responsável pela “correção” e determina que a verdade seja dita, ou manda de vez, que esse cidadãos, ou esses se for o caso, peçam o boné e instalem-se de vez onde deveriam estar. No esquema FIESP/DASLU, enclave territorial estrangeiro em nosso País, uma espécie de Mônaco dentro do Brasil, levando-se em conta que o principado europeu é o paraíso de sonegadores, mafiosos, o de sempre.


É claro que nem todos os setores sindicais da PETROBRAS (está citada aqui por conta do fato, a discrepância entre o que foi dito pela ministra e o que foi dito pela empresa, subordinada ao presidente da República, à própria ministra) têm esse compromisso pelego e anti-nacional, corporativo. Mas é evidente que muitos deles têm a estatal como propriedade privada e geradora de privilégios que nada têm a ver com o povo brasileiro.


Dessa deformação surgiram argumentos capazes de iludir os brasileiros à época de FHC, que privatizando estaríamos tomando o caminho do futuro. Nos afundamos na irresponsabilidade criminosa do ex-presidente que, pelo visto, mantém bastiões dentro da empresa.


Empresa privada em setores estratégicos da economia, capazes de gerar tecnologias de ponta e manter preservadas e intactas a soberania nacional e a integridade de nosso território são uma aberração. Uma contradição, não existe isso.


É o caso da VALE, da EMBRAER, dos setores de mineração, da produção e distribuição de energia elétrica e telecomunicações. Do setor bancário.


Ficamos com as privatizações como que uma nação torta, senhora de parte do seu destino e governada de fora para dentro de outra parte. Há pouco mais de três anos o governo venezuelano desejava comprar aviões da EMBRAER e o governo dos EUA que têm participação na empresa vetou a operação.


Há bem mais que recuperar o monopólio estatal do petróleo. É fundamental reestatizar esses setores básicos da economia. E dar-lhes transparência e caráter popular, do contrário acabam apoiando golpes, ou trazendo a público declarações como a contida na nota oficial que “desmente” a ministra, com claros e notórios interesses políticos de corporações pelegas que se alojam nas estatais, escondidos na bandeira do Brasil brasileiro, mas com a roupa de baixo pronta para ser mostrada ao BRAZIL dos EUA.


O que foi construído por FHC e que agora espera que José Collor Arruda Serra conclua a “obra”.


O sindicalismo brasileiro, em boa parte, perdeu suas características de instrumento de luta da classe trabalhadora, para transformar-se parceiro das elites políticas e econômicas, mesmo quando empunha bandeiras públicas de defesa do interesse nacional.


O episódio envolvendo a PETROBRAS e a ministra Dilma Roussef mostra que ou o governo age como Chávez agiu na Venezuela, dá transparência a estatal de petróleo, compromete-a com políticas populares (há setores do sindicalismo na empresa que têm essa visão, não mergulharam no corporativismo pelego e nem na visão estritamente técnica/cega), ou vai ser tragado pelo peleguismo, pelo tecnicismo dos que entendem que ser popular é só aparecer na camisa do Flamengo.


E outra vez o discurso privatizante que tanto prejuízo causou e causa ao Brasil e brasileiros vai ganhar força.


THE GLOBE e todo o conjunto chamado grande mídia está aí cheio de gente como Pedro Bial, para os quais credibilidade é irrelevante. Bial só tornou mais clara a declaração de William Bonner que o telespectador do JORNAL NACIONAL é “Homer Simpson”, um nível abaixo do leitor contumaz de VEJA, a tal classe média.


O episódio é em si, por si, ilustrativo dessa situação. Defensores da privatização, tucanos/DEM e pelegos sindicais precisa ser afastados e enquadrados.


Do contrário a PETROBRAS não é do Brasil e nem dos brasileiros, mas de uma pequena corporação de privilegiados.


A ministra não mentiu, quem agiu de maneira solerte e deliberada foram setores da empresa comprometidos com o que quer que seja, mas certamente não o são nem com o Brasil e nem com a PETROBRAS como empresa estatal.


A grande frustração do esquema FIESP/DASLU, é que a princesa de Mônaco era Grace Kelly, agora Caroline, enquanto a de cá ou é Miriam Leitão, ou Lúcia Hipólito ou o terror da Amazônia, miss desmatamento, a senadora corrupta do DEM que atende pela alcunha de Kátia Abreu.


Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no "Estado de Minas" e no "Diário Mercantil". É colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

segunda-feira, 8 de março de 2010

As Mulheres e Os Direitos Humanos


As Mulheres e Os Direitos Humanos


Hoje, em pelo menos uma metade do planeta, a teoria dos DH básicos constitui um consenso. Mesmo que existam alguns elementos isolados e sombrios, que assomam suas horríveis cabeças em diversos meios (especialmente nos setores conservadores da política e nas forças de repressão), exigindo a volta da tortura e da pena de morte, e se opondo a igualdade racial, em geral, quase ninguém contesta abertamente sua validade. Entretanto, apesar dessa coincidência, sua aplicação mínima é inatingível em quase todo o continente americano e parte da Europa.


Pode imaginar-se, então, como era o desespero para a metade da Humanidade que os DH visam proteger, há menos de um século: as mulheres não tinham direitos formais nem reais. Ainda hoje, apesar de que a teoria dos DH tem sido estendida formalmente às mulheres, sua aplicação prática é ainda mais difícil que seu equivalente no caso masculino. Isso acontece porque, além da discriminação que existe nos empregos, na vida pública, na atividade intelectual, na política, a mulher é ainda explorada no lar e na vida sexual.


Como dizia o grande revolucionário vietnamita Nguyễn Sinh Cung, que nossa geração conheceu por seu nome de batalha Hồ CHÍ MINH (o que dá luz), nos duríssimos dias da luta daquele país por sua autonomia, a mulher sofre uma tripla opressão: “Ela é oprimida pelo sistema social, pelo clã e pelo marido”.


No obstante, a intuição dos Direitos de Mulher é muito antiga, e a primeira reivindicação dos Direitos Humanos em geral foram afirmados explicitamente, pela primeira vez, por uma mulher, Antígone.



O Desafio Feminino


Até o século 5º antes de Cristo, não havia sinais do protagonismo da mulher na vida pública, salvo por breves aparições em algumas comédias e tragédias. Tampouco ninguém tinha formulado o valor dos DH naturais, aqueles que, como dirá depois o jurista Ulpiano, “Deus dá a todos os animais e não apenas aos homens”.


Na Grécia Clássica, inclusive dentro de sua restrita democracia (que só atingia homens adultos, livres e não estrangeiros), a sociedade parecia pensar que os direitos formais gerados pelas guerras e pelo domínio de classe eram “naturais”. Afirmava-se que eram desse jeito porque não podiam ser de outro, e que ninguém poderia questioná-los, pois o direito de propriedade, de mandar sobre os outros, de punir os infratores da sociedade, eram direitos tão evidentes como os fenômenos naturais, tormentas e chuvas.


Entretanto, embora esta sacralidade do direito positivo era comum nos povos monoteístas, e se transformou em regra de ouro durante o  cristianismo, na Grécia pagã ainda existia um resquício para a liberdade, que o dramaturgo Sófocles (por volta de -450) personifica na heroína Antígona.


Polinices e Etéocles, órfãos de Édipo, rei de Tebas, brigam entre si pela herança do governo da cidade e ambos morrem na luta. Creonte, irmão de Édipo, assume o poder e permite enterrar o cadáver de Etéocles, mas não o de Polinices, que era considerado traidor, pois tinha sido ajudado por inimigos da cidade. Creonte aplicou o direito positivo da época que proibia o funeral de traidores. Antígona, irmã dos mortos, desafia a proibição do tio e tenta sepultar o corpo de Polinices. Creonte manda prende-la e lhe pergunta se ela tinha ousado desobedecer suas leis. Num parágrafo célebre, Antígona responde com um argumento que se tornou símbolo do direito à liberdade de consciência:


Sim, pois não foi Zeus que deu [essas leis]


Nem a Justiça, que habita com os Deuses subterrâneos,


Quem delineou estas leis para todos os filhos dos homens;


Nem eu acreditei que teus editais [fossem] fortes o suficiente,


Vindos de um homem mortal, para reduzir ao Nada


As leis imutáveis não escritas de Deus.


Elas não são de hoje nem de ontem,


Mas existem desde sempre, e não pode o homem afirmar


Quando apareceram


(Da versão de Harvard Classics,volume 8, parte 6, 493/501, traduzida por E. H. Plumptre.)


Esta forma de pensamento de Antígone talvez teria conduzido a sociedade ateniense ao reconhecimento do valor da consciência acima da autoridade, do militarismo e do nacionalismo, já que o Deus a que ela se refere (Théus) é uma representação geral da gênese do Universo. Entretanto, alguns séculos depois, o cristianismo deu a Deus um caráter pessoal (interpretável pelos padres), tornando o direito natural numa forma arbitrária de direitos revelado. A Humanidade atrasou-se 20 séculos.


O filósofo inglês Stuart Mill (1806-1873), uma mente avançadíssima para sua época, denunciava que o sistema patriarcal era tão antigo como a humanidade, e escreveu um famoso livro sobre a opressão feminina:


http://www.constitution.org/jsm/women.htm


Mill percebeu que a condição feminina é uma forma de escravidão. Mas, outras formas de dominação semelhantes que ele não menciona (o militarismo e o classismo, por exemplo) foram geradas pelo mesmo método que a dominação da mulher: pessoas mais fortes, melhor armadas, mais rápidas, assumiram domínio sobre outras, e depois, sua opressão ficou justificada através de regulamentos e cumplicidades.


Em quase todas as culturas, a mulher ficou relegada à reprodução e ao lar, mas, apesar de sua falta de liberdade e de seu perfil discreto, a maior parte das religiões apresentou o feminino como nocivo e perigoso. Em poucas passagens da Bíblia se reconhece a importância de alguma mulher (como a juíza Deborah), mas em muitas outras, o feminino é tratado com desprezo. Por exemplo:


[Depois de uma batalha]. E se encontras entre os cativos uma linda mulher, e a desejas, deves apropriar-te dela e transformá-la em tua esposa - DT 21:11


Alguns sugerem que o Cristianismo teria favorecido à mulher, mas as passagens do Evangelho onde se demoniza o feminino são majoritárias. As singelas gentilezas de Lucas (8:1-3 e 23:27) e Mateus (27:55) ficaram esquecidas quando a Igreja assumiu o poder. A partir do século 12, o direito canônico enfatizou a “inferioridade” moral e intelectual da mulher. Anos depois, Santo Tomas adotou uma idéia de Aristóteles: o único gênero real é o masculino, pois a mulher é um “erro” da natureza (um erro esquisito que aparece um 50% das vezes). Não tendo raciocínio, deve manter silêncio e obediência ao homem, e ficar fora da vida pública. Aliás, deve ser castigada pelo marido por tê-lo afundado no pecado original. O direito canônico autorizava a bater nela e privar-la de comida, mas evitando matar-la!


As religiões reformadas reconheceram parcialmente o valor da mulher. No século 16, na Inglaterra, várias escritoras ficaram famosas, e a mesma Elizabeth 1ª promoveu a educação feminina. As religiões alternativas, espiritualistas e naturalistas, amenizaram as diferenças de gênero; o credo Bahá’i, fundado em Irão em 1844, defendeu a igualdade de direitos entre os sexos, além de combater o racismo, a homofobia e qualquer outro preconceito. Nos Estados Unidos a misoginia prevaleceu até o século 19. Os puritanos que governavam as colônias queriam repetir a experiência católica do terror inquisitorial. Um caso lembrado todos os anos junto ao túmulo das vítimas, é o massacre de 14 mulheres consideradas “bruxas”, na cidade de Salem (Massachusetts), entre 1692 e 1693.



Discriminação Antifeminina


A discriminação sofrida pelas mulheres está definida na Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Mulheres da ONU de 1979:


“Discriminação contra mulheres” designa qualquer distinção, exclusão ou restrição feita com base no sexo, que possua o efeito [...] de diminuir ou anular o reconhecimento, desfrute ou exercício pelas mulheres [...] (sobre a base de igualdade de homens e mulheres) de Direitos Humanos e liberdades individuais [...] em qualquer campo.


A primeira reivindicação da militância feminista foi o voto. Em Ocidente, a conquista do direito de eleger e se candidatar estendeu-se lentamente, mesmo para a mulher branca: o primeiro país que autorizou o voto feminino (com restrições) foi a Suécia, em 1718, mas o último foi Portugal, apenas em 1976. Os direitos econômicos, como salário, emprego, etc., nunca foram totalmente atingidos. No caso do emprego, a ONU denunciou que em quase todos os países membros, as mulheres desfrutam de menos oportunidades que os homens. Nos Estados Unidos, fontes do governo afirmam que, apesar de que 50% dos mestrados são obtidos por mulheres, o 95% dos altos executivos nas maiores empresas são homens.


Em outros casos, a supremacia masculina se manifesta no controle familiar.  A família tradicional pode ter apenas um líder. Instituições repressoras, como o exército, algumas igrejas e os aparatos políticos apelam à importância da família para combater a diversidade. O pai de família tem a decisão final em todos os assuntos, mas a mulher deve inculcar os valores mais conservadores no dia-a-dia de seus filhos. A mulher também padece a falta de planejamento familiar. As religiões oficiais proíbem o planejamento, alegando que interfere nos desígnios divinos, enquanto nos estados totalitários ateus (como o chinês), o governo o impõe pela força.


Por uma razão ou pela oposta, a mulher é vítima.. Mulheres sem parceiros assumem sozinhas a organização doméstica, mas, nos lares com ambos os conjugues, o compartilhamento de responsabilidade é geralmente ilusório. O marido costuma coagir à mulher para engravidar ou para abortar, a despeito de seu interesse e vontade.


A disposição do próprio corpo é a conquista mais difícil para a mulher de um lar patriarcal. Nos casos de “quebra feminina da monogamia”, o marido pode reagir com insultos, medidas legais e atos violentos. Nas culturas mais brutais (entre outras, Irã, Nigéria, Afeganistão), o estado pode executar à esposa “infiel”, mas inclusive em algumas regiões da América Latina, homens que assassinam suas mulheres por ciúmes podem ser absolvidos por juízes cavernícolas e ressentidos.



Dados de Anistia Internacional


Estes são dados do relatório 2004 de Anistia Internacional sobre violência contra mulher, baseados em fontes da ONU e da Organização Mundial para a Saúde:


Em algum momento de sua vida, 16,7% das mulheres sofrerão alguma ação violenta, e 10% serão vítimas de tentativa de estupro. Cerca de um 30% já foram espancadas, pressionadas sexualmente ou abusadas. Até 47% das mulheres denunciaram que sua primeira relação sexual foi forçada. Até 70% das vítimas de assassinato foram mortas por seus parceiros. Em Egito, 35% das mulheres denunciam ser espancadas por seus maridos em algum momento. Em Bolívia, 17% das mulheres com 20 ou mais anos tem sido vítima de violência no ano anterior. Vide a página de Anistia Internacional (em 4 línguas):


www.amnesty.org/en/library/asset/ACT77/034/2004/en/dom-ACT770342004en.html



A Origem do Feminismo


O feminismo é uma corrente formada por movimentos cujo ponto comum é a defesa de direitos justos para as mulheres. Ao dizer “direitos justos”, supomos que existe um critério de ética e justiça para determinar direitos. A afirmação usual de que devem defender-se “direitos iguais” é reacionária, pois alguns direitos dos homens são negativos, como servir no exército e trabalhar como carrasco.


Germes de feminismo aparecem na Modernidade. A igualdade de direitos (justos) foi aceita pelos Anabaptistas ingleses e pelos Quakers, que estimulavam às mulheres a manifestar-se sobre política e religião. Entre 1646 e 1649, um movimento popular chamado Leveller (Nivelador) organizou as primeiras grandes passeatas com cerca de 10 mil mulheres que exigiam liberdade de presos políticos, igualdade religiosa, fim da guerra, e direito ao voto universal.


Existem casos isolados de mulheres feministas desde o século 14º. Christine de Pizan (1363-1434?) foi criada na França, onde salientou como escritora, combateu a misoginia, e redigiu a primeira obra teatral onde todos os protagonistas são mulheres. Em 1622, a francesa Marie de Gournay (1565-1645) afirmou a igualdade intelectual entre homens e mulheres. A escritora sueca Hedvig Nordenflycht (17181763) reclamou  educação equivalente para ambos os gêneros e denunciou o casamento como forma de servidão. Mais influente foi OLYMPE DE GOUGES que assumiu a defesa teórica e prática da mulher.


MARIE GOUZE (1748 -1793) dita Olympe de Gouges, militou na Revolução Francesa, da qual celebrou seu papel libertador, mas criticou seu caráter antifeminino. Em seus textos, que tiveram enorme popularidade, apresentava críticas políticas e sociais, e fazia propostas de incitação à luta. Sua DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA MULHER E DA CIDADÃ (1791) foi idealizada como complemento da Declaração dos Direitos do Homem. Olympe teve uma visão muito completa dos Direitos Humanos também no combate ao escravismo, a cuja crítica dedicou a obra teatral A Escravidão dos Negros (1774), e se tornou militante da Sociedade Amigos dos Negros, fundada pelo matemático Jean A. de Condorcet (17431794). Esteve contra a execução de Luis 16, por achar cruel e desumana a pena de morte.


www.pinn.net/~sunshine/book-sum/gouges.html


A britânica Mary Wollstonecraft (17591797) escreveu romances, ensaios e livros para crianças. Ganhou celebridade com A Reivindicação dos Direitos da Mulher (1792), onde rejeita a inferioridade “natural” feminina. Foi a primeira que pôs em evidência um grande tabu: O RECONHECIMENTO DOS DESEJOS SEXUAIS DAS MULHERES.


Wollstonecraft influiu diretamente no surgimento da Primeira Onda feminista (1850-1920), identificada no Reino Unido e nos Estados Unidos pelo sufragismo. Em ambos os países, a Primeira Onda também exigiu direito a atendimento médico, educação e emprego, e estava formada basicamente por mulheres de classe média, brancas, com objetivos limitados.



Segunda e Terceira Ondas


A Segunda Onda (1960-1970) começa, em sua maioria, nos Estados Unidos. No início dos 60, suas ativistas batalharam contra a tradição de colégios separados para homens e mulheres, e conseguiram institutos mistos. No emprego, lutaram contra a demissão de mulheres que envelheciam ou casavam. No plano ideológico, denunciaram os estereótipos femininos na mídia: mulheres frágeis, religiosas, pouco inteligentes, assexuadas, etc..


A Segunda Onda conquistou alguns direitos sexuais, como o acesso aos anticoncepcionais e (em alguns lugares) à interrupção da gravidez. Conseguiu que o abuso sexual e o estupro fossem denunciados e que suas vítimas recebessem proteção. Parcialmente, obteve leis para o cuidado dos filhos de mães trabalhadoras, e punições contra o assédio sexual no local de trabalho. Esta onda interceptou com a Guerra de Vietnam (1959-1975), à qual suas militantes se opuseram energicamente. Em 1964, criou-se um movimento feminista muito amplo, o frente de Libertação das Mulheres (Women Lib), que foi criticado por seu estilo genérico e sua falta de ações concretas para mulheres pobres e negras.


Na metade dos anos 80 surgiu a Terceira Onda, que ainda mantém sua força. Típicos da Terceira Onda são: a diversidade, e solidariedade com outros movimentos, e a crítica ao paradigma universal de identidade feminina, extraído da mulher branca pequeno-burguesa. Promove às interações com outras etnias, classes sociais e culturas.


A Terceira Onda incorpora assuntos mais amplos e profundos, especialmente a sexualidade em todas suas formas, e questiona a divisão binária dos gêneros, entendendo o feminino e o masculino como estados fluentes. Esta fluência reativou a palavra “queer” (utilizada antes para referir-se a homossexualidade), para designar as pessoas e condutas que faziam parte dessa fluência e podiam mudar o padrão de gênero. Esta onda está marcada por propostas sociais bem definidas:


(1) Anti-Racismo.. Milita na luta contra o racismo, e reivindica a compreensão dos problemas de outras etnias para articular um feminismo coerente. (2) Atitude pós-colonial. Considera a variedade de problemas femininos criados pelo domínio imperial nos países ex-coloniais. (3) Transnacionalismo. Equivale ao internacionalismo socialista: a luta deve ser comum a todos os oprimidos, ignorando as identidades nacionais. (4) Ecofeminismo. Ressalta a afinidade entre a opressão da mulher, o domínio sobre outras espécies vivas e, em geral, sobre o conjunto da natureza.


O movimento central dentro da Terceira Onda é o feminismo Sexualmente Positivo, que trata a sexualidade explícita como objeto de prazer e não como degradação machista. Afirma que a pornografia nem sempre é degradante, como tinha afirmado a Segunda Onda, pois, desde que seu conteúdo não promova o ridículo, os estereótipos ou a violência, deve ser entendida como a difusão de atos prazerosos, cuja condena implicaria estigmatizar a própria atividade sexual.


Esta onda desafia os preconceitos contra mulheres e outros grupos discriminados, e defende o direito sobre o próprio corpo e a própria sexualidade, reconhecendo a influência fundamental da etnia e da classe social na luta feminista. Sua militância se baseia no esclarecimento, a educação, a comunicação, e as ações concretas em relação com trabalho, saúde, cuidados das crianças e reprodução.



A Luta pelos DH das Mulheres


Os movimentos feministas mais avançados trocaram solidariedade com outros movimentos e grupos, atingindo uma cooperação estável a partir da Terceira Onda. Isso fez possível a atual inclusão, pelo menos teórica, do gênero feminino dentro das conquistas dos DH. Vamos a apresentar uma tabela onde se mostram algumas destas relações de solidariedade.







































Movimentos e Outros Grupos Solidários Externos com o Feminismo
Tipo de Grupo ou MovimentoFormas de AtuaçãoExemplos
Homens Isolados ou em Grupos Colaboração com movimentos feministas. Palestras, escritos, educação, discussões públicas ou privadas.O sociólogo americano Michael Kimmel.
Movimentos de Esquerda Defendem o feminismo como resistência à exploração das massas populares. Aproximam os sindicatos das mulheres, e propõem leis para a igualdade de gênero.O Partido Social-Democrata da Alemanha até 1930.
Movimentos Anti-RacistasForjam a solidariedade entre os três componentes da luta humanitária: anti-sexismo, anti-racismo e anti-classismo.O Partido das Panteras Negras, na Califórnia de 1960
Movimento de Gays, Lésbicas, Bissexuais e TransgênerosUnificam suas protestas e reclamações de direitos com as mulheres em geral, com independência da orientação sexual específica.Coalition of African Lesbians (Johannesburg, África do Sul, 2007).
Movimentos de Libertação e Democratização de Países SubdesenvolvidosLutam para liberar as mulheres das aberrações de algumas culturas, como as punições familiares, as limitações da vida sexual, as mutilações rituais.Golden Needle Sewing School (Afeganistão, 1996).

O Reconhecimento dos DH das Mulheres


Os políticos aprovaram o sufrágio feminino porque esperavam receber votos como amostra de gratidão (como aconteceu no Chile, onde forças católico-fascistas ganharam as eleições municipais de 1935 graças ao voto das mulheres), mas se mostraram menos sensíveis com os outros direitos. A integração de gênero nos colégios foi demorada e parcial. Os empregos para mulher aumentaram na Europa e nas Américas, porque o sistema necessitava mais mão de obra, mas os salários não foram igualados. Medidas humanitárias, como salário família e licença maternidade só foram implantadas pela insistência de legisladores de esquerda.


Teoricamente, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 protegia de mesma maneira os direitos de homens e mulheres, mas na prática, os movimentos feministas deveram pressionar durante décadas para que a ONU assumisse seriamente sua causa. Desde 1975, a ONU celebrou várias conferências sobre as reivindicações femininas e em 1979, apresentou uma Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contras as Mulheres (CEDAW), um detalhado documento com 30 artigos contra as discriminações mais conhecidas.


Os Estados participantes condenavam todo preconceito, prometendo sua eliminação jurídica, a criação de organismos para problemas femininos, e a revogação de leis, hábitos e práticas discriminatórios. Esta medida visava eliminar costumes bárbaros, como o dote ou a virgindade nupcial, o que irritou às sociedades onde estas práticas eram comuns.


Sob a expressão “medidas especiais de caráter temporário”, o artigo 4º da Convenção estimula a adoção de ações afirmativas por parte do estado.


A Convenção previu ações educativas gerais para modificar preconceitos e estereótipos, e ações educativas familiares para ensinar aos homens e às mulheres sua responsabilidade conjunta no desenvolvimento dos filhos. Também obrigava os países membros a perseguir o tráfico de mulheres e a exploração da prostituição.


O Artigo 10º exigia eliminar a discriminação nos estudos, e garantir acesso equivalente a escolas, faculdades, bolsas, cursos de aprimoramento e aplicações em todos os níveis, e atacar os estereótipos profissionais que dividem os gêneros, revisando livros, programas, planos e métodos que veiculam esses preconceitos. No plano do emprego, a Convenção propôs a igualdade de gênero na escolha de profissão, e no direito a salário, promoção, capacitação e às diversas formas previdência, incluindo saúde e férias. Veja:


www.direitoshumanos.usp.br/counter/Onu/Mulher/texto/texto_3


www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/mulher/lex121.htm


Esta Convenção foi ratificada por vários estados, mas apresentou menor nível de aceitação que qualquer outro instrumento da ONU, e foi alvo de reservas em artigos importantes por mais de 20% dos aderentes. Em 1999, a Comissão da Situação da Mulher da ONU apresentou o Protocolo Opcional da CEDAW, no qual se providenciam métodos para o controle do cumprimento da Convenção e para a investigação das infrações. Este Protocolo, porém, encontra ainda maiores resistências que a própria Convenção.


Portanto, a luta, inclusive jurídica, pela emancipação de mulher, continua agora com maior vigor do que nunca. Como disse Lênin durante a Revolução Bolchevista, nenhuma sociedade será livre se só for livre uma metade dela.


Carlos Alberto Lungarzo é professor e escritor, autor do livro "Os Cenários Invisíveis do Caso Battisti". Para fazer o download de um resumo do livro, disponibilizado pelo próprio autor, clique aqui. É membro da Anistia Internacional e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

Mulheres

Mulheres


Por Laerte BragaNa opinião de um arcebispo católico o “feminismo” só se justifica se as mulheres “tomarem a vida como filhas de Maria”. Não é o que pensa a “sister” Fernanda. Atendendo a um apelo da família resolveu soltar-se no programa BBB. Dançou de forma sensual. A, outra, ex-PM fez um strip tease e ficou só com a parte inferior do biquíni.


A família democrática, cristã e ocidental vota, mais de 60 milhões de ligações, para os telefones da arena contemporânea. Eliminar esse ou aquele no programa. Um frenesi “revolucionário”.


"Lembre do seu sonho e se doe a essa oportunidade: você conseguiu isso na melhor época da sua vida --solteira e começando sua profissão.. Esquece o mundo aqui fora. Viva intensamente essa oportunidade surreal e não se esqueça que você é solteira e mostre o diabinho que tem dentro de você”. É um trecho da carta da irmã da “sister” interpretando o desejo e a vontade da família.


No final ao invés de uma cenoura, um milhão e meio de reais. A moça considerou a carta como uma “dica explícita”. Não só dançou, como bebeu e sem ser fumante, roubou um cigarro de um “brother” e deu umas tragadas.


É dentista, não deve conhecer aquele creme dental que protege você doze horas por dia, contra doze problemas bucais. Breve vai estar na telinha estalando os dentes.


Herbert Viana em texto postado na internet – “pelo amor de Deus, eu não quero usar ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração. Uma coisa e saúde, outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu. Hoje Deus é a auto-imagem. Religião é dieta, fé só na estética, ritual é malhação”.


Inquirido, isso mesmo, inquirido sobre as mulheres às véspera do Dia Internacional da Mulher, um deputado de sobrenome Andrada (os Andradas mamam em tetas públicas desde os tempos da loba que amamentou Rômulo e Remo) disse o óbvio do absoluto vácuo cerebral –“conquistaram seu espaço sem perder a graça e a beleza femininas de mãe”.


Celso Furtado considerou a revolução feminista a mais importante do século XX. O notável brasileiro tinha formação marxista e considerava a caminhada das mulheres de maior importância que a revolução de 1917.


Ao longo dos séculos a mulher foi propriedade privada do homem. Essa caminhada foi deixando corpos e almas estendidos por esses mesmos séculos passados, num processo de lutas que certamente não pretendia e nem pretende terminar na dança sensual de uma “sister” aconselhada a liberar-se tendo em vista a cenoura no final da vara.


Existem milhões de trabalhadoras anônimas que sustentam os pilares da família cristã, democrática e ocidental, não aparecem na televisão e nem fazem danças sensuais, sequer imaginam o que seja uma lipo, sujeitam-se a privações de toda a sorte e emergem triunfantes na extraordinária capacidade do ser humano de amar a si no reconhecer o outro.


E empunham bandeiras por reforma agrária, como empunharam pelo direito do voto. Ou terminaram em fogueiras cristãs por conta de “bruxarias”. João o Inglês. Penso que o feminino de papa, papisa, existe só por conta de Joana ou Gilberta. Disfarçada de monge, por conta de sua inteligência e seus notáveis conhecimentos, sucedeu a Leão IV com o nome de João VII.


Teria morrido apedrejada em meio a uma procissão quando dava a luz a um filho gerado por outro monge. Fora fácil disfarçar a gravidez, mas impossível evitar o parto. Os cardeais gritavam “milagre, milagre”.


O arcebispo sugere que a vida seja tomada como Maria a tomou. A papisa foi apedrejada até a morte por ter “profanado o trono de São Pedro”.


Não se trata, necessariamente, da Igreja Católica, mas do que Foucauld chama de “desatino”, no que desatino representa em seu todo, historicamente, a contestação à ordem instituída.


Na exclusão. Na ordem natural dos registros não existe a papisa. Na “foto” desses arquivos ela foi apagada.


O dilema da “revolução feminista”, para usar a expressão de Celso Furtado, está exatamente na capacidade da mulher perceber que todo esse processo não pode ser, mas está sendo, apropriado pela ordem dominante dos nossos dias.


A “revolução” busca transformar seres em objetos. Um retrocesso cruel e perverso que leva ao nada. Homens e mulheres.


Uma nova Idade Média. Os shoppings e seus imensos fossos de neon e brilhos.


Ao longo da ditadura militar tombaram várias mulheres guerreiras. Capazes de indignarem-se com a bestialidade do regime. Empunharam metralhadoras como enfrentaram fogueiras em tempos passados. Ou marcharam pelo voto.


Há dias atrás Anita Leocádio Prestes, filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benário, recusou os favores da ordem dita democrática. Pensões, indenizações, compensações.


Permaneceu íntegra e Maria em sua essência. Não aquela forjada pelos cardeais trezentos anos depois do Cristo. E desejada pelo arcebispo nos dias de hoje. Não cruza a fronteira da liberdade para ingressar nos shoppings. E tampouco veste o hábito da hipocrisia.


Nem se estende em danças sensuais numa prostituição travestida de liberdade, escondendo o real objeto. “Cacau dá água na boca”.


Nem vou falar de Maria Madalena.


São muitas “marias”.


Irmãos e irmãs, mas companheiros e companheiras numa luta que não terminou. Não tem só a cor da “revolução feminista”.


Tem todos os matizes do ser humano na busca de um outro mundo possível, onde a “ração seja exposta ao sol e dividida”.


É uma luta que permanece e não inclui, por exemplo, Hilary Clinton. Mas mulheres palestinas vítimas da boçalidade sionista. Ou mulheres muçulmanas castradas em sua essência, no que o Profeta não disse.


E mulheres objetos no capitalismo devasso dos que jogam água suja em “vadias”, de suas janelas limpas e cristalinas da verdade vaticana vendida em qualquer loja de conveniência ou numa mesa de um centro cirúrgico de lipos. A sede é em Wall Street.


E nem é uma luta solitária. É de mulheres e homens, no mesmo passo.


É pela vida, pelo ser humano. E antes que a “revolução” seja tragada pelas elites políticas e econômicas e vire uma Kátia de Abreu da vida.


É fundamental que seja Doroty Stang.


Toda a violência contra a mulher, contra qualquer ser, tem a sua raiz no “atino” dos que constroem monstruosos “hospitais/shoppings” para os “desatinados” se atinarem.


É a hora e a vez dos desatinos.


Uma outra etapa do processo. Aí sim, será uma revolução total.


A mulher cubana, a mulher vietnamita, a mulher afegã, a mulher camponesa. A mulher operária. A mulher DASPU.


Continuam a ser apedrejadas por profanarem o trono de Wall Street.


Torna-se necessário o retomar a revolução e caminhar desatinadas/os nas cidades imersas no grito silenciado do progresso transformado em alienação/exclusão nas telas/telinhas/páginas do desodorante que não exige máscaras para que os banheiros sejam limpos.


Que banheiros? Os que eles sempre sujaram.


O Dia Internacional da Mulher é de reflexão. De todo o ser humano. Há que ser a “volta dos mortos vivos” (para lembrar o extraordinário e centenário Roberto Menezes).


Eles continuam a nos impingir os bezerros de ouro. A homens e a mulheres.


Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, onde mora até hoje, trabalhou no "Estado de Minas" e no "Diário Mercantil". É colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

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