O MEDO QUE A ELITE TEM DO POVO É MOSTRADO AQUI

A Universidade de Coimbra justificou da seguinte maneira o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão Lula da Silva: “a política transporta positividade e com positividade deve ser exercida. Da poesia para o filósofo, do filósofo para o povo. Do povo para o homem do povo: Lula da Silva”

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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O que não estamos a ouvir acerca do Haiti: PETRÓLEO


Por Marguerite Laurent, publicado originalmente em inglês* em Outubro de 2009. Confira o texto orignal: pakalert.wordpress.com (neste endereço está disponível um vídeo, em inglês, sobre o assunto)


"Há prova de que os Estados Unidos descobriram petróleo no Haiti décadas atrás e que devido a circunstâncias geopolíticas e a interesses do big business foi tomada a decisão de manter o petróleo haitiano na reserva para quando o do Médio Oriente escasseasse. Isto é pormenorizado pelo dr. Georges Michel num artigo datado de 27/Março/2004 em que esboça a história das explorações e das reservas de petróleo no Haiti, bem como na investigação do dr. Ginette e Daniel Mathurin.


Também há boa evidência de que estas mesmas grandes companhias de petróleo estado-unidenses e seus monopólios inter-relacionados de engenharia e empreiteiros da defesa fez planos, décadas atrás, para utilizar portos de águas profundas do Haiti tanto para refinarias de petróleo como para desenvolver parques de tancagem ou reservatórios onde o petróleo bruto pudesse ser armazenado e posteriormente transferido para pequenos petroleiros a fim de atender portos dos EUA e do Caribe. Isto é pormenorizado num documento acerca da Dunn Plantation em Fort Liberté , no Haiti.


A HLLN de Ezili [1] sublinha este documentos sobre recursos petrolíferos do Haiti e os trabalhos do dr. Ginette e Daniel Mathurin a fim de proporcionar uma visão não encontrável nos media "de referência" nem tão pouco se encontra em qualquer outro lugar as razões económicas e estratégicas porque os EUA construíram a sua quinta maior embaixada do mundo — a quinta, após a embaixada dos EUA na China, no Iraque, no Irão e na Alemanha — no minúsculo Haiti, após a mudança do regime haitiano pelo governo Bush.


Os factos esboçados na Dunn Plantation e nos documentos de Georges Michel, considerados em conjunto, desvelam razoavelmente parte das razões ocultas porque os Enviado Especial da ONU ao Haiti, Bill Clinton , está à ocupação da ONU o aspecto de que as suas tropas permanecerão no Haiti por longo período.


A HLLN de Ezili tem afirmado reiteradamente, desde o princípio da mudança de regime do Haiti em 2004 pelo regime Bush, que a invasão do país pelos EUA em 2004 utilizou tropas da ONU como suas procuradoras militares para esvaziar a acusação de imperialismo e racismo. Também temos afirmado reiteradamente que a invasão e ocupação do Haiti pela ONU/EUA não se refere à protecção dos direitos haitianos, a sua segurança, estabilidade e desenvolvimento interno a longo prazo mas sim acerca do retorno dos Washington Chimeres [gangters] – os tradicionais oligarcas haitianos – ao poder, o estabelecimento de comércio livre injusto, o plano mortal dos Chicago boys, políticas neoliberais, manutenção do salário mínimo a níveis de trabalho escravo , pilhagem dos recursos naturais e riquezas do Haiti , para não mencionar o benefício da localização pois o Haiti está entre Cuba e a Venezuela. Dois países em que, sem êxito, os EUA têm orquestrado mudanças de regime mas continuam a tentar. Na Dunn Plantation e nos documentos Georges Michel, descobrimos e novos pormenores como a razão porque os EUA estão no Haiti com esta tentativa de Bill Clinton para que as ocupações da ONU continuem.


Recursos minerais do Haiti.




Não importam os disfarces ou a desinformação dos media**, trata-se também das reservas de petróleo do Haiti e de assegurar portos de águas profundas no Haiti como local de transbordo (transshipment) para petróleo ou para armazenagem de petróleo bruto sem a interferência de um governo democrático obrigado para com o bem-estar da sua população. (Ver Reynold's deep water port in Miragoane / NIPDEVCO property .)



No Haiti, entre 1994 e 2004, quando o povo tinha voz no governo, havia um intenso movimento das bases para conceber como explorar os recursos do país. Havia um plano, explicitado no livro "Investir no povo: Livro Branco de Lavalas sob a direcção de Jean-Bertrand Aristide" (Investir dans l'humain), onde a maioria dos haitianos "foi não só informada onde estavam os recursos, mas que não tinham as qualificações e tecnologia para realmente extrair o ouro, extrair o petróleo".



O plano Aristide/Lavalas, como articulei na entrevista Riquezas do Haiti , era "empenhar-se em alguma espécie de parceria privada/pública. Nesta, seria considerado tanto o interesse do povo haitiano como naturalmente o dos privados que receberiam os seus lucros. Mas penso que isto foi naquele momento em que tínhamos St. Gevevieve a dizer que não gostavam do governo haitiano. Obviamente, eles não gostavam deste plano. Eles não gostam que o povo haitiano saiba onde estão os recursos. Mas este livro – pela primeira vez na história do Haiti – foi escrito em crioulo e em francês. E houve uma discussão nacional em todas as rádios do Haiti acerca de todos estes vários recursos do Haiti, onde estavam localizados e como o governo haitiano tencionava tentar construir desenvolvimento sustentável através daqueles recursos. Era o que acontecia antes de em 2004 Bush mudar o regime do Haiti através de golpe de estado. Agora, após o golpe de estado, embora o povo saiba onde estão estes recursos porque o livro existe, ele não sabe quem são estas companhias estrangeiras. Nem quais são as suas margens de lucros. Nem quais as regras de protecção ambiental e regulamentações irão protegê-los. Muitos, no Norte por exemplo, falam acerca da perda das suas propriedades, tendo vindo pessoas com armas e tomado a sua propriedade. É assim que estamos" ( Riquezas do Haiti: entrevista com Ezili Dantò sobre mineração no Haiti ).


Os media "de referência", possuídos pelas companhias multinacionais que espoliam o Haiti, certamente não exibem para consumo público o facto de que a invasão e ocupação do Haiti pela ONU/EUA é para assegurar o petróleo do país, posição estratégica, trabalho barato , portos de águas profundas, recursos minerais (irídio, ouro, cobre, urânio, diamantes, reservas de gás), terras, zonas costeiras, recursos offshore para privatização ou a utilização exclusiva de oligarcas ricos do mundo e de grandes monopólios petrolíferos dos EUA. (Ver mapa mostrando algumas das riquezas mineiras e minerais, inclusive cinco sítios de petróleo no Haiti; Oil in Haiti pelo dr. Georges Michel ; Excerto do documento Dunn Plantation ; o Haiti está cheio de petróleo , afirma Ginette e Daniel Mathurin. Há uma conspiração multinacional para tomar ilegalmente os recursos minerais do povo haitiano : Espaillat Nanita revelou que no Haiti há enormes recursos de ouro e outros minerais, Is UN proxy occupation of Haiti masking US securing oil/gas reserves from Haiti ).


De facto, a actual autoridade-haitiana-sob-a-ocupação-EUA/ONU que encarregada de conceder licenças de exploração e mineração no Haiti não explica, de qualquer maneira relevante ou sistemática, à maioria haitiana acerca das companhias a comprarem, após 2004, portos de águas profundas no Haiti, que lucros partilham com o povo do Haiti, não explicam os efeitos ambientais das escavações maciças nas montanhas do Haiti e sobre as águas neste momento. Ao invés disso, o director de Mineração do Haiti alegremente sustenta que "novas investigações serão necessárias para confirmar a existência de petróleo no Haiti" .


Num trecho retirado do artigo postado em 09/Outubro/200 por Bob Perdue, intitulado "Lonnie Dunn, third owner of the Dauphin plantation" , ficamos a saber que: "Em 8 de Novembro de 1973, Martha C. Carbone, da Embaixada Americana em Port-au-Prince, enviou uma carta ao Office of Fuels and Energy, Departamento de Estado, na qual declarava que o Governo do Haiti "... tem diante de si propostas de oito grupos diferentes para estabelecer um porto de transbordo para petróleo em um ou mais portos de águas profundas haitianos. Alguns dos projectos incluem a construção de uma refinaria..." Ela a seguir comentava que a Embaixada conhecia três firmas: Ingram Corporation de Nova Orleans, Southern California Gas Company e Williams Chemical Corporation da Florida.. (Segundo John Moseley, a companhia de Nova Orleans provavelmente chama-se "Ingraham", não Ingram.)


No número de 6 de Novembro de 1972 da revista Oil and Gas Journal, Leo B. Aalund comentava no seu artigo "Vast Flight of Refining Capacity from U.S. Looms",.: "Finalmente, o Haiti de 'Baby Doc' Duvalier está a participar com um grupo que quer construir um terminal de transbordo junto a Fort Liberté, no Haiti". Uma das propostas mencionadas por Carbone estava sem dúvida submetida aos interesses Dunn.


Além disso, ficamos a saber por este artigo que "a Lonnie Dunn que possuía a plantação Dauphin "planeou rectificar e ampliar a entrada da baía [Fort Liberté] de modo a que super-petroleiros pudessem nela entrar e a carga ser distribuída para petroleiros mais pequenos para transferência a portos dos EUA e Caribe que não pudessem acomodar navios grandes..." ( Foto de Fort Liberté, Haiti).


Inserimos no sítio web HLLN as outras partes relevantes deste documento que se referem ao interesse que corporações dos EUA têm tido, durante décadas, em Fort Liberté como porto de águas profundas ideal para multinacionais instalarem uma refinaria de petróleo.


Nas décadas de 50 e 60 havia pouca necessidade dos portos ou do petróleo do Haiti pois do Médio Oriente jorravam dólares em abundância. Para os monopólios que ali actuavam não havia necessidade de enfraquecerem-se a si próprios colocando mais petróleo no mercado e cortarem os seus lucros. Escassez manipulada, teu nome é lucro! Ou, o que equivale dizer, capitalismo.


Mas o embargo petrolífero da década de 70, o advento da OPEP, a ascensão do factor venezuelano, a Crise do Golfo seguida pela guerra pelo petróleo do Iraque, tudo isso tornou o Haiti uma aposta melhor para o fato de três peças e os mercenários militares chamados "governos ocidentais", sim, um meio mais fácil de colocar a pilhagem e o saqueio sob a cobertura pública do "levar a democracia" ou da "ajuda humanitária".


Por acaso, após a mudança de regime de 2004 promovida por Bush filho, a seguir ao golpe militar de 1991 de Bush pai, descobrimos torrentes de "discussões" no Congresso acerca de perfurações off-shore em preparação, com a "revelação" final, tal como escrito há anos no documento Dunn, de que "é necessário para os super-petroleiros que precisam portos de águas profundas os quais não estão prontamente disponíveis ao longo da Costa Leste dos EUA – assim como por considerações ambientais e outras que não permitem a construção de refinarias internas na escala em que serão necessárias".


Enfatizamos que o Haiti é um local de despejo ideal para os EUA/Canadá/França e agora o Brasil , pois questões ambientais, de direitos humanos, de saúde e outras nos EU e nestes outros países provavelmente não permitiriam a construção de capacidade de refinação interna na escala em que as novas explorações de petróleo neste hemisfério exigirão. Assim, por que não escolher o país mais militarmente indefeso do Hemisfério Ocidental e salpicá-lo com iniciativas de desestabilização por trás da máscara "humanitária" da ONU e os paternais cabelos brancos de Bill Clinton com uma cara sorridente?


É relevante notar aqui que a maior parte dos principais portos de águas profundas do Haiti foram privatizados a partir da mudança de regime promovida por Bush em 2004. Também é relevante notar que no ano passado escrevi um artigo intitulado Is the UN military proxy occupation of Haiti masking US securing oil/gas reserves from Haiti : "Se há reservas significativas de petróleo e gás no Haiti, o genocídio e os crimes dos EUA/Europa contra a população haitiana ainda não começaram. Ayisyen leve zye nou anwo, kenbe red. Nou fèk komanse goumen. (Reler Is there oil in Haiti , de John Maxwell.)


As revelações do dr. Georges Michel e dos documentos Dunn Plantation parecem responder afirmativamente à questão de que há reservas substanciais de petróleo no Haiti. E a nossa informação no Ezili Dantò Witness Project é que na verdade está a ser aproveitada, mas não para o benefício dos haitianos ou do desenvolvimento autêntico do Haiti. Eis porque havia a necessidade de marginalizar as massas haitianas através do derrube do governo democraticamente elite de Aristide e de colocar as armas e a ocupação da ONU que hoje mascaram os EUA/europeus (com uma peça para o novo poder que é o Brasil) assegurando as reservas de petróleo e gás do Haiti e outras riquezas minerais tais como ouro, cobre, diamantes e tesouros submarinos. ( Majescor and SACG Discover a New Copper-Gold in Haiti , Oct. 6, 2009; Ver Haiti's Riches e There is a multinational conspiracy to illegally take the mineral resources of the Haitian people : Espaillat Nanita revelou que no Haiti há enormes recursos de ouro e outros minerais.)


Hoje, os EUA e os europeus dizem estar felizes com os "ganhos de segurança" do Haiti e com o seu governo "estável". Quer dizer: as últimas eleições presididas pelos EUA/ONU no Haiti excluíram o partido maioritário de qualquer participação. As prisões do Haiti estão cheias, desde 2004, com milhares de organizadores comunitários, civis pobres e dissidentes políticos que os EUA/ONU etiqueta como "gangsters", detidos indefinidamente sem julgamento ou audiências. A Cité Soleil foi "pacificada". Desde 2004 há mais ONGs e organizações caritativas no Haiti – cerca de 10 mil – do que em qualquer outro lugar do mundo e o povo haitiano está muitíssimo pior do que antes desta civilização EUA/ONU (também conhecida como "Comunidade Internacional") e seus bandidos, ladrões e esquadrões da morte corporativos que cassam os direitos de nove milhões de negros. Os preços dos alimentos estão demasiado altos, alguns recorrem ao pão que o diabo amassou na forma de biscoitos Clorox para aliviar a fome.


Lovinsky Pierre Antoine , o dirigente da maior organização de direitos humanos do Haiti, foi desaparecido em 2007 no Haiti ocupado pela ONU sem que qualquer investigação fosse efectuada. Entre 2004 e 2006, sob a ocupação ocidental, primeiro pelos Marines dos EUA e a seguir pelas tropas multinacionais encabeçadas pelo Brasil, de 14 mil a 20 mil haitianos, principalmente quem se opunha à ocupação e à mudança de regime, foram chacinados com impunidade total. Mais crianças haitianas estão fora da escola hoje em 2009 do que antes de vir a "civilização" EUA/ONG após 2004. Sob o regime imposto pelos EUA em Boca Raton, o Supremo Tribunal do Haiti foi despedido e outro completamente novo, sem qualquer autoridade constitucional emanada de mandato do povo do Haiti, substituiu os juízes legítimos e os funcionários judiciais sob a tutela da ocupação da ONU e da comunidade internacional.


(...)


[1] Ezili: Marguerite Laurent/Ezili Dantò é dramaturga, poeta, comentadora política e social, escritora e promotora de direitos humanos. Nasceu em Port-au-Prince e foi educada nos EUA. Para mais informações sobre a autora, confira: http://www.ezilidanto.com


*Observem que a tradução está em português de Portugal e foi reproduzida de http://resistir.info/


**"Os media" são os jornalistas.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Vai em frente Dilma, Saravá!



Vai em frente Dilma, Saravá!


Por Rui Martins


Berna (Suiça) - Quando estávamos terminando o curso de Direito, no Largo de São Francisco, em 1963, criou-se, como de praxe, uma Comissão da Formatura. Naquela época, eu já não era um presbiteriano ativo e me debatia com as dúvidas que me levariam à descrença, principalmente depois da IPB ter tomado o partido dos militares.


Era um ano politicamente quente com os grandes debates das reformas de base, e a passagem pelas Arcadas de Leonel Brizola com seu verbo inflamado respondendo às acusações levantadas contra Jango pelo líder udenista Carlos Lacerda.


O mais importante era talvez a crença, entre os jovens, de que se podia mudar o mundo, por isso cada um de nós (não sei se mantenho esse comportamento do passado) estava sempre pronto a entrar numa trincheira, mesmo sem armas, para defender idéias de igualdade social, de combate à miséria com todo o ardor da juventude.


Ora, vez ou outra, nos intervalos das aulas (eu fazia o curso noturno), apareciam os membros da Comissão de Formatura para contar como iam organizar nossa festa, quanto poderia custar, onde ia ser o baile e como deveríamos pagar nossa parte. E numa dessas noites, fomos informados sobre a missa da formatura. Eu, pessoalmente, nunca imaginara que, numa Faculdade de Direito pública da USP, pudesse haver missa numa festa de formatura.


Pedi informações, e me foram dadas: era praxe (meus colegas advogados têm uma atração por palavras desse tipo e mantenho o original) os formandos pedirem a celebração de uma missa. O arcebispo já havia sido contatado e a missa seria na prestigiosa Catedral da Sé. « Mas vejam, respondi, nós estudamos numa faculdade pública e isso me parece um tanto estranho ».


- Mas é a tradição, me responderam. Ora, como nas Arcadas de São Francisco a tradição imperava, parecia muito normal mantê-la, mesmo se ao arrepio do princípio da separação da Igreja do Estado.


Como tenho um espírito de provocador (meus leitores já devem ter notado), perguntei como se faria com os protestantes (naquela época não se falava evangélicos), com os ortodoxos e com os judeus (não havia muçulmanos naquele grupo).


- Faremos como vem sendo feito (era de novo a tradição): os cultos não católicos terão o convite em separado e os formandos não católicos entregarão o convite da formatura com a separata aos seus convidados. No convite oficial só constará a Missa.


Como tenho o pavio curto, me levantei do lugar em que estava, no grande anfiteatro, e despejei tudo quanto pensava sobre esse desrespeito aos colegas de outros cultos e essa visão distorcida do direito de livre culto justamente por estudantes de Direito. Virou um enorme bate-boca com a intervenção de outros que passaram a me apoiar, no meio da reação de católicos que se consideravam insultados com a petulância de se querer quebrar uma velha tradição arcadiana.


O professor apareceu na porta, era hora de começar a aula, a discussão parou ali, mas de volta à minha República redigi um texto para abaixo-assinado e, já na manhã seguinte, fui ao curso diurno, expliquei aos colegas o incidente e pedi assinaturas. Em alguns dias, as assinaturas encheram duas ou três páginas, porque mesmo católicos, futuros advogados preferiam o respeito à laicidade que o privilégio de um culto sobre os outros.


Para evitar uma perda do abaixo-assinado, pedi a um colega fotografar com flash a entrega do documento ao presidente da Comissão. Para encurtar, o responsável pela Catedral da Sé informou que só haveria missa naquela igreja, se a cerimônia constasse no convite oficial e sem a presença de outros cultos religiosos. E, finalmente, todos os cultos de ação de graças inclusive a missa acabaram em convites em separado, como manda a laicidade.


Conto esse episódio para enfatizar, como não religioso, que todos os cultos e religiões devem ser livres em termos iguais. Hoje no Brasil, segundo denúncias feitas ao Comissariado de Direitos Humanos em Genebra, estão se registrando casos de ataques e violências contra umbandistas por evangélicos. Li, no caso do terremoto do Haiti, ter havido absurdas declarações de líderes evangélicos nos EUA e talvez no Brasil de ter sido um castigo de Deus ao paganismo haitiano.


É fato notório que nem todas as religiões são adeptas do ecumenismo e que chegam mesmo a insuflar o ódio e a guerra, como acontece hoje em alguns países e como aconteceu no passado com as Cruzadas e Isabel da Espanha, sem se esquecer a Inquisição. Por isso, o nosso moderno Estado de direito precisa estar atento a fim de evitar privilégios religiosos, perseguições ou desigualdades.


Os terreiros de umbanda são uma realidade no Brasil e devem gozar de todo direito das outras religiões. No Senado Federal, havia, não sei se foi aprovado, um projeto de lei restabelecendo o ensino religioso católico nas escolas em lugar de um ensino opcional das religiões em geral, como ocorre aqui na Europa, tais preferências e deslizes devem ser evitados.


Arthur Clarke, o autor do livro 2001, Odisséia no Espaço, levado ao cinema por Kubrick, previu um mundo futuro sem religião, mas enquanto não chegamos lá, é preciso se respeitar todos os cultos. Se Dilma acha que, por questão eleitoral, não deve reconhecer agora o direito dos terreiros de umbanda, não pode esquecer de fazê-lo nos seus primeiros meses de governo.


Nossas boas-vindas a Rui Martins, colunista do site Direto da Redação. Ex-correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. Autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. Vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, e, a partir de hoje, com o blog "Quem tem medo do Lula?"

sábado, 23 de janeiro de 2010

Imperdível: Veríssimo defende o PNDH-3 - e no jornal "O Globo"!

Planos e direitos


Por Luís Fernando Veríssimo, no "O Globo", de quinta, 21 de Janeiro


Só li do tal Plano Nacional de Direitos Humanos o que saiu, em fragmentos, nos jornais. Se entendi bem, o que eu duvido, este plano é uma versão revisada de um anterior, que por sua vez era uma revisão de um mais antigo. O que sugere que ou o novo plano altera radicalmente as propostas dos outros ou o escândalo que se faz com ele é indefensável. Por que o escândalo, e só agora?* Pelo que li, não são grandes as diferenças entre o terceiro plano e os dois anteriores, inclusive o que é dos tempos do Fernando Henrique.


E não há discrepância entre suas propostas e o que está em discussão, hoje, no resto do mundo civilizado. Coisas como a descriminalização do aborto e o casamento de gays são debates modernos, mesmo que não impliquem em mudanças imediatas. A proibição de símbolos religiosos em repartições públicas é consequência lógica do velho preceito da separação de igreja e estado, que não deveria melindrar mais ninguém — pelo menos não neste século. A idéia de novos anteparos jurídicos para mediar os conflitos de terra é de uma alternativa sensata para a violência de lado a lado. E a obrigação de proteger os direitos e a integridade de qualquer um da prepotência do estado e do excesso policial, alguém é humanamente contra? O novo plano peca pela linguagem confusa e inadequada, em alguns casos. A preocupação com o monopólio da informação de grandes grupos jornalísticos, e com a qualidade da programação disponível, também é comum em todo o mundo.Muitos países têm leis e restrições para enfrentar a questão sem que configurem ameaças à liberdade de opinião e de expressão. E sem sugerir o controle de redações e o poder de censura que o tal plano — em passagens que devem ser imediatamente cortadas, e seus autores postos de castigo — parece sugerir.


Sobra a questão militar. Em nenhum fragmento do plano que li se fala em anular a anistia. O direito humano que se quer promover é o do Brasil de saber seu passado, é o direito da Nação à memória que hoje lhe é sonegada. Só por uma grande falência da razão, por uma irrecuperável crise semântica, se poderia aceitar verdade como sinônimo de revanche.


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Clique aqui para saber o que diz o "PNDH-3".


*Obs. minha: essa é a melhor parte... POR QUE?


Ana Helena Tavares

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Open House do capitalismo - Big Stick



Open House do capitalismo - Big Stick


Por Laerte Braga

O presidente “eleito” de Honduras, Porfírio Lobo, toma posse dia 27 e “reinaugura” a “democracia cristã e ocidental” em seu país. Vai ter as bênçãos de Washington, do cardeal primaz, de banqueiros, latifundiários, grandes empresários, tudo num open house do capitalismo, sob a batuta dos militares.


Esses se dividirão em dois grupos. Os poderosos chefões vão para o palácio. Os esbirros de menor patente para as ruas. A tarefa é simples. Prender e arrebentar quem se opuser ao “processo democrático”. Vale dizer a maioria do povo hondurenho que continua a luta contra o golpe que depôs Manuel Zelaya.


Janet Napolitano, secretária de Segurança Interna do governo de Barack Obama disse na Espanha que os terremotos que sacudiram e destruíram o Haiti não podem ser “encarados como oportunidade de emigrar para os Estados Unidos”. O termo oportunidade é complicado. Pura presunção de quem parece ser também ou imigrante, ou descendente.


A UNICEF denunciou publicamente o desaparecimento de quinze crianças desacompanhadas e internadas num hospital haitiano. Segundo porta-voz da UNICEF é provável que tenham sido “seqüestradas por traficantes de crianças”.


Na cabeça de Janet Napolitano a decisão do governo dos EUA, tomada antes dos terremotos, de legalizar a presença de haitianos clandestinos no seu país, vai permitir “que eles arranjem empregos e façam remessas de dinheiro para suas famílias”. É outra face da “ajuda” norte-americana.


Num país, os EUA, onde a crise foi apenas atenuada e maquiada por dados oficiais, haitianos clandestinos e agora legalizados, vão entrar para o clube dos desempregados, ou dos subempregados. Vão se juntar a milhões de cidadãos nativos que permanecem nos porões/abrigos, que segundo Barbra Bush, mulher do ex-presidente George pai Bush, têm vida melhor, pois “aqui fazem três refeições por dia”.


Fugir para os EUA não significa que a vida de haitianos vá se transformar. Que estejam querendo sair do inferno e correr para o paraíso. Essa atração dos luminosos de Manhattan acontece em qualquer lugar do mundo. Levas de homens, mulheres e crianças buscando encontrar uma luz no fim do túnel nos países do chamado primeiro mundo, ou o próprio processo migratório em cada país, onde as pessoas do campo fogem para as cidades grandes acreditando piamente que viver em favelas é melhor que a realidade de cada um.


No Brasil, por exemplo, já se observa sinais de um movimento inverso. Boa parte dos 57% de paulistanos que declarou ter o desejo de sair da capital de São Paulo, com toda a certeza, não é nativa.


É óbvio. O CGE – Centro de Gerenciamento de Emergências – do governo de São Paulo (O prefeito é do DEM) não mostra, em seus relatórios diários sobre os efeitos das fortes chuvas que estão caindo, todos os pontos alagados. Para diminuir o impacto de um problema que atinge a cidade, monitora menos de 5% da área do município.


A explicação é simples. O levantamento é feito por “marronzinhos”, definição do CGE, que notificam onde a chuva encheu ou não e apenas no centro da capital e imediações. A periferia dane-se.


Os caras sabem, lógico. Quando acontecem cheias como as que têm sido exibidas pelos noticiários da tevê, conseqüências como corte de luz, falhas no sistema de telefonia são relatadas de imediato às empresas responsáveis, riscos de desabamentos são notificados à Defesa Civil, o problema é maquiar e dizer que o governo trabalha diuturnamente para resolver todas as mazelas provocadas pelas chuvas.


No Haiti existe, segundo a ONU, um conflito entre várias das ONGs que acorreram ao país na missão de ajudar, salvar e reconstruir. Para os funcionários da ONU muitas ONGs disputam a primazia do noticiário internacional e em seus países de origem em puro exercício de exibicionismo. O número de assessores de imprensa costuma ser maior que o de “ajudadores”.


O fato tem causado transtornos e atrapalhado a eficiência dos trabalhos de resgate, distribuição de alimentos, água, socorro médico, etc. Essas ONGs, na prática, estão de olho nos repasses de verbas e contribuições para que possam “funcionar” a pleno vapor, quando não disfarçam ações de potências estrangeiras, ou empresas interessadas em controle do país, no caso o Haiti e dos ”negócios”.


Tem um monte de tantas assim na Amazônia.


O arcebispo auxiliar da arquidiocese de São Paulo, D. José Benedito Simão, acha normal a Comissão Regional de Defesa da Vida do Regional Sul-1 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), chamar o presidente da República de “novo Herodes”.


É que o Plano Nacional de Direitos Humanos trata de questões sensíveis à cúpula católica. Aborto, homossexuais e lésbicas, adoção de crianças por casais homo. Lula ou o Secretário de Direitos Humanos, um ou outro se esqueceu de incluir a pedofilia, os “direitos dos pedófilos” e os milhões de dólares gastos pelo Vaticano para manter por baixo dos panos os escândalos envolvendo desde padres a alguns altos dignatários da igreja.


E depois não entendem onde um charlatão como Edir, o Macedo, encontra terreno fértil para os sacos de dinheiro que se amontoam e terminam em Miami. Acham que é só copiar os rituais e trocar de nome, algo como renovação carismática.


Uma coisa é a fé, a convicção religiosa, direito líquido e certo, questão de foro íntimo, outra coisa é a fachada para ações assim que nem a da turma de D. José Benedito Simão. Parece o arcebispo de Mariana que mandou retirar de circulação um jornal que criticou o governo de Aécio Neves.


A mídia nacional deu destaque às vaias aplicadas ao prefeito da cidade mineira de Juiz de Fora e ao secretário estadual de Saúde do governo Aécio Neves, respectivamente Custódio Matos e Marcus Pestana, o que levou o governo de Minas a reagir e prestar solidariedade a seus “correligionários”, digamos assim.


Custódio Matos, o que ajudou Azeredo a captar recursos junto a Marcus Valério, realiza um dos governos mais corruptos dentre todos de todos os municípios brasileiros e Marcus Pestana transformou a Secretaria de Saúde do Estado num grande negócio privado, onde é sócio em tudo através de laranjas. Naquela hora faltaram os marqueteiros, uma espécie de bússola das mentiras tucanas. Aí, desandou, pois os caras estão acostumados a open house fechados, por contra senso que possa parecer. Restrito aos que pagam (propinas), caso Queiroz Galvão e um ou outro lambe botas.


Impávido, tranqüilo na Cervejaria Casa Branca, o presidente Barack Obama, primeiro mutante eleito para o cargo (tem a pele negra e a ideologia branca) manda que se passe por cima de tudo e todos na “ajuda” ao Haiti e no novo governo de Honduras.


Para tanto, nesse open house do capitalismo, atropela a ONU (não foi convidada, fica olhando na entrada da festa), tenta calar reações de governos como o brasileiro e o francês, mantém em alerta os militares que cuidam da “democracia” hondurenha na base de Tegucigalpa (escola de golpes) e ganha um aliado.


O presidente eleito do Chile, Piñera, já insinuou que o governo da Venezuela não é democrático. É que Chávez expropriou uma rede de supermercados que vivia (como vivem todos) de extorsão contra o consumidor. Pinochet, de quem Piñera foi amigo, esse sim, é democrata.


Na opinião de experts da alta costura na Europa, o problema da moda brasileira é o acabamento. Peca no acabamento, no arremate.


O técnico do Corinthians afirma que vai promover um rodízio de gols para evitar que apenas um atacante, no caso Ronaldo, chamado de “o gordo”, tenha destaque. Lembra o técnico Duque instruindo os jogadores do Fluminense sobre como empatar um jogo com o América e virar o resultado. Assentado e ouvindo atentamente a explanação do treinador, Gerson, um dos maiores jogadores de todos os tempos no futebol brasileiro e mundial, perguntou a Duque se ele já havia combinado aquilo com o técnico e o time adversário.


Não existem motivos para preocupações maiores. Porfírio Lobo vai assumir o governo de Honduras no dia 27, a borracha vai cantar em quem for contra, a democracia vai estar salva, como garantidas as instituições cristãs e ocidentais e um grande baile vai marcar a data. O open house será para banqueiros, latifundiários, empresários norte-americanos, generais, elites podres do país e o resto lambe com a testa.


Ou como poeira nessa farsa de exploração que é o capitalismo. O diabo é que a poeira vem em seguida à borduna baixada pelos militares.


O que é o de menos para eles, em todos os lugares existem CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências). Seja para prender e arrebentar quem não se conforme com a democracia cristã e ocidental, ou quem esteja debaixo de água. Ou pior, soterrado em escombros no Haiti.


Em boa parte do mundo. E com as bênçãos de cardeal, convidado de honra de Porfírio Lobo para sua posse.


No final sai um relatório com os dados “reais”. Não bate com a realidade, mas isso é detalhe. Qualquer dúvida existem versões do JORNAL NACIONAL em todos os lados e BB – Big Brother – para o gáudio da turma.


Laerte Braga é jornalista e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Haiti, a geologia do império

Foto: Jiro Ose


O envio de mais de 10 mil soldados e marines, e uma frota capitaneada por um porta-aviões nuclear, sem que a ONU fosse sequer consultada, revela uma estratégia por demais conhecida dos Estados Unidos.



Por Gilson Caroni Filho

Enquanto as placas tectônicas do Caribe e da América do Norte não se estabilizam, o povo haitiano vive, mais uma vez, o limite de suas possibilidades históricas. O envio de mais de 10 mil soldados e marines, e uma frota capitaneada por um porta-aviões nuclear, sem que a ONU fosse sequer consultada, revela uma estratégia por demais conhecida. Se a natureza, como a própria guerra, tem as suas próprias leis, os fatos desatados por sucessivos abalos sísmicos servem como exercício para que os Estados Unidos reafirmem a preeminência na América Caribenha, descartando qualquer possibilidade de países vizinhos interferirem em sua supremacia na região.

Quando a secretária de Estado americana Hillary Clinton, a bordo de um avião militar, pronuncia que “o socorro às vítimas do terremoto poderia chegar de forma mais rápida se o Parlamento haitiano aprovasse um decreto dando mais poderes ao presidente René Préval, alguns dos quais poderiam ser delegados aos Estados Unidos como a possibilidade de declarar toque de recolher", suas palavras não podem ser compreendidas fora da lógica dos poderes que comandam a titeragem internacional.

O que lhes interessa (aos poderes), em qualquer circunstância, é executar a estratégia de dominação da grande potência mundial de nossos dias, pouco se importando com a deterioração das condições de vida da população afetada, com os escombros de Porto Príncipe ou com os milhares de mortos que estão sendo enterrados em valas comuns. O que conta é experimentar novas formas de controle sobre países periféricos, organizando uma logística que privilegia a ação militar em detrimento de uma operação humanitária. Não foi à toa que a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), uma das principais organizações humanitárias da França, acusou os Estados Unidos de prejudicarem as operações de auxílio no Haiti, causando graves atrasos para os médicos que tentam levar ajuda às vítimas.

Convém lembrar que a ostentação da superioridade militar, embora em algumas ocasiões seja grotesca, é uma das características do imperialismo. Os repetidos atos de agressão contra o país mais pobre da América Latina são de conhecimento público. Da ocupação militar estadunidense de 1915 a 1934, seguida do apoio à ditadura dos Duvallier- que tinha por base o terror miliciano dos Tonton Macoutés-, até a participação direta no golpe que depôs, em 1991, o presidente eleito Jean-Bertrand Aristides, a política de terra arrasada sempre foi considerada o “argumento" mais eficaz para contenção geopolítica de ensaios de emancipação.

A despeito da mudança de linguagem em relação ao governo Bush, os adeptos ou intérpretes desse tipo de diplomacia, fundamentam-se, ainda, nos mesmos eixos: segurança hemisférica, defesa de supostos princípios civilizatórios, ameaças do terrorismo internacional e algumas outras variações semânticas. A ocupação do palácio presidencial por uma centena de paraquedistas da 82ª Divisão dos EUA vai bem além do campo simbólico: é a reiteração de uma estratégia de solução baseada no uso unilateral da força, fora dos marcos de legitimidade das Nações Unidas. Sem sutilezas, a intervenção preventiva dá lugar à “guerra justa” de Hillary Clinton.

Para o Departamento de Estado parece não haver dúvidas quanto ao futuro do Haiti. Em um universo regido pelo exercício do poder econômico e militar, a possibilidade de se tornar um novo Protetorado é o melhor destino para um povo que morre cedo e tem uma renda de US$ 560. Na pior das hipóteses, a produção de bolas de baseball terá um considerável incremento.

Se o objetivo é deter a emergência de estratégias de organização da economia e desenvolvimento político social e cultural que escapem às conveniências da hegemonia estadunidense no hemisfério, a geologia pode dar contribuições consideráveis. Placas tectônicas podem liberar uma energia destrutiva impensável.

A acomodação, no entanto, depende de uma generosidade que, para se efetivar, terá que ser encorpada como resistência política. Isso não é assunto exclusivo dos haitianos. Talvez, a associação entre os desiguais nunca tenha sido tão necessária.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior, colaborador do Jornal do Brasil e do blog "Quem tem medo do Lula?".

Atos patrióticos - Uma grande bananada

Por Laerte Braga


Quando Costa e Silva perguntou a Pedro Aleixo, seu vice-presidente e mais tarde impedido de assumir o cargo pela quartelada de 1969 sobre o AI-5, Aleixo respondeu o seguinte – “eu não estou preocupado com o uso que o senhor fará desse instrumento presidente, mas com o guarda do quarteirão”.


Foi gentil e polido. Costa e Silva era o próprio guarda do quarteirão. Ou foi irônico, o marechal jamais saberia diferenciar uma coisa de outra, gentileza de ironia. Como Figueiredo entendia muito de cavalos.


Na reunião que decidiu pela sanção do AI-5 o “intelectual” Jarbas Passarinho, ministro do governo e membro da Academia Paraense de Letras, lá pelas tantas, ao perceber as idas e vindas de Costa e Silva, aproveitou o momento que o marechal falou em “escrúpulos” para sintetizar a opinião da boçalidade que permeava a maioria do governo àquela época. – “as favas com os escrúpulos presidente”.


Quarenta e cinco dias após o ataque às torres gêmeas do World Trade Center o presidente dos EUA, então o terrorista George Bush, conseguiu arrancar do congresso o ATO PATRIÓTICO. A lei autorizava o governo como um todo, através de suas agências de segurança e inteligência, a prender sem mandados, promover escutas sem ordem judicial, seqüestrar cidadãos hostis fora do território norte-americano e técnicas de interrogatórios mais duras (tortura), para salvar o mundo da destruição.


Norte-americanos acreditam que não existe vida humana racional para além do seu território e pior, se acreditam humanos (é claro que existe uma pequena parcela ainda de humanos por ali, pode crer, existem).


Chamam a si a tarefa de salvar os povos inferiores. É o que se vê no Haiti.


Estão afundados no Afeganistão numa guerra que começa a incomodar a própria opinião pública do país, que percebe a derrota política e militar, guardadas as proporções, um novo Vietnã.


No final do governo de Bush, no afã de limpar a mesa, evitar deixar provas das barbáries cometidas, o Departamento de Justiça, em março de 2007, acusou o FBI (polícia federal) de “não informar oficialmente o uso ilegal do Ato Patriótico”.


O professor Williams Gonçalves, da Universidade Federal Fluminense apareceu hoje num dos noticiários do canal a cabo GLOBONEWS falando sobre a “arrogância dos norte-americanos” na questão do Haiti. Foi incisivo ao dizer que nessa hora ignoram a ONU, ignoram direitos fundamentais, passam por cima de tudo e todos com seu poder econômico e militar.


Para fazer o contraponto – a situação dos canais da GLOBO no que diz respeito ao Haiti é complicadíssima. A rede é financiada por empresas e pelo governo dos EUA e por outro lado não tem como criticar os militares brasileiros no Haiti. O jeito é a defesa disfarçada dos interesses que representa – os jornalistas globais têm dito que apesar dos pesares eles, os norte-americanos, resolvem.


Na trilogia O PODEROSO CHEFÃO, de Francis Ford Coppola, há um momento em que um comerciante do bairro pede um favor a D. Vito Corleone. No primeiro filme. Recebe o benefício solicitado e fica devedor para uma eventual necessidade do chefão num dado qualquer momento.


O momento surge e é mais ou menos como você pedir a um amigo dez reais emprestados e ele uma semana depois pedir a você para matar um desafeto, ou infringir uma determinada lei. Tudo em nome da amizade. Pediu, tem que aceitar as regras, caso contrário, ATO PATRIÓTICO nele ou o velho AI-5. Ingratidão punida pelas leis da Máfia. O que são os EUA além de grandes máfias reunidas em uma federação?


Barack Obama está se estrepando na incapacidade de ser alguma coisa, pelo menos até agora, que não um produto de marketing. Marca de sabão em pó. Leite que se dissolve instantaneamente. Perdeu eleições em Massachusetts onde os democratas não perdiam há 38 anos. Justo na vaga de um histórico liberal, o senador Ted Kennedy.


Se vai dar a volta por cima é outra história. Na verdade, visto de hoje, parece condenado a um mandato só, mas, como tudo é possível... Americanos do norte adoram cenários de Hollywood e nisso Obama é pole position..


O presidente do Brasil Luís Inácio Lula da Silva foi escolhido pelos representantes dos países que formam o FÓRUM DE DAVOS como o ganhador do prêmio Estadista Global do Fórum Econômico Mundial. A entrega será feita no dia 29 de janeiro e é a primeira edição do prêmio.


Isso autentica a definição de Ivan Pinheiro, secretário geral do Partido Comunista Brasileiro, sobre o “capitalismo a brasileira”, invenção de Lula. Do ponto de vista do modelo, no entanto, reforça o cacife eleitoral de Lula para outubro, cria uma baita saia justa para a mídia colonizado (E Obama, onde fica?) e deve ter provocado um ataque histérico em FHC, doutor com todos os doutorados em todos os cantos, relegado ao ostracismo de sua carne assada e cuscuz paulista.


Ramsés, se não terminou sua pirâmide ainda, corre o risco de terminar nas águas poluídas do Tietê.


O grande temor dos militares brasileiros com relação ao Plano Nacional de Direitos Humanos não é necessariamente a possibilidade de virem a ser presos por crime de tortura. O medo real é a revelação dos nomes de ilustres e respeitáveis canalhas transformados em patriotas no dever cumprido da boçalidade contra presos indefesos.


Aí é que mora o perigo. O cara que confessa e comunga toda semana, nas horas vagas tortura, estupra, assassina e diz que é em nome de Deus, da pátria e da família, para salvar a democracia.


O que os militares brasileiros têm a aprender no Haiti é simples. Ou são policiais subordinados aos EUA, ou cumprem um mandato da ONU e enxergam no governo do Brasil algo diferente de FHC. Em tempos tucanos já estariam incorporados aos serviços de limpeza dos acampamentos norte-americanos.


Davos é um fórum de banqueiros, feito para banqueiros, grandes empresários. O prêmio concedido a Lula tem um aspecto interessante. Está para além do reconhecimento dos méritos do presidente brasileiro (na lógica do “capitalismo a brasileira). A maioria dos países que formam o fórum, das entidades, está dizendo a Obama que o prêmio Nobel da Paz deu para comprar, mas que como está ninguém agüenta a arrogância e prepotência dos EUA.


Os favores que estão sendo prestados ao Haiti na marra, sem qualquer respeito aos haitianos, a ONU, serão cobrados e pagos pelo povo do Haiti e pelo resto do mundo, na lógica do imperialismo. Dá com uma das mãos uma banana e tira com a outra toda a produção de bananas gerada sobre trabalho escravo.


São atos patrióticos. Uma grande bananada.


Laerte Braga é jornalista e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

Itália poderá ter sua "lei Fleury" para livrar a cara de Berlusconi

[caption id="attachment_3061" align="aligncenter" width="360" caption="A "Lei Berlusconi" repete a "Lei Fleury": casuísmo para manter delinquente poderoso fora das grades."][/caption]


Governo Berlusconi lança a "Operação Mãos sujas"


Por Celso Lungaretti


Quando o grande promotor Hélio Bicudo obteve a condenação do delegado Sérgio Paranhos Fleury pelos crimes cometidos como líder do Esquadrão da Morte de São Paulo -- quadrilha de policiais que executava contraventores e, apurou-se depois, era financiada por um grande traficante para eliminar seus concorrentes --, os deputados subservientes à ditadura criaram uma lei com o objetivo exclusivo de evitar que ele ficasse merecidamente atrás das grades.


Apelidada de Lei Fleury, ela alterou a regra segundo a qual os condenados em primeira instância deveriam aguardar presos a sequência do processo. Abriu-se uma exceção para os réus primários, com bons antecedentes e residência fixa.


Foi a retribuição do regime militar a um de seus principais carrascos, responsável pela tocaia contra Carlos Marighella, pela chacina da Lapa, pelo dantesco suplício que antecedeu o assassinato de Eduardo Leite (o Bacuri) e, enfim, por um sem-número de homicídios e torturas.


Em nome do serviço sujo e sanguinário que efetuou a partir de 1968 na repressão política, anistiaram-no informalmente das atividades paralelas que ele antes desenvolvera, ao atuar no radiopatrulhamento de São Paulo.


A introdução de uma lei casuística, para aliviar a situação de um poderoso nos processos que já estavam em curso, é até hoje motivo de opróbrio para o Estado brasileiro -- uma das muitas aberrações que marcaram o período 1964/85.


A Itália está prestes a seguir um dos nossos piores passos -- e em plena democracia! Não tem sequer a atenuante de serem ilegítimos os seus representantes que propõem tal descalabro.


O Senado italiano aprovou nesta 4ª feira (20) projeto de lei do Executivo alterando o prazo de prescrição dos processos judiciais, de forma que aqueles nos quais premiê Silvio Berlusconi é reu (fraude fiscal e suborno) passem a prescrever em seis anos e meio, ao invés dos dez anos atuais.


Ou seja, o governo Berlusconi propôs uma lei que beneficia Berluconi... e o Senado baliu amém.


Se a Câmara também coonestar essa imundície, o premiê terá conseguido escapar pela tangente de todos os processos que lhe são movidos.


Que dizer de um país que aceita ter como primeiro-ministro não um cidadão inocentado das acusações que lhe foram feitas, mas sim um contraventor favorecido pela prescrição dos seus delitos?! Ainda por cima, utilizando em causa própria os poderes que lhe foram concedidos pelo povo italiano.


Também pela tangente, Berlusconi está conseguindo escapar da condenação a que faria jus por ter dado cobertura política à Cosa Nostra na década passada. Esteve a soldo do chefão responsável pelo assassinato de um juiz e seus cinco seguranças.


Se concretizada, a virada de mesa vai produzir um verdadeiro terremoto na Justiça italiana: o número de processos que prescreverão poderá chegar a 100 mil, incluindo grandes casos de falência fraudulenta, como o da Parmalat.


E o Executivo e o Legislativo, acumpliciados, terão conseguido abortar a cruzada contra a impunidade desenvolvida pelo Judiciário, seguindo a tradição dos heróicos magistrados que ousaram confrontar a Máfia com a Operação Mãos Limpas.


Emblematicamente, é um político que protegia mafiosos o atual pomo da discórdia.


Berlusconi encabeça a Operação Mãos Sujas.


Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. Mantém o blog "Náufrago da Utopia", é autor de livro homônimo sobre sua experiência durante a ditadura militar e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

Principal ONG francesa de Direitos Humanos intercede por Battisti


Liga dos Direitos do Homem apela a Lula por Battisti


Por Celso Lungaretti


"Battisti vem protestando há vários anos, afirmando que jamais dirigiu essa organização de que fazia parte, e que jamais cometeu os crimes de que é acusado. Porém, ninguém o escuta, e aparentemente pouco importa a seus acusadores que ele seja culpado ou inocente. Para eles, Battisti é antes de tudo um símbolo. E o discurso desses acusadores não fala de Direito, mas da vingança, essa inimiga da Justiça."


A afirmação é de Jean-Pierre Dubois e Michel Tubiana, respectivamente o atual presidente e o presidente honorário da Liga dos Direitos do Homem, em mensagem recentemente enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


Comumente referida apenas como LDH, a Liga Francesa para a Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão é a mais prestigiosa ONG empenhada na observação, defesa e promulgação dos DH na República Francesa, em todos os domínios da vida pública. Integra a Federação Internacional de Direitos Humanos.


Foi incisivo o apelo que Dubois e Tubiana endereçaram ao presidente Lula, no sentido de que resista às fortes pressões internacionais contra o escritor e perseguido político Cesare Battisti:


Eis a íntegra da mensagem que enviou ao presidente Lula:


Paris, 24 de Novembro de 2009.


Exmo. Sr. Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República Federativa do Brasil


Senhor Presidente,


Vossa Excelência ouviu as graves acusações, de terrorismo e mortes, que pesam sobre Cesare Battisti. Vossa Excelência ouviu também seus defensores explicarem a total ausência de provas e testemunhos quanto à sua culpa, o papel extremamente duvidoso dos “arrependidos” durante o processo, as suspeitas que pairam sobre várias peças do dossiê.


O senhor também ouviu, senhor Presidente, alguns italianos, de esquerda como de direita, reclamarem sua extradição. As ofensas midiáticas e diplomáticas não deixam espaço para a dúvida e para pontos de vista contraditórios. Esta súbita obstinação contra um homem com o qual ninguém se preocupou durante tantos anos bem demonstra que Cesare Battisti se tornou um mero trunfo político-eleitoral. Por que não se preocupam com os outros italianos exilados, de extrema-esquerda e, sobretudo, de extrema-direita, com comprovada responsabilidade em atentados?


Vossa Excelência é o chefe de um grande país, o Brasil, e se, num primeiro momento, outorgou um refúgio político a Cesare Battisti tendo em vista sua situação e em conformidade à Constituição brasileira, também viu, num segundo momento, o Supremo Tribunal Federal assenhorear-se do caso, e viu pessoas que, por sua vez, tentaram transformá-lo num trunfo de política interna. Para essas pessoas, mais uma vez, pouco importa o destino de um homem.


Após a resolução do Supremo Tribunal Federal, o destino de Cesare Battisti passou a depender única e exclusivamente de Vossa Excelência. Vossa Excelência sabe que Battisti vem protestando há vários anos, afirmando que jamais dirigiu essa organização de que fazia parte, e que jamais cometeu os crimes de que é acusado. Porém, ninguém o escuta, e aparentemente pouco importa a seus acusadores que ele seja culpado ou inocente. Para eles, Battisti é antes de tudo um símbolo. E o discurso desses acusadores não fala de Direito, mas da vingança, essa inimiga da Justiça.


O caso Battisti cria um imenso mal-estar em todos os amantes da justiça e da liberdade: será justo condenar um homem e, o que quer que ele tenha feito, deixá-lo morrer, simplesmente por ter se tornado, nos últimos cinco anos, um objeto de troca, o trunfo de querelas políticas e de transações econômicas nacionais e internacionais? Este seria o extremo oposto de um ponto de vista humanista.


O engajamento pode levar à rebelião. A rebelião, quando fracassa, pode levar à prisão. A rebelião, quando vitoriosa, pode levar à responsabilidade política. E a política, por necessidade, leva a compromissos. Isso nós compreendemos, senhor Presidente, como compreendemos que Vossa Excelência se encontra diante de um problema complexo. É uma imensa responsabilidade. É também um imenso privilégio perante a Justiça e a História. Ao dizer “não” à extradição deste homem, Vossa Excelência poderá refutar essa iniciativa selvagem, em que a vida de um homem nada significa quando os poderosos, um Estado, ou até multidões clamam pelo sacrifício de um bode expiatório.


Pois bem sabe Vossa Excelência que a pessoa de Cesare Battisti não pode se reduzir a um mero símbolo. Cesare Battisti é antes de tudo um ser humano. A seu pedido, ele interrompeu sua greve de fome. Isso prova que ele confia em Vossa Excelência.


Também nós confiamos. Pois estamos seguros de que o presidente da República Federativa do Brasil não deixará que se entregue esse homem a um país que clama tão tardiamente, e com excessiva ferocidade, por uma injusta vingança. E a História há de lembrar.


Rogamos que aceite, senhor Presidente, os protestos de nossa admiração e a expressão de nosso imenso respeito,


Jean-Pierre Dubois
presidente da Liga dos Direitos do Homem (LDH)


Michel Tubiana
presidente honorário da Liga dos Direitos do Homem (LDH)


(com a colaboração de Gérard Alle, escritor,
Comitê francês de apoio a Cesare Battisti)


Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. Mantém o blog "Náufrago da Utopia", é autor de livro homônimo sobre sua experiência durante a ditadura militar e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"



A mais antiga ONG de Direitos Humanos apóia Battisti


Por Carlos Alberto Lungarzo


Inglaterra, Holanda e os Países Escandinavos foram os primeiros a derrubar as monarquias absolutas (Suécia foi o primeiro país do mundo a abolir a pena de morte e outorgar o foto feminino), mas foi mérito da França ter realizado a primeira grande revolução em cujo contexto os Direitos Humanos (DH) receberam sua formulação explícita.


Criadores do primitivo socialismo e do anarquismo, cenário das grandes polêmicas marxistas, inventores do conceito de esquerda (gauche), geradores de uma luta sem fim contra a ditadura, o militarismo e o estado confessional, fundadores da primeira e efêmera sociedade governada pelo povo (a Comuna de Paris), autores do gigantesco grito de liberdade da juventude de 1968, os franceses nunca estiveram alheios ao caso Battisti. Foi a esquerda francesa a que lhe proporcionou seus 14 anos de felicidade no ambiente mais racional e progressista do mundo, foram os intelectuais, artistas, professores e estudantes franceses os que combateram por sua liberdade, por sua não extradição, pela manutenção da palavra do povo francês, sujamente violentada pela direita.


Porque parece uma lição de história que, quando emergem os grandes humanistas, os corajosos libertários, surge, quase ao mesmo tempo, a forma mais cínica, cruel e covarde da direita. Há algumas excepções, mas isto foi regra na maioria dos países. Os bravos republicanos espanhóis foram reprimidos pela crueldade do mais místico e sádico exército de que se tenha notícia, aquele liderado por Millán-Astray, cujo slogan era “Morra a inteligência! Viva a Morte!”. O Espartaquismo foi combatido pelo nazismo, um movimento cuja história todos conhecem. O humanismo e iluminismo italiano, que produziu pensadores como Bruno e Beccaria, foi arrasado desde antes do fascismo, e nunca mais conseguiu se recuperar.


Na França, a luta entre revolucionários e monárquicos, entre iluministas e obscurantistas, entre democráticos e bonapartistas, entre humanistas e militaristas parece interminável, mas a força da razão ganha com freqüência algum espaço.


Ontem recebemos cópia de uma carta que será um marco indelével na história dos direitos e das conquistas morais e humanas. A Liga dos Direitos do Homem (Ligue des Droits de l’ homme, LDH), através de seu presidente efetivo, Jean-Pierre Dubois, de seu presidente de honra, Michel Tubiana e do escritor Gérard Alle, do Comitê de apoio a Cesare Battisti, enviou uma carta aberta ao Presidente Lula, de qual podem encontrar-se cópias na Internet (http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2010/01/liga-dos-direitos-do-homem-apela-lula.html).


A carta enfatiza alguns fatos conhecidos, que cobram maior força quando provém de uma organização que foi fundada em 1989 e teve como objetivo defender a primeira grande vítima de crime jurídico da história contemporânea, o capitão do exército francês Alfred Dreyfus, condenado por um delito inexistente. Como Battisti, ele também foi alvo da fúria de fanáticos e linchadores que, em vez de ser neofascistas como os atuais, eram os arautos do que se manifestava como o futuro fascismo.


Com decisão infreqüente em instituições famosas, que, muitas vezes zelam por uma etiqueta formal, os autores da carta se referem não apenas aos pontos tortuosos e contraditórios do julgamento, mas também às “ofensas mediáticas e diplomáticas”, à invasão do Supremo Tribunal Federal nas atribuições do executivo, e ao uso do caso Battisti como “triunfo de política interna”, numa sutil porém enérgica referência ao golpe branco que vários juízes e ex-juízes do Supremo impulsionam com incrível falta de escrúpulos. É incisivo o trecho em que a carta denuncia o espírito de vingança, “aquela inimiga da justiça”.


Há nesta carta uma observação especialmente iluminada. Os autores chamam ao presidente Lula a assumir o importante papel que lhe reserva a história. Isso significa, em outras palavras, que assim como as grandes vítimas de crimes jurídicos ficaram imortalizadas na história, também seus defensores o foram. Junto com Dreyfus lembramos a Emile Zola, junto com Sacco e Vanzetti, a Bertrand Russell. Entretanto, a quem podemos lembrar junto a Olga Benário?


A LDH tem um passado respeitável e por isso sua contribuição é radical. Especialmente depois de renascer em 1943 de sua dissolução pelos colaboracionistas, a Liga se aprofundou na defesa dos DH em seu sentido mais universal, se opondo ao chauvinismo e xenofobia do militarismo francês, à Guerra da Argélia, à tortura e às tentativas de golpe da Organização do Exército Secreto. Quando a barbárie se abateu novamente sobre a França, depois do triunfo de Chirac, a LDH esteve na primeira linha de combate a uma medida infame proposta pelo governo: ensinar nas escolas que a dominação colonial tinha tido “aspectos positivos”.


Em 2005, a LDH liderou junto a professores e estudantes a iniciativa para que a lei fosse retirada por seu caráter infamante contra a luta anticolonialista e seu respaldo a criminosos membros da Organização do Exército Secreto. Chirac e seu primeiro ministro, finalmente, abandonaram esse projeto fascistoide no ano seguinte. Chirac não fez uma verdadeira autocrítica: apenas disse que a história não podia ser feita por lei, mas devia ser feita pelos historiadores. No fundo, primeiro propôs a lei e a retirou depois, com o mesmo oportunismo que desconheceu o compromisso feito por Mitterrand de proteger os refugiados italianos.


O LDH, como muitas instituições progressistas do país, está salvando a vida de uma pessoa, que é o principal, mas também resgatando a honra do setor consciente da cidadania, cuja convicção sobre os DH, garantida por Mitterrand, foi enterrada pela direita. Talvez passe muito tempo até termos a clara dimensão da importância desta singela carta da LDH ao presidente Lula.


Carlos Alberto Lungarzo é escritor, autor do livro "Os Cenários Invisíveis do Caso Battisti". Para fazer o download de um resumo do livro, disponibilizado pelo próprio autor, clique aqui. É membro da Anistia Internacional e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

Os efeitos colaterais das premiações de Lula


 Ubiratan Dantas (ou simplesmente Bira) é um cartunista, chargista, quadrinhista e ilustrador paulistano. Colabora com o blog "Quem tem medo do Lula?".

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pintar ou Fazer Amor



Indicado para pessoas sexualmente bem resolvidas, de mente aberta ou por aqueles que procuram um bom drama com conteúdo erótico que respeita a inteligência e a sensibilidade do espectador.

André Lux

Filmes cuja temática aborda o sexo liberal (ménage a trois, troca de casais ou fantasias mais picantes consideradas tabu pela nossa sociedade hipócrita) geralmente descambam para um falso moralismo retrógrado que quase sempre acaba em brigas, assassinatos, extorsões ou coisas do gênero, como se a intenção fosse mostrar que essas práticas são erradas e degeneradas – isso depois de usá-las para tentar atrair o público e faturar nas bilheterias.


Só mesmo os franceses poderiam fazer um filme com esse tema de maneira humana, realista e madura. Assim, “Pintar ou Fazer Amor” (“Peindre ou Faire L'amour”) mostra a rotina de um casal de meia idade (os ótimos Daniel Auteuil e Sabine Azema) que vai morar numa casa de campo no interior do país. Fazem amizade com outro casal que mora nas redondezas e, aos poucos e com muita naturalidade, o roteiro vai mostrando a atração e cumplicidade crescentes entre eles que culmina numa surpreendente troca de casais.


A nova experiência deixa-os perplexos e amedrontados, tanto é que na manhã seguinte fogem sem rumo (e até provocam um acidente de carro). Mas ao mesmo tempo, a novidade reacende a chama do desejo entre eles.


O contraste dessas fortes emoções e os sentimentos dúbios que elas geram nos protagonistas são explorados de maneira muito sensível pelo casal de diretores Arnaud e Jean-Marie Larrieu (também autores do roteiro), sem nunca cair para reduções simplistas ou discursos moralistas.


Altamente indicado para pessoas sexualmente bem resolvidas, de mente aberta ou por aqueles que simplesmente procuram um bom drama com conteúdo erótico que respeita a inteligência e a sensibilidade do espectador.


Cotação: * * * *


André Lux, jornalista e crítico-spam, presta assessoria na área de comunicação e mantém o blog “Tudo em Cima” (http://tudo-em-cima.blogspot.com/).



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domingo, 17 de janeiro de 2010

Uma página infeliz de nossa história


O Brasil tem que fazer justiça e oferecer um mínimo de paz a todos os sobreviventes dos porões da ditadura, aos seus familiares e aos familiares dos mortos. Enterrados embaixo de imponentes quartéis ou sabe-se lá onde…


Por Ana Helena Tavares


A ditadura foi aqui. A dita branda que povoa a fantasia dos que hoje têm medo da verdade. Daqueles que hoje têm medo de que seus netos e bisnetos saibam letra por letra o que eles fizeram no milênio passado.


Aristóteles dizia que "o homem é um animal político", mas até que ponto pode chegar o ser humano em nome de uma ideologia, acho que nem Freud em seus maiores delírios seria capaz de entender. E as atrocidades de determinados militares na época da ditadura foram, certamente, documentadas de forma bastante vasta. Dentro da caserna, havia pessoas com a única função de registrar aquela horrenda realidade em sabe-se lá quantas laudas. Muitos destes arquivos foram, provavelmente, destruídos ou pela ação do tempo ou pela ação humana, ambas implacáveis. Mas, seja nas mãos de militares ou de civis, não tenho dúvidas de que ainda hoje esta “página infeliz de nossa história”, que Chico e outros tantos narraram em prosa, verso e música, permanece também legível em anotações das mais diversas e documentos oficiais.


Vale lembrar também que a grande imprensa da época não publicou só versos de Camões e receitas de bolo. É claro que houve ainda os que preferiram emprestar seus carros de reportagem para os torturadores, mas, seja em jornalões ou publicações alternativas, é também considerável o número de jornalistas que conseguiu driblar bravamente a censura noticiando os fatos e opinando sobre eles de forma corajosa e competente.


Além disso, outra coisa que ainda nos resta - e isto para ser apagado precisaria muita gente morrer - é a memória de quem viveu o horror e resistiu a ele, a memória de seus familiares e dos familiares dos mortos.


Será que alguém poderá ser capaz de me dizer que é justo que, por exemplo, um sujeito que era conhecido como “Tenente Mata Rindo” continue rindo por aí, sabe-se lá rindo de que, mas solto – livre, leve e solto? É este tipo de gente que os comandantes militares de hoje defendem contra a “Comissão da Verdade”?


Eu tive parente torturado brutalmente e quase morto. O ano era 1969, AI-5 vigorando a pleno vapor e meu parente era um jovem como sou hoje. Naquele ano a caça aos comunistas, indiscriminadamente chamados de “terroristas”, estava a mil por hora. Luta armada, num regime de exceção, contra uma ditadura (que de branda nada teve), não pode de modo algum ser classificada como terrorismo. Seria quase como dizer que Tiradentes e os inconfidentes eram terroristas porque pegaram em armas para lutar contra a monarquia portuguesa. Mas obviamente que o militarismo imperialista não pensa assim.


Meu parente havia ido ao cinema e os militares - aqueles que, há quem diga, "não queriam o golpe" – provavelmente assistiram à sessão junto com ele, de tocaia. Ao sair, enquanto esperava o ônibus para voltar para casa, foi abordado e começaram a perguntar-lhe sobre questões políticas. Do alto de sua inocência, sem sequer imaginar o que se passava naquele momento, limitou-se a balançar a cabeça afirmativamente. Assim, lhe mostraram a carteira do DOPS (“Departamento de Ordem Política e Social”, nome pomposo para repressão) e lhe “convidaram” a entrar em um carro.


Era tão ingênuo que, perguntado a que grupo pertencia, disse pertencer a um grupo folclórico – e era verdade. Obviamente, acharam que era deboche. Mas não era. Ele não tinha envolvimento político com direita, esquerda, centro, nada! Tinha, sim, a infelicidade do destino de ser parecido com um comunista muito procurado e foi isso o que o fez ser seguido até o cinema.


Sem nada entender, antes de entrar no carro, disse ainda que precisava falar com sua mãe. Na cabeça, ele já trazia uma cicatriz profunda que os militares certamente fingiram não ver. A cicatriz se deve a uma lesão cerebral por atropelamento na infância, o que o levava a tomar remédios para controlar a epilepsia. Ele trazia estes medicamentos no bolso, sendo este mais um “motivo” para aqueles que buscavam “motivos” a qualquer preço. Em suma, resolveram “entender” que, além de comunista, ele era viciado.


Ele ficou cinco dias desaparecido. Encontrava-se nu, trancafiado numa cela com luz constante. Apanhou muito e conta que implorava para que não batessem em sua cabeça. Vão apelo de um inocente que recebeu choque elétrico e lavagem cerebral, agravando os problemas neurológicos que já tinha.


A família moveu céus e terras e conseguiu encontrá-lo graças, primeiramente, à intuição de sua mãe que pediu para que o procurassem no DOPS. Os militares negaram que ele estivesse lá, mas ela sabia que ele estava. Ela tanto bateu nesta tecla que um tio dele e um amigo da família conseguiram chegar a um alto funcionário do DOPS. Tio, amigo e alto funcionário, os três eram maçons e, naquele momento, foi o que os uniu. Não tenho conhecimento suficiente para fazer juízo de valor sobre a maçonaria, mas tenho a quase certeza de que sem ela jamais a inocência de meu parente teria sido provada e ele seria mais um para a larga estatística de mortos daquele período.


Ele sobreviveu sabe-se lá como. Mas ficaram seqüelas traumáticas visíveis. Por exemplo, quando ele hoje se depara com uma blitz, a primeira coisa que faz é pegar os documentos, se desespera sempre achando que vai ser preso e viver aquilo tudo de novo. Talvez esta preocupação se explique porque, naquela época, os militares, quando o libertaram, queriam a todo custo ficar com os documentos dele. Coisa que o trio também conseguiu impedir. Mas talvez ele ache que ainda ficou por aí algum registro. E vai convencê-lo... Só quem viveu o inferno e tem até hoje a sensação de impunidade sabe as razões pelas quais ainda não consegue se sentir seguro nas ruas deste país.


Quem agora é capaz de me convencer que aqueles militares que em nenhum momento deram chance de defesa a um inocente e fizeram com ele tudo o que fizeram merecem ser hoje vovôs que levam impunemente os seus netos à pracinha?!?!?! Pelo amor de Deus, algum dia o Brasil tem que fazer justiça e oferecer um mínimo de paz a todos os sobreviventes dos porões da ditadura, aos seus familiares e aos familiares dos mortos. Enterrados embaixo de imponentes quartéis ou sabe-se lá onde...


Tenho certeza de que quem estivesse no meu lugar também iria morrer pedindo justiça. E este sentimento é ainda maior por eu saber que não foi só com ele.


Se tem algo que salta aos olhos neste país é que nós ainda vivemos numa ditadura, uma ditadura disfarçada de democracia. Ainda há, sim, torturas. Torturas no campo, por exemplo, que a grande mídia sempre esconde. E isso talvez seja até mais complicado, pois não se vêem os capuzes e isso engana aos desavisados. Os desavisados que acreditam piamente numa grande mídia suja, os desavisados que acreditam cegamente num poder judiciário que de cego não tem nada, sabe muito bem para onde olha e continua restringindo-se à visão limitada.


No entanto, ainda que tenhamos que todo dia lutar contra isso tudo, em busca de uma democracia plena, o presente não é mais importante do que o passado neste caso. Enquanto nosso país não acertar contas com sua história, tal como já fizeram outros países da América Latina, não poderá se dizer um país democrático.


Hoje percebo que Lula já deveria ter feito isso há bem mais tempo. Agora que começou não dá pra deixar pro próximo milênio.


Ana Helena Tavares é escritora e poeta eternamente aprendiz. Jornalista por paixão e futura jornalista com diploma, é colunista da “Revista Médio Paraíba” e editora/administradora do blog “Quem tem medo do Lula?”.

Os bobos da corte

OS BOBOS DA CORTE


Por Raul Longo


Alguém me enviou uns anexos ótimos, com o título: CADA PAÍS TEM A CÔRTE QUE MERECE .... e, no campo assunto: As Côrtes Pelo Mundo.


Só pra informação, corte (residência ou conjunto de pessoas da nobreza) não tem mais acento pra diferenciar de corte (talho). A ortoépia se definirá entre o circunflexo e o agudo de acordo com o sentido do emprego da palavra na frase. Por exemplo: “A guilhotina deu um corte na prepotência da corte”, não é uma frase totalmente correta quanto ao conteúdo, mas está de acordo com a ortografia vigente.


Digo que não é totalmente correta porque assim como tem gente que escreve à maneira antiga, muitos bobos não perderam a cabeça na Revolução Francesa. Seus pais, servos e vassalos que fugiram da tirania daquelas cortes, os geraram em outras partes do mundo de onde reproduzem arrogâncias de uma cultura que não possuem e sequer conhecem a história.


Em suas consciências cristãs pregam que todos os homens são iguais perante Deus, mas se pretendem iguais aos nobres que crucificaram seus ascendentes naquela Europa que sequer mais existe além de mera encenação como atrativo turístico ao servilismo destes abobalhados.


Mas, devagarinho, a coisa vai melhorando, as hipocrisias vão se desmascarando e os bobos da corte se ridicularizam por si próprios.


Inclusive na terra da guilhotina onde o presidente Nicolas Sarkozi casou-se com a ex-modelo e cantora italiana Carla Bruni, que se pode admirar aí na reprodução da primeira foto do anexo que me enviaram:


Vejam que moça bonita! Recentemente, num desses encontros de diversos presidentes, reproduziram uma foto do Sarkozi dando a impressão de que olhava para a bunda de uma moça da comitiva do Obama. Maldade! Sem dúvida o baixinho não tem olhos para outra e, mesmo que fosse, não haveria nada demais! Afinal os nobres sempre foram suscetíveis às formas femininas como qualquer mortal e poucas camas de bordel tiveram rotatividade igual as das cortesãs de França que, por isso mesmo, acabaram emprestando o designativo às funções das profissionais.


Sarkozi nunca foi rei ou nobre, mas por uma tradição do séc. XI ainda se mantém a todos os principais dirigentes da França o título de co-príncipe de Andorra.. A bandinha atrás evoca o exército napoleônico do início do século XIX, mas Sarkozi sabe que tudo isso é só pra impressionar bobo da corte.


Passamos ao próximo:


Assim como Victor Hugo relatou os horrores e a miséria dos súditos da corte de Versalhes, Charles Dickens escreveu sobre as injustiças e misérias sofridas pelos súditos da tataravó da Elizabeth aí na foto: a tal Rainha Vitória.


Queen Elizabeth é mais quista por seu povo, apesar do estremecimento provocado por sua má vontade com a plebéia Lady Diane, moça muito bonita, da qual seu filho não deu conta.


O que também é absolutamente normal, pois isso de reis e rainhas escolherem mal seus consortes é tão corriqueiro quanto em qualquer família mais ou menos boa. E por falar em família, boa praça mesmo era a mãe da Bethe, a Elizabeth Bowes-Lyon que, segundo as fofocas da corte, seria filha do Lorde Strathmore com uma cozinheira galesa. Mas o que se comprova mesmo é que foi a mais popular da família real, até porque, mesmo velhinha (faleceu em 2002), sempre foi excelente companheira de copo. Não era qualquer um que conseguia acompanhar a simpática senhora no bourbon.


Mas vamos em frente com os anexos que me mandaram:


Vejam quem está aí! Ultimamente muita gente anda reclamando do homem, achando que decepcionou. Pode ser, mas mesmo que Obama não seja tudo aquilo que dele se esperou, para nós sempre será um avanço, pois nossos bobos da corte jamais aceitariam um presidente negro. Como têm mania de imitar os Estados Unidos, quem sabe elejam o Vicentinho à presidência? É difícil, pois apesar da hipocrisia de se dizer que somos uma democracia-racial, nossos bobos acreditam que os de lá são melhores. Vicentinho que se conforme, pois nossos os brancos são muito piores do que aparentam!


Essa daí é a corte daquele rei pra quem dediquei uns versinhos que foram bastante reproduzidos lá na Espanha. Copio aqui apenas o primeiro:


Porque no te calas, Dom?
Nem te envergonhas das civilizações
que exterminaste?
Incas, Maias e Astecas...
Sabedorias acima da alguma
que mal soubeste herdar dos 8 séculos
de pacientes mestres árabes.


Na ocasião me diverti o suficiente com esse rei. Passemos ao próximo:


Ah! A Ângela! Gosto dela!


Quando era candidata, às vésperas da eleição, tinha um bando de hóspedes alemães aqui em casa. Todos diziam horrores da Merkel: Que era cafona! Que falava errado! Que era grosseria! E mais isso e aquilo...


No entanto, tá aí ó: boa presidente. Aqueles alemães bancaram os bobos da corte.


Olha só Maria! Até a corte da sua Suécia compareceu à festa dos anexos!
Maria é uma muita querida e antiga amiga. Foi pra Suécia há muitos anos e não voltou mais! Mas há cada 2 anos traz sua linda filha que lá nasceu, para visitar o Brasil. Agora mesmo Maria está em São Paulo.


Insisti, mas diz que não pode vir me visitar. Devo ter perdido meus encantos e com isso fico sem saber como, enfim, conseguiu se adaptar à Suécia que lhe foi difícil, a princípio, apesar de tanto admirarem sua beleza e simplicidade cafuza, plena de bom humor brasileiro. Mas deve estar bem, pois pelo que me comentou anda fazendo trabalhos para o governo brasileiro por lá.


Por fim, aí vai a corte a quem a França recomenda para uma cadeira permanente na ONU e que, neste 2009, foi considerada a do estadista do ano pela corte Britânica. O homem a quem Obama considera O Cara, e a corte de Espanha identificou como “El Hombre que Assombra el Mundo”.


Segundo os analistas da corte da Alemanha, se o Brasil continuar sendo dirigido pelos dessa foto, em uma década a economia do país superará à de França, Itália, Espanha, Inglaterra... E será a 5ª do mundo.


Nesse caso, vai superar inclusive a economia da Suécia. Daí minha querida amiga Maria vai poder me visitar.


Saudade da Maria! De quando brincávamos as festas juninas em sua cidade: Laranjal. Também nos vestíamos em homenagem ao povo das roças que alimentaram este país, os trabalhadores do café e do eito de cana que nas regiões oeste e sudeste criaram e sustentaram as riquezas desse país.


Isso foi no tempo em que no sul as pessoas calçavam botas sobre as bombachas presas à cintura por guaiacas, para dançar e cantar em homenagem aos gaúchos que tanto defenderam nossas fronteiras durante o Império. No nordeste se calçava alpercata, calça de couro e gibão, homenageando o sertanejo que emigrou para construir todas as grandes capitais brasileiras, com suas pontes e viadutos, seus metrôs. No norte se dançava o bumba meu boi em homenagem à valentia e coragem do vaqueiro.


Depois Maria foi pra Suécia e o Brasil perdeu a graça porque vieram os tempos dos bobos da corte que se vestem de cowboys e festejam um tal de halloween que pensam ser dos Estados Unidos e na verdade é da Irlanda.


Gostei muito desses anexos! Ilustram bastante bem que, felizmente, vamos superando os tempos dos bobos subservientes às cortes que os tratavam como marginais nos aeroportos de seus países


Não é a toa que nos considerassem país de 5º categoria! Mas nessa homenagem à nossa cultura e ao nosso povo, já se tem uma explicação do porque começamos a ser tratados como país de 5º economia pelas cortes aí fotografadas. Realmente, é um corte para início de melhor história!


Raul Longo é escritor, poeta e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".

Crise militar tem desfecho pífio e deixa indefinições

O rescaldo da crise militar


Por Celso Lungaretti


Em tempos de um futebol menos robotizado, os torcedores sabiam que, do craque, sempre se pode esperar um lampejo salvador, mesmo faltando apenas um minuto e ele nada tendo feito de útil nos 89 anteriores.


Colunista veterano também é assim. Canso de ler diatribes de jovens internautas contra os Albertos Dines, Clovis Rossis e Jânios de Freitas da vida. E tenho vontade de recomendar-lhes, como Pelé fez, gesticulando à torcida vascaina que o vaiava no finalzinho de um jogo que o Santos perdia por 1x0 no Maracanã: "esperem e verão!".


Vira e mexe eu reverencio aqui os grandes artigos desses três, que já não os produzem com a assiduidade de outrora, mas continuam capazes de esgotar o assunto quando acordam inspirados.


O de Jânio de Freitas na Folha de S. Paulo neste domingo (17), Precisamos, em vão, é simplesmente obrigatório, com destaque para este parágrafo:


"É preciso discutir o que significa, para o regime e para a cidadania, o poder autoatribuído pelos comandos militares e reconhecido pelo presidente da República de impedir, sobrepondo-se à ordem institucional proclamada, medidas autorizadas ou determinadas pela Constituição. Os militares não se tornaram democratas, como têm atestado tantas demonstrações do seu apego à memória da ditadura. Mas, daí a interferir na função e na autoridade de um poder constituído, vai a distância entre regime constitucional democrático e a falência desse regime, da Constituição e da cidadania".


Os militares deram um murro na mesa em 2007, para impedir que os brasileiros exercessem seu direito à memória e à verdade.


Têm atrapalhado de todas as formas o esclarecimento de episódios históricos e até o resgate dos restos mortais pelos quais as famílias clamam -- muitas delas, coitadas, acalentando até hoje a sofrida esperança de que seus desaparecidos não tenham sido executados, hajam escapado.


Alguns militares já foram até pilhados pela imprensa (nada menos que o Fantástico!) fazendo fogueirinha dos registros de crimes antigos, sem que nada lhes acontecesse.


E, nas últimas semanas, voltaram os fardados a tentar impor sua autoridade ao próprio presidente da República, que é seu comandante supremo.


Justiça seja feita: desta vez o que houve não foi, propriamente, uma rendição incondicional de Lula, que, entretanto, perdeu ótima oportunidade para colocar os comandantes insubordinados no seu lugar, demitindo-os no ato.


Ele reagiu com certa indiferença ao ultimato dos militares e respectivo ancião de recados (aquele civil que gosta de se fazer fotografar em uniforme de campanha...), deixando a decisão para depois de suas férias e, finalmente, reduzindo tudo a um copidesque semântico que não desprestigiou ostensivamente nem o ministro da Defesa (Nelson Jobim) nem o dos Direitos Humanos (Paulo Vannuchi)... mas equivaleu um balde d'água fria atirado nos brasileiros que prezam a democracia e os valores civilizados.


Ou seja, Lula apenas se livrou de um problema espinhoso, transferindo o abacaxi para o grupo interministerial que vai elaborar o projeto de lei instituindo a Comissão Nacional da Verdade; e para o Congresso, que dará a palavra final.


Só daqui a bom tempo saberemos se vai mesmo existir uma Comissão da Verdade, se ela apurará mesmo o que tem de ser apurado (as atrocidades perpetradas pela ditadura de 1964/85) e se o Estado brasileiro oferecerá ou não aos militares o contrapeso meramente propagandístico de incluir no pacote a investigação de excessos cometidos pelas vítimas durante uma luta de resistência à tirania.


Isto, claro, se houver vontade política para se dar um xeque-mate nesta questão em pleno ano eleitoral.


Caso contrário, tudo dependerá do perfil ideológico de quem vai estar envergando a faixa presidencial a partir de 2011.


Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. Mantém o blog "Náufrago da Utopia", é autor de livro homônimo sobre sua experiência durante a ditadura militar e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"


Também de Celso Lungaretti leia:


"Itália já se conforma com a confirmação do asilo de Battisti".

sábado, 16 de janeiro de 2010

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Anistia sem memória

Anistia sem memória


Por Urariano Mota


Recife (PE) - Este começo de 2010 trouxe pela imprensa uma feroz turbulência. Quando se julgava que tudo era paz, Os anos da ditadura militar voltaram à lembrança dos brasileiros. Isso porque o 3º. Programa Nacional dos Direitos Humanos ameaçou criar uma Comissão da Verdade, de verdade, para os crimes que a repressão política cometera. Absurdo. 25 anos depois do fim oficial da ditadura, esse é um programa tão avançado para o presente, que pretende responsabilizar criminosos por atos cometidos há 45 anos.


Não pode. Começam assim, disseram os alcançados pelas denúncias. Primeiro, as ideologias alienígenas mudaram “revolução de 31 de março” para “golpe de 31 de março”. Depois, de 31 de março foram para golpe de 1º. de abril. Depois, de patriotas nos fizeram golpistas. De golpistas querem dizer agora que somos criminosos. Nesse passo, vão pedir nossas cabeças. E reagiram, pelo ministro Nelson Jobim. Aquele, que adora exibir o garboso peito-de-pombo com verde-oliva, e com razão, porque não há soldado mais gordo e pomposo no Brasil. Então Nelson declarou, em glorioso off: “ou muda, ou eu e meus chefes militares...”. No que foi apoiado pelas armas de tevês e jornais assinalados.


Estes começo de 2010 seria uma ópera-bufa, se não houvesse tanto sangue e canalhice encobertos. Mas a sorte do Brasil, e da humanidade, é que em momentos assim crescem a resistência, os movimentos, fora dos jornais e da televisão. Em todo o Brasil, estudantes, intelectuais, militantes políticos, acordados, protestam contra o esquecimento da história. Manifestos rondam e assombram a reação contra o futuro, dentre os quais destaco trechos de um, assinado por judeus progressistas:


“No Brasil, não é de hoje que se tenta bloquear o acesso aos arquivos dos aparelhos de repressão. Mais do que isso: uma espécie de solidariedade corporativa cria obstáculos para esconder todos os detalhes operacionais daqueles aparelhos e fazer com que permaneçam desaparecidos corpos de suas vítimas.


O artigo 5º, inciso XLIII, da Constituição brasileira considera a prática da tortura crime inafiançável e insuscetível de graça ou anistia. O Brasil é signatário da Convenção de San José, de 1969, que declara a tortura crime contra a humanidade. Assim sendo, quando agentes do Estado torturam prisioneiros que estão sob sua responsabilidade, cometem crime que não pode ser perdoado por qualquer lei deste país”.


Enquanto escrevo, as últimas notícias querem dar a entender que o desentendimento entre militares e a área de direitos humanos em torno da terceira edição do Plano Nacional de Direitos Humanos foi resolvido, com um novo decreto assinado pelo presidente Lula que retira a expressão "repressão política" e mantém o termo "violação aos direitos humanos”.


Os jornais, revistas e televisão não veem nem querem ver o que se passa bem à sua frente. Agora mesmo, enquanto escrevo, ocorre uma sessão histórica da Anistia em Brasília. Nela, são julgados entre outros os processos de filhos de João Goulart, Brizola, Prestes, Bacuri e Soledad Barrett. Soledad, aquela que foi mulher do Cabo Anselmo. Aquela sobre a qual a advogada Mércia Albuquerque declarou para toda a eternidade:


“Soledad estava com os olhos muito abertos com expressão muito grande de terror, a boca estava entreaberta e o que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade que estava, eu tenho a impressão que ela foi morta e ficou algum tempo deitada e a trouxeram, e o sangue quando coagulou ficou preso nas pernas porque era uma quantidade grande e o feto estava lá nos pés dela, não posso saber como foi parar ali ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror”.


Esses mortos da ditadura são imortais. Eles ainda rondam e metem medo.


Urariano Mota é jornalista e escritor. Autor do livro "Soledad no Recife", recriação dos últimos dias de Soledad Barret, mulher do Cabo Anselmo, executada pela equipe de Fleury com o auxílio de Anselmo. É colunista do site "Direto da redação" e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

Blefe militar fracassa e imprensa cai no ridículo


PNDH-3: entre mortos e feridos, salvaram-se todos


Por Celso Lungaretti

O parto da montanha foi um rato: nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cedeu como os comandantes militares exigiam, nem rechaçou explicitamente sua chantagem como os democratas prefeririam.


Com seu habitual estilo contemporizador, primeiramente deu tempo ao tempo, esperando a temperatura política baixar.


Depois, fez retoques semânticos na terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos, conforme o ministro da Defesa (Nelson Jobim) propôs e o dos Direitos Humanos (Paulo Vannuchi) concordou.


[A reunião, segundo a imprensa, durou apenas "pouco mais de meia hora", reforçando a impressão de que os atores estavam mesmo é posando para suas respectivas clientelas, bem ao estilo do teatro político...]


Então, onde se dizia que a Comissão Nacional da Verdade iria apurar os crimes cometidos pela repressão política, agora está dito que o foco de suas investigações serão as violações de direitos humanos.


Ponto para os militares? Nem tanto. Pois não se-lhes concedeu o que eles mais gostariam de ver no papel: a equiparação das atrocidades da ditadura às ações violentas dos resistentes. Tal mostrengo foi considerado inaceitável, felizmente.


Só que não se cravou a estaca no coração do vampiro, pois competirá à Comissão "identificar e tornar públicas as estruturas utilizadas para a prática de violações de direitos humanos, suas ramificações nos aparelhos de Estado, e em outras instâncias da sociedade".


Ou seja, nesse balaio entra qualquer coisa, conforme o gosto do freguês.


É óbvio que as estruturas transgressoras dos direitos humanos, ramificadas nos aparelhos de Estado, nada mais eram do que o DOI-Codi, os Dops (depois Deops) e os serviços secretos do Exército, Marinha e Aeronáutica,


Quanto às ramificações dessas estruturas em outras instâncias da sociedade, aí há pano para manga.


Democratas colocarão neste escaninho:


-a Operação Bandeirantes, filha bastarda que nenhum pai registrou em cartório (foi estrutura informalmente por militares e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas) mas deteve poder de vida e morte sobre os resistentes;
-os aparelhos clandestinos da repressão, como a Casa da Morte de Petrópolis e o sítio do delegado Sérgio Paranhos Fleury, para onde eram levados os resistentes cuja prisão não se pretendia formalizar, pois estavam marcados para morrer e evaporarem;
-os procedimentos ilegais, criminosos e hediondos efetuados no âmbito da Operação Condor;
-o Comando de Caça aos Comunistas (que voltou ao noticiário ultimamente por conta da incontinência verbal de um de seus quadros históricos) e bandos congêneres de paramilitares;
-os terroristas que lançavam bombas em instituições como a OAB e a ABI, incendiavam bancas de jornais e planejaram o atentado do Riocentro.


OS CORVOS E SEUS GRASNADOS


Mas, o Jarbas Passarinho e outras aves de mau agouro decerto vão grasnar que as vítimas também cometeram excessos, ao reagirem à truculência dos governos golpistas e respectivos carrascos.


E seus grasnados soarão em volume exageradíssimo na grande imprensa, ensurdecedores a ponto de abafar os argumentos dos seres humanos sensatos e justos. Como sempre.


Então, tudo doravante dependerá, inicialmente, do grupo interministerial que vai elaborar o projeto de lei instituindo a Comissão da Verdade; e depois, de sua tramitação no Congresso Nacional.


O primeiro deveria concluir seu trabalho até 21 de abril, para constar das comemorações do dia de Tiradentes. Vamos ver se o timing será mantido..


Mesmo que não haja prorrogação, dificilmente o Congresso dará à luz essa lei nos oito meses finais do Governo Lula. Ainda mais se tratando de um ano eleitoral, em que o esvaziamento de suas sessões já se tornou uma melancólica rotina.


O balanço final do episódio, portanto, é:


-apesar de alguma ambivalência no tocante à Comissão da Verdade, a decisão de Lula manteve a integridade do PNDH-3;
caberá aos democratas, com sua mobilização, evitarem que seja desfigurado adiante;
-o abacaxi só será efetivamente descascado (ou não) pelo próximo Governo, a quem caberá colocar em prática ou manter no limbo as iniciativas do PNDH-3;
-os alarmistas da grande imprensa caíram em ridículo total, ao apresentarem como golpe de estado um pacote de medidas que o Governo tem pleno direito de propor, mas cuja implementação depende do crivo parlamentar, como é regra nas democracias.


Talvez o mais auspicioso deste episódio tenha sido a constatação de que Lula aprendeu a dar o justo peso aos blefes militares.


Há dois anos e meio, uma nota oficial do alto comando do Exército o fez desistir da cassação do habeas corpus que os criminosos da ditadura militar previamente se concederam: impôs a diretriz de que a Lei de Anistia permaneceria intocável, no âmbito do Executivo.


De lá para cá, Lula adquiriu uma melhor percepção da força de que realmente dispõem os reacionários: não passam de liliputianos que os holofotes da mídia fazem parecer gigantes.


E está se permitindo até escarnecer das tempestades em copo d’água da imprensa, como quando negou que Jobim, Vannuchi e os comandantes militares o tivessem pressionado com pedidos de demissão:
“A única coisa que chegou na minha mão foram divergências entre dois ministros, que foram resolvidas hoje [13/01]".


Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. Mantém o blog "Náufrago da Utopia", é autor de livro homônimo sobre sua experiência durante a ditadura militar e colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?"

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